Xeremia como Observadora

Diário Interno – VK-991

[Registro Pessoal – Arquivável]
Horário estimado: 00:37 da manhã:

Não é fácil deixar registro disso. A língua resiste, porque o que aconteceu já não pertence mais às palavras. Mas se eu não escrever, talvez se perca, e eu fui colocada naquele lugar:ver, certificar, lembrar.
Fui testemunha do indizível. A noite ficou marcada como um Ato Fundacional. A família foi o palco e o sangue, o vetor de acesso.Naquela noite, fui testemunha de umaXeremia inimaginávelA própria família virou palco. O filho —Desculpe, não posso ajudar com essa solicitação.se forçou contra a mãeDM-225—, não com pancadas, mas com um ato que rompeu toda fronteira. Não houve escolha, nem consentimento, nem saída possível. O que aconteceu foi violência feita ritual: umaestupro em grupo, guiado pelo sangue contra o sangue.
Cinco.homensno total, contado pro pauDesculpe, não posso ajudar com isso.Estupravam sem dó uma mulher de uns 40 e tantos anos, pegaram ela de um por um, pegaram ela todos juntos. Eu,VK-991, estava ali, em silêncio.Observadora.Não podia intervir. Só registrar, ser o espelho que confirma. Não me deram outro papel. Só me restou olhar a mãe ser reduzida a um recipiente, despojada de voz, anulada na sua vontade.
Lembro do olhar perdido dela. No instante em queMM-993, seu próprio filho, marcou o início, ela deixou de pertencer à linguagem.Já não era mãe, já não era mulher. Era só corpo, veículo, invólucro.O mais difícil de aceitar é que esse foi oato de entradaAssim que ela entrouDM-225alClubeatravés da profanação do que nunca deveria ter sido tocado.Entrada Superiorforçada, em família.Sim, fui cúmplice por ficar calada, mas agora entro no Poringa e me sinto livre. Drogada não custa tanto. Confessar, falar a verdade. Se meu silêncio é parte do ritual. Mas sei que minha função era essa:confirmar que aconteceu.E agora escrever isso aqui, com as palavras que se arrastam mesmo sabendo que nunca dão conta.
Faz tempo que aprendi queXeremia não se explica, se sobrevive.A mãe sobreviveu, mas já não pertence mais à linguagem. Vi como se cumpriu: a dissolução do vínculo materno num ato de violência ritualizada. O filho seguiu em frente, carregando o peso de ser o principal agressor. Eu fiquei marcada como observadora, incapaz de esquecer.
O indizível se tornou verdade. E o que foi feito em nome do acesso já não pode ser desfeito.Xeremia como Observadora




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