Acho que tudo começou a desandar bem numa noite, tipo uma semana depois de conhecer nossos novos vizinhos. Durante todo aquele tempo, a gente via eles todo dia, trazendo em várias viagens um monte de coisas deles. Também tinha começado a ir uns pedreiros pra ajudar o Mario com os reparos. Ele tinha me falado que o mais importante era tampar as goteiras, mas que até não chover de verdade, ele não ia saber se tinham tapado todas. Provavelmente não. Mas era tentativa e erro a partir daquele momento.
Naquele sábado, a Betina foi até a casa tocar a campainha. Ela teve a ideia de convidar eles pra jantar aqui em casa, oficialmente, porque achava que talvez eles ainda não tivessem muita coisa pra cozinhar na casa e ela ficava com muita pena. Eu falei que sim, claro. Ela adorava ajudar os outros, isso fazia ela feliz. E se ela tava feliz, eu tava feliz.
Eu vi eles da minha janela, enquanto tomava um mate. A Betina tocou a campainha, o Mario veio atender e eu vi eles conversando. Sem ouvir nada. Mas vi a Betina falar, o Mario sorrir e logo fazer uns gestos como se desculpando. Imaginei que ele devia estar dizendo que obrigado, mas que seria um incômodo, etc. Mas eu já conhecia aquele olhar da minha Betina, ela não ia aceitar um não como resposta. Ela ficou lá insistindo e enchendo o saco até que no final o Mario deve ter dito que sim e eles se despediram.
À noite, recebemos eles e, verdade seja dita, a gente se divertiu. A Betina tinha começado a cozinhar desde o fim da tarde, fazendo umas tortas de presunto, queijo e tomate pra todo mundo que, sinceramente, ficaram uma delícia. Ela também fez uma sopinha de cogumelos maravilhosa pra acompanhar, com uns pãezinhos caseiros que ela amassou também. Um verdadeiro amor. Ela tava encantada de receber visitas em casa, já que a gente nunca fazia isso. Comemos todos superbem até ficar cheios, inclusive o grandalhão do Mario disse sorrindo que não aguentava mais. Que raramente tinha comido um jantar tão gostoso e feito com tanto carinho. amor. Dava pra sentir o love e a vontade que a Betina colocou em tudo. Betina sorria feliz e contente. Os filhos do Mario também elogiaram o jantar.
Mateo e Diego, adolescentes como eram, já queriam voltar pra casa assim que terminaram, mas Mario mandou eles se comportarem e agradecerem o convite, ficando até ele ir embora. Eles queriam ir jogar playstation ou algo assim, mas Mario segurou eles. Ele tinha eles bem educados ou pelo menos bem cuidados, evidentemente. Durante toda a conversa e o jantar… eu já sabia de antes pelas vezes que a gente tinha falado, mas Mario me confirmou de vez que não era um cara ruim nem um pai ruim. Ele criava os filhos o melhor que podia na ausência da mãe.
Batendo um papo com uns cafés, ele contou um pouco da história dele. Que tinha servido na Armada quando jovem, como mecânico numa corveta, por vários anos. Ia fazer carreira lá na Marinha, mas no final cansou, se desiludiu um pouco e voltou pra cidade natal dele na Província de Buenos Aires. Lá reencontrou a que depois virou a esposa dele, casaram e tiveram o Mateo e o Diego. Ele tinha aberto uma oficina mecânica de carros e motos. Disse que não era a especialidade dele, ele era mais de motores e geradores grandes, mas mecânica até certo ponto é mecânica e ele se virava. Enquanto fazia serviços pro pessoal da cidade, foi se instruindo em mecânica pra veículos e acabou aprendendo bastante.
Muito tempo depois aconteceu a desgraça que ele tinha comentado. Eu já tinha falado pra Betina, pra ela não pisar na bola como eu tinha feito, então ela já sabia. Mas ao ouvir o Mario contar, sem ele entrar nos detalhes trágicos daquela noite e do depois, bem por cima, vi que a Betina ficou muito magoada e triste de verdade. Não era um teatro pra causar boa impressão, ela era assim com todo mundo. Mario, ao contrário, não ficou triste ao contar. Com um sorriso suave, disse que sempre preferiu lembrar todos os momentos bons em vez de focar na perda. E que ele era grato à falecida esposa por ter dado a ele os dois pestinhas que estavam ao lado, terminou com uma careta.
Com o tempo, depois do que aconteceu, ele decidiu se mudar pra cá, pra baixada. Pra dar uma mudada de ares e ver se melhorava de vida. Não fechou a oficina, deixou na mão de outro mecânico que conhecia da cidade dele, amigão dele, e veio pra cá. O projeto dele, nos contou, era terminar de reformar a casa que comprou do nosso lado, sim, mas com a ideia de que ele e os meninos morassem nos fundos ou no andar de cima, e embaixo abrir outra oficina mecânica.
Betina disse pra eles nem pensarem em sair pra comer fora quando quisessem algo gostoso. Que era só avisar que ela fazia algo gostoso e caseiro, com maior boa vontade. Diego, o mais novo, falou que se fosse tão gostoso quanto o jantar que a gente tinha comido, ia pedir todo santo dia.
E todo mundo caiu na risada.
Na hora de nos despedirmos educadamente pra eles voltarem pra casa deles, ainda praticamente inabitável, do lado, o Mario de novo agradeceu pelo convite e se desfez em elogios pra cozinheira, dando um abraço caloroso nela, mandando os meninos também agradecerem. Depois que foram embora, ficamos limpando e lavando com a Betina na cozinha, e ela me disse como tava feliz que os novos vizinhos eram tão gente boa. Eu sorri pra ela, concordando totalmente.
Os Tonalli, esse era o sobrenome deles, a verdade é que deram sorte com o tempo. Não choveu por umas duas semanas, nem uma gota, então conseguiram impermeabilizar bem o telhado e as paredes. Mas logo veio a prova de fogo. E que prova eles tiveram que enfrentar. Naquele dia, o tempo amanheceu nublado o dia inteiro. E pesado, muito pesado. Dava pra sentir, era nítido que o céu ia se abrir a qualquer momento. Mas não acontecia. Devagar, ao longo do dia, mais e mais nuvens foram se juntando. Até que lá pelas sete da noite finalmente se mandou. E mandou-se pra valer. Cortinas de água de verdade caíam sem parar. A gente tava de boa em casa, mas me deu na telha de olhar pela janela pra casa do lado e vi os três, correndo pra lá e pra cá com coisas, baldes, cobertores... parecia que tava entrando água por todo lado. Lugares que, de fato, só iam ser descobertos quando chovesse. Fiquei com muita pena e uma baita raiva vendo eles daquele jeito. Abri a janela e comecei a gritar, fazer sinais. Quem me viu foi o Diego, gritei pra virem pra nossa casa. Pra pegarem o que pudessem e virem.
Logo os três Tonalli entraram correndo pela porta de casa, debaixo da chuva, carregando umas roupas e coisas em sacos de lixo pra não molhar. Os três estavam completamente encharcados e o pior é que eu tinha certeza de que já tinham se molhado na casa deles, não ao correr os poucos metros até a nossa. Já tinham saído de casa molhados, coitados.
Na hora, antes de entrar na nossa sala, no corredorzinho da entrada, passei uma toalha grande pro Mario se secar. A Betina veio correndo um instante depois, tentando literalmente botar uma cara boa no tempo ruim, e com duas toalhas ajudava os meninos a se secar. Mario me agradeceu e perguntei se ele não queria ir buscar mais coisas. Ele disse que não, que tinham passado a tarde toda cobrindo e vedando os móveis com plástico grosso e fita, colocando coisas eletrônicas em malas e embrulhando em plástico, tudo isso, já prevendo o temporal que vinha. Agradeceu, mas disse que assim que a chuva desse uma trégua, ia voltar pra casa.
Betina não queria nem saber disso. De jeito nenhum, disse ela. Quem sabia quanto tempo a tempestade ia durar? Talvez fosse longa. Ou quem sabe a noite toda. De jeito nenhum, senhor. Iam ficar ali na nossa casa, ia fazer um jantar delicioso. caliente e iam dormir em casa, secos e de boa. Mario já conhecia a Betina quando ela ficava assim. Só sorriu, era uma batalha que ele não ia ganhar, então se desculpando e agradecendo, aceitou.
Pelo lugar, sem problema. A gente tinha um quartinho extra que usava pra guardar umas paradas. Enquanto Betina levou os moleques pro banheiro pra eles continuarem se secando e ela preparava o chuveiro quente e uma troca de roupa, eu e Mario pegamos um dos colchões da nossa cama, já que a gente usava dois, levamos pro quartinho e, arrumando um espaço, instalamos lá no chão. Não era cinco estrelas, mas com uns lençóis e cobertores extras que a gente tinha, servia.
Os meninos tomaram banho e Betina deu uma muda de roupa minha pra eles, que servia direitinho. O problema era o Mario. Nada do que eu tinha ia caber nele. Depois que ele também tomou banho, dei uma calça de moletom minha que mais ou menos servia, mas ele teve que ficar pelado da cintura pra cima. Não tinha outro jeito. Mas todo mundo riu. Betina até mediu ele com uma fita métrica pra ver se tinha algo que ele pudesse vestir, mas na real nem precisava. Só de olho já dava pra ver o tamanhão do Mario.
Jantamos juntos de novo, enquanto o céu desabava lá fora, mas juntos no calor do nosso lar. E Betina se desdobrava pra cuidar dos nossos hóspedes de emergência, a ponto de eu perceber que o Mario ficava meio sem graça de ser tão bem tratado.
Com tanta correria, o tempo passou voando e terminamos de jantar bem tarde. Enquanto Betina lavava a louça, Mario levou os meninos pra dormir no quartinho. Um tempo depois ele voltou, me dizendo entre risadas que naquele colchão, infelizmente, os três não iam caber nem fudendo. Me pediu se podia dormir no nosso sofá da sala, pra pelo menos os moleques ficarem confortáveis e dormirem bem. Claro que eu disse que sim, dando um lençol e um cobertor pra mas pra improvisar um lugar pra ela no sofá da nossa sala pra dormir.
Assim, finalmente fomos todos descansar, embalados pela tempestade que ainda rolava lá fora. Tinha diminuído um pouco a intensidade, mas ainda chovia pra caralho. Abraçado com a Betina na nossa cama, ela me deu um beijão e me parabenizou por ter mandado eles virem. Falei que óbvio, como é que ia deixar nossos vizinhos naquela casa, com aquela tempestade. A gente se sorriu na quase escuridão do nosso quarto, trocamos uns beijos carinhosos e assim dormimos.
Não sei por que acordei lá pelas três da manhã. Olhei o relógio e era aquela hora. A Betina não tava na minha cama, mas vi que a luz do nosso banheiro tava acesa, se espalhando suave no chão por debaixo da porta. Vi a luz apagar e fechei os olhos, esperando a Betina voltar num instante. Mas estranhei que não aconteceu. A Betina demorava pra voltar. De repente vi o reflexo de uma luz vindo da sala. Já conhecia ela, era a luz suave de uma das nossas luminárias. Estranhei, mas fiquei lá na cama, olhando, esperando ver a Betina aparecer em algum momento logo. Ela devia ter ido pra cozinha, ou o Mario tinha acordado e falado alguma coisa.
Em poucos minutos a luz apagou de novo, ficando tudo escuro, e logo senti a Betina voltar pro nosso quarto e se enfiar em silêncio na nossa cama de novo. Abracei ela por trás e perguntei se tinha rolado algo
"Não, nada. Fui ver se tava todo mundo bem", ela falou num sussurro pra não levantar a voz, e se aninhou com as costas contra mim.
"E, tão?"
"Tão, bobinho.. Tão. Pra onde iam?", ela riu baixinho.
Sem pensar mais nisso, voltei a dormir. No outro dia quando levantei, eu era o último. Todo mundo tinha acordado antes de mim e tava tomando café na cozinha. Um café da manhã gostoso, com café fumegante, torradas com geleia e pastéis que a Betina tinha feito. Lá fora não chovia mais, o lindo O cheiro de grama molhada entrava forte pelas janelas abertas. Tinha um pouco de sol. Mario agradeceu profundamente o gesto que tivemos, os meninos também, nos abraçando, eu e a Betina, que não parava de sorrir, feliz por ter ajudado.
E a partir daí, daquela manhã em que os Tonelli voltaram pra casa deles, pra ver o desastre que devia ter ficado, foi quando as coisas começaram a me incomodar um pouco. Cada vez mais. Até que me toquei, com uma certa raiva, que de repente tinha um monte de barulho na minha cabeça.
No começo eram só detalhes. Besteiras. Coisinhas que eu via. Mudanças no tratamento, da Betina com os Tonelli, e deles com ela, que na hora eu atribuí só ao fato de que todo mundo já tava bem à vontade. Mas mesmo assim, me deram uma estranheza. Olhares. Gestos. Certos comentários, que eu ouvia pessoalmente ou escutava a Betina, o Mario ou algum dos meninos falarem pra mim às vezes. Não saberia dizer quais ou o quê. Eram só coisas que me faziam barulho. Que não me caíam muito bem.
Como por exemplo, que desde aquela noite da tempestade, a Betina passava um tempão na casa deles, no começo ajudando a secar tudo, arrumar as coisas, dar uma organizada naquele desastre de casa que ainda tinham. Até eu fui uma vez também, não me importei de fazer isso, pelo contrário. Mas o fato é que por vários dias seguidos a Betina passou um bom tempo lá.
Eu não suspeitava de nada. Pelo contrário, várias vezes por dia, quando eu tava em casa, olhava distraidamente pra outra casa e via eles indo e vindo com coisas. Ou limpando. Ou arrumando alguma coisa. Ali não tava rolando nada de estranho, mas eu não conseguia ouvir o que diziam quando de repente via eles pararem pra descansar, tomar um café ou um mate, e ver a Betina conversando com o Mario ou com algum dos meninos. Ali, pelo menos visualmente, não tinha nada de estranho.
E também não tinha nada de estranho quando algum dos meninos vinha em casa. Às vezes até o Mario também. Às vezes só de visita, outras vezes pra buscar alguma comida que a Betina tinha feito ou algo assim. Eles passavam um tempinho em casa também, e aí também não via nada de estranho, pelo menos nas vezes que eu tava. O Mario continuava do mesmo jeito educado, a Betina continuava do mesmo jeito atenciosa e prestativa e os garotos… continuavam sendo dois adolescentes bem indecifráveis, mas bons caras.
Mas eu continuava vendo coisas. Detalhezinhos. Uma intimidade já entre a Betina e eles que eu simplesmente não tinha. Ela era muito mais aberta com as pessoas e eu nem tanto. Talvez fosse isso. Com certeza era isso. Ela já tinha virado amiga dos vizinhos, eles dela, e era isso que eu tava vendo. Mas alguma coisa continuava me incomodando. Me irritava, lá no fundo da cabeça. Na nuca. Um sentimento vago, desconfortável. Difuso, nebuloso, quando eu tentava prestar atenção pra examinar, escapava em dez direções diferentes na minha cabeça, dez respostas perfeitamente válidas pra explicar. Mas nenhuma me satisfazia de verdade.
Sim, eu podia explicar perfeitamente como se eu tivesse com ciúmes do Mario, de algum jeito. Ou me sentia deixado de lado, ou até intimidado pela figura do cara, que era decididamente mais corpulento, mais seguro e, vamos admitir também, visivelmente mais macho que eu. Ok, vamos supor que esse era o problema. Mas… eu sentia isso com os garotos também? Deixado de lado por eles também? As coisinhas estranhas que eu via e sentia, também incluíam eles, não só o Mario. O que tava rolando, na real? Falei pra mim mesmo que se essa sensação continuasse e não fosse embora, e pra piorar se piorasse, talvez não fosse tão ruim considerar ver um psicólogo ou algo assim. Pelo menos só pra ver o que ele me dizia. Mas as consultas com certeza iam ser tão caras…
Fiquei mais de um mês assim, com essa sensação. E não ia embora. Às vezes piorava. Quando eu via eles conversando. Se olhando, inocentemente, nenhum olhar longo ou estranho, mas finalmente me olhando. Quando eu via Betina ir para a casa ao lado e ficar um tempo lá. E de repente não a via passar na frente de alguma janela por alguns minutos, e minha mente conjurava imagens do que ela poderia estar fazendo fora da minha vista. Imagens que não vêm ao caso descrever agora, mas que saem de um lugar bem profundo e escondido. Em poucos minutos, eu a via passar pela janela, normal, e dizia a mim mesmo que era um paranoico, que imaginava coisas totalmente à toa.
Fiquei mais de um mês assim, como disse, até que uma noite percebi, ao vivo e a cores, que nada disso era só fruto da minha imaginação.
Foi num sábado, me lembro. Betina estava muito animada e tinha cozinhado um monte, mas uma grande quantidade das suas deliciosas tortinhas de presunto e queijo, junto com várias fornadas de empadas caseiras de vários sabores. A prefeitura tinha organizado uma feira numa praça próxima e ela tinha conseguido um espacinho para levar suas comidas e vender lá. Ela estava tão feliz com isso. Eu ia acompanhá-la até que, umas horas antes de sair, recebi uma ligação de um cara que eu tinha contatado por causa de um trabalho. Era um dono de táxis, conhecido de um conhecido, com quem falei para ver se tinha vaga para eu trabalhar num dos carros. E ele me ligou bem naquela hora para eu ir vê-lo e conversar. Não tive escolha a não ser dizer para Betina que não ia poder acompanhá-la, nem ajudar com a quantidade de comida que ela tinha que levar. Vi que ela ficou decepcionada, mas entendeu que era por causa de algo profissional.
Pensando em como ia fazer, ela disse que ia perguntar ao Mario se ele não podia acompanhá-la no meu lugar. Enquanto eu me preparava para sair para ver esse cara, vi pela janela que ela foi tocar a campainha dele. Vi os dois conversando ali na porta. Vi que ela sorriu e eles se abraçaram. Mario com certeza tinha aceitado. Quando ela voltou para casa, me disse que sim, que Mario não só a acompanhava como podiam levar Tudo na caminhonete dela, se quisesse. Ia facilitar tudo pra elas. Eu sorri pra ela, a gente se despediu e fui encontrar esse cara dos táxis. Antes de ir, vi que ela já estava se arrumando, enquanto a comida continuava no fogo. Ela tava se vestindo e se produzindo, mas demais. Produção demais, achei, pra uma feirinha de bairro. Por outro lado, às vezes ela gostava de se arrumar e ficar mais gostosa pra sair pra qualquer lugar. Então na hora nem pensei muito nisso.
O cara dos táxis morava bem longe, então demorei pra caramba pra chegar. Também passei um tempão com ele, a gente ficou batendo papo por mais de uma hora, quase duas. Ele pareceu satisfeito comigo. Fiquei felizão quando ele disse que ia me avisar em um ou dois dias, que precisava acertar um negócio com outro funcionário, mas que com certeza me ligava pra começar. A volta foi longa de novo e quando cheguei em casa já era bem tarde. Umas onze da noite e, pra piorar, enquanto andava as poucas quadras do ponto de ônibus até em casa, vi que todas as casas estavam escuras, sem luz. Uns postes da rua ainda estavam acesos, mas a maioria das casas, não. Isso acontecia direto no bairro. Caía uma fase, ou um transformador desligava, as desculpas da empresa eram criativas e variadas. Quando cheguei em casa, tava escuro, claro. E não tinha ninguém. A Betina não tinha voltado. Peguei alguma coisa pra comer da geladeira, aproveitando que ainda tinha um pouco de frio lá dentro, e sentei num sofazinho perto da janela, só pra pegar um pouco de luz da rua. Fiquei lá comendo no escuro, tomando refrigerante, me distraindo com o que dava pra ver da janela, que não era muita coisa. Algum carro passando de vez em quando. Ninguém a pé. No nosso bairro, naquela hora e com apagão, não, ninguém a pé. Não queria usar o celular porque não tinha como carregar de noite, não sabia quanto tempo o apagão ia durar.
Umas dez minutos depois, vi eles vindo. A caminhonete do Mario virou a esquina e devagarzinho subiu na calçada. Vi o Mario descer e abrir o portão, subir de novo na caminhonete e enfiar ela no espaço que tinha na frente da casa dele, debaixo de um telhadinho. A Betina tava no banco do carona e imaginei que logo os dois iam cair em casa. Deviam ter levado várias bandejas de comida e o Mario ia ajudar ela a trazer de volta, com o que tivesse sobrado. comida.
Mas não.
Os dois ficaram dentro da caminhonete. Batendo papo. Eu, pra ser sincero, não enxergava muito. A luz do poste da rua iluminava, mas só até ali. Não batia direto, nem perto, da caminhonete. Só clareava de reflexo, de ambiente. Debaixo da marquise e, pior, dentro da caminhonete não tinha muita luz, digamos assim. Dava pra ver os dois, sim, mas sem muito detalhe. A forma corpulenta do Mário e a mais magra e pequena da Betina, junto com o cabelão dela, era inconfundível, mas tô falando de sombras mais claras sobre sombras mais escuras, na frente de uma parede iluminada por um poste de rua, visto através das duas janelas da caminhonete.. Esse tipo de visão. Pareciam sombras chinesas.
Me chamou a atenção que eles ficaram lá batendo papo. Com o motor já desligado. Se estavam se despedindo, a despedida já tinha passado do ponto há muito tempo. Estavam falando de alguma coisa. E falaram. E falaram. E falaram mais. Até que quase me engasgo com o refrigerante que tava tomando quando vi a sombra da cabeça da Betina se aproximar da do Mário, se inclinando, como se uma pessoa tivesse contando um segredo pra outra. Mas era um segredo comprido, aparentemente. Muito comprido. As cabeças sombreadas se separaram um pouco, mas logo se aproximaram de novo. Outro segredo, igualmente comprido. Muito comprido. Vi uns braços se mexerem, movimentos que não consegui distinguir, mas continuavam perto. E se mexiam diferente agora.
Eu fiquei duro quando vi. Num momento, eles se separaram, um pouco voltando às posições originais, quando vi as mãos da Betina arrumando o cabelão, jogando ele pra trás dos ombros. Ao mesmo tempo, o corpo sombreado do Mário meio que se arqueou pra cima, como se os quadris dele tivessem levantado do banco por um instante, e as mãos dele tocavam alguma coisa ali. A primeira coisa que veio na minha cabeça, como imagem visual, era a de um cara afrouxando ou abaixando um pouco a calça, tentando fazendo isso enquanto estava sentado.
Não podia ser, eu pensava atônito, olhando. Até que vi, e sim, foi possível.
A cabeça inclinada da Betina e seu cabelo comprido se abaixaram e desapareceram por baixo da borda da janela da caminhonete. Não sobrou nada que eu pudesse ver dela. Só a figura corpulenta do Mario, sentado. Mas logo vi ele colocar uma mão onde a cabeça da Betina estaria, e a mão dele se movia suave, imperceptivelmente, de cima pra baixo. Devagar. Gostoso.
Betina estava chupando a pica dele. A imagem, por mais sombreada e pouco clara que fosse, era inconfundível. Não tinha outra interpretação possível. Eu não saía do meu espanto ao ver aquilo. E se faltava mais confirmação, depois de ficar um tempinho assim, vi que a Betina devia ter se ajoelhado de fato no banco da caminhonete, com certeza pra ter um acesso melhor. Vi a sombra das curvas das cadeiras dela, cheias e volumosas, se erguerem acima da borda da janela e, logo em seguida, a outra mão do Mario indo pra lá, sobre a sombra da bunda da minha mulher no ar. Vi como aquela mão acariciava aquela bunda linda, se movia suavemente sobre ela, parava pra apertar... Também vi como pareceu levantar um pouco o tecido da saia dela, fazer uns movimentos que não consegui distinguir e voltar a se posicionar ali, mas com movimentos diferentes, mais rítmicos e delicados, dando toda a impressão de que ele tinha enfiado um dedo em algum lugar, pra dar prazer pra ela ali também.
Devem ter ficado uns bons cinco minutinhos assim, os dois se curtindo do jeito deles, quando vi que a mão que o Mario tinha na bunda (ou em outro lugar) da Betina se moveu pra onde estava a outra, colocando as duas onde estaria a cabeça da minha esposa. Logo em seguida, vi a cabeça do Mario se jogar suavemente pra trás e, com as mãos segurando a cabeça da Betina, vi o corpo do meu vizinho se tensionar docemente e dar empurrõezinhos pra cima com as cadeiras. Betina nunca moveu a cabeça, presa como estava, e o Mario deve ter enchido a boca dela boca cheia de porra dele. Era mais que óbvio.
Depois daquela gozada, que achei meio longa pra falar a verdade, vi a Betina se sentar de novo no banco. Vi a sombra das curvas dela contra o fundo da parede. Parecia que ela tava ajeitando a roupa e depois o cabelo, enquanto o Mario parecia levantar o quadril de novo e vestir a pouca roupa que tinha abaixado da calça. Vi os dois como se estivessem conversando mais um pouco, as duas sombras se aproximaram um par de vezes, talvez pra se beijar, até que o Mario finalmente abriu a porta da caminhonete, com a Betina fazendo o mesmo do lado dela.
E foi aí que eu meio que voltei a mim e na hora percebi, pra minha confusão, que eu tava com o próprio pau durasso, dobrado e se apertando sozinho contra o tecido da minha calça jeans. Saí feito um foguete pro nosso quarto no escuro, me despi rápido e me meti na cama. Se a Betina viesse com o Mario pra casa, porque com certeza ele ia ajudar ela com as bandejas, não queria que me pegasse acordado. Não perguntem por quê, foi o que me deu na telha fazer.
Daqui a pouco senti a porta abrir e fechar, mas pelo que consegui ouvir, só a minha mulher tinha entrado. Não ouvi vozes, nem um sussurro. Escutei a Betina tentando largar as bandejas no escuro na cozinha, fazendo um barulho inevitável. Depois ouvi ela ir pro banheiro no escuro, escovar os dentes, fazer xixi e daqui a pouco já tava de calcinha e sutiã, se enfiando na minha cama.
Ela não tentou me acordar e não sei se ia fazer isso. Só se deitou do lado dela da cama, de costas pra mim, e ficou lá até dormir. Eu olhava pra ela do meu lugar, repetindo a cena inteira que tinha visto na minha cabeça uma e outra vez, com o meu pau durasso que nem um foguete. Foi bom que a Betina não quis me acordar e falar comigo. Não sei o que eu poderia ter dito pra ela.
Talvez o melhor fosse esperar o dia seguinte.
Naquele sábado, a Betina foi até a casa tocar a campainha. Ela teve a ideia de convidar eles pra jantar aqui em casa, oficialmente, porque achava que talvez eles ainda não tivessem muita coisa pra cozinhar na casa e ela ficava com muita pena. Eu falei que sim, claro. Ela adorava ajudar os outros, isso fazia ela feliz. E se ela tava feliz, eu tava feliz.
Eu vi eles da minha janela, enquanto tomava um mate. A Betina tocou a campainha, o Mario veio atender e eu vi eles conversando. Sem ouvir nada. Mas vi a Betina falar, o Mario sorrir e logo fazer uns gestos como se desculpando. Imaginei que ele devia estar dizendo que obrigado, mas que seria um incômodo, etc. Mas eu já conhecia aquele olhar da minha Betina, ela não ia aceitar um não como resposta. Ela ficou lá insistindo e enchendo o saco até que no final o Mario deve ter dito que sim e eles se despediram.
À noite, recebemos eles e, verdade seja dita, a gente se divertiu. A Betina tinha começado a cozinhar desde o fim da tarde, fazendo umas tortas de presunto, queijo e tomate pra todo mundo que, sinceramente, ficaram uma delícia. Ela também fez uma sopinha de cogumelos maravilhosa pra acompanhar, com uns pãezinhos caseiros que ela amassou também. Um verdadeiro amor. Ela tava encantada de receber visitas em casa, já que a gente nunca fazia isso. Comemos todos superbem até ficar cheios, inclusive o grandalhão do Mario disse sorrindo que não aguentava mais. Que raramente tinha comido um jantar tão gostoso e feito com tanto carinho. amor. Dava pra sentir o love e a vontade que a Betina colocou em tudo. Betina sorria feliz e contente. Os filhos do Mario também elogiaram o jantar.
Mateo e Diego, adolescentes como eram, já queriam voltar pra casa assim que terminaram, mas Mario mandou eles se comportarem e agradecerem o convite, ficando até ele ir embora. Eles queriam ir jogar playstation ou algo assim, mas Mario segurou eles. Ele tinha eles bem educados ou pelo menos bem cuidados, evidentemente. Durante toda a conversa e o jantar… eu já sabia de antes pelas vezes que a gente tinha falado, mas Mario me confirmou de vez que não era um cara ruim nem um pai ruim. Ele criava os filhos o melhor que podia na ausência da mãe.
Batendo um papo com uns cafés, ele contou um pouco da história dele. Que tinha servido na Armada quando jovem, como mecânico numa corveta, por vários anos. Ia fazer carreira lá na Marinha, mas no final cansou, se desiludiu um pouco e voltou pra cidade natal dele na Província de Buenos Aires. Lá reencontrou a que depois virou a esposa dele, casaram e tiveram o Mateo e o Diego. Ele tinha aberto uma oficina mecânica de carros e motos. Disse que não era a especialidade dele, ele era mais de motores e geradores grandes, mas mecânica até certo ponto é mecânica e ele se virava. Enquanto fazia serviços pro pessoal da cidade, foi se instruindo em mecânica pra veículos e acabou aprendendo bastante.
Muito tempo depois aconteceu a desgraça que ele tinha comentado. Eu já tinha falado pra Betina, pra ela não pisar na bola como eu tinha feito, então ela já sabia. Mas ao ouvir o Mario contar, sem ele entrar nos detalhes trágicos daquela noite e do depois, bem por cima, vi que a Betina ficou muito magoada e triste de verdade. Não era um teatro pra causar boa impressão, ela era assim com todo mundo. Mario, ao contrário, não ficou triste ao contar. Com um sorriso suave, disse que sempre preferiu lembrar todos os momentos bons em vez de focar na perda. E que ele era grato à falecida esposa por ter dado a ele os dois pestinhas que estavam ao lado, terminou com uma careta.
Com o tempo, depois do que aconteceu, ele decidiu se mudar pra cá, pra baixada. Pra dar uma mudada de ares e ver se melhorava de vida. Não fechou a oficina, deixou na mão de outro mecânico que conhecia da cidade dele, amigão dele, e veio pra cá. O projeto dele, nos contou, era terminar de reformar a casa que comprou do nosso lado, sim, mas com a ideia de que ele e os meninos morassem nos fundos ou no andar de cima, e embaixo abrir outra oficina mecânica.
Betina disse pra eles nem pensarem em sair pra comer fora quando quisessem algo gostoso. Que era só avisar que ela fazia algo gostoso e caseiro, com maior boa vontade. Diego, o mais novo, falou que se fosse tão gostoso quanto o jantar que a gente tinha comido, ia pedir todo santo dia.
E todo mundo caiu na risada.
Na hora de nos despedirmos educadamente pra eles voltarem pra casa deles, ainda praticamente inabitável, do lado, o Mario de novo agradeceu pelo convite e se desfez em elogios pra cozinheira, dando um abraço caloroso nela, mandando os meninos também agradecerem. Depois que foram embora, ficamos limpando e lavando com a Betina na cozinha, e ela me disse como tava feliz que os novos vizinhos eram tão gente boa. Eu sorri pra ela, concordando totalmente.
Os Tonalli, esse era o sobrenome deles, a verdade é que deram sorte com o tempo. Não choveu por umas duas semanas, nem uma gota, então conseguiram impermeabilizar bem o telhado e as paredes. Mas logo veio a prova de fogo. E que prova eles tiveram que enfrentar. Naquele dia, o tempo amanheceu nublado o dia inteiro. E pesado, muito pesado. Dava pra sentir, era nítido que o céu ia se abrir a qualquer momento. Mas não acontecia. Devagar, ao longo do dia, mais e mais nuvens foram se juntando. Até que lá pelas sete da noite finalmente se mandou. E mandou-se pra valer. Cortinas de água de verdade caíam sem parar. A gente tava de boa em casa, mas me deu na telha de olhar pela janela pra casa do lado e vi os três, correndo pra lá e pra cá com coisas, baldes, cobertores... parecia que tava entrando água por todo lado. Lugares que, de fato, só iam ser descobertos quando chovesse. Fiquei com muita pena e uma baita raiva vendo eles daquele jeito. Abri a janela e comecei a gritar, fazer sinais. Quem me viu foi o Diego, gritei pra virem pra nossa casa. Pra pegarem o que pudessem e virem.
Logo os três Tonalli entraram correndo pela porta de casa, debaixo da chuva, carregando umas roupas e coisas em sacos de lixo pra não molhar. Os três estavam completamente encharcados e o pior é que eu tinha certeza de que já tinham se molhado na casa deles, não ao correr os poucos metros até a nossa. Já tinham saído de casa molhados, coitados.
Na hora, antes de entrar na nossa sala, no corredorzinho da entrada, passei uma toalha grande pro Mario se secar. A Betina veio correndo um instante depois, tentando literalmente botar uma cara boa no tempo ruim, e com duas toalhas ajudava os meninos a se secar. Mario me agradeceu e perguntei se ele não queria ir buscar mais coisas. Ele disse que não, que tinham passado a tarde toda cobrindo e vedando os móveis com plástico grosso e fita, colocando coisas eletrônicas em malas e embrulhando em plástico, tudo isso, já prevendo o temporal que vinha. Agradeceu, mas disse que assim que a chuva desse uma trégua, ia voltar pra casa.
Betina não queria nem saber disso. De jeito nenhum, disse ela. Quem sabia quanto tempo a tempestade ia durar? Talvez fosse longa. Ou quem sabe a noite toda. De jeito nenhum, senhor. Iam ficar ali na nossa casa, ia fazer um jantar delicioso. caliente e iam dormir em casa, secos e de boa. Mario já conhecia a Betina quando ela ficava assim. Só sorriu, era uma batalha que ele não ia ganhar, então se desculpando e agradecendo, aceitou.
Pelo lugar, sem problema. A gente tinha um quartinho extra que usava pra guardar umas paradas. Enquanto Betina levou os moleques pro banheiro pra eles continuarem se secando e ela preparava o chuveiro quente e uma troca de roupa, eu e Mario pegamos um dos colchões da nossa cama, já que a gente usava dois, levamos pro quartinho e, arrumando um espaço, instalamos lá no chão. Não era cinco estrelas, mas com uns lençóis e cobertores extras que a gente tinha, servia.
Os meninos tomaram banho e Betina deu uma muda de roupa minha pra eles, que servia direitinho. O problema era o Mario. Nada do que eu tinha ia caber nele. Depois que ele também tomou banho, dei uma calça de moletom minha que mais ou menos servia, mas ele teve que ficar pelado da cintura pra cima. Não tinha outro jeito. Mas todo mundo riu. Betina até mediu ele com uma fita métrica pra ver se tinha algo que ele pudesse vestir, mas na real nem precisava. Só de olho já dava pra ver o tamanhão do Mario.
Jantamos juntos de novo, enquanto o céu desabava lá fora, mas juntos no calor do nosso lar. E Betina se desdobrava pra cuidar dos nossos hóspedes de emergência, a ponto de eu perceber que o Mario ficava meio sem graça de ser tão bem tratado.
Com tanta correria, o tempo passou voando e terminamos de jantar bem tarde. Enquanto Betina lavava a louça, Mario levou os meninos pra dormir no quartinho. Um tempo depois ele voltou, me dizendo entre risadas que naquele colchão, infelizmente, os três não iam caber nem fudendo. Me pediu se podia dormir no nosso sofá da sala, pra pelo menos os moleques ficarem confortáveis e dormirem bem. Claro que eu disse que sim, dando um lençol e um cobertor pra mas pra improvisar um lugar pra ela no sofá da nossa sala pra dormir.
Assim, finalmente fomos todos descansar, embalados pela tempestade que ainda rolava lá fora. Tinha diminuído um pouco a intensidade, mas ainda chovia pra caralho. Abraçado com a Betina na nossa cama, ela me deu um beijão e me parabenizou por ter mandado eles virem. Falei que óbvio, como é que ia deixar nossos vizinhos naquela casa, com aquela tempestade. A gente se sorriu na quase escuridão do nosso quarto, trocamos uns beijos carinhosos e assim dormimos.
Não sei por que acordei lá pelas três da manhã. Olhei o relógio e era aquela hora. A Betina não tava na minha cama, mas vi que a luz do nosso banheiro tava acesa, se espalhando suave no chão por debaixo da porta. Vi a luz apagar e fechei os olhos, esperando a Betina voltar num instante. Mas estranhei que não aconteceu. A Betina demorava pra voltar. De repente vi o reflexo de uma luz vindo da sala. Já conhecia ela, era a luz suave de uma das nossas luminárias. Estranhei, mas fiquei lá na cama, olhando, esperando ver a Betina aparecer em algum momento logo. Ela devia ter ido pra cozinha, ou o Mario tinha acordado e falado alguma coisa.
Em poucos minutos a luz apagou de novo, ficando tudo escuro, e logo senti a Betina voltar pro nosso quarto e se enfiar em silêncio na nossa cama de novo. Abracei ela por trás e perguntei se tinha rolado algo
"Não, nada. Fui ver se tava todo mundo bem", ela falou num sussurro pra não levantar a voz, e se aninhou com as costas contra mim.
"E, tão?"
"Tão, bobinho.. Tão. Pra onde iam?", ela riu baixinho.
Sem pensar mais nisso, voltei a dormir. No outro dia quando levantei, eu era o último. Todo mundo tinha acordado antes de mim e tava tomando café na cozinha. Um café da manhã gostoso, com café fumegante, torradas com geleia e pastéis que a Betina tinha feito. Lá fora não chovia mais, o lindo O cheiro de grama molhada entrava forte pelas janelas abertas. Tinha um pouco de sol. Mario agradeceu profundamente o gesto que tivemos, os meninos também, nos abraçando, eu e a Betina, que não parava de sorrir, feliz por ter ajudado.
E a partir daí, daquela manhã em que os Tonelli voltaram pra casa deles, pra ver o desastre que devia ter ficado, foi quando as coisas começaram a me incomodar um pouco. Cada vez mais. Até que me toquei, com uma certa raiva, que de repente tinha um monte de barulho na minha cabeça.
No começo eram só detalhes. Besteiras. Coisinhas que eu via. Mudanças no tratamento, da Betina com os Tonelli, e deles com ela, que na hora eu atribuí só ao fato de que todo mundo já tava bem à vontade. Mas mesmo assim, me deram uma estranheza. Olhares. Gestos. Certos comentários, que eu ouvia pessoalmente ou escutava a Betina, o Mario ou algum dos meninos falarem pra mim às vezes. Não saberia dizer quais ou o quê. Eram só coisas que me faziam barulho. Que não me caíam muito bem.
Como por exemplo, que desde aquela noite da tempestade, a Betina passava um tempão na casa deles, no começo ajudando a secar tudo, arrumar as coisas, dar uma organizada naquele desastre de casa que ainda tinham. Até eu fui uma vez também, não me importei de fazer isso, pelo contrário. Mas o fato é que por vários dias seguidos a Betina passou um bom tempo lá.
Eu não suspeitava de nada. Pelo contrário, várias vezes por dia, quando eu tava em casa, olhava distraidamente pra outra casa e via eles indo e vindo com coisas. Ou limpando. Ou arrumando alguma coisa. Ali não tava rolando nada de estranho, mas eu não conseguia ouvir o que diziam quando de repente via eles pararem pra descansar, tomar um café ou um mate, e ver a Betina conversando com o Mario ou com algum dos meninos. Ali, pelo menos visualmente, não tinha nada de estranho.
E também não tinha nada de estranho quando algum dos meninos vinha em casa. Às vezes até o Mario também. Às vezes só de visita, outras vezes pra buscar alguma comida que a Betina tinha feito ou algo assim. Eles passavam um tempinho em casa também, e aí também não via nada de estranho, pelo menos nas vezes que eu tava. O Mario continuava do mesmo jeito educado, a Betina continuava do mesmo jeito atenciosa e prestativa e os garotos… continuavam sendo dois adolescentes bem indecifráveis, mas bons caras.
Mas eu continuava vendo coisas. Detalhezinhos. Uma intimidade já entre a Betina e eles que eu simplesmente não tinha. Ela era muito mais aberta com as pessoas e eu nem tanto. Talvez fosse isso. Com certeza era isso. Ela já tinha virado amiga dos vizinhos, eles dela, e era isso que eu tava vendo. Mas alguma coisa continuava me incomodando. Me irritava, lá no fundo da cabeça. Na nuca. Um sentimento vago, desconfortável. Difuso, nebuloso, quando eu tentava prestar atenção pra examinar, escapava em dez direções diferentes na minha cabeça, dez respostas perfeitamente válidas pra explicar. Mas nenhuma me satisfazia de verdade.
Sim, eu podia explicar perfeitamente como se eu tivesse com ciúmes do Mario, de algum jeito. Ou me sentia deixado de lado, ou até intimidado pela figura do cara, que era decididamente mais corpulento, mais seguro e, vamos admitir também, visivelmente mais macho que eu. Ok, vamos supor que esse era o problema. Mas… eu sentia isso com os garotos também? Deixado de lado por eles também? As coisinhas estranhas que eu via e sentia, também incluíam eles, não só o Mario. O que tava rolando, na real? Falei pra mim mesmo que se essa sensação continuasse e não fosse embora, e pra piorar se piorasse, talvez não fosse tão ruim considerar ver um psicólogo ou algo assim. Pelo menos só pra ver o que ele me dizia. Mas as consultas com certeza iam ser tão caras…
Fiquei mais de um mês assim, com essa sensação. E não ia embora. Às vezes piorava. Quando eu via eles conversando. Se olhando, inocentemente, nenhum olhar longo ou estranho, mas finalmente me olhando. Quando eu via Betina ir para a casa ao lado e ficar um tempo lá. E de repente não a via passar na frente de alguma janela por alguns minutos, e minha mente conjurava imagens do que ela poderia estar fazendo fora da minha vista. Imagens que não vêm ao caso descrever agora, mas que saem de um lugar bem profundo e escondido. Em poucos minutos, eu a via passar pela janela, normal, e dizia a mim mesmo que era um paranoico, que imaginava coisas totalmente à toa.
Fiquei mais de um mês assim, como disse, até que uma noite percebi, ao vivo e a cores, que nada disso era só fruto da minha imaginação.
Foi num sábado, me lembro. Betina estava muito animada e tinha cozinhado um monte, mas uma grande quantidade das suas deliciosas tortinhas de presunto e queijo, junto com várias fornadas de empadas caseiras de vários sabores. A prefeitura tinha organizado uma feira numa praça próxima e ela tinha conseguido um espacinho para levar suas comidas e vender lá. Ela estava tão feliz com isso. Eu ia acompanhá-la até que, umas horas antes de sair, recebi uma ligação de um cara que eu tinha contatado por causa de um trabalho. Era um dono de táxis, conhecido de um conhecido, com quem falei para ver se tinha vaga para eu trabalhar num dos carros. E ele me ligou bem naquela hora para eu ir vê-lo e conversar. Não tive escolha a não ser dizer para Betina que não ia poder acompanhá-la, nem ajudar com a quantidade de comida que ela tinha que levar. Vi que ela ficou decepcionada, mas entendeu que era por causa de algo profissional.
Pensando em como ia fazer, ela disse que ia perguntar ao Mario se ele não podia acompanhá-la no meu lugar. Enquanto eu me preparava para sair para ver esse cara, vi pela janela que ela foi tocar a campainha dele. Vi os dois conversando ali na porta. Vi que ela sorriu e eles se abraçaram. Mario com certeza tinha aceitado. Quando ela voltou para casa, me disse que sim, que Mario não só a acompanhava como podiam levar Tudo na caminhonete dela, se quisesse. Ia facilitar tudo pra elas. Eu sorri pra ela, a gente se despediu e fui encontrar esse cara dos táxis. Antes de ir, vi que ela já estava se arrumando, enquanto a comida continuava no fogo. Ela tava se vestindo e se produzindo, mas demais. Produção demais, achei, pra uma feirinha de bairro. Por outro lado, às vezes ela gostava de se arrumar e ficar mais gostosa pra sair pra qualquer lugar. Então na hora nem pensei muito nisso.
O cara dos táxis morava bem longe, então demorei pra caramba pra chegar. Também passei um tempão com ele, a gente ficou batendo papo por mais de uma hora, quase duas. Ele pareceu satisfeito comigo. Fiquei felizão quando ele disse que ia me avisar em um ou dois dias, que precisava acertar um negócio com outro funcionário, mas que com certeza me ligava pra começar. A volta foi longa de novo e quando cheguei em casa já era bem tarde. Umas onze da noite e, pra piorar, enquanto andava as poucas quadras do ponto de ônibus até em casa, vi que todas as casas estavam escuras, sem luz. Uns postes da rua ainda estavam acesos, mas a maioria das casas, não. Isso acontecia direto no bairro. Caía uma fase, ou um transformador desligava, as desculpas da empresa eram criativas e variadas. Quando cheguei em casa, tava escuro, claro. E não tinha ninguém. A Betina não tinha voltado. Peguei alguma coisa pra comer da geladeira, aproveitando que ainda tinha um pouco de frio lá dentro, e sentei num sofazinho perto da janela, só pra pegar um pouco de luz da rua. Fiquei lá comendo no escuro, tomando refrigerante, me distraindo com o que dava pra ver da janela, que não era muita coisa. Algum carro passando de vez em quando. Ninguém a pé. No nosso bairro, naquela hora e com apagão, não, ninguém a pé. Não queria usar o celular porque não tinha como carregar de noite, não sabia quanto tempo o apagão ia durar.Umas dez minutos depois, vi eles vindo. A caminhonete do Mario virou a esquina e devagarzinho subiu na calçada. Vi o Mario descer e abrir o portão, subir de novo na caminhonete e enfiar ela no espaço que tinha na frente da casa dele, debaixo de um telhadinho. A Betina tava no banco do carona e imaginei que logo os dois iam cair em casa. Deviam ter levado várias bandejas de comida e o Mario ia ajudar ela a trazer de volta, com o que tivesse sobrado. comida.
Mas não.
Os dois ficaram dentro da caminhonete. Batendo papo. Eu, pra ser sincero, não enxergava muito. A luz do poste da rua iluminava, mas só até ali. Não batia direto, nem perto, da caminhonete. Só clareava de reflexo, de ambiente. Debaixo da marquise e, pior, dentro da caminhonete não tinha muita luz, digamos assim. Dava pra ver os dois, sim, mas sem muito detalhe. A forma corpulenta do Mário e a mais magra e pequena da Betina, junto com o cabelão dela, era inconfundível, mas tô falando de sombras mais claras sobre sombras mais escuras, na frente de uma parede iluminada por um poste de rua, visto através das duas janelas da caminhonete.. Esse tipo de visão. Pareciam sombras chinesas.
Me chamou a atenção que eles ficaram lá batendo papo. Com o motor já desligado. Se estavam se despedindo, a despedida já tinha passado do ponto há muito tempo. Estavam falando de alguma coisa. E falaram. E falaram. E falaram mais. Até que quase me engasgo com o refrigerante que tava tomando quando vi a sombra da cabeça da Betina se aproximar da do Mário, se inclinando, como se uma pessoa tivesse contando um segredo pra outra. Mas era um segredo comprido, aparentemente. Muito comprido. As cabeças sombreadas se separaram um pouco, mas logo se aproximaram de novo. Outro segredo, igualmente comprido. Muito comprido. Vi uns braços se mexerem, movimentos que não consegui distinguir, mas continuavam perto. E se mexiam diferente agora.
Eu fiquei duro quando vi. Num momento, eles se separaram, um pouco voltando às posições originais, quando vi as mãos da Betina arrumando o cabelão, jogando ele pra trás dos ombros. Ao mesmo tempo, o corpo sombreado do Mário meio que se arqueou pra cima, como se os quadris dele tivessem levantado do banco por um instante, e as mãos dele tocavam alguma coisa ali. A primeira coisa que veio na minha cabeça, como imagem visual, era a de um cara afrouxando ou abaixando um pouco a calça, tentando fazendo isso enquanto estava sentado.
Não podia ser, eu pensava atônito, olhando. Até que vi, e sim, foi possível.
A cabeça inclinada da Betina e seu cabelo comprido se abaixaram e desapareceram por baixo da borda da janela da caminhonete. Não sobrou nada que eu pudesse ver dela. Só a figura corpulenta do Mario, sentado. Mas logo vi ele colocar uma mão onde a cabeça da Betina estaria, e a mão dele se movia suave, imperceptivelmente, de cima pra baixo. Devagar. Gostoso.
Betina estava chupando a pica dele. A imagem, por mais sombreada e pouco clara que fosse, era inconfundível. Não tinha outra interpretação possível. Eu não saía do meu espanto ao ver aquilo. E se faltava mais confirmação, depois de ficar um tempinho assim, vi que a Betina devia ter se ajoelhado de fato no banco da caminhonete, com certeza pra ter um acesso melhor. Vi a sombra das curvas das cadeiras dela, cheias e volumosas, se erguerem acima da borda da janela e, logo em seguida, a outra mão do Mario indo pra lá, sobre a sombra da bunda da minha mulher no ar. Vi como aquela mão acariciava aquela bunda linda, se movia suavemente sobre ela, parava pra apertar... Também vi como pareceu levantar um pouco o tecido da saia dela, fazer uns movimentos que não consegui distinguir e voltar a se posicionar ali, mas com movimentos diferentes, mais rítmicos e delicados, dando toda a impressão de que ele tinha enfiado um dedo em algum lugar, pra dar prazer pra ela ali também.
Devem ter ficado uns bons cinco minutinhos assim, os dois se curtindo do jeito deles, quando vi que a mão que o Mario tinha na bunda (ou em outro lugar) da Betina se moveu pra onde estava a outra, colocando as duas onde estaria a cabeça da minha esposa. Logo em seguida, vi a cabeça do Mario se jogar suavemente pra trás e, com as mãos segurando a cabeça da Betina, vi o corpo do meu vizinho se tensionar docemente e dar empurrõezinhos pra cima com as cadeiras. Betina nunca moveu a cabeça, presa como estava, e o Mario deve ter enchido a boca dela boca cheia de porra dele. Era mais que óbvio.
Depois daquela gozada, que achei meio longa pra falar a verdade, vi a Betina se sentar de novo no banco. Vi a sombra das curvas dela contra o fundo da parede. Parecia que ela tava ajeitando a roupa e depois o cabelo, enquanto o Mario parecia levantar o quadril de novo e vestir a pouca roupa que tinha abaixado da calça. Vi os dois como se estivessem conversando mais um pouco, as duas sombras se aproximaram um par de vezes, talvez pra se beijar, até que o Mario finalmente abriu a porta da caminhonete, com a Betina fazendo o mesmo do lado dela.
E foi aí que eu meio que voltei a mim e na hora percebi, pra minha confusão, que eu tava com o próprio pau durasso, dobrado e se apertando sozinho contra o tecido da minha calça jeans. Saí feito um foguete pro nosso quarto no escuro, me despi rápido e me meti na cama. Se a Betina viesse com o Mario pra casa, porque com certeza ele ia ajudar ela com as bandejas, não queria que me pegasse acordado. Não perguntem por quê, foi o que me deu na telha fazer.
Daqui a pouco senti a porta abrir e fechar, mas pelo que consegui ouvir, só a minha mulher tinha entrado. Não ouvi vozes, nem um sussurro. Escutei a Betina tentando largar as bandejas no escuro na cozinha, fazendo um barulho inevitável. Depois ouvi ela ir pro banheiro no escuro, escovar os dentes, fazer xixi e daqui a pouco já tava de calcinha e sutiã, se enfiando na minha cama.
Ela não tentou me acordar e não sei se ia fazer isso. Só se deitou do lado dela da cama, de costas pra mim, e ficou lá até dormir. Eu olhava pra ela do meu lugar, repetindo a cena inteira que tinha visto na minha cabeça uma e outra vez, com o meu pau durasso que nem um foguete. Foi bom que a Betina não quis me acordar e falar comigo. Não sei o que eu poderia ter dito pra ela.
Talvez o melhor fosse esperar o dia seguinte.
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