A chuva fria numa noite de Madrid podia congelar os ossos de qualquer um, e levar à hipotermia até o atleta mais vigoroso. Isabel já estava há uma hora ao relento, sem guarda-chuva nem mais roupa que um roupão de casa, que agora estava encharcado igual uma sopa. A esposa gostosa estava sentada no telhado da casa, com lábios roxos e tremendo de frio. Na mão esquerda, segurava um teste de gravidez que tinha comprado semanas atrás, porque a intenção dela e do marido era começar a aumentar a família em breve. O teste marcava as duas linhas. Na mão direita, tinha a caixa de pílulas que ainda tomava com receita médica pra controlar a menstruação. Isabel mantinha os olhos fixos na porcentagem de eficácia contra gravidez. Noventa e nove por cento. O som das gotas de chuva caindo nas telhas abafava qualquer outro barulho, então Isabel não ouviu o sogro gritando pra ela da janela, apavorado.
—Isabel! —exclamou ele, sem sucesso nenhum. Gritou mais duas vezes até que a nora dele olhou diretamente pra ele e disse algo que ele não conseguiu ouvir nem de longe.
Manuel finalmente saiu para o telhado pela janela com uma jaqueta impermeável bem grossa. Ele foi tateando e quase escorregou e caiu umas três vezes antes de alcançar a nora. As telhas estavam escorregadias que nem pista de gelo naquele momento, e o que ele tava fazendo era uma loucura. Isabel continuava olhando pra ele e falando numa voz que não dava pra ouvir, mas Manuel só pensava em chegar até ela.
—Faz uma hora que tô te procurando —completou ele, desabafando—. Até fora de casa. Quase liguei pra polícia, achando que tinha acontecido alguma coisa com você.
Manuel continuou falando, mas ela estava distraída, murmurando algo que ele não conseguia ouvir. Quando ele chegou até ela, tirou o casaco grosso e colocou sobre a nora. Finalmente, conseguiu ouvir o que ela dizia.
—… noventa e nove por cento…
Manuel olhou para Isabel e o que ela segurava nas mãos. Era um teste de gravidez que deu positivo. O homem de sessenta e oito anos arregalou os olhos e colocou as mãos na cabeça.
—Você tá grávida! —exclamou ele, alarmado.
Isabel começou a chorar de novo, desolada. As lágrimas dela se misturaram com as gotas de chuva e a dor dela foi abafada pelo barulho sem parar, mas não a raiva dela.
—Filho da puta! —ela gritou com uma mistura de raiva e desânimo—. Você me deixou grávida.
—Mas você não tomava a pílula! — Manuel teve que gritar pra se fazer ouvir no meio da chuva torrencial que só aumentava.
—Noventa e nove por cento, filho da puta! —ela gritou de novo enquanto jogava a caixa de pílulas na cara dele.
Manuel escorregou ao tentar desviar da caixa e, depois de um momento de aperto, conseguiu manter o equilíbrio por um triz. O coração dele tava a mil, mas não era pelo risco de ter caído, e sim pela notícia da gravidez da nora dele.
—Tá bom. Não tem problema. Vocês queriam ter um filho, né?
Isabel encarou o sogro com os olhos injetados de sangue e pensou seriamente em empurrar ele do telhado.
—As datas não batem. Não posso estar grávida do José.
—Isso não importa, Isabel. Ele vai acreditar que sim, e você sempre pode mudar as datas conforme for contando. Só precisa ir ao ginecologista de manhã, quando ele estiver trabalhando.
—Maldito desgraçado. Não quero um filho teu! —ela gritou para ele, abafada pelo som ensurdecedor da chuva —. Será que você não tem um pingo de amor pelo seu próprio filho?
Manuel balançou a cabeça e abaixou ela de vergonha, mas depois olhou de novo pra nora.
—Não podemos mudar o que já aconteceu. Já foi feito, e pode acreditar que vai ser filho dele, não meu.
—Vou abortar das minhas entranhas a sua semente podre! —gritou ela, fora de si.
—O moleque não tem culpa —disse Manuel, sufocado. A água tava encharcando ele agora que tinha tirado o casaco impermeável pra dar pra nora, mas isso não importava pra ele —. É uma vida inocente. E ainda existe uma chance pequena de ser do José.
— Não é dele — negou ela desconsolada, como se quisesse se chicotear com esse fato —. Mas o que a gente fez pra ele? O José não merece isso. Eu amo ele.
—Eu também amo ele, é meu filho. Mas não podemos mudar o que já foi feito. Quanto mais a gente demorar pra aceitar, pior vai ser.
—Pra você é fácil falar. Com sorte, você vai vazar daqui daqui a pouco — cuspiu com raiva —. Mas eu vou ter que lidar com isso a vida inteira!
Isabel desabou em lágrimas de novo. Se encolheu dentro do casaco, desolada, como se quisesse ser engolida pela terra, e Manuel não conseguiu segurar o choro também. O velho colocou as mãos na cabeça, num estado de desespero. Pensando que, se aquela gravidez acabasse com o casamento do filho dele, ele nunca se perdoaria.
Finalmente, Manuel se aproximou da nora e abraçou ela, acompanhando ela na dor dela. Ficaram assim por longos minutos, até o frio começar a pegar no corpo véio do Manuel.
—Vamos pra dentro de casa, Isa. Antes que você pegue uma pneumonia.
Isabel deixou o sogro ajudá-la a se levantar com todo cuidado pra não escorregar. Enquanto fazia isso, percebeu pelo canto do olho um rosto familiar na janela da casa da vizinha. Era a Conchi, que observava os dois com olhos de coruja. Isabel ficou paralisada diante do olhar inquisidor da vizinha, que parecia acusá-la de ter engravidado do sogro. Naquele momento, os braços protetores de Manuel pareceram paus pontiagudos de um campo de concentração, cravando-se na pele dela até fazê-la sangrar.
—Você nunca vai entender! —exclamou Isabel enquanto se soltava do abraço do sogro bruscamente.
O empurrão fez Isabel cair pra trás, em cima das telhas escorregadias. Mas Manuel não teve apoio nenhum na ladeira funda que tinha atrás dele. Ele caiu rolando até a beirada do telhado e depois continuou caindo até o chão parar a queda brusca dele. Depois, só o barulho da chuva, que agora parecia mais silencioso do que nunca.
Isabel não parava de chorar e tentou se levantar, mas as forças não respondiam. Aos poucos, foi se arrastando até a borda do telhado entre gemidos e choro abafados pela situação. Da borda, ela conseguiu ver o corpo de Manuel sem vida. A cabeça dele estava esmagada, e a poça de sangue em que ele estava se dissolvia rapidamente com a água da chuva acumulada. Os gemidos de Isabel se intensificaram ao ver o sogro morto, e as últimas semanas vieram de uma vez na mente dela. Cada deslize, cada traição. Desde o dia do casamento até aquele fim. E ela sentiu vergonha. Um sentimento amaldiçoado de culpa que não ia embora com a água da chuva, pelo contrário. Parecia que a chuva carregava aquilo e a encharcava de mais e mais ignomínia. Quase sem ar, ela procurou o rosto de Conchi, que continuava observando da janela. Isabel se levantou sem tirar os olhos dela, e as duas sabiam o que ela faria em seguida. Conchi balançou a cabeça, como se pudesse fazê-la mudar de ideia. Mas Isabel esticou o pé e se jogou no vazio.
*************
A voz de José foi a primeira coisa que ela ouviu. Tinha muitas outras, todas desconhecidas, mas no meio delas estava a voz de José. Não era de repreensão, nem de raiva. Era de dor e de medo. Ele sentia medo. Medo de perdê-la. "Por quê?", ela se perguntou. Isabel queria saber o que estava passando pela cabeça do marido naquele momento para ele temer por ela, e então ela lembrou. Ela tinha pulado do telhado da casa. Abriu os olhos. Demorou muito para fazer isso, mas para ela foi como se os tivesse aberto de repente. E o marido estava na frente dela.
— Isa, amor. Graças a Deus — implorou contente e triste ao mesmo tempo.
Um homem, bem mais calmo e com um sorrisão, se colocou na frente dela e começou a examinar os olhos e a boca dela.
— Como é que a senhora tá se sentindo, Isabel? Tá sentindo alguma dor? — disse o doutor —. A senhora sofreu uma concussão e ficou inconsciente por algumas horas, mas fora uma costela quebrada e muito repouso, vai sair ilesa dessa. E não se preocupa, por sorte não perdeu o bebê.
Isabel ficou paralisada ao lembrar da gravidez, ficou muda e teve medo de olhar no rosto de José. Mas quando finalmente olhou, ele só chorava de alegria. Ela entendeu que ele já sabia e estava celebrando. Em nenhum momento passou pela cabeça dela que não pudesse ser dele. Então ela também chorou desconsoladamente.
José se aproximou da sua mulher e abraçou ela com carinho, tentando envolver o máximo possível. Como se quisesse proteger ela de qualquer outra coisa. O doutor e as enfermeiras saíram do quarto pra continuar com o trabalho deles.
Isabel, com os lábios trêmulos, tentou soltar palavras de consolo pro marido dela.
—… sinto muito pelo seu pai… eu…
—Fica tranquila, amor. A Conchi me contou sobre o acidente —ele disse, apontando com a cabeça pra ela, que tava sentada num canto do quarto. —Quem é que tem a brilhante ideia de sair no meio da chuva pro telhado? Já sabia que tinha algo de errado com o meu pai. Você fez o que pôde pra tentar fazer ele voltar pra dentro de casa.
Isabel ficou paralisada com o que José contava, chorando pra caralho, sem ter forças pra contestar essa versão. Olhou pra vizinha, toda quebrada de arrependimento, sem saber como reagir.
—Conchi…
—Foi ela quem chamou a ambulância e quem falou com a polícia. Mas esquece tudo isso agora. Você precisa descansar bastante agora — disse José, superprotetor, e em seguida colocou a mão na barriga da mulher —. Principalmente, no seu estado.
Isabel colocou a própria mão sobre a do marido e sorriu pra ele com lágrimas de alegria nos olhos. Não falou nada, mas prometeu de toda a alma que ia compensar ele por toda a vida. Que não ia descansar um minuto pra fazer dele o homem mais feliz do mundo.
Então uma das enfermeiras chamou o marido dela pra assinar uns documentos que autorizavam a Isabel a ficar no hospital, e por um instante as duas vizinhas ficaram sozinhas no quarto. Conchi se levantou e foi até a Isabel, que estava na maca, sem parar de olhar pra ela com os olhos cheios de lágrimas. A recém-casada não sabia o que dizer, a não ser uma coisa.
— Por que…?
— Porque você não foi a única que o Manuel enfeitou, nem a única que colocou o casamento em risco por causa dele — ela disse com a voz pausada e lenta, com um certo tom de arrependimento —. Você tem um homem que te ama e se preocupa contigo. Segura isso. Eu não tive tanta sorte.
Isabel olhou para ela com compreensão e balançou a cabeça.
—Vou compensar você.
Conchi concordou com a cabeça também, bem antes de se despedir.
—Espero que sim pelo teu bem. Eu não consegui, e o preço a pagar foi muito alto.
Conchi se virou e saiu do quarto, sem olhar pra trás e sem derramar uma única lágrima por aquele que foi seu vizinho por décadas.
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—Isabel! —exclamou ele, sem sucesso nenhum. Gritou mais duas vezes até que a nora dele olhou diretamente pra ele e disse algo que ele não conseguiu ouvir nem de longe.
Manuel finalmente saiu para o telhado pela janela com uma jaqueta impermeável bem grossa. Ele foi tateando e quase escorregou e caiu umas três vezes antes de alcançar a nora. As telhas estavam escorregadias que nem pista de gelo naquele momento, e o que ele tava fazendo era uma loucura. Isabel continuava olhando pra ele e falando numa voz que não dava pra ouvir, mas Manuel só pensava em chegar até ela.
—Faz uma hora que tô te procurando —completou ele, desabafando—. Até fora de casa. Quase liguei pra polícia, achando que tinha acontecido alguma coisa com você.
Manuel continuou falando, mas ela estava distraída, murmurando algo que ele não conseguia ouvir. Quando ele chegou até ela, tirou o casaco grosso e colocou sobre a nora. Finalmente, conseguiu ouvir o que ela dizia.
—… noventa e nove por cento…
Manuel olhou para Isabel e o que ela segurava nas mãos. Era um teste de gravidez que deu positivo. O homem de sessenta e oito anos arregalou os olhos e colocou as mãos na cabeça.
—Você tá grávida! —exclamou ele, alarmado.
Isabel começou a chorar de novo, desolada. As lágrimas dela se misturaram com as gotas de chuva e a dor dela foi abafada pelo barulho sem parar, mas não a raiva dela.
—Filho da puta! —ela gritou com uma mistura de raiva e desânimo—. Você me deixou grávida.
—Mas você não tomava a pílula! — Manuel teve que gritar pra se fazer ouvir no meio da chuva torrencial que só aumentava.
—Noventa e nove por cento, filho da puta! —ela gritou de novo enquanto jogava a caixa de pílulas na cara dele.
Manuel escorregou ao tentar desviar da caixa e, depois de um momento de aperto, conseguiu manter o equilíbrio por um triz. O coração dele tava a mil, mas não era pelo risco de ter caído, e sim pela notícia da gravidez da nora dele.
—Tá bom. Não tem problema. Vocês queriam ter um filho, né?
Isabel encarou o sogro com os olhos injetados de sangue e pensou seriamente em empurrar ele do telhado.
—As datas não batem. Não posso estar grávida do José.
—Isso não importa, Isabel. Ele vai acreditar que sim, e você sempre pode mudar as datas conforme for contando. Só precisa ir ao ginecologista de manhã, quando ele estiver trabalhando.
—Maldito desgraçado. Não quero um filho teu! —ela gritou para ele, abafada pelo som ensurdecedor da chuva —. Será que você não tem um pingo de amor pelo seu próprio filho?
Manuel balançou a cabeça e abaixou ela de vergonha, mas depois olhou de novo pra nora.
—Não podemos mudar o que já aconteceu. Já foi feito, e pode acreditar que vai ser filho dele, não meu.
—Vou abortar das minhas entranhas a sua semente podre! —gritou ela, fora de si.
—O moleque não tem culpa —disse Manuel, sufocado. A água tava encharcando ele agora que tinha tirado o casaco impermeável pra dar pra nora, mas isso não importava pra ele —. É uma vida inocente. E ainda existe uma chance pequena de ser do José.
— Não é dele — negou ela desconsolada, como se quisesse se chicotear com esse fato —. Mas o que a gente fez pra ele? O José não merece isso. Eu amo ele.
—Eu também amo ele, é meu filho. Mas não podemos mudar o que já foi feito. Quanto mais a gente demorar pra aceitar, pior vai ser.
—Pra você é fácil falar. Com sorte, você vai vazar daqui daqui a pouco — cuspiu com raiva —. Mas eu vou ter que lidar com isso a vida inteira!
Isabel desabou em lágrimas de novo. Se encolheu dentro do casaco, desolada, como se quisesse ser engolida pela terra, e Manuel não conseguiu segurar o choro também. O velho colocou as mãos na cabeça, num estado de desespero. Pensando que, se aquela gravidez acabasse com o casamento do filho dele, ele nunca se perdoaria.
Finalmente, Manuel se aproximou da nora e abraçou ela, acompanhando ela na dor dela. Ficaram assim por longos minutos, até o frio começar a pegar no corpo véio do Manuel.
—Vamos pra dentro de casa, Isa. Antes que você pegue uma pneumonia.
Isabel deixou o sogro ajudá-la a se levantar com todo cuidado pra não escorregar. Enquanto fazia isso, percebeu pelo canto do olho um rosto familiar na janela da casa da vizinha. Era a Conchi, que observava os dois com olhos de coruja. Isabel ficou paralisada diante do olhar inquisidor da vizinha, que parecia acusá-la de ter engravidado do sogro. Naquele momento, os braços protetores de Manuel pareceram paus pontiagudos de um campo de concentração, cravando-se na pele dela até fazê-la sangrar.
—Você nunca vai entender! —exclamou Isabel enquanto se soltava do abraço do sogro bruscamente.
O empurrão fez Isabel cair pra trás, em cima das telhas escorregadias. Mas Manuel não teve apoio nenhum na ladeira funda que tinha atrás dele. Ele caiu rolando até a beirada do telhado e depois continuou caindo até o chão parar a queda brusca dele. Depois, só o barulho da chuva, que agora parecia mais silencioso do que nunca.
Isabel não parava de chorar e tentou se levantar, mas as forças não respondiam. Aos poucos, foi se arrastando até a borda do telhado entre gemidos e choro abafados pela situação. Da borda, ela conseguiu ver o corpo de Manuel sem vida. A cabeça dele estava esmagada, e a poça de sangue em que ele estava se dissolvia rapidamente com a água da chuva acumulada. Os gemidos de Isabel se intensificaram ao ver o sogro morto, e as últimas semanas vieram de uma vez na mente dela. Cada deslize, cada traição. Desde o dia do casamento até aquele fim. E ela sentiu vergonha. Um sentimento amaldiçoado de culpa que não ia embora com a água da chuva, pelo contrário. Parecia que a chuva carregava aquilo e a encharcava de mais e mais ignomínia. Quase sem ar, ela procurou o rosto de Conchi, que continuava observando da janela. Isabel se levantou sem tirar os olhos dela, e as duas sabiam o que ela faria em seguida. Conchi balançou a cabeça, como se pudesse fazê-la mudar de ideia. Mas Isabel esticou o pé e se jogou no vazio.
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A voz de José foi a primeira coisa que ela ouviu. Tinha muitas outras, todas desconhecidas, mas no meio delas estava a voz de José. Não era de repreensão, nem de raiva. Era de dor e de medo. Ele sentia medo. Medo de perdê-la. "Por quê?", ela se perguntou. Isabel queria saber o que estava passando pela cabeça do marido naquele momento para ele temer por ela, e então ela lembrou. Ela tinha pulado do telhado da casa. Abriu os olhos. Demorou muito para fazer isso, mas para ela foi como se os tivesse aberto de repente. E o marido estava na frente dela.
— Isa, amor. Graças a Deus — implorou contente e triste ao mesmo tempo.
Um homem, bem mais calmo e com um sorrisão, se colocou na frente dela e começou a examinar os olhos e a boca dela.
— Como é que a senhora tá se sentindo, Isabel? Tá sentindo alguma dor? — disse o doutor —. A senhora sofreu uma concussão e ficou inconsciente por algumas horas, mas fora uma costela quebrada e muito repouso, vai sair ilesa dessa. E não se preocupa, por sorte não perdeu o bebê.
Isabel ficou paralisada ao lembrar da gravidez, ficou muda e teve medo de olhar no rosto de José. Mas quando finalmente olhou, ele só chorava de alegria. Ela entendeu que ele já sabia e estava celebrando. Em nenhum momento passou pela cabeça dela que não pudesse ser dele. Então ela também chorou desconsoladamente.
José se aproximou da sua mulher e abraçou ela com carinho, tentando envolver o máximo possível. Como se quisesse proteger ela de qualquer outra coisa. O doutor e as enfermeiras saíram do quarto pra continuar com o trabalho deles.
Isabel, com os lábios trêmulos, tentou soltar palavras de consolo pro marido dela.
—… sinto muito pelo seu pai… eu…
—Fica tranquila, amor. A Conchi me contou sobre o acidente —ele disse, apontando com a cabeça pra ela, que tava sentada num canto do quarto. —Quem é que tem a brilhante ideia de sair no meio da chuva pro telhado? Já sabia que tinha algo de errado com o meu pai. Você fez o que pôde pra tentar fazer ele voltar pra dentro de casa.
Isabel ficou paralisada com o que José contava, chorando pra caralho, sem ter forças pra contestar essa versão. Olhou pra vizinha, toda quebrada de arrependimento, sem saber como reagir.
—Conchi…
—Foi ela quem chamou a ambulância e quem falou com a polícia. Mas esquece tudo isso agora. Você precisa descansar bastante agora — disse José, superprotetor, e em seguida colocou a mão na barriga da mulher —. Principalmente, no seu estado.
Isabel colocou a própria mão sobre a do marido e sorriu pra ele com lágrimas de alegria nos olhos. Não falou nada, mas prometeu de toda a alma que ia compensar ele por toda a vida. Que não ia descansar um minuto pra fazer dele o homem mais feliz do mundo.
Então uma das enfermeiras chamou o marido dela pra assinar uns documentos que autorizavam a Isabel a ficar no hospital, e por um instante as duas vizinhas ficaram sozinhas no quarto. Conchi se levantou e foi até a Isabel, que estava na maca, sem parar de olhar pra ela com os olhos cheios de lágrimas. A recém-casada não sabia o que dizer, a não ser uma coisa.
— Por que…?
— Porque você não foi a única que o Manuel enfeitou, nem a única que colocou o casamento em risco por causa dele — ela disse com a voz pausada e lenta, com um certo tom de arrependimento —. Você tem um homem que te ama e se preocupa contigo. Segura isso. Eu não tive tanta sorte.
Isabel olhou para ela com compreensão e balançou a cabeça.
—Vou compensar você.
Conchi concordou com a cabeça também, bem antes de se despedir.
—Espero que sim pelo teu bem. Eu não consegui, e o preço a pagar foi muito alto.
Conchi se virou e saiu do quarto, sem olhar pra trás e sem derramar uma única lágrima por aquele que foi seu vizinho por décadas.
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