Meus anos perdidos - Parte 1

(Esta história contém temas de bullying, abuso e drogas. Se algum desses temas te incomoda, recomendo que nem leia.) ------------------------------ O que vou contar começou lá por 2002, quando na Argentina ainda sofríamos as consequências da grande crise econômica de 2001, da qual levamos vários anos para sair e nos estabilizar um pouco. Meu nome é Sara. Hoje tenho 38 anos, mas naquela época eu tinha só 16. Minha infância foi normal até os 10 anos, quando meu pai morreu, de repente, de um ataque cardíaco. Ele já era um homem bem mais velho, eu era a caçula de 3 irmãos e ele tinha me tido já bem tarde. Minha mãe era bem mais nova que ele. Eu era a mais nova de longe, meu irmão mais próximo tinha 11 anos a mais que eu e o outro 16. Nunca soube e ninguém me disse se eu tinha nascido planejada ou não, mas pela diferença de idade e certas coisas que fui descobrindo quando fiquei mais velha, tudo indicava que não. Que eu tinha sido um feliz acidente. Meu pai era católico, mas minha mãe é judia, assim como o resto da família dela, então o casamento dela com meu pai nunca foi bem visto pela família dela. A relação da família da minha mãe com a gente, no melhor dos casos, era nos ignorar ou nos cumprimentar por obrigação, mas todos sabíamos que não caíamos bem para ninguém daquele lado da família, por causa do que minha mãe tinha feito. Papai não tinha problema com a questão da religião, deixou minha mãe decidir, então ela fez a gente, meus irmãos e eu, virar judeu numa tentativa de amenizar as coisas com a família dela, mas não adiantou nada. Inclusive depois que papai morreu, a família da minha mãe aproveitou a oportunidade de ele não estar mais presente para deixar a relação ainda mais tensa, deixando ela praticamente sozinha socialmente, sem contato com eles. Quando papai morreu, claro que doeu. Eu tinha uma boa relação com ele, por ser a única filha mulher e sei que ele me amava muito. Fiquei naquele ano, a verdade é que foi muito triste e sinto muita falta dele. Mas pra minha mãe foi muito pior. Acho que entre a ausência súbita do meu pai na vida dela, de repente se vendo tendo que criar dois filhos sozinha, mais o inferno e a falta de ajuda que vinha da família dela, ela se sentiu muito sozinha e começou a ter comportamentos bem feios.

Meus irmãos já eram grandes, o mais velho nem morava mais em casa, então não precisavam de muitos cuidados da parte dela, mas eu tinha só dez anos e via minha mãe se afastando cada vez mais de mim, me ignorando quando eu mais precisava dela. Ela tinha começado a beber pra aguentar melhor a depressão, tinha mudanças de humor muito violentas e tinha começado a sair algumas noites, me deixando e ao meu irmão sozinhos em casa. Ela nunca nos dizia pra onde ia, mas meu irmão já era grande o suficiente pra perceber. Embora minha mãe nunca tenha trazido homem pra casa, meu irmão uma vez já tinha me avisado pra não me surpreender se um dia eu visse algum cara que eu não conhecia em casa.

Aos meus doze anos, quando eu já tinha processado a morte do meu pai e acabado de me adaptar à nova realidade, parecia que a vida tinha jurado vingança contra mim ou algo assim. Pelo menos foi o que eu senti naquele momento. Nesses anos, minha puberdade tinha começado e meu corpo começou a se desenvolver. Quando eu mais precisava da minha mãe pra me guiar e me apoiar, ela às vezes estava, às vezes não, e quando estava, às vezes era como se não estivesse. Eu me sentia totalmente sozinha e abandonada, nem tinha amigas pra conversar e pelo menos me ouvirem.

O pior veio quando eu já tinha 15 anos, já no final do meu processo de puberdade. Eu sempre tinha sido uma menina normal. Nem muito alta nem muito baixa, nem muito magra nem muito gorda, mas a puberdade me pegou muito mal todos esses anos. Enquanto o resto das minhas colegas de classe, algumas mais cedo e outras mais tarde, ganhavam corpos bonitos e normais, eu comecei a engordar, o que me deprimiu ainda mais. Se eu não comia ou se eu tentasse comer saudável, era a mesma coisa.
Já aos 15, embora não tivesse ficado obesa nem nada disso, eu me destacava muito das outras garotas por ser bem cheinha em todos os lugares. Eu me olhava no espelho sozinha no meu quarto e nua, e me sentia horrível. Praticamente não tinha cintura. Meus flancos não tinham nenhuma curva, como duas linhas que desciam das axilas até os quadris. Parecia uma geladeira, meu tronco tinha esse formato. Pra piorar, minhas proporções também não eram das melhores. Por sorte, não tinha saído com uma bunda enorme como acontece com mulheres obesas, por sorte isso não tinha rolado, mas por outro lado também não tinha ficado com uma raba muito bonita. Era só uma bunda normal, que contrastava de um jeito ruim com o resto do meu corpo de gordinha. Pra completar, já tinha uma barriga bem visível. Não pendia de forma desagradável nem nada assim, mas eu sabia que era questão de tempo pra isso acontecer.
E além disso tinha outra coisa. Eu sei que quando contar isso, muita gente vai rir. Podem rir, já não ligo mais, mas é a pura verdade. Tinha outro problema, o problema principal, que era meus peitos terem crescido muito e ficado absolutamente enormes. Muita gente, principalmente os homens, vai me dizer que isso não era problema, e vai rir. Mas garanto que é. Eu tinha virado uma gordinha peituda. Muito peituda. O tamanho dos meus peitos não combinava com nada do resto das dimensões do meu corpo. Eu me olhava no espelho e me achava deformada. E nem eram peitos firmes, porque com aquele tamanho não tinha como serem firmes. Eram pesadíssimos, grandes e macios. Eu tinha que usar sutiã obrigatoriamente, o tempo todo, senão era quase grotesco pra mim como eles pendiam e balançavam.
Por sorte, em meio a tanta bad, pelo menos minha carinha tinha ficado bem parecida e a gordura que tinha invadido meu corpo lentamente enquanto eu crescia, até aquele momento, não tinha se depositado no meu rosto. Assim pelo menos uma boa eu tinha. Nem preciso dizer que eu não estava nada feliz com meu corpo. Aliás, essa infelicidade que eu sentia comigo mesma foi o estopim da depressão que tive durante aquele ano inteiro, aos meus 15.
Meus anos perdidos - Parte 1Outras minas da minha idade, talvez na mesma situação que eu, poderiam buscar sei lá, refúgio, ou pelo menos compreensão e apoio na família ou nas amigas. Mas a minha família, graças ao estado de abandono que a minha mãe vivia com ela mesma e com a gente, nem existia. E das minhas amigas, melhor nem falar. Primeiro porque eu não tinha nenhuma. E segundo porque as minhas colegas de classe na escola estavam mais preocupadas em me zoar, me ignorar, me deixar sozinha e até me xingar e fazer bullying do que em querer criar uma amizade comigo.

A maioria das minas, eu pensava, quando deitavam à noite, sonhavam em viajar, em ter uma festa de quinze anos, em achar um cara gato e ficar de namorada. Eu dormia chorando em silêncio, pedindo a Deus só que me desse uma amiga. Só pedia isso e nunca me foi dado.

Na escola, claro, na maior parte do tempo me ignoravam e, nas vezes que me davam um pouco de atenção, era só pra me zoar. Não só as minas da sala, os caras também entravam na onda às vezes. Se não era pela minha gordura, era pelas minhas tetas enormes, ou porque eu era judia, ou qualquer combinação das três que eles inventassem. Às vezes nem isso. Às vezes bastava a burrice mais idiota, tipo chegar uma manhã na escola com umas meias de cor estranha, pra começar as zoeiras. Uma vez, não sei quem foi, com uma faca, uma chave de fenda ou sei lá o quê, raspou e gravou na minha carteira "GTJDM". Queria dizer "Gorda Tetuda Judia de Merda". E o ano inteiro eu tive que assistir aula com aquilo na minha frente, toda vez que eu baixava a vista pra escrever alguma coisa.

Às vezes, claro, chegava num ponto que eu não aguentava mais e acabava brigando com alguma das minhas colegas. Mas isso no final era pior, porque inevitavelmente naquele dia, ou em algum dia depois, as minhas colegas me pegavam no banheiro e me batiam ou puxavam meu cabelo em grupo. As princesinhas, as filhinhas do papai que não podiam fazer nada de errado. Chegaram até a juntar água dos vasos sanitários com um copo de plástico e despejavam na minha cabeça. Elas eram muitas, eu era só uma.
Talvez alguém pense que por causa do tamanho dos meus peitos teria sido mais fácil arrumar um namorado, mas não foi assim. Percebi logo que a forma do meu corpo e minhas proporções não atraíam os outros garotos de forma sexual, me viam mais como uma curiosidade. Tinha vários colegas que eram bons e nunca entravam na onda de abusar de mim, nunca disse que todos faziam isso, e com eles às vezes eu conseguia conversar e a gente se dava bem até que razoavelmente, mas ficou claríssimo desde o primeiro dia que mesmo com eles não ia rolar nada. Simplesmente não me viam como uma garota atraente, além do tamanho descomunal dos meus peitos. E também achava que se eu chegasse a interessar algum, esse garoto não ia ter coragem de me falar nada pra não ser zoado também por ficar comigo. Um namorado na minha sala eu não ia arrumar, e não tinha outras atividades fora da escola pra conhecer alguém.
Acho que aquele ano, desde que fiz 15 até os 16, foi o ano em que mais chorei na minha vida. Chorei mais do que todos os anos anteriores juntos. E nunca me senti tão mal, tão abandonada pela sorte, pela vida e por todo mundo.
Quando fiz 16 foi que decidi que não aguentava mais. Decidi sair de casa. Não me perguntem por quê. Na real, em casa, apesar da ausência da minha mãe, era onde eu ficava mais confortável, até que. Mas naquele verão decidi que não ia voltar mais pra escola e, já que tava nessa, também não queria mais morar ali. Loucura de uma garota deprimida e desesperada, mas naquele momento não parecia assim. Na verdade, parecia a decisão mais lógica. Tava cansada de lutar em silêncio o tempo todo.
Lutar com minhas colegas, lutar contra a solidão, contra meu próprio corpo, contra a ausência da minha mãe… Eram muitos inimigos e eu tava sozinha. O melhor era me render e tentar começar outra vida em outro lugar, do zero, onde ninguém me conhecesse e eu pudesse recomeçar, e fazer direito. Ao longo de vários dias fui juntando coragem e montei devagarzinho uma bolsa com o que achava que ia precisar. Um dinheiro guardado em espécie eu tinha e, por mais vergonha que me dê admitir, sabia onde mamãe guardava grana e tirei dela também.

Uma tarde, finalmente, estava sozinha em casa. Meu irmão tinha ido pro litoral com os amigos uns dias e minha mãe tinha saído, vai saber com quem e a que horas voltaria. Me sentei na mesa da cozinha e, chorando o tempo todo, escrevi uma carta pra deixar pra ela. Dizendo que eu tava indo embora, que não se preocupasse, que não me procurasse, que era melhor assim. Queria recomeçar em outro lugar. Que eu ia ficar bem e que ia manter contato, mas que por favor não me procurasse. Enxugando as lágrimas, deixei a carta na mesa pra ela ver quando chegasse, peguei minha bolsa e fui embora.

Realmente não tinha nenhum plano. Tinha ideias vagas do que queria fazer, mas nenhum plano. Pensei em passar a noite numa pensão ou algo assim, pra noite não me pegar na rua. Fui em duas que tinha anotado os endereços. Uma já não existia mais, tinha fechado, e na outra o porteiro não quis me dar um quarto porque eu era menor de idade. Quando saí na rua de novo com minha bolsa, já tava me dando um certo medo toda essa aventura ridícula. Tava escurecendo e eu não tinha onde parar. Depois de uns minutos pensando, o medo foi mais forte e decidi voltar pra casa. Provavelmente mamãe ainda não tinha chegado, eu podia pegar a carta, esperar ela chegar e aqui não tinha acontecido nada. Prepararia minha saída de casa mais tarde, melhor e com mais tempo.

Mas caminhando de volta pra casa, a noite caía rápido e, de novo por pura indecisão, comecei a me animar e pensar que não podia ser que eu desistisse tão fácil. Não podia me render tão cedo, diante do primeiro contratempo, e voltar pra casa com a bunda entre as pernas.

Por acaso, já que eu não tinha planejado o trajeto, a poucas quadras da minha casa passei na frente de uma casa abandonada. Era uma casa velhíssima que na época dela devia ter sido linda, mas já estava toda arruinada. No seu tempo devia ter um jardimzinho bonito na frente e nos fundos, mas agora estava tudo com o mato alto e cheio de sacolas e o que pareciam entulhos espalhados por todo lado. As janelas que dava pra ver da frente estavam todas tampadas com chapas e madeiras. Me deu uma sensação muito estranha estar parada ali na frente daquela casa. Eu a conhecia por ter visto várias vezes, de morar ali no bairro. Alguns diziam que estava completamente abandonada e que alguém em algum momento ia comprar o terreno, demolir e fazer um prédio de apartamentos. Outros diziam que ali vendiam droga. Fosse o que fosse, não era lugar pra ficar. Nem pra entrar.

Engolindo meu medo, decidi pelo menos tentar. Era uma casa abandonada, só isso. Estaria suja, teria bichos ou algo assim, mas dava pra passar a noite ali e pelo menos dizer que fiz isso. Chegar em casa amanhã e saber que tinha assustado a mamãe, talvez o suficiente pra ela mudar um pouco as atitudes dela.

Abri a porta da frente sem problema e timidamente atravessei o jardimzinho, com cuidado pra não pisar em nada, já que quase não dava pra ver por onde eu andava. Testei a porta pesada de metal da casa e ela abriu com um rangido suave. Isso também me pareceu estranho. Pensei que se a casa estava abandonada, alguém teria posto corrente e cadeado, ou algo assim, pra ninguém entrar. Bem devagarinho entrei e fechei a porta de novo atrás de mim.

Dentro estava exatamente como eu esperava. Tudo depredado, entulho e poeira por todo lado. Lixo, dentro e fora de sacolas, pedaços de móveis… tudo o que uma pessoa podia imaginar de uma casa naquele estado estava ali. Além de um cheiro de maconha muito forte que encheu meu olfato assim que entrei. De fora nem dava pra sentir, mas dentro estava muito presente. Caminhando bem devagar e desviando dos obstáculos na penumbra, fui entrando porque vi uma luz que vinha de um dos cômodos mais adiante. Claro que eu tava com medo, mas pensava que podia dar uma espiada e, se visse algo que não me agradasse, podia sair correndo de volta pra rua numa boa.

A luz vinha do que teria sido a sala da casa e, ao esticar a cabeça e espiar pela abertura, quase dei de cara com ele. Acho que nós dois nos assustamos um com o outro ao mesmo tempo. Na minha frente, me olhando com um certo espanto, tinha um cara magrelo, com cara de vagabundo ou de mendigo, todo despenteado e desleixado. Dava pra ver os músculos marcados, fibroso, mas magérrimo, todo ressecado. Na real, uma cara de drogado de matar. Mas não vi ele agressivo nem nada disso. Me pareceu que ele tava tão surpreso quanto eu de ver alguém ali. Mesmo assim, eu não queria saber de ficar com um cara num lugar abandonado, e muito menos passar a noite ali.

"Uh... uh, desculpa... me desculpa...", consegui dizer, me afastando uns passos por precaução. O cara não veio pra cima de mim nem nada, só ficou me olhando.
"Ei... quem é você? Como você entrou?", ele perguntou.
"... pela porta... tava aberta, me desculpa, já vou indo. Pensei que não tinha ninguém...", falei e me virei pra sair.
"Pera... pera... quem é você? Veio comprar?", ele perguntou.

Eu olhei pra ele sem entender, "Quê? Não... sério, pensei que não tinha ninguém... não quis te incomodar, desculpa, já vou."
O cara sorriu e me olhou com doçura, pareceu relaxar um pouco e que o susto de me ver ali tinha passado, "Nah, pera, doida... tá tudo bem, eu. Pensei que você tinha vindo comprar... tá tudo certo."
"Não... comprar? O quê, droga?", perguntei. O cara sorriu e assentiu, "Ah, não, nada a ver. Tava procurando um lugar pra ficar."
"Pra ficar de verdade?", ele perguntou.
"É, pra passar a noite", falei, "Mas sério, não quis te incomodar nem te assustar, me desculpa."
"Nah, tá tudo bem", ele sorriu, "Fica à vontade, pode ficar. sem drama. Lugar tem.”
Eu olhei pra ele com calma e não me passou má vibração nem nada disso. Apesar da aparência, ele tinha uma voz suave. Me acalmou bastante sentir que pelo menos esse não era um cara ruim que ia me fazer alguma coisa. É, eu sei, eram só aparências e eu lá sabia de verdade… mas era isso que eu sentia naquele momento. Ele parecia simpático e com um pouco de boa energia.

“Não te incomoda se eu ficar?”, perguntei
“Nah, de jeito nenhum. Se isso aqui não é meu…”, ele riu, “Qualquer um pode ficar.”
“Ah… ok. Você tá sozinho? Tem mais alguém?”
“Nah, só eu”, ele me disse e se mexeu um pouco, me convidando a entrar na sala abandonada da casa. Ele tinha montado uma cama com uns colchões sujos, tinha cadeiras dobráveis e uma mesinha bem acabada como mobília, e tinha uma lanterna jogada no chão que dava uma luz. Claro que a sala tava suja e cheia de entulho pra todo lado, mas o cara tinha mexido e limpo um pouco pra fazer o espaço dele.

Eu sentei no chão, um pouco afastada de onde ele sentou. Vi ele acender um baseado e me olhar. Enquanto eu deixava minha bolsa no chão, ouvi ele me perguntar: “O que rolou? Você saiu de casa?”
“É”, falei com um suspiro, “Mas é só por hoje, amanhã eu volto com certeza…”
“Ah, que merda, mano. Tudo errado em casa?”, eu assenti em silêncio e continuei arrumando um pouco minhas coisas na bolsa, “Bom, tranquilo. E fica de boa que eu não vou te fazer nada. Não sou desses, tá tudo certo.”, ele riu.
Eu sorri pra ele, a verdade é que eu não me sentia ameaçada de jeito nenhum. Apesar da estranheza da situação e da companhia, eu tava até melhor do que imaginava, “Valeu… é, tudo bem. Eu também não vou te encher o saco. Você faz o teu aí tranquilo.”
“Tá bom, você me faz companhia, ótimo…”, ele sorriu pra mim, “Eu me chamo Mariano, e você?”
“Sara”, falei com um sorriso
“Fechou Sara, muito bom. Você me faz companhia hoje, senão eu fico sozinho que nem um cachorro”, ele riu e deu uma boa tragada no baseado, depois me oferecendo, “Quer um pouquinho?”

Eu olhei pra ele e o Hesitei um pouco. Já tinha experimentado fumar maconha no ano passado, uma vez. Não era por isso. Me dava um certo receio de ficar chapada naquela situação, sozinha com o cara. Finalmente sorri pra ele e disse que sim. Me aproximei e dei umas boas tragadas no baseado dele. Pra ser sincera, era bem forte, nada a ver com o que eu tinha experimentado.

E assim ficamos os dois sentados. Compartilhando primeiro um e depois outro baseado. Conversando sobre tudo, sobre nós e sobre a vida. Papo de maconha. Em um momento eu procurei na minha bolsa e tirei um pacote de bolachas doces que tinha, que também dividimos enquanto fumávamos. À luz de uma lanterna, na sala empoeirada de uma casa abandonada. Com ele eu consegui me abrir e contar tudo o que estava acontecendo comigo. Acho que entre o quanto os baseados me fizeram sentir bem e o fato de eu não conhecê-lo, de que pra mim ele era um total estranho, me encorajou a me abrir e contar as coisas que estavam rolando comigo. Me fez bem poder falar com alguém, por mais incomum que fosse a companhia e o ambiente. Me fez muito bem.

Depois ele me contou sobre a vida dele. Mariano era de Miramar, tinha nascido lá, e tinha 32 anos. Pra ser sincera, não parecia, parecia muito mais novo. Na época ele largou a escola e veio pra Buenos Aires aos 18. Teve dez mil empregos de todo tipo até que no fim a crise pegou ele e deixou ele na rua. Começou a vender e a usar drogas. De todo tipo, o que conseguia, de uns caras de Lugano e de Soldati que vendiam pra ele. Ele revendia e já tinha alguns clientes fixos. Com isso tirava uma grana. Gostava de parar nessa casa, me disse, porque ninguém enchia o saco dele e ninguém ficava sabendo que ele tava ali. Ele não incomodava nenhum vizinho. Não saía na rua pra roubar ou catar lixo. Se saía pra pedir às vezes na rua ou no metrô, ou em comércios e casas. Mas ele não era ladrão. Saía quando não tinha vendas dos produtos dele e precisava de dinheiro.

Gostei muito dele de cara. Claro que naquele momento eu não via todos os sinais e todos os comportamentos do Mariano, que em qualquer outra pessoa teriam ligado alarmes na minha cabeça. Eu estava em outra e não percebia. Qualquer coisa que me faria desconfiar do Mariano, eu subconscientemente deixava de lado, por estar tão feliz de ter feito um amigo e ter alguém com quem conversar. Alguém que me ouvia de verdade e não me chamava de gorda, nem de peituda, nem de judia, nem nada disso. Pelo contrário, quanto mais eu falava com ele e mais a gente se entrosava naquela noite, mais eu sentia uma energia boa, e achava que era recíproco. Ele também curtia muito poder conversar com alguém que não o via imediatamente como um vagabundo ou um viciado, mesmo ele reconhecendo que tinha muitos problemas de dependência.

A gente conversou por horas, se conhecendo, até que finalmente bateu o cansaço e eu vi que já era umas doze da noite. Falei pro Mariano que ia dormir, mas claro que eu não tinha levado nada pra montar uma cama. Meu plano original era ir pra uma pensão e eu não tinha pensado na possibilidade de não achar uma. Quando ele me viu suspirar e montar uma espécie de cama improvisada com minhas roupas pra não dormir no chão, ele riu. Foi até a cama dele e deslizou um dos dois colchões empilhados que usava pra me dar um. Meu coração se partiu de tanta doçura quando ele fez isso. O cara que não tinha nada pra dar, mesmo assim me dava um dos colchões dele. O viciado que todo mundo e a sociedade viravam a cara era o único que me tratou como pessoa e me fez sentir bem depois de tanto tempo.

Agradeci com um sorriso e me deitei no meu lugar, longe do colchão dele, me cobrindo com um cobertor que eu tinha trazido. Ele logo fez o mesmo, deitando no dele e apagando a lanterna. Ele apagou na hora, eu percebi, mas eu demorei um tempão pra pegar no sono. Mesmo relaxada por causa dos baseados que a gente tinha dividido, eu sentia muita falta da minha cama e da minha casa. Devo ter ficado umas duas horas, e finalmente estava me... dormindo quando, na escuridão total daquela sala abandonada, sem ver nada, ouvi o Mariano que tinha acordado e estava se masturbando sem fazer quase nenhum barulho debaixo do cobertor. Ele devia ter achado que eu já estava dormindo e se animou. Por sorte não durou muito, finalmente ouvi ele gozar e gemer bem baixinho no orgasmo, virar de lado e voltar a dormir. Ter ouvido aquilo me deixou com um tesão danado, tenho que admitir. Eu também tive que levar discretamente os dedos entre as pernas e, assim que me certifiquei de que ele tinha pegado no sono de novo, me aliviei sozinha.

Claro que imaginei a fantasia mais óbvia, que durante a noite o Mariano acordava de novo e, em vez de se masturbar, vinha até o meu colchão e me abraçava, me beijava e finalmente me dava a foda que nenhum homem tinha me dado nunca. E eu deixava, encantada de finalmente receber o prazer que um homem me dava, pela primeira vez na vida.

No dia seguinte acordamos de manhã e tomamos café com as bolachinhas que tinham sobrado da noite e um suco de maçã que o Mariano tinha. Ficamos conversando. Eu já poderia perfeitamente ter pegado minhas coisas, agradecido por ele ter me tratado tão bem e ido embora seguir meu plano, mas não fiz isso. Não me perguntem por quê, mas eu não sentia vontade de ir. Falei isso pro Mariano e ele sorriu, dizendo que não se importava que eu ficasse. Que ele gostava muito da minha companhia e que na noite anterior tinha se divertido pra caralho. Não sei se ele tava falando da nossa conversa ou de ter se imaginado me comendo enquanto se masturbava, mas a situação da noite anterior foi tão óbvia que talvez ele tivesse pensado a mesma coisa que eu.

Ficamos à toa a manhã inteira naquela casa abandonada. Eu tava com medo de sair na rua por causa da minha mãe ter chamado a polícia ou algo assim e estarem me procurando, sem saber que eu tava tão perto de casa. Um medo idiota, eu sei, mas era o que eu pensava. Naquela época pouca gente tinha celular, eu não tinha. tinha, então não tinha como minha mãe me ligar pra saber onde eu tava. Fiquei com pena dela, mas juntei força interior e me disse que era isso que eu tinha decidido fazer.

Mariano me sorriu e falou que entendia, que se eu quisesse podia ficar ali dentro porque ninguém ia saber de fora que eu tava ali. À tarde ele tinha que ir buscar droga em Lugano pra trazer e vender, mas queria que eu ficasse lá. Me disse que se eu quisesse aproveitar que ele não ia estar e me lavar, que ele juntava água da chuva num tambor grande no quintal dos fundos, que eu não tivesse vergonha e usasse pra me lavar. Agradeci e falei que ia fazer.

Quando Mariano foi embora, fiquei sozinha ali e comecei a explorar a casa. Era bem grande, devia ter sido uma casa bonita na época dela. Claro que tava toda caindo aos pedaços e não vi nada fora do comum que dava pra ver numa casa abandonada. Todos os cômodos estavam destruídos, empoeirados e cheios de lixo e coisas. Decidi que enquanto Mariano não tava, o mínimo que eu podia fazer pra agradecer a boa vibe dele ontem à noite era limpar um pouco a sala, já que ele aparentemente não fazia isso. Achei uma vassoura na cozinha e varri o chão todo, depois tirei todos os entulhos e lixo que tinha na sala e levei pra outro cômodo. Pelo menos pra não ficarem ali.

Quando terminei, mesmo não sendo grande coisa, a diferença era visível. Fui me lavar com a água da chuva que o Mariano tinha falado e com um sabão que ele tinha conseguido e deixado lá. Me senti um pouco melhor, apesar da água estar bem fria. Pelo menos já me sentia limpa e a sala da casa também tava.
GordinhaQuando Mariano voltou no fim da tarde, me encontrou sentada na sala, já limpa, e sorriu. Ele adorou como tinha ficado e me agradeceu. Tinha comprado (ou mendigado) umas empanadas e tinha outra garrafa de suco. A gente dividiu ali mesmo na hora porque eu tava morrendo de fome. Eu tinha grana pra talvez sair e comprar algo, mas tava com medo de sair na rua ainda.

A gente ficou de novo conversando sobre tudo até escurecer e jantamos, terminando as empanadas e o suco. Mariano tinha um rádio a pilha que colocou baixinho pra não chamar atenção de fora da casa, mas pra pelo menos a gente se distrair com um pouco de música. Sentamos os dois ombro a ombro contra uma das paredes, ouvindo música e dividindo um dos baseados fortes dele depois do jantar, falando de nada e de tudo.

"O que foi que você trouxe de Lugano?", perguntei, "Só por curiosidade mesmo..."
Ele riu, "Trouxe de tudo. Erva, bala... o pessoal gosta de variedade, saca."
"Bom, tomara que venda tudo!", sorri pra ele.
Ali, tão colados os dois, vi que ele sorriu também, "É... vai vender, fica tranquila", me passou o baseado e eu fiquei com ele, dando umas boas e longas tragadas. Já tava me acostumando com os baseados do Mariano, "São mó fortes essas balas, os caras gostam dessas."
Fiquei pensando um momento em silêncio, enquanto curtia a fumaça da maconha e o quanto ela tava me relaxando, olhei pra ele e falei "São muito caras? Posso comprar uma?"
Mariano sorriu, "Que, quer experimentar?"
"Ué... quero ver qual é... se o pessoal gosta..."
"Nah, não te vendo não, Sara... se você limpou tudo aqui pra mim, nem fudendo.", ele sorriu, "Se quiser, a gente divide uma?"
"Divide?"
"Ué, eu sempre mando uma de cada leva também. Pra saber como veio a leva, saca... não posso vender qualquer porcaria, senão espalha o boato e perco os clientes", me disse e remexeu numa das sacolinhas que trouxe, me mostrando uma bala rosa, bem pequenininha. “O que é que tem?”, perguntei olhando pra ela.
“Nem ideia do que tem, mas te deixa do caralho…”, ela riu, “A gente prova, quer?”
Eu suspirei, sentindo um pouco de medo, “Não sei, Mariano…”

Mariano me olhou com suavidade e passou o braço em volta dos meus ombros, sorriu e me disse “Calma, Sara… se te fizer mal ou algo, eu tô aqui. Melhor do que tomar sozinha é ter alguém do lado, né?”. Eu só ficava olhando suavemente nos olhos dele. Sentia o braço dele em volta dos meus ombros, o olhar doce dos olhos dele e o sorriso, a calma que o baseado tava me dando… se juntou tudo.

Bem devagarinho e sem tirar os olhos dele, eu disse, “… tá bom, então…”
Mariano sorriu, “Abre a boca, deixa eu ver…”. Eu abri a boca e coloquei a língua pra fora um pouco. Mariano colocou a pílula na minha língua e eu puxei ela pra dentro da boca, “Não engole… é tipo um doce, deixa dissolver sozinha… olha que essa é forte…”
Eu comecei a fazer o que ele falou, pra ser sincera a pílula não tinha um gosto muito gostoso. Também não era ruim, era difícil de descrever. Era tipo um gosto de corante artificial ou algo assim, mas suave.

“E você?”, perguntei enquanto chupava a pílula na boca, “Você não toma uma?”
Mariano sorriu e me falou baixinho, me olhando, “… eu te falei que a gente ia dividir…”. Senti a mão dele acariciando minha bochecha e de repente ele se inclinou e me beijou. Senti a língua dele lambendo meus lábios tão docemente e logo abri a boca, deixando ela entrar. A gente gemeu baixinho na boca um do outro, enquanto nossas línguas começaram a brincar com a pílula, às vezes um chupava, às vezes o outro. Me deu um prazer enorme sentir aquele beijo. E ainda com a desculpa da pílula, foi um beijo longo pra caralho, doce e profundo, que nenhum dos dois queria soltar. Num momento a pílula já tinha dissolvido nas nossas bocas, mas a gente continuava se beijando do mesmo jeito, nossas línguas se enroscando e nossos lábios pressionando cada vez mais.

Sem parar de nos beijar, senti a mão dele que me soltou a bochecha e comecei a sentir um dos meus peitos enormes. Que sensação linda, sentir a mão dele acariciando e apertando ali. Mesmo por cima da minha camiseta, não me importava. Me deu uma cócega entre as pernas de tão doce que era a sensação de alguém tocando meus peitos. Sempre foram olhados, alguns zoavam deles e de mim, mas agora estavam sendo apreciados e amados tão docemente pelo Mariano. Que sensação linda, de estar sendo amada por um homem pela primeira vez…

Entre o baseado e a calma que me deu, o quanto os beijos e carícias do Mariano eram gostosos e a pílula que já estava começando a fazer um efeito suave, minha cabeça estava começando a desligar. Ficaram fragmentos de sensações, de palavras que eu ouvia e que eu dizia. Lembro de sentir o Mariano me apertando mais no abraço e, sem parar de encher minha boca com a língua dele, passou de sentir minhas tetas a levar a mão entre minhas pernas, por cima da calça, e como essa sensação me arrepiou.

Lembro dos meus gemidos suaves de prazer e dos dele. Os fragmentos ficam cada vez mais raros, mas igualmente intensos. Lembro de de repente estar deitada com ele no colchão dele, e a sensação de acariciar o torso dele já nu. O jeito que as duas mãos dele apertavam minhas tetas, já livres do sutiã e da camiseta, e a sensação dos lábios dele sugando meus mamilos. Os dedos dele sentindo meus lábios vaginais por baixo da calcinha e o quanto eu já estava molhada.

Cada vez menos fragmentos, cada vez mais distantes. A sensação linda do pau dele na minha boca, minha língua saboreando com paixão, ouvi-lo gemer o prazer que eu estava dando. Que delícia que era o pau dele, que sensação incrível finalmente ter um homem na minha boca, depois de tanto tempo desejando isso.

Os fragmentos já se desfocam e se misturam, as memórias cada vez mais dissolvidas num tom vermelho suave na minha cabeça. As batidas do meu coração acelerado. A sensação do corpo dele magrinho, nu por cima do meu, e como a pele dele e o corpo endurecido se encaixavam contra minha barriga macia. Minhas pernas abertas pra ele, a pressão do pau dele na minha buceta molhada, até que finalmente senti ele entrar. Uma vez. E outra vez. E um milhão de vezes mais, enchendo meu corpo de prazer a cada estocada daquelas cadeiras magras. Sentir minha cabecinha se rompendo diante dos investidas dele e não sentir dor nenhuma, só o prazer de receber aquele pau duro e lindo ainda mais fundo dentro de mim.
E antes que tudo se apagasse e eu ficasse flutuando num mar escuro, suave e delicado de nada, sentir o grito dele já distante, de prazer orgásmico, e sentir o esperma quente dele na minha buceta uma e outra vez, enquanto meu corpo se contorcia de prazer sob o dele no meu próprio clímax.
Até aí vai o que eu lembro daquele momento e daquela noite. O que a gente deve ter feito depois, realmente não sei, não tenho lembrança nenhuma. Só sei que acordei de manhã no colchão dele, nua e abraçada por ele, com restos já secos do esperma dele na minha cara, no meu cabelo e nos meus peitos, com uma sensação estranha e um pouco dolorida no meu cu, mas um prazer na alma que eu nunca tinha sentido antes.
Me aninhei um pouco no abraço do Mariano e sorri, fechando os olhos e voltando a dormir.

4 comentários - Meus anos perdidos - Parte 1

Muy bien redactada, recién vengo de la historia de corneado y boludeado... Excelente gracias por compartir
Muchas gracias!