Frambu e seu coquetel de vida XI

No capítulo anterior, a gente tinha feito uma videochamada com o Ezequiel enquanto eu escutava meus pais na "guerra pela paz" deles. No dia seguinte, lá pras 6h30, acordei cedo antes do despertador tocar, fui ao banheiro e dei uma espiada no quarto dos meus pais, que tava com a porta entreaberta. Tava toda a roupa dos dois espalhada pelo chão, igual o edredom da cama. Quando saí, vi meu pai saindo do quarto dele só de short e sem camisa. Baixei o olhar, sem graça.

Eu: — Bom dia, pai.
Pai: — Bom dia, anjo. Dormiu bem?
Eu: — Hmm... sim, sim... e você?
Pai: — Sim, sim... muito bem.

Fui pra cozinha me preparar algo pra tomar café. Vi meu pai vindo na minha direção.
Pai: — Bom dia — me beijou na testa.
Eu: — Oi, bom dia de novo, pai... já te cumprimentei no corredor... — ri.
Pai: — Mas agora sim... um bom cumprimento como deve ser! O que vai tomar no café?
Eu: — Hmm... queria um café com chantilly, mas não achei aquele que bate.
Pai: — Acho que não sobrou mais daquele... vou te fazer um da cafeteira.
Eu: — Sim, pai... por favor.

Minha mãe chegou com uma cara totalmente diferente de ontem.
Mãe: — Bom dia, Fran! Que cedo você acordou!!
Eu: — Bom dia, mãe! — me deu um beijo na bochecha.
Pai: — Dormiu bem?
Mãe: — Sim, sim... Bom dia... — foi até meu pai e roçou a mão nas costas dele. Eu desviei o olhar, e meu pai riu.
Pai: — Bom dia, amor... — puxou ela e deu um beijo — Vou fazer um café com chantilly pra vocês duas? E a Guille?
Eu: — Eu quero... a Guille deve estar na cama ainda...
Mãe: — Dá pra ir chamar sua irmã pra levantar?
Eu: — Sim, sim... — fui pro quarto e ela ainda tava dormindo — Guille... vamos, Guillermina, levanta.
Guille: — Uff, que pesadelo ver sua cara.
Eu: — Mais feia é a sua... vai, levanta. O pai perguntou se você quer um café com chantilly.
Guille: — Não... eu quero uma buceta fria e pura.
Eu: — Sempre tão anormal você!
Guille: — E se eu não gosto de café, menos ainda de chocolate...
Eu: — Tá bom... vai, levanta. Levanta... vamos, que vai ficar tarde... Guille: - Mas não me apressa, sai que já vou... Eu: - Ok, bebê... mas se apressa!! Ao chegar na cozinha, vejo meus pais abraçados, se beijando, e fiquei olhando pra eles. Atrás de mim estava a Guillermina. Guille: - Oi, fofoqueiros! Eu: - Que bobinha que você é!! Adoro ver vocês juntos!! Guille: - Bom dia, mãe e pai... Pai: - Oi, Guille... bom dia, minha duendezinha! Mãe: - Bom dia, amor. Eu levei meu café pra mesa e, enquanto terminava de arrumar minha mochila, as pastas e revisava mentalmente trigonometria e algumas frações, falava baixinho. Mãe: - Hoje tem prova, Fran? Eu: - Não, não sei... mas o professor sempre pergunta, logo já avalia e manda a gente ir na frente mostrar o que sabe... Mãe: - E que matéria vocês estão vendo? Eu: - Trigonometria... mas já entendi isso... o que mais me deu trabalho foi a equação da parábola... Pai: - É, lembro... ainda bem que você tem seu professor em casa que explicou e você entendeu direitinho! Eu: - Sim, pai... obrigada... bom, já tô pronta... Guille: - Espera, Fran... acabei de começar a comer... Eu: - Ok, vamos logo que não quero chegar atrasada... Depois de terminar o café e arrumar tudo, papai nos levou pra escola. Eu ia sentada na frente, colocando o celular no silêncio pra guardar no bolso da mochila. Ao chegar, dou tchau pro meu pai e desço. Vejo a Natali com uma cara de assustada. Eu: - Oi, Naranji... o que foi? Nati: - Não, não se vira!! O Blas tá aí... Eu: - Onde?? Nati: - Não se vira... eu te falo, ele tá na frente, tem um grupo da outra turma e tá tampando a gente, então você, comigo... vamos entrar juntas... Eu: - Nossa, que cara chato... Nati: - Mas... o que aconteceu? Fui contando enquanto entrávamos com todo mundo. Ao entrar na sala com a Natali e as outras, a gente tinha que trocar uns números pra nossa viagem pro Brasil e o pouco que faltava pra terminar. A preceptora, tutora da nossa turma, entrou e leu algo em voz alta. -Bom dia, galera... por favor, isso é importante, cês tão prestando atenção?? Vou chamar a lista de quem já tá aprovado e, se tiver falta demais, já era, não vem mais... depois vou falar qual é o dia da entrega dos diplomas e das medalhas! Foi chamando vários colegas e, no meio, tava a Jazmín... e quase no final, me chamou- Francesca... você, junto com o Rodrigo e a Jazmín, tão na bandeira nacional... então, parabéns!! - a galera bateu palma. Na hora do recreio, saímos felizes eu e a Jazmín... Eu:- Ai, não acredito, já tô com tudo aprovado!! Jazmin:- Ai, eu também... meus pais vão ficar felizes e não corre risco a minha viagem pro Brasil!! Natali:- Ué? Não iam te deixar ir? Jazmin:- Eles já pagaram, mas falaram que se eu não passasse em tudo, não iam me dar um puto pra levar! Eu:- Por sorte os meus, depois de tanto encher o saco, me deram o ok pra viajar. Lembram que nenhum dos dois queria que eu fosse?? Natali:- Sim, sim, lembro... Ingrid:- Como esquecer!! Rosario:- Sortuda... eu não sei o que vou fazer, ainda tenho até as horas vagas! Jazmin:- Eu te falei desde o começo pra gente se juntar e fazer as atividades juntas, mas você... Rosario:- Sim, sim... valeu, Jaz, mas priorizei os rolês com o Joaquin em vez de estudar... alguma das futuras porta-bandeiras precisa me emprestar os cadernos pra eu me atualizar e passar em tudo antes da viagem, sem deixar pra fevereiro. Eu:- Sim, sim... Ro, se quiser, na saída, foda-se o meu, se eu tiver tudo aprovado. E, meninas... o professor de matemática vai aplicar prova do último assunto? Emma:- E, sei lá... mas se a preceptora já falou que você tá aprovada, é porque essa prova não conta! Continuamos falando de várias coisas enquanto íamos pra sala, porque o sinal de volta já tinha tocado, e eu olhei pro celular e tinha uma mensagem do Ezequiel "Oi, meu amor, como cê tá?" Respondi: "Oi, sim, tô bem, e você?? Tô no colégio, Depois das 12, a gente fala assim pra não me darem bronca." Guardei o celular e o professor de matemática chegou, aplicou a prova do último conteúdo pra fechar todas as notas, mas com as outras notas e atividades que eu já tinha feito, eu já tava aprovada. Entreguei a prova e pedi pra ir ao banheiro, levei o celular escondido e, enquanto ia andando, fui lendo as mensagens. Tinha uma do Blas: "Oi Fran... esperei por você na porta da sua escola, mas não te vi quando entrou. Que horas você sai?? Porque não consigo entender por que você não quer mais ficar comigo, eu te quero na minha vida e preciso de você. Por favor, vamos tentar de novo!! Te quero." - Blas "Já chega, Blas... não quero mais ficar com você. Você não respeitou o que eu queria e ficava insistindo pra transar sem camisinha, e eu não quero. Pra começar, isso já não me agradou em nada em você. Além disso, eu não te amo, talvez eu goste de você, mas não é um amor de verdade. Não insiste mais. Tchau." Cheguei no banheiro e vi que tinha uma chamada dele. Eu cortei e coloquei o contato dele no silêncio pra não ver nem ouvir as mensagens ou chamadas. Quando saí, vi que tinha uma mensagem do Ezequiel: "Tá bem, meu amor. Já tô trabalhando pesado com meu pai e conversando com o seu, e ele me contou que hoje você tem prova de matemática. Te desejo muita sorte, sei que vai se sair bem. Te quero muito, minha gostosa!" Respondi: "Valeu, amor. Sim, tive prova e já passei em todas as matérias, então vou ficar livre pra conversar quando você quiser! Mando muitos beijos." Mandei uma mensagem pra minha mãe: "Oi, mãe, tenho uma ótima notícia: já passei em todas as matérias, então depois a orientadora vai me dizer se já posso faltar por causa das faltas que tenho ou se preciso continuar vindo pra não ficar com falta. Te amo." Voltei pra sala e várias das minhas amigas já tinham terminado a prova, e a professora deixou a gente sentar junto, desde que não atrapalhasse o resto. Contei sobre o Blas e a insistência dele. Eu: - Não acredito. O insuportável que esse cara acabou sendo... Nati:- Parecia que era bonzinho e tranquilo, mas foi um puta chato Jazmin:- Mas o que aconteceu? Como ficaram? E por que você terminou se tava tudo bem ou o que rolou?? Eu:- Queria contar quando a gente saísse pro recreio o porquê... Ingrid:- Largou ele por outro?? Jazmin:- Trocou por um uruguaio?? Eu:- Algo assim... Elas estavam prestes a gritar como naquela noite na casa da Jazmin, mas se seguraram porque o professor olhava sério pra gente enquanto passava conferindo se todo mundo tava focado na prova Bateu o sinal e na hora, feito umas cachorras no cio, começaram a gritar e uivar Nati:- Sério mesmo que trocou o bocó por um uruguaio?? Jazmin:- Uma troca 100x100 Ingrid:- Uma virada de cento e oitenta graus!! Rosario:- Trocou seu fusquinha por uma Mercedes??? Eu:- Siiim, algo assim... - A gente riu - mas esse cara é muito doce, super atencioso, gentil, carinhoso e até muito detalhista. Me deu um biquíni, um vestido de praia e uma capelina! Depois uma caixa de bombons com a frase "Te amo" e o mais importante, ele vai vir quando eu fizer 18!! Rosario:- Aí já vem o casório. Vocês imaginam a Fran assim? - Ela pegou o braço da Ingrid e cantaram a marcha nupcial enquanto andavam no mesmo passo Todas nós rimos, fomos comprar alguma coisa no kiosque pra comer e depois entrar na aula de Psicologia As horas passaram voando e deu a hora da saída, eu rezava pra não trombar com o Blas, fui andando junto com a Jazmin e a Ingrid e nos separamos na praça. Elas viraram e eu segui por umas quadras e, faltando duas pra chegar, um carro parou e alguém desceu na hora, era o Blas Blas:- Fran... Fran... por favor... para. Espera Eu:- Já chega Blas... não quero mais te ver, e com aquilo que você me disse, me fez perceber que não devo e nunca devia ter ficado com você! Blas:- Me perdoa... me perdoa, meu amor... é que eu fico louco só de pensar que você esteve na cama com outro pelas minhas costas Além disso, você me deixa sem dar explicações.
Eu: — Já te falei o porquê e também te disse que a gente ainda não era nada, mas agora nem nunca seremos nada!
Blas: — Vamos, gostosa... não pode me dizer isso, meu amor. Vamos, vem que te levo em casa.
Eu: — Não, já cheguei, tô a poucas quadras! Preciso chegar cedo... então... com licença, Blas...
Blas: — Por favor, Fran, meu amor... deixa eu te levar e a gente conversa...
Eu: — Chega, sério... já te falei que não!
Blas: — Quer fazer do jeito ruim? — ele me pegou pelo braço e apertou com força — Você é minha! Entendeu? Vamos... vamos, eu disse! — com um tom de voz bravo, me puxando pro carro dele.
Eu: — Me solta ou vai se arrepender!
Blas: — Ah é? O que vai fazer? Vai gritar que nem uma covarde? — ele chegou mais perto de mim e eu dei um tapa nele com a outra mão, e como ele não me soltava, meti um chute no meio das pernas dele. Quando ele me soltou, eu continuei andando mais rápido, enquanto ele ficou dobrado no chão por causa do meu golpe — Ai, Fran... filha da p... aiii... — ele reclamava de dor — Você vai se arrepender... vai se arrepender...

Cheguei em casa com as bochechas vermelhas por causa daquela situação que tinha passado. Não tinha ninguém e me preparei uma salada e um bife de carne na chapa. Enquanto arrumava a mesa, recebi uma ligação de um número desconhecido. Atendi.
Eu: — Alô?
Barti: — Oi, Francesca...
Eu: — Sim? Quem é?
Barti: — Já se esqueceu de mim? Sou um amigo dos seus pais, um velho amigo deles. Sou Bartolomé, Barti.
Eu: — Ah, Barti... que sorte que tô sozinha, assim posso falar tranquila com você.
Barti: — Claro, bonita... como você tá?
Eu: — Bem, bem. Terminei as aulas hoje porque passei em todas as matérias e vou carregar a bandeira nacional. Então tô muito feliz! E você?
Barti: — Bem, bem, linda. Parabéns! Tô bem em Buenos Aires, fazendo mil coisas e com uma viagem esses dias pro Chile e Mendoza.
Eu: — Ahhh, que legal... pra que você ligou?
Barti: — Pra saber de vocês. Sua mãe? E a Guille?
Eu: — Pra ser sincera, acho que tá tudo bem, por algo que... aconteceu na minha viagem pro Uruguai com meu pai e um erro catastrófico, eles tinham brigado
Barti:- O que aconteceu?? E agora, como é que eles tão entre si?
Eu:- E não sei, mas sem querer te mandei uma mensagem que era pra minha mãe e pra minha mãe, a tua mensagem
Barti:- Ah não me diga... mas teus pais se separaram por causa disso?
Eu:- Não... não... eles continuam juntos. Barti, tenho que ir porque preciso comer pra depois ir pra minha aula de hóquei
Barti:- Ok, ok, gostosa. Só mais uma pergunta, tua irmã lembra de mim?
Eu:- E não sei, nunca conversei sozinha com ela sobre você
Barti:- Ah, tudo bem, não se preocupa. Já que você ainda lembra de mim, já me basta
Eu:- Barti... antes de desligar, queria te perguntar uma coisa
Barti:- Fala, pode perguntar o que quiser!
Eu:- Por que você continua insistindo em saber da minha mãe?
Barti:- Olha... é uma história longa, mas vou resumir com um sentimento que tenho por ela: é amor!
Eu:- Você ainda ama ela?
Barti:- Sim... sempre amei e você não faz ideia do quanto pesou todos esses anos não ter ela por perto e nem saber onde vocês moram, só pra poder vê-la. Daria tudo pra ver ela!
Eu:- Ahhh... Valeu, Barti, por responder minha dúvida!
Barti:- De nada, Fran. Se cuida

Cortei e suspirei. Vi uma mensagem nova do Ezequiel "Oi, minha gostosa. Como foi no colégio? Tô prestes a entrar numas aulas na faculdade. Tomara que não saia tarde porque hoje foi um dia muito longo. Tô com muita saudade de você, minha linda. Te quero"
Respondi: "Oi, amor, foi bem, foi bem. E você, como foi a reunião com meu pai? Também tô com saudade. Mando muitos beijos"

Sentei pra comer correndo enquanto via as mensagens do grupo de inglês que amanhã teríamos uma prova oral de apresentações e junto com a apresentação, dariam as notas finais pra encerrar nossa aula essa semana

Terminei de comer, limpei tudo e deixei arrumado pra me trocar e sair de bicicleta pras aulas de hóquei

À tarde, umas 18h, indo pra casa, quando sinto que Vinha um carro devagar atrás de mim, então me apressei a pedalar mais rápido e, quando cheguei na esquina da praça onde me separei das minhas amigas, subi na calçada pra evitar o carro. Peguei outra rua paralela à da minha casa e cheguei por trás. Minha mãe já estava em casa com o Guille. Entrei com a bike na garagem e guardei. Ela tava na sala contando sobre o Gaston, ou Barti, como a gente chamava. Entrei na conversa comentando que nunca quis trazer mais problemas, mas queria saber quem ele era de verdade, e nisso ela mostra a foto pro Guille.

Mãe: - Vamos ver, Guille... Você lembra dele?
Guille: - Não, não... não lembro. Ia ter que fazer um esforço danado pra lembrar, mas olhando pra ele, não...
Mãe: - Uuuufff, melhor assim...
Eu: - Mas conta pra Guille do desenho dela! Quem sabe ela lembra.
Mãe: - Não, não... melhor deixar assim...
Guille: - Que desenho?
Eu: - Um que você fez por causa de algo que viu... eram duas "batatas" apaixonadas.
Mãe: - Não seja assim, Fran... ela só tinha três anos e era o único jeito que ela tinha de representar pessoas.
Eu: - As batatas apaixonadas e com uma cara de susto! - Caí na gargalhada.
Guille: - Fran, que maldade que você tem...
Minha mãe remexia a caixa de lembranças até que achou, apertou contra o peito escondendo enquanto falava.
Mãe: - Aqui está... quero que você olhe e me diga se lembra desse desenho. - Minha mãe virou o desenho e a Guillermina ficou olhando.
Guille: - Não, mãe... não lembro... e quem ou quem eu desenhei?
Mãe: - Isso já não importa mais... você não lembrar é o mais importante e o mais aliviador.
CONTINUA...

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