No dia seguinte, acordei me sentindo tão descansado e tão bem. A cama era tão confortável. Abri um pouco os olhos e o sol já tinha saído, tão brilhante que minha vista não se acostumava, então fechei de novo e pensei que ia ficar de bobeira mais um pouco, que diferença fazia. Tentei me espreguiçar e despertar os músculos, mas não consegui. Ou não sei se consegui, no meu estado meio sonolento tenho certeza de que quis, mas não sei se fiz, não senti a mesma coisa de sempre.
Nem sabia que horas eram, mas, mesmo assim, fechei os olhos de novo e dormi mais um pouquinho. A cama estava tão gostosa.
Daí a pouco ouvi a voz da Mariana, suave como tantas outras vezes, me acordando do lado na cama: "Meu amor... minha vida... acorda, minha vida..."
Abri os olhos e vi ela ali, bem pertinho. Ela me deu um sorriso suave e eu devolvi o sorriso. Não conseguia focar muito bem a vista, ainda estava meio dormindo.
"Ai, meu amor... sim... sim... oi, minha vida, oi, oi...", ela disse com a voz embargada, e vi os olhos dela encherem de lágrimas. O que que tava rolando?
Tentei responder e não consegui, minha garganta estava seca. Tentei engolir e também não deu de tão seca que tava, doía. Senti a Mariana tocar meu braço e me acariciar. Que sensação gostosa. "Não fala, meu amor, não fala... fica tranquilo, tá? Tá tudo bem... não se preocupa. Você não tá em casa, mas não se preocupa...", ela disse.
Comecei a olhar pra todo lado e meus olhos foram focando um pouco mais, já não estava tão dormindo. Fui acordando e vi que, como ela tinha dito, não estávamos em casa. Parecia um quarto de hospital. Olhei de volta pra Mariana e vi ela melhor, o sono tava passando. Ela tinha mudado um pouco o cabelo? Ia sair?
Mariana sorriu pra mim, enxugando as lágrimas do rosto: "Você tá na clínica, Juan Carlos... não se preocupa. Eu tô aqui e agora vem o doutor Menéndez... o que te atendeu. Ele é um amor, uma eminência... não se preocupa com nada, tá?"
Eu disse que sim, bem baixinho. suavemente com a cabeça pra acalmar ela porque eu quis falar de novo e não consegui. Se eu tava bem e ela que tava chorando... pra que que ela tava me dizendo pra não me preocupar?
"Já vai te contar tudo o doutor Menéndez com calma, né?", ela sorriu pra mim, "Que lindo te ver abrindo os olhos..."
Eu quis falar alguma coisa de novo e não consegui outra vez, então mexi a mão mas ela foi mais rápida e segurou, acariciando, "Você não se preocupa... já vamos conversar também, né? Fica tranquilo... é um assunto delicado... passou um tempinho, meu amor..."
Eu não sabia de que merda ela tava falando. Nem sabia por que merda eu tinha acordado ali e não na minha cama. Na real, não sabia por que merda eu tava acordando com a Mariana e não com a Soledad, na cama dela. Que merda eu fiz ontem? Bebi tanto assim? Sério? Será que fiz alguma coisa com a Mariana de novo? O que vou falar pra Soledad?
Ouvi a porta do quarto abrir mas ainda não enxergava direito de tão longe. Mas ouvi a voz grossa de um cara, que encheu o quarto de som e quase me atordoou, tinha um tom bem vivo e bem alegre, "JUANCA! Qualé, tio? O que que houve? Caiu da cama? Finalmente acordou, campeão!"
Vi que a Mariana sorriu pro cara e vi ele se aproximar até que finalmente consegui ver ele bem e focado. Era um careca com um bigodão de polícia, meio gordo e com um sorriso de orelha a orelha. Tava com o avental branco de médico. Atrás dele tinha outro cara de avental azul que eu não conseguia ver direito. E não consegui ver bem porque o cara de branco chegou perto da minha cara e colocou uma luz nos meus olhos, "Deixa eu ver... como é que a gente tá? Como você se sente?"
"Ele é o doutor Menéndez, meu amor...", ouvi a Mariana me dizer.
Eu quis responder alguma coisa e não consegui, o cara continuava olhando nos meus olhos com a luz e parecia que tava beliscando meu braço ou algo assim.
"Imagino que você deve estar se sentindo um merda... hahahaha...", o cara falou e riu. Finalmente tirou a luz dos meus olhos e vi que ele sorria pra mim com alegria. Gostei dele na hora. não sei por que, como Valentín tinha feito na época. Ele me olhou por uns segundos enquanto anotava algo num bloquinho e deu um sorriso: "É, já sei, você não faz ideia de quem eu sou e nem me conhece... mas eu te conheço há quase um ano, pai..."
Eu quis engolir seco e não consegui.
Mariana foi falar umas coisas com Menéndez um pouco mais longe enquanto uns caras de avental azul começaram a me atender. Ficaram assim um tempão, nem ideia do que estavam fazendo comigo, depois todo mundo foi embora e eu fiquei sozinho com a Mariana. Foi aí que ela começou a me contar tudo, devagar e com calma. A gente tinha tempo.
Ela me disse que, pelo que conseguiu descobrir depois, os caras que tinham me atacado eram amigos do Benja. De José C. Paz. Aparentemente, quando espalharam que o marido da namorada do Benja tinha enchido o vilero de porrada e mandado ele pro hospital, resolveram se vingar. O Benja tinha ficado destruído e feito de otário, numa cadeira de rodas provavelmente pro resto da vida por causa da surra que o Valentín deu, e esses tumberos decidiram cobrar na mesma moeda ou matar o marido, tanto faz. O que eles não sabiam é que, embora o marido fosse eu, quem tinha dado a surra era o Valentín. E quem pagou o pato fui eu. Nas conversas da Mariana com o Benja, ela devia ter deixado escapar que carro eu tinha, e o Benja deve ter contado pros caras dele. Mariana me pediu, por favor, pra nunca contar isso pro Valentín, porque ele morreria de culpa e não teve nada a ver com isso. E também não queria que viesse à tona o que ela fazia antes de conhecê-lo.
Quem me salvou foram o Seu Júlio e outro vizinho, que entraram correndo na garagem e espantaram os caras bem na hora. Me levaram às pressas pro hospital mais perto do bairro e me mantiveram lá por dias. Me mantendo vivo e só. Os médicos de lá diziam que eu tinha morte cerebral, que não tinha mais nada que pudessem fazer. No fim, recomendaram pra Mariana assinar os papéis pra me desconectar e me deixar ir. Mas ela não engoliu essa e sempre negou o pedido. autorização. Só pararam de encher o saco dela quando ela ameaçou o hospital e os médicos pessoalmente com processos e ações até o fundo do bolso deles se fizessem isso.
Finalmente conseguiu me tirar daquele hospital e me levar pra essa clínica especializada, usando uns contatos dela, onde conheceu o doutor Menéndez e ele me conheceu, e começou a me atender desde então. Ela me disse que vieram me ver todo mundo, até meu irmão que mora nos Estados Unidos veio uns dias. Que se revezavam no começo pra ficar comigo entre ela, Soledad, Valentín e às vezes até Miri pra me fazer companhia, mas quem mais ficou comigo de longe foi sempre a Soledad, principalmente nesse último tempo.
Pra pagar a clínica e meu tratamento, a Mariana vendeu meu Mercedes. Eu amava aquele carro e fiquei triste ao ouvir isso. Também se mudou de vez com o Valentín e a Miri pro apartamento do lado e começou a alugar o nosso. Graças aos contatos dela e aos contatos do Valentín na área de petróleo, alugava temporariamente pra altos executivos e advogados da Venezuela, Estados Unidos e Oriente Médio que vinham a negócios. Pagavam uma fortuna em dólares. O que ela pedia.
Sorrindo docemente, também me contou que tinha engravidado do Valentín e que teve o bebê faz pouco. Valentín e Miri colocaram o nome de Héctor, um meninão. Me mostrou as fotos e eu, sinceramente, sorri. De ver eles tão felizes e de ver a Mariana também feliz como mãe, por mais estranha que a situação seja.
Ela me disse pra começar minha recuperação, que eu já ia ficar bem logo e que assim que saísse da clínica, ia parar de alugar o apartamento pra eu ir pra lá. Eu balancei a cabeça que não, que não precisava. Queria dizer que, quando chegasse a hora, podia ficar com a Soledad na casa dela, como vinha fazendo, não sabia como falar. Ela só sorria pra mim.
Ela me disse que já tinham passado onze meses...
Um tempo depois, a Mariana foi embora e logo vi a Soledad entrar, já que Mariana tinha me avisado que ele finalmente tinha acordado. Meu coração deu um pulo de alegria ao vê-la, mesmo que eu tivesse visto ela antes de ontem... minha docinha. Ela desabou a chorar quando me viu, se jogou em cima de mim com cuidado pra não me machucar e me encheu de beijos doces. Não parava de chorar de felicidade. Eu ainda não conseguia falar, tava com um tubo, mas ela ficou comigo. Ficou comigo a noite toda falando, me acariciando, contando um monte de coisas. Não importava o quê. Só queria estar ali comigo e falar comigo depois de tanto tempo. Eu escutava ela com uma felicidade e um amor no peito que me desmontava. Minha doce Vênus loira...
Uns dias depois, eu tava evoluindo bem e tiraram o tubo. Menéndez me dizia (gritava, na verdade) que eu tava com cara melhor e me recuperando. Que logo ia começar fisioterapia e eu ia me sentir melhor. Era daqueles caras que acham que rir é o melhor remédio e vivia me enchendo o saco, zoando, contando piadas ou me fazendo reparar com ele nas peitudas ou na bunda de alguma enfermeira. E olha, ele tinha razão, cada dia que passava eu me sentia um pouco melhor.
Valentín e Miri também vieram, e trouxeram o bebê Héctor. Não queriam trazer ele antes por causa do pequeno, que tinha só dois meses, mas se animaram e trouxeram. É um menino lindo. Eu olhava pra eles tão felizes com o filho novo, concebido com a Mariana, que de algum jeito estranho eu sentia que era um pouco meu também. Ou, pelo menos, responsável por ele existir, já que eu dei meu aval pra tudo.
Também tive longas conversas com o Valentín, que vinha me ver quando podia. Umas conversas muito boas, de homem pra homem e de amigo pra amigo. Nunca contei pra ele sobre a confusão de identidade, como a Mariana tinha me pedido. Pra ele, tinham tentado roubar meu carro e me deixaram assim. Eu decidi deixar assim também. Mariana tava certa. Valentín ia se martirizar à toa, e eu via todo mundo tão feliz que também não queria estragar isso trazendo à tona as coisas que a Mariana fez comigo e o que vi ele fazer. Já parecia coisa de outro tempo, de outra vida, não dessa.
Um tempo depois, fiz aniversário na clínica. Todo mundo veio me ver, menos a Mariana, que se desculpou porque tava resolvendo umas coisas do trabalho e mandou lembranças. A Soledad ficou horas comigo até o pessoal da clínica falar que ela tinha que ir. Como eu amava passar tempo com ela. Como me fazia bem.
Naquela noite do meu aniversário, o Menéndez também tava de plantão e, de repente, vi ele entrar no meu quarto meio estranho, como se não quisesse que ninguém visse. Ele tinha contrabandeado uns hambúrgueres com batata frita pra nós dois e vi que ele trouxe debaixo do braço uma garrafa de uísque e dois copinhos de plástico. Eu me caguei de rir e a gente ficou conversando por horas, celebrando meu aniversário ali, ele me fazendo companhia. Na nossa intimidade e na nossa conversa longa, contei várias coisas dessa história e pedi pra ele, por favor, guardar pra si e não contar nada. Ele é um cara foda.
Uma vez, a Soledad tava comigo na sala de fisioterapia enquanto eu esperava virem fazer o tratamento. Só conversando e me fazendo companhia. Quando ela viu os enfermeiros entrando, me deu um beijão, um sorriso e foi saindo. Ela cruzou com o Menéndez, que também tava entrando, e o cara segurou a porta aberta pra ela, feito um cavalheiro, e falou num tom doce, suave e amoroso: "Mas permita, senhorita, boa tarde, como vai?"
A Soledad riu pra ele e deixou passar um sorrisinho daqueles absolutamente letais entre as mechas loiras: "Ah, muito obrigada, que cavalheiro..."
Menéndez sorriu pra ela: "Por favor, imagina... tchau, até logo."
Vi o Menéndez ficar na porta olhando ela ir embora por um bom tempo e se certificar de que eu tava vendo como ele tava de olho na raba da Soledad. O fisioterapeuta chegou do meu lado e começou os exercícios quando o Menéndez finalmente largou a porta e veio.
"Ei, Juanca", ele falou, "Entre o pedaço de gostosa da sua mulher e esse docinho... Você é um baita de um trouxa, hein? Que filho da puta!". O fisioterapeuta caiu na gargalhada.
E eu, finalmente, também.
No fim, me deram alta depois de uns meses. Me despedi do Menéndez com um abraço enorme e o filho da puta me fez chorar com as coisas que falava no meu ouvido. Fui com a Soledad pro nosso apartamento, como a Mariana tinha pedido. No começo, eles se revezavam pra ficar comigo, de acordo com os horários de cada um, mas no fim eu sempre acabava ficando com a Soledad.
Um tempo depois, numa noite, vieram todos, incluindo a Soledad, que já tava praticamente morando comigo, e a gente jantou. O Valentín, a Miri e a Mariana me falaram que surgiu uma oferta de trabalho pro Valentín no México, com muita, muita grana, e que tavam avaliando, mas que iam aceitar com certeza. Conversaram muito e decidiram que queriam ir os três. Eu sorri e parabenizei eles, de verdade. Via os três bem e felizes. A Mariana me chamou de lado durante o jantar e disse, sozinha, que ia resolver os papéis do divórcio e tudo mais, pra formalizar. Que ia me deixar o carro dela e a parte dela do nosso apartamento. Que era hora dela começar uma vida nova e que, entre o que o Valentín ia ganhar lá, mais o que ela conseguisse de trampo, mais o que iam tirar com a venda do apartamento do Valentín e da Miri, não ia precisar de mais nada. Dei um beijo carinhoso, enorme, na boca da Mariana, sem ninguém ver. Ela respondeu do mesmo jeito e a gente ficou se olhando com carinho por um tempo. Desejei tudo de bom pra ela.
O Menéndez tinha me dito que a recuperação ia ser longa. Meses, talvez até anos, e que eu não ia ficar cem por cento como antes. Talvez uns oitenta por cento ou algo assim, e que isso era bom. Porque oitenta era mais que zero. Ele tinha me dito pra não largar a fisioterapia, por mais que eu quisesse desistir, e pra caminhar. Caminhar muito, o tempo todo. Sair pra caminhar pelo bairro, numa praça, comer um cachorro-quente em pé, qualquer coisa, mas não Fiquei de molho em casa. E que, principalmente, acima de tudo, ela não parasse de chupar meu docinho.
Durante minha recuperação, só quebrei uma vez. Uma única vez. Mariana, Valentín e Miri já tinham ido pro México há um tempão e o apartamento foi vendido pra um cara que nem sei quem é, nem o que faz, e quase nunca vejo a cara dele. Eu tinha saído uma tarde com a Soledad pra dar uma volta por aí. Ela me levava devagarzinho pelo braço. Eu parecia um velho. Me sentia um velho, e fraco. Parei de repente no meio da calçada e comecei a chorar. Não conseguia parar, não tinha consolo, nem sabia do que tava chorando. Soledad só me abraçou e me segurou, ficando ali comigo, abraçados os dois e ela me acariciando. Me entendendo. Me amando e eu amando ela. Ainda bem que agora, mesmo não estando nos oitenta que o Menéndez falou, devo estar nuns setenta ou por aí. Oitenta é a meta. Tô me sentindo bem.
De vez em quando o Valentín me manda alguma foto deles lá. Passam o tempo na praia, os três. A última que ele mandou foi uma selfie onde estavam os três debaixo de um guarda-sol, com a Melody e o Héctor no colo. Ele disse que a Mariana já tava esperando outro, que tinham descoberto há uns dias. Sorri e parabenizei ele.
Às vezes fico pensando em todas as formas diferentes que essa história poderia ter se desenrolado. Fazer ou não fazer algo, dizer ou não dizer algo, e o que teria mudado. Mas a verdade é que não mudaria nada. Sério. Claro que teve momentos em que passei muito mal. Mas esses momentos, junto com os bons, foram necessários pra construir o caminho tortuoso que me deixou exatamente aqui, como estou e com quem estou. E se às vezes me sinto um pouco mal e pra baixo, a única coisa que preciso fazer é olhar pra Soledad.
Como tô olhando agora, ajoelhada aqui bem pertinho de mim, do lado da lagoa. Viemos no fim de semana pra Chascomús, passear e descansar. A barriga de grávida dela já tá tão aparente e tão linda. Ela deixou o cabelo crescer ainda mais e tá compridão. As pontas loiras acariciam aquela barriguinha linda e inchada e eu sorrio. Vamos ter uma menina, ela já fez os exames e já sabemos. Ela ainda não se decidiu pelo nome.
Mas eu sim. Nossa filha vai se chamar Paz.
Nem sabia que horas eram, mas, mesmo assim, fechei os olhos de novo e dormi mais um pouquinho. A cama estava tão gostosa.
Daí a pouco ouvi a voz da Mariana, suave como tantas outras vezes, me acordando do lado na cama: "Meu amor... minha vida... acorda, minha vida..."
Abri os olhos e vi ela ali, bem pertinho. Ela me deu um sorriso suave e eu devolvi o sorriso. Não conseguia focar muito bem a vista, ainda estava meio dormindo.
"Ai, meu amor... sim... sim... oi, minha vida, oi, oi...", ela disse com a voz embargada, e vi os olhos dela encherem de lágrimas. O que que tava rolando?
Tentei responder e não consegui, minha garganta estava seca. Tentei engolir e também não deu de tão seca que tava, doía. Senti a Mariana tocar meu braço e me acariciar. Que sensação gostosa. "Não fala, meu amor, não fala... fica tranquilo, tá? Tá tudo bem... não se preocupa. Você não tá em casa, mas não se preocupa...", ela disse.
Comecei a olhar pra todo lado e meus olhos foram focando um pouco mais, já não estava tão dormindo. Fui acordando e vi que, como ela tinha dito, não estávamos em casa. Parecia um quarto de hospital. Olhei de volta pra Mariana e vi ela melhor, o sono tava passando. Ela tinha mudado um pouco o cabelo? Ia sair?
Mariana sorriu pra mim, enxugando as lágrimas do rosto: "Você tá na clínica, Juan Carlos... não se preocupa. Eu tô aqui e agora vem o doutor Menéndez... o que te atendeu. Ele é um amor, uma eminência... não se preocupa com nada, tá?"
Eu disse que sim, bem baixinho. suavemente com a cabeça pra acalmar ela porque eu quis falar de novo e não consegui. Se eu tava bem e ela que tava chorando... pra que que ela tava me dizendo pra não me preocupar?
"Já vai te contar tudo o doutor Menéndez com calma, né?", ela sorriu pra mim, "Que lindo te ver abrindo os olhos..."
Eu quis falar alguma coisa de novo e não consegui outra vez, então mexi a mão mas ela foi mais rápida e segurou, acariciando, "Você não se preocupa... já vamos conversar também, né? Fica tranquilo... é um assunto delicado... passou um tempinho, meu amor..."
Eu não sabia de que merda ela tava falando. Nem sabia por que merda eu tinha acordado ali e não na minha cama. Na real, não sabia por que merda eu tava acordando com a Mariana e não com a Soledad, na cama dela. Que merda eu fiz ontem? Bebi tanto assim? Sério? Será que fiz alguma coisa com a Mariana de novo? O que vou falar pra Soledad?
Ouvi a porta do quarto abrir mas ainda não enxergava direito de tão longe. Mas ouvi a voz grossa de um cara, que encheu o quarto de som e quase me atordoou, tinha um tom bem vivo e bem alegre, "JUANCA! Qualé, tio? O que que houve? Caiu da cama? Finalmente acordou, campeão!"
Vi que a Mariana sorriu pro cara e vi ele se aproximar até que finalmente consegui ver ele bem e focado. Era um careca com um bigodão de polícia, meio gordo e com um sorriso de orelha a orelha. Tava com o avental branco de médico. Atrás dele tinha outro cara de avental azul que eu não conseguia ver direito. E não consegui ver bem porque o cara de branco chegou perto da minha cara e colocou uma luz nos meus olhos, "Deixa eu ver... como é que a gente tá? Como você se sente?"
"Ele é o doutor Menéndez, meu amor...", ouvi a Mariana me dizer.
Eu quis responder alguma coisa e não consegui, o cara continuava olhando nos meus olhos com a luz e parecia que tava beliscando meu braço ou algo assim.
"Imagino que você deve estar se sentindo um merda... hahahaha...", o cara falou e riu. Finalmente tirou a luz dos meus olhos e vi que ele sorria pra mim com alegria. Gostei dele na hora. não sei por que, como Valentín tinha feito na época. Ele me olhou por uns segundos enquanto anotava algo num bloquinho e deu um sorriso: "É, já sei, você não faz ideia de quem eu sou e nem me conhece... mas eu te conheço há quase um ano, pai..."
Eu quis engolir seco e não consegui.
Mariana foi falar umas coisas com Menéndez um pouco mais longe enquanto uns caras de avental azul começaram a me atender. Ficaram assim um tempão, nem ideia do que estavam fazendo comigo, depois todo mundo foi embora e eu fiquei sozinho com a Mariana. Foi aí que ela começou a me contar tudo, devagar e com calma. A gente tinha tempo.
Ela me disse que, pelo que conseguiu descobrir depois, os caras que tinham me atacado eram amigos do Benja. De José C. Paz. Aparentemente, quando espalharam que o marido da namorada do Benja tinha enchido o vilero de porrada e mandado ele pro hospital, resolveram se vingar. O Benja tinha ficado destruído e feito de otário, numa cadeira de rodas provavelmente pro resto da vida por causa da surra que o Valentín deu, e esses tumberos decidiram cobrar na mesma moeda ou matar o marido, tanto faz. O que eles não sabiam é que, embora o marido fosse eu, quem tinha dado a surra era o Valentín. E quem pagou o pato fui eu. Nas conversas da Mariana com o Benja, ela devia ter deixado escapar que carro eu tinha, e o Benja deve ter contado pros caras dele. Mariana me pediu, por favor, pra nunca contar isso pro Valentín, porque ele morreria de culpa e não teve nada a ver com isso. E também não queria que viesse à tona o que ela fazia antes de conhecê-lo.
Quem me salvou foram o Seu Júlio e outro vizinho, que entraram correndo na garagem e espantaram os caras bem na hora. Me levaram às pressas pro hospital mais perto do bairro e me mantiveram lá por dias. Me mantendo vivo e só. Os médicos de lá diziam que eu tinha morte cerebral, que não tinha mais nada que pudessem fazer. No fim, recomendaram pra Mariana assinar os papéis pra me desconectar e me deixar ir. Mas ela não engoliu essa e sempre negou o pedido. autorização. Só pararam de encher o saco dela quando ela ameaçou o hospital e os médicos pessoalmente com processos e ações até o fundo do bolso deles se fizessem isso.
Finalmente conseguiu me tirar daquele hospital e me levar pra essa clínica especializada, usando uns contatos dela, onde conheceu o doutor Menéndez e ele me conheceu, e começou a me atender desde então. Ela me disse que vieram me ver todo mundo, até meu irmão que mora nos Estados Unidos veio uns dias. Que se revezavam no começo pra ficar comigo entre ela, Soledad, Valentín e às vezes até Miri pra me fazer companhia, mas quem mais ficou comigo de longe foi sempre a Soledad, principalmente nesse último tempo.
Pra pagar a clínica e meu tratamento, a Mariana vendeu meu Mercedes. Eu amava aquele carro e fiquei triste ao ouvir isso. Também se mudou de vez com o Valentín e a Miri pro apartamento do lado e começou a alugar o nosso. Graças aos contatos dela e aos contatos do Valentín na área de petróleo, alugava temporariamente pra altos executivos e advogados da Venezuela, Estados Unidos e Oriente Médio que vinham a negócios. Pagavam uma fortuna em dólares. O que ela pedia.
Sorrindo docemente, também me contou que tinha engravidado do Valentín e que teve o bebê faz pouco. Valentín e Miri colocaram o nome de Héctor, um meninão. Me mostrou as fotos e eu, sinceramente, sorri. De ver eles tão felizes e de ver a Mariana também feliz como mãe, por mais estranha que a situação seja.
Ela me disse pra começar minha recuperação, que eu já ia ficar bem logo e que assim que saísse da clínica, ia parar de alugar o apartamento pra eu ir pra lá. Eu balancei a cabeça que não, que não precisava. Queria dizer que, quando chegasse a hora, podia ficar com a Soledad na casa dela, como vinha fazendo, não sabia como falar. Ela só sorria pra mim.
Ela me disse que já tinham passado onze meses...
Um tempo depois, a Mariana foi embora e logo vi a Soledad entrar, já que Mariana tinha me avisado que ele finalmente tinha acordado. Meu coração deu um pulo de alegria ao vê-la, mesmo que eu tivesse visto ela antes de ontem... minha docinha. Ela desabou a chorar quando me viu, se jogou em cima de mim com cuidado pra não me machucar e me encheu de beijos doces. Não parava de chorar de felicidade. Eu ainda não conseguia falar, tava com um tubo, mas ela ficou comigo. Ficou comigo a noite toda falando, me acariciando, contando um monte de coisas. Não importava o quê. Só queria estar ali comigo e falar comigo depois de tanto tempo. Eu escutava ela com uma felicidade e um amor no peito que me desmontava. Minha doce Vênus loira...
Uns dias depois, eu tava evoluindo bem e tiraram o tubo. Menéndez me dizia (gritava, na verdade) que eu tava com cara melhor e me recuperando. Que logo ia começar fisioterapia e eu ia me sentir melhor. Era daqueles caras que acham que rir é o melhor remédio e vivia me enchendo o saco, zoando, contando piadas ou me fazendo reparar com ele nas peitudas ou na bunda de alguma enfermeira. E olha, ele tinha razão, cada dia que passava eu me sentia um pouco melhor.
Valentín e Miri também vieram, e trouxeram o bebê Héctor. Não queriam trazer ele antes por causa do pequeno, que tinha só dois meses, mas se animaram e trouxeram. É um menino lindo. Eu olhava pra eles tão felizes com o filho novo, concebido com a Mariana, que de algum jeito estranho eu sentia que era um pouco meu também. Ou, pelo menos, responsável por ele existir, já que eu dei meu aval pra tudo.
Também tive longas conversas com o Valentín, que vinha me ver quando podia. Umas conversas muito boas, de homem pra homem e de amigo pra amigo. Nunca contei pra ele sobre a confusão de identidade, como a Mariana tinha me pedido. Pra ele, tinham tentado roubar meu carro e me deixaram assim. Eu decidi deixar assim também. Mariana tava certa. Valentín ia se martirizar à toa, e eu via todo mundo tão feliz que também não queria estragar isso trazendo à tona as coisas que a Mariana fez comigo e o que vi ele fazer. Já parecia coisa de outro tempo, de outra vida, não dessa.
Um tempo depois, fiz aniversário na clínica. Todo mundo veio me ver, menos a Mariana, que se desculpou porque tava resolvendo umas coisas do trabalho e mandou lembranças. A Soledad ficou horas comigo até o pessoal da clínica falar que ela tinha que ir. Como eu amava passar tempo com ela. Como me fazia bem.
Naquela noite do meu aniversário, o Menéndez também tava de plantão e, de repente, vi ele entrar no meu quarto meio estranho, como se não quisesse que ninguém visse. Ele tinha contrabandeado uns hambúrgueres com batata frita pra nós dois e vi que ele trouxe debaixo do braço uma garrafa de uísque e dois copinhos de plástico. Eu me caguei de rir e a gente ficou conversando por horas, celebrando meu aniversário ali, ele me fazendo companhia. Na nossa intimidade e na nossa conversa longa, contei várias coisas dessa história e pedi pra ele, por favor, guardar pra si e não contar nada. Ele é um cara foda.
Uma vez, a Soledad tava comigo na sala de fisioterapia enquanto eu esperava virem fazer o tratamento. Só conversando e me fazendo companhia. Quando ela viu os enfermeiros entrando, me deu um beijão, um sorriso e foi saindo. Ela cruzou com o Menéndez, que também tava entrando, e o cara segurou a porta aberta pra ela, feito um cavalheiro, e falou num tom doce, suave e amoroso: "Mas permita, senhorita, boa tarde, como vai?"
A Soledad riu pra ele e deixou passar um sorrisinho daqueles absolutamente letais entre as mechas loiras: "Ah, muito obrigada, que cavalheiro..."
Menéndez sorriu pra ela: "Por favor, imagina... tchau, até logo."
Vi o Menéndez ficar na porta olhando ela ir embora por um bom tempo e se certificar de que eu tava vendo como ele tava de olho na raba da Soledad. O fisioterapeuta chegou do meu lado e começou os exercícios quando o Menéndez finalmente largou a porta e veio.
"Ei, Juanca", ele falou, "Entre o pedaço de gostosa da sua mulher e esse docinho... Você é um baita de um trouxa, hein? Que filho da puta!". O fisioterapeuta caiu na gargalhada.
E eu, finalmente, também.
No fim, me deram alta depois de uns meses. Me despedi do Menéndez com um abraço enorme e o filho da puta me fez chorar com as coisas que falava no meu ouvido. Fui com a Soledad pro nosso apartamento, como a Mariana tinha pedido. No começo, eles se revezavam pra ficar comigo, de acordo com os horários de cada um, mas no fim eu sempre acabava ficando com a Soledad.
Um tempo depois, numa noite, vieram todos, incluindo a Soledad, que já tava praticamente morando comigo, e a gente jantou. O Valentín, a Miri e a Mariana me falaram que surgiu uma oferta de trabalho pro Valentín no México, com muita, muita grana, e que tavam avaliando, mas que iam aceitar com certeza. Conversaram muito e decidiram que queriam ir os três. Eu sorri e parabenizei eles, de verdade. Via os três bem e felizes. A Mariana me chamou de lado durante o jantar e disse, sozinha, que ia resolver os papéis do divórcio e tudo mais, pra formalizar. Que ia me deixar o carro dela e a parte dela do nosso apartamento. Que era hora dela começar uma vida nova e que, entre o que o Valentín ia ganhar lá, mais o que ela conseguisse de trampo, mais o que iam tirar com a venda do apartamento do Valentín e da Miri, não ia precisar de mais nada. Dei um beijo carinhoso, enorme, na boca da Mariana, sem ninguém ver. Ela respondeu do mesmo jeito e a gente ficou se olhando com carinho por um tempo. Desejei tudo de bom pra ela.
O Menéndez tinha me dito que a recuperação ia ser longa. Meses, talvez até anos, e que eu não ia ficar cem por cento como antes. Talvez uns oitenta por cento ou algo assim, e que isso era bom. Porque oitenta era mais que zero. Ele tinha me dito pra não largar a fisioterapia, por mais que eu quisesse desistir, e pra caminhar. Caminhar muito, o tempo todo. Sair pra caminhar pelo bairro, numa praça, comer um cachorro-quente em pé, qualquer coisa, mas não Fiquei de molho em casa. E que, principalmente, acima de tudo, ela não parasse de chupar meu docinho.
Durante minha recuperação, só quebrei uma vez. Uma única vez. Mariana, Valentín e Miri já tinham ido pro México há um tempão e o apartamento foi vendido pra um cara que nem sei quem é, nem o que faz, e quase nunca vejo a cara dele. Eu tinha saído uma tarde com a Soledad pra dar uma volta por aí. Ela me levava devagarzinho pelo braço. Eu parecia um velho. Me sentia um velho, e fraco. Parei de repente no meio da calçada e comecei a chorar. Não conseguia parar, não tinha consolo, nem sabia do que tava chorando. Soledad só me abraçou e me segurou, ficando ali comigo, abraçados os dois e ela me acariciando. Me entendendo. Me amando e eu amando ela. Ainda bem que agora, mesmo não estando nos oitenta que o Menéndez falou, devo estar nuns setenta ou por aí. Oitenta é a meta. Tô me sentindo bem.
De vez em quando o Valentín me manda alguma foto deles lá. Passam o tempo na praia, os três. A última que ele mandou foi uma selfie onde estavam os três debaixo de um guarda-sol, com a Melody e o Héctor no colo. Ele disse que a Mariana já tava esperando outro, que tinham descoberto há uns dias. Sorri e parabenizei ele.
Às vezes fico pensando em todas as formas diferentes que essa história poderia ter se desenrolado. Fazer ou não fazer algo, dizer ou não dizer algo, e o que teria mudado. Mas a verdade é que não mudaria nada. Sério. Claro que teve momentos em que passei muito mal. Mas esses momentos, junto com os bons, foram necessários pra construir o caminho tortuoso que me deixou exatamente aqui, como estou e com quem estou. E se às vezes me sinto um pouco mal e pra baixo, a única coisa que preciso fazer é olhar pra Soledad.
Como tô olhando agora, ajoelhada aqui bem pertinho de mim, do lado da lagoa. Viemos no fim de semana pra Chascomús, passear e descansar. A barriga de grávida dela já tá tão aparente e tão linda. Ela deixou o cabelo crescer ainda mais e tá compridão. As pontas loiras acariciam aquela barriguinha linda e inchada e eu sorrio. Vamos ter uma menina, ela já fez os exames e já sabemos. Ela ainda não se decidiu pelo nome.
Mas eu sim. Nossa filha vai se chamar Paz.
11 comentários - Minha esposa, a puta do prédio - Parte 14 (fim)
Es algo que tubo todos los condimentos, para hacer una pelicula.
Tiene erotismo, suspenso,tiene alegrias y tristezas ,ojo ehhh es un buen guion ,pensalo .
FELICITACIONES MUY BUENO
GRATAMENTE SORPRENDIDO, TE FELICITO NUEVAMENTE.
1) se terminó;
2) le dieron pa que tenga y estuvo un año o más, grogui;
3) La Mariana parió a un pibe, que nunca quiso tener con el marido;
4) Se van todos al exterior, como una familia ensamblada;
5) La muy turrita de Mariana, terminó siendo una madre por encargue.
6) ni me quisiera imaginar que vida va a tener y cómo va a justificar que vivan tres juntos;
7) y la Sole, embarazada...
Mucho para el final....
Bueno, todos bien menos Benja. Y Don Julio, nadie piensa en Don Julio. xd
Siempre me pregunté en la vida real que la puede hacer cambiar a una mujer convirtiendo su vida sexual y moral haciendola una máquina.
La corto porque este comentario parece una Novela.... Gracias.
El personaje de Mariana realmente fue el que menos me costó de realizar. Alguien me comento que se había vuelto inmoral cuando salto lo de Soledad, pero para mi siempre fue amoral. Desde siempre. Solamente necesito ese click para sacarlo. Tenia varios rumbos para elegir con Mariana por donde llevarla, algunos bastante mas escabrosos que esto, pero finalmente me decidi por este. Muchas gracias por seguir la historia y saludos!