O sol se infiltrava com violência pela fresta da persiana quebrada, aquela que eu jurava consertar toda manhã, mas a ressaca e a preguiça sempre podiam mais. Outra sexta-feira de merda no Fuerte Apache. Me levantei com o corpo mais duro que cassetete de preso, o colchão cheio de molas me furando cada maldito osso. Vinte anos e me sentindo com setenta.
Minha véia gritava da cozinha pra eu me apressar, que o mate esfriava, mas eu tava com a cabeça virada um bumbo e as tripas roncando por algo mais forte que um estouro. Desci lá embaixo, não fosse ela me jogar água fria de novo. Tomei dois mates amargos enquanto desviava o olhar de decepção da véia. Sabia que eu tramava algo, ela sempre sabe, mas nunca pergunta. Dei um beijo na cabeça dela antes de sair, uma mistura de culpa e carinho.
As ruas do bairro me cuspiam na cara a mesma realidade de sempre: caras com olhar perdido, cachorros magros fuçando no lixo, música no último volume tampando a miséria. Tinha uns trampos pra fazer, a grana não caía do céu, e menos nesse buraco.
Encontrei o Rata na esquina, com aquela cara de rato que o filho da puta tinha. Mais nervoso que de costume. O roubo daquele quiosque tinha deixado nós dois com a bunda na mão. E aquele cara… Não, melhor não pensar no cara.
Depois de tomar umas cervejas quentes no bar do Don Julio, a cabeça rodava mais que carrossel de praça. Precisava de algo mais forte pra esquecer a cara do cara, a cara de susto do Rata, minha própria cara refletida na poça de sangue.
Ao passar pela porta do prédio, vi ela saindo. A do dois B. Com aquele shortinho preto que marcava aquela bunda linda e a camiseta dos Redondos que ela tinha amarrada acima do umbigo. Tava mais gostosa que nunca. Confesso que sempre tive fraqueza por morenas com franjinha. Eu cruzava com ela no corredor e a gente ficava se olhando, às vezes na Booty do armazém, mas nunca nada.
Vinte mil por um pó, o Turco tinha me dito que tinha oferecido faz um tempo. Vinte paus, ha. Como se a mina fosse uma mercadoria. E eu que queria ver ela se revirando na minha cama, suando, gritando meu nome...
Melhor nem pensar nisso agora. Hoje à noite era bebedeira na casa do Tuerca, música alta, e porcaria. Tinha que apagar o filme de terror que passava na minha cabeça.
O apê do Tuerca era uma bagunça linda. Música no último volume, fumaça de cigarro flutuando no ar como neblina tóxica, e uma fauna de personagens dignos de um filme do Tarantino. O Tuerca era um cara foda nisso de organizar festas clandestinas, desde que não desse pra encher a cara e começar a atirar pro alto.
O Rata já tava lá, mais pálido que o normal, com o olhar perdido no fundo de um copo plástico. Evitei cruzar o olhar com ele, não tava a fim de ouvir as reclamações dele, os medos de iniciante. Eu também tava com medo, claro que sim, mas engolia com a cerveja quente e o baseado que o Pipa me passou.
A música, um remix de cumbia villera e reggaeton velho, batia no meu peito que nem uma martelada. Na pista improvisada, casais se esfregavam com uma mistura de desejo e desespero. Tentei me concentrar no ritmo, fiquei no vai e vem com umas minas que dançavam perto, mas a culpa, aquela puta, me seguia como uma sombra. De repente, como uma aparição divina no meio do inferno de fumaça e suor, eu vi ela. Valentina...
Em breve a parte 2
Minha véia gritava da cozinha pra eu me apressar, que o mate esfriava, mas eu tava com a cabeça virada um bumbo e as tripas roncando por algo mais forte que um estouro. Desci lá embaixo, não fosse ela me jogar água fria de novo. Tomei dois mates amargos enquanto desviava o olhar de decepção da véia. Sabia que eu tramava algo, ela sempre sabe, mas nunca pergunta. Dei um beijo na cabeça dela antes de sair, uma mistura de culpa e carinho.
As ruas do bairro me cuspiam na cara a mesma realidade de sempre: caras com olhar perdido, cachorros magros fuçando no lixo, música no último volume tampando a miséria. Tinha uns trampos pra fazer, a grana não caía do céu, e menos nesse buraco.
Encontrei o Rata na esquina, com aquela cara de rato que o filho da puta tinha. Mais nervoso que de costume. O roubo daquele quiosque tinha deixado nós dois com a bunda na mão. E aquele cara… Não, melhor não pensar no cara.
Depois de tomar umas cervejas quentes no bar do Don Julio, a cabeça rodava mais que carrossel de praça. Precisava de algo mais forte pra esquecer a cara do cara, a cara de susto do Rata, minha própria cara refletida na poça de sangue.
Ao passar pela porta do prédio, vi ela saindo. A do dois B. Com aquele shortinho preto que marcava aquela bunda linda e a camiseta dos Redondos que ela tinha amarrada acima do umbigo. Tava mais gostosa que nunca. Confesso que sempre tive fraqueza por morenas com franjinha. Eu cruzava com ela no corredor e a gente ficava se olhando, às vezes na Booty do armazém, mas nunca nada.
Vinte mil por um pó, o Turco tinha me dito que tinha oferecido faz um tempo. Vinte paus, ha. Como se a mina fosse uma mercadoria. E eu que queria ver ela se revirando na minha cama, suando, gritando meu nome...
Melhor nem pensar nisso agora. Hoje à noite era bebedeira na casa do Tuerca, música alta, e porcaria. Tinha que apagar o filme de terror que passava na minha cabeça.
O apê do Tuerca era uma bagunça linda. Música no último volume, fumaça de cigarro flutuando no ar como neblina tóxica, e uma fauna de personagens dignos de um filme do Tarantino. O Tuerca era um cara foda nisso de organizar festas clandestinas, desde que não desse pra encher a cara e começar a atirar pro alto.
O Rata já tava lá, mais pálido que o normal, com o olhar perdido no fundo de um copo plástico. Evitei cruzar o olhar com ele, não tava a fim de ouvir as reclamações dele, os medos de iniciante. Eu também tava com medo, claro que sim, mas engolia com a cerveja quente e o baseado que o Pipa me passou.
A música, um remix de cumbia villera e reggaeton velho, batia no meu peito que nem uma martelada. Na pista improvisada, casais se esfregavam com uma mistura de desejo e desespero. Tentei me concentrar no ritmo, fiquei no vai e vem com umas minas que dançavam perto, mas a culpa, aquela puta, me seguia como uma sombra. De repente, como uma aparição divina no meio do inferno de fumaça e suor, eu vi ela. Valentina...
Em breve a parte 2
1 comentários - A vizinha gostosa do 2-B (parte 1)