PdB 76 Ally




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Compêndio III(Nota do Marco: com o aniversário das pequenas chegando e pra celebrar o dia das mães da minha mulher, quero compartilhar com essa comunidade nossa própria "história de fantasma" que a gente viveu e que, curiosamente, o passar dos anos quase apagou como uma lembrança nebulosa. Meu caro leitor, esse relato quase não tem o conteúdo erótico que você provavelmente procura, e também é possível que não acredite no que tá escrito. Mas pra nós, eu, minha esposa e nossas filhas, foi algo que aconteceu e deixou "magia" como prova disso…)

Acho que tudo começou quando as pequenas tinham uns 4 anos e a gente morava em Adelaide. Eu ia ler uma história pra elas dormirem, mas a Verito tava enfiada debaixo da cama, porque um bichinho de pelúcia tinha caído, e me chamou a atenção que elas não tinham pedido ajuda e também não tinham medo nem de monstros nem do escuro naquela idade.
PdB 76 Ally❤️Papi, é que a sua luz azul dá nojo nos monstros. – me explicou a Pamelita, naturalmente.

-Nojo? – perguntei, confuso, sem entender que luz era aquela.

•Sim, papi. Você tem uma luz azul que dá "eca" nos monstros. – continuou a Verito, mostrando a língua. – Igual beterraba.

Me deu risada, porque naquela época era um parto fazer as meninas comerem beterraba. Segundo elas, eu tinha um brilho azul em volta do corpo todo que, à noite, espantava os monstros e as sombras.

-E como vocês fazem quando eu não tô? Quando tô trabalhando na cutie? – perguntei, cobrindo elas com os cobertores.

Naquela época, eu trabalhava em turnos de 7 por 7 em Broken Hill, porque a Marisol tava terminando os estudos pra virar professora.

•É que você coloca sua luz na barriga da Liz. – respondeu a Verito, tocando a barriga. – E a mamãe, todos os monstros têm medo da mamãe.

As palavras dela me deixaram gelado. Naquela época, nossa babá Liz morava com a gente e a gente já transava sem camisinha, eu gozando dentro dela.

Uns meses depois, a gente se mudou pra cá, pra Melbourne, pro apartamento que a empresa deu. Finalmente aceitei a promoção que a Sonia tinha oferecido e a gente se mudou em família. Ainda não sei como a Sonia fez, mas não demorou pra Marisol conseguir um cargo na mesma academia de moças onde ela trabalha hoje.

Nosso apartamento era moderno, nos andares de cima, com uma vista foda do centro da cidade. Nossa primeira noite foi épica, porque a Marisol tava encantada com a paisagem, chamando o lugar de "a mansão entre os céus", e por causa dos gemidos gostosos dela de prazer, a gente acabou conhecendo a Sarah e a Brenda, quando tive que me desculpar na manhã seguinte.
esposaO apartamento tinha uma energia especial. Por algum motivo estranho, a Marisol tava mais brincalhona do que o normal. Ficava fazendo cócegas em mim e nas pequenas, brincando de esconder e, no fundo, voltando a ser criança.

Mas não demorou muito pra as coisas estranhas começarem a rolar.

No começo, era algo sutil. Quando eu ficava trabalhando no escritório de casa à noite, via a silhueta de uma menina de capuz branco me encarando do corredor. Nas primeiras vezes, achei que eram as gêmeas, mas essa menina era mais alta. E quando eu saía pra correr atrás, ela sumia.
maeComo vocês podem imaginar, eu estava intrigado com o nosso próprio fantasma e, com o tempo, me acostumei com a presença dele. Até criei o hábito de explicar em voz alta o que estava fazendo, já que muitas vezes me sentia observado quando trabalhava até tarde.

Foi então que apareceu a amiga imaginária das meninas: Ally.

As meninas estavam prestes a completar cinco anos e Bastián tinha alguns meses. Mas, segundo elas, Ally tinha seis anos, mais velha que elas, mas mais nova que um adulto. No começo, eu e Marisol achávamos que era só uma fantasia compartilhada. Mas as meninas começaram a se comportar de um jeito estranho. Às vezes, pegávamos uma ou as duas conversando com o ar.

Também, do nada, começaram a arrumar a mesa do almoço perfeitamente, sem que eu ou Marisol tivéssemos ensinado. Quando perguntamos quem tinha ensinado, elas responderam que foi Ally, que a mãe dela tinha ensinado antes de ir embora.

Pelo que as meninas começaram a me contar, Ally adorava que eu contasse histórias para dormir, as cores da tela do meu computador quando eu trabalhava, e a brincadeira de correr atrás dela quando eu a pegava me espionando a fazia rir. Mas também gostava do canto da Marisol quando ela achava que ninguém estava ouvindo, e compartilhava a obsessão dela por Sailor Moon, sendo a favorita a Sailor Jupiter, igualzinho à minha esposa.

Foi aí que comecei a acreditar que Ally era uma entidade real. E as meninas começaram a desenhá-la, aparecendo aquela figura encapuzada que eu via brincando com elas, que, como eu já tinha notado, era mais alta que elas, mas mais baixa que eu e a Marisol.
infidelidade consentidaEventualmente, perguntei se a Ally ia com elas pra escola, e elas responderam que ela não podia sair do apartamento, porque se perdia no caminho.

Talvez o que mais me deixou desconcertado foi as meninas me falarem que a Ally dormia no quartinho da lavanderia.

• A Ally não se incomoda quando você e a mamãe brincam lá, tirando a roupa. – comentou a Veritinha com toda naturalidade, mesmo a gente tentando ser discreto na frente delas.
SobrenaturalMas tinha algo naquele aviso amarelo do lado da secadora que apertava minha garganta. Era o típico aviso preventivo contra má ventilação e acúmulo de monóxido de carbono…

Com o passar dos meses, Ally não parecia algo maligno. Pelo contrário, as meninas a tratavam como uma espécie de irmã mais velha e eram mais felizes. Até sentiam falta dela quando a gente precisava fazer viagens longas para fora do país.

E então, Ally se tornou real.

Era meados de julho. As chaves do carro da Marisol têm, além do alarme, uma figurinha da Sailor Jupiter. Naquele dia, o George, o zelador do prédio, me ligou dizendo que precisava tirar o carro da Marisol do estacionamento subterrâneo por causa de uma enchente, mas eu não conseguia achar as chaves.

Perguntei pras pequenas se tinham visto, mas elas não sabiam de nada. Até que a Verito se levanta do sofá e chama a amiga imaginária:

— Ei, Ally! O papai precisa da luz “bip-bip” da mamãe!

Ouvi um barulho atrás de mim… e as chaves apareceram em cima do móvel da cozinha. A figurinha ainda balançando, como se alguém tivesse largado ali e saído correndo. As meninas nem pareciam perturbadas. Eu fiquei paralisado.
PdB 76 AllyQuando contei pra Marisol, ela achou que eu tava exagerando e brincando com ela. Durante todo aquele tempo, Marisol não viu nem sentiu nada.

Até que chegou a noite que mudou tudo pra nós.

Era final de novembro. Marisol e eu estávamos sentados na mesa, corrigindo os trabalhos das alunas dela. Já era tarde e eu queria que minha esposa fosse dormir comigo logo, quando, de repente, ouvimos o barulho de passinhos descalços.

As pequenas vinham de pijama, com olhinhos tristes e quase chorando.

❤️Papai. – começou a falar a Pamelita. – Queremos te pedir um favor. A gente sabe que você quer ter um filhinho. Mas a Ally diz que já tem crianças fazendo fila dentro da barriga da mamãe pra ser nosso irmão, e a gente quer que ela seja nossa irmã.

Elas nos deixaram sem palavras. Nunca falei pra elas que queria ter um filho, embora talvez, ao me ver empolgado com o Bastião, tenham pensado que era isso.

Mas na Marisol, pegou mais forte: ela não tinha percebido que não menstruava há dois meses. Também não tinha me contado.

Ao ouvir aquilo, o que minhas filhas diziam fez mais sentido: com dois meses de gravidez, os fetos definem o sexo.

E então, a Verito falou, com uma voz suave e sincera.

•Papai, a Ally promete que vai se comportar dessa vez. Ela quer que você também leia histórias pra ela e veja TV com a mamãe. Diz que agora ela vai ser obediente. Ela promete que não vai mais se esconder no quarto de lavar e que sempre vai tentar acordar.

Essas palavras acabaram comigo, porque tudo se encaixou: o aviso do monóxido de carbono, a estranha menina de capuz…

Na minha mente, vi a menina de capuz brincando de esconde-esconde com a mãe. Ouvi uma chamada de telefone. Vi a porta do quarto de lavar se abrir e o enorme aviso amarelo, ameaçador, pressagiando o triste desfecho…

Não consegui evitar de chorar. Marisol nos olhava apavorada, se sentindo encurralada pelas nossas filhas.

❤️Por favor, mamãe! – Ela suplicou. Pamelita, olhando pra ela quase chorando de tristeza. – A gente nem quer nossos presentes de Natal. A gente quer que a Ally seja nossa irmã.

Marisol olhou pra mim, tentando buscar ajuda, mas naquela hora, eu não podia apoiar ela. Ela passou a mão na barriga, tentando proteger ela de nós.

+Desculpa, meninas. Mas eu não conheço ela. – respondeu Marisol com medo.

E não deve ter passado mais de duas noites até a Marisol ter um sonho estranho.

Nele, minha esposa estava num lugar entre as nuvens. De repente, uma menininha com um capuz branco aparece correndo na frente dela.

Marisol congelou quando viu ela.

A menina parou a alguns passos na frente dela e levantou a cabeça, como se reconhecesse minha esposa. Ela se virou e tirou o capuz.
esposaUma cabeleira dourada, longa e radiante, emoldurava o rosto de porcelana da garota mais linda que Marisol já tinha visto. Os olhos dela, imensos e azuis, da cor do céu limpo no verão, cravaram-se na minha esposa. O sorriso dela, com lábios vermelhos como morangos, recebeu minha esposa com benevolência. Minha esposa diz que a garota nunca falou com ela, mas claramente, ela ouviu um nome:

ALLYSON

O nome ecoou no meu rouxinol. Ela não sabia de onde veio, mas Marisol descreveu como uma sabedoria espiritual. Intrínseca. Um nome ao qual ela nunca tinha prestado atenção. Mas que, naqueles momentos em que o conhecia, fazia todo o sentido.

Então, o sorriso da garota ficou mais alegre, levantando uma mão sobre a cabeça; a outra, colocando-a em volta da cintura, uma pose que Marisol conhecia de cor.
maeSailor Jupiter.

E a Marisol disse que sentiu algo entre elas. Uma sensação parecida com corrente elétrica e primavera. Uma promessa de força, carinho e lealdade. A última coisa que ela lembra foi que a menina sorria feliz pra ela. Orgulhosa. Esperando…

Implorando.

E finalmente, Marisol entendeu.

Na manhã seguinte, a primeira palavra dela ao ouvir minha esposa chorando emocionada foi “Allyson” e ela me disse que estava tudo bem. Que aceitava. Que as meninas tinham razão. Ela me contou sobre o sonho, o que sentiu nele e a decisão que tinha tomado.

Eu fiquei perplexo. Contei pras meninas, mas pelo visto, elas já sabiam de antemão.

• A Ally tá dormindo na barriga da mamãe. – explicou a Verito, naturalmente.

Mas eu ainda me sentia inquieto. Eu e a Marisol não somos devotos fervorosos, minha esposa foi criada na igreja católica, eu na evangélica. Não acreditávamos em reencarnação. Mas mesmo assim, concordamos em chamar nossa filha de Alicia, em homenagem ao nome de uma tia querida da minha mãe, em vez de Allyson. No fundo, pensamos que queríamos dar a ela uma nova vida, mas sem carregar a sombra da anterior.

Por minha conta, tentei procurar nos registros o nome de uma menina chamada Allyson que tivesse morrido no nosso apartamento trinta anos atrás (mais ou menos na época em que Sailor Moon estreou pela primeira vez), mas não encontrei nada. O George tentou me ajudar, mas ele começou a trabalhar em 2007 e também não tinha como acessar a informação que eu procurava.

No começo, as meninas corriam pra falar com a barriga da mãe, contando animadamente o dia a dia da vida delas. Mas conforme a gravidez avançou, as meninas pararam de fazer isso. Elas explicaram que agora a Ally dormia muito, se preparando pra nascer. Foi por isso que, quando chegou o parto, as pequenas se decepcionaram.

❤️ Agora ela é só um bebê. – exclamou a Pamelita, frustrada, ao ver a irmã nova pela primeira vez. Nem consegue falar com a gente.

Mas com o tempo, foram aceitando ela. Elas assumiram o papel de irmãs mais velhas na perfeição e a integraram super bem na vida delas, compartilhando com ela e respeitando ela, mas estranhamente esquecendo que um dia tiveram uma amiga imaginária. Com o tempo, nossa “Alice mágica” se apegou mais à Marisol do que a mim, virando tão fã de anime e fantasia quanto minha esposa, sendo Sailor Moon o anime favorito dela e admirando a mãe e a si mesma por se parecerem tanto com a heroína favorita, Sailor Jupiter.

Então agora, Alice é nossa filha “mágica”.

Ou talvez… sempre tenha sido.

Feliz Dia das Mães 2025 e muito obrigado por ler isso!
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1 comentários - PdB 76 Ally

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