O DESPERTAR DE UM HOMEM
Capítulo 20: a família desmoronada, será o fim?
São Pedro – bem-vindo ao céu, estas são as portas que te levam ao paraíso,
onde estarás na tua glória, fizeste o bem na terra dos vivos e hoje estás
aqui no céu, conquistaste isso com sabedoria, responsabilidade e coragem,
Ser – obrigado, São Pedro, me honras vindo me receber
São Pedro – não seja modesto, recebo todos que sobem, os que fizeram o
bem, suas almas puras
Ser – desculpe, São Pedro, obrigado por me receber, e este anjo, quem é?
São Pedro – ele é teu anjo da guarda, Vehuiah, ele vai te acompanhar no caminho
Vehuiah – Bem-vindo, Sérgio, sou teu anjo da guarda, sempre estive contigo te protegendo, aquele que te deu força pra viver tua vida
– naquele momento senti uma eletricidade percorrendo meu corpo, perdi a consciência e uma série de lembranças veio à minha mente, meu anjo me segurou,
olhei pra São Pedro, e São Pedro falou
São Pedro – ainda não é tua hora, rapaz, deves voltar, teu tempo não é agora,
ainda tens muitas coisas pendentes pra fazer, boa viagem
ENQUANTO ISSO EM CABALLITO, NO TERRAÇO
Melisa – abaixa tua arma, polícia
– Alejandro se virou e atirou, Melisa se cobriu e não hesitou em atirar, ferindo Alejandro no braço onde ele tinha a arma, acertando também no ombro e na perna
Alejandro – o que você fez, estúpida? Sou polícia, você vai se foder
– Alejandro não ouviu quando ela gritou "polícia"
Melisa – quem tá fodido é você, matou quem não devia e cavou tua
própria cova, sabe o que fazem com policiais corruptos como você
Alejandro – você é mais uma escória, vão te matar depois de
atirar num policial
Melisa – pra você sou sargento 1ª, cabo,
– ele não reagiu ao que ela dizia, estava cego pela raiva e pela maldita prepotência
cavou a própria cova naquele dia
NO PARQUE NO TÉRREO
– todos olharam pra cima, apesar da música estar alta, ouviram os tiros e olhavam como meu corpo Caí, perplexos e sem entender o que tava rolando, me seguiram com o olhar até eu cair no meio da piscina. Os primeiros
Choros e gritos começaram a ecoar, a música apagou, a piscina ficou vermelha, meu corpo sem vida boiava na água. Ricardo e Sabrina não hesitaram um segundo e pularam na piscina, Oscar ligou pro Htal. Churruca pedindo a ambulância, tudo era um caos. Nisso, ele viu Rogelio, Cristina e Walter saindo pra rua, quis segui-los e percebeu que a Melisa tava faltando. Saiu correndo pra sacada,
no caminho encontrou a Fabiana desmaiada, continuou subindo depois de verificar que ela ainda respirava. Quando chegou na sacada, encontrou a Melisa algemando o Alejandro.
Oscar — Que porra aconteceu, Melisa?
— As lágrimas escorriam dos olhos dela.
Melisa — Esse merda atirou no Sergio a sangue frio.
— Oscar levantou o olhar, encarou ele, sacou a arma e apontou direto pra cabeça dele.
Oscar — É o teu fim.
Melisa — Não ainda, Omar, já vamos ter tempo pra isso. Temos que pegar o irmão dele e os tios, não podemos deixar eles escaparem.
Oscar — Por isso fugiram feito ratos. Já mandei um alerta, chamou o principal?
Melisa — Ainda não, amanhã avisamos logo cedo. Agora temos que pegar esses ratos.
— Os choros e gritos ecoaram, minhas irmãs não paravam de chorar e gritar, minha mãe e a Vivi ajoelhadas na frente dos meus pés, Ricardo e Sabrina tentavam reanimar sem sucesso, minha avó desmaiada na grama, os convidados estavam chocados e abalados. A ambulância chegou, me colocaram numa maca e
a ambulância partiu pro Htal. Churruca, os médicos fazendo as manobras de reanimação. Ricardo e Sabrina foram atrás dela,
a polícia chegou e outra ambulância veio atrás deles. Levaram o Alejandro algemado
também pro Htal. Churruca, pra fazer os curativos.
Melisa pegou o carro e colocou minha mãe, a Paola e a Vivi dentro,
o Omar montou o cerco e saiu pra procurar eles intensamente. Eram prioridade
- A ambulância chegou no hospital e meteram meu corpo sem vida no centro cirúrgico, os cirurgiões agiram na hora, não dava pra perder tempo.
Ricardo e Sabrina esperavam na sala, Melisa chegou junto com minhas mães e a Paola.
Minha Mãe - Alguma novidade? (entre lágrimas)
Ricardo - Tá no centro cirúrgico, ainda não saíram.
Paola - Vão salvar ele.
Ricardo - Tão os melhores médicos nesse hospital, tão as melhores mãos, só resta rezar.
- Os minutos, as horas passavam e ainda não tinham notícias, os familiares estavam preocupados, as horas pareciam eternas, a sala de espera encheu de todos os parentes, lágrimas, choros, a desolação e o golpe que levaram foi muito pesado, o Sergio não era só mais um membro da família, era muito mais pra eles, alguém que trazia alegria pra casa, o que sempre tava lá e você podia contar, um jovem centrado e honesto.
Carlos M: Melisa, por que não me chamaram na hora?
Melisa S: Chefe, a gente queria esperar.
Carlos M: Se machucam alguém dessa família, eu tenho que saber na mesma hora.
Melisa S: Sim, senhor, me desculpa.
Carlos M: Me fala as novidades.
Melisa S: Quem atirou tá na delegacia preso, Alejandro Arregui, cabo da seccional 42, o irmão dele, também da 42, Walter Arregui, fugiu com os tios do Sergio, Cristina Santamarina e Rogelio De Sena, vulgo 2 Facas, já foram capturados e tão na dependência policial.
Carlos M: Pera, pera, você disse 2 Facas? Isso é um mito, uma lenda.
Melisa S: Parece que não, senhor. A gente tem o depoimento de uma das filhas dele e o Sergio também ouviu a conversa entre os três.
Carlos M: E por isso mandaram matar ele?
Melisa S: Pelo que sei, eles não sabiam que tavam sendo ouvidos, o motivo de terem atirado nele é por causa de uma prima dele, a Fabiana, e a gente ainda não achou ela.
Carlos M: Tem que encontrar ela o mais rápido possível.
Melisa S: A Sabrina e o Oscar tão procurando ela.
Carlos M: Beleza, vamos levar esse desgraçado pra delegacia. A Rocío e o Alan vão ficar aqui esperando. Ricardo. e você vai comigo
Ricardo M: sim, senhor
— já tinham se passado 4 horas, a espera e o tempo parecem parar, quando as portas do centro cirúrgico se abrem, o cirurgião, acompanhado de mais 2, ao chamado dos familiares, o cirurgião cardiovascular Alexi Basterrica, suas assistentes Silvia Echeverria e Ramiro Sorni, cirurgião pulmonar
Minha Mãe: fale, por favor, doutor
Alexi B: bem, o paciente está estável, conseguimos reanimá-lo, os pulmões dele colapsaram por causa dos dois tiros, uma das balas raspou o coração causando uma contusão, parando o coração dele. Ele está estável e não terá sequelas, por sorte conseguimos reanimar o pulso cardíaco, saturamos os ferimentos, ele está com respirador artificial, está em coma 1. Ainda estamos surpresos de ele estar vivo, conseguimos a cirurgia com sucesso, o resto do corpo dele está com hematomas. Felizmente não tem fraturas, ele tem um corpo muito forte. Agora só resta esperar a evolução. Por enquanto não poderão entrar, poderão vê-lo através de um vidro. Vou mantê-los informados e se houver alguma mudança no estado dele, aviso na hora. Se me dão licença, tenho outra cirurgia.
— As notícias eram favoráveis, uma luz de esperança acariciava os familiares e amigos que ainda estavam naquela sala, uma pequena alegria se notava em cada olhar, embora ainda faltasse esperar, não se adiantar a qualquer acontecimento que ocorresse. Ele podia mostrar melhora, acordar e voltar a viver. O que mais assustava as médicas da família era o despertar do coma. Só 20% se recuperam sem sequelas, o resto sempre ficava com uma lição, uma paralisia, podia ficar em estado vegetativo. Como ao manter o paciente em coma induzido se reduzem o fluxo sanguíneo e o metabolismo do cérebro, os vasos sanguíneos se afinam, diminui o inchaço e, com isso, um potencial dano cerebral anexo. Diferente dos filmes, as pessoas geralmente não acordam de repente, mas vão se recuperando aos poucos. aos poucos
as funções do cérebro. Isso porque os efeitos do medicamento que o mantém nesse estado demoram pra sair do corpo. Tem a possibilidade de ele nunca acordar e morrer,
;- desde aquele dia se revezavam pra ficar perto de mim, não daria tempo de nomear
todos que vieram, mas tava sempre cheio de gente, tinham instalado um
microfone pra poder falar comigo, dizem que falar com alguém em coma faz bem, que ajuda o cérebro a ativar, mito pode ser, verdade nunca vamos saber, no meu bairro, na igreja onde fiz a primeira comunhão, todo domingo
o padre menciona meu nome pra minha recuperação rápida, nas minhas duas escolas primárias toda sexta-feira fazem um minuto de silêncio.
;- o mais preocupante era a família, parecia que tava desmoronando aos poucos, minha
mãe caiu em depressão, caiu num poço muito fundo, Viviana tava ali do lado dela, não deixa ela sozinha em momento nenhum, Viviane acabou sendo mais forte do que se
esperava, uma mulher de ferro, uma gostosa que vale, não daria pra descrever
com palavras o que ela é, ela tava constantemente do lado dela, o projeto dos consultórios ficou parado por enquanto, não tinha ânimo pra nada
;- minhas irmãs começaram a escola, um mês depois do início das aulas,
Juli e Yesi eram duas flores murchas no meio da primavera, as carinhas delas sombrias caminhavam na escuridão total, foda se alguém falasse alguma coisa, com um olhar frio elas diziam tudo, davam medo, custou pra elas se incluírem entre os colegas, receberam muita ajuda psicológica e de psicopedagoga
;- Luz começou ao mesmo tempo que Natália, nós 3 íamos estar na mesma série,
o destino quis que eu não estivesse naquele lugar, as duas iam e vinham, não tinha outra coisa pra pensar, os pensamentos delas sempre eram eu, as duas se uniram muito, se apoiavam uma na outra, se uniram tanto que chegaram a ficar íntimas, as duas dormiam juntas, beijos e carícias, se tocavam uma na outra e cada vez Com mais frequência,
usavam aquilo pra desestressar e, nessas punhetas, pensavam que era eu quem tava tocando elas. Com o tempo, entenderam que era um ritual pra elas, era a hora de se ligar, focar nos estudos, e assim foram avançando.
;- analia começou o ensino médio, ela era a pimentinha da família. Embora minha ausência tenha batido forte, ela entendeu que ficar sofrendo não era a resposta, que tinha que focar nos estudos, clarear a mente. Conheceu um cara, e esse cara ensinou ela a viver um pouco mais, a dar um olhar diferente pra vida e pra situação que tava rolando. Focar no que ela mais sentia falta: o dono dela. Ela permitiu que ele ocupasse meu lugar, precisava ser dominada, queria ser castigada por ter trocado de dono. Assim ele foi levando ela de pouco em pouco e ajudando a lidar com o que acontece na família.
;- Paola começou a faculdade e se jogou de cabeça, sem me tirar da mente. Ela tinha entrado no curso de cirurgia, o sonho dela sempre foi ser uma cirurgiã foda. Com o que aconteceu, ela buscava respostas, como me ajudar quando eu acordasse, o que fazer pra ativar meu cérebro. Tudo girava em torno de mim, o mundo dela era eu. Não tinha tempo pra amores, tinha muito pretendente, mas ninguém conseguia quebrar essa barreira, atravessar. Era impossível. Convidavam ela pra vários lugares, roles, baladas, mas ela recusava na hora. As noites de solidão dela eram um dildo que consolava.
;- minha querida avó, isso afetou ela demais. Caiu numa depressão pesada, quase bateu as botas. Várias vezes foi internada, diagnosticaram diabetes tipo 3, ela tinha que se cuidar. Com ajuda de psicólogo, conseguiu se levantar.
;- meus amores Yami e Sofi, se agarraram uma na outra. Todo dia vinham me ver pelo vidro, falavam comigo contando os dias delas. Eram fortes, se seguravam uma na outra. Faziam amor pensando em mim, na mente delas era eu quem tava rondando.
;- a galera vinha de vez em quando, se revezavam pra vinham, falavam comigo como se estivéssemos na esquina batendo papo como sempre, os médicos recomendaram,
;-O Emiliano se afastou da Vitória, depois de encontrá-la numa situação estranha com o irmão dele, todo fim de semana, sábado ou domingo, mas sempre estava, nunca deixou de vir
;-A Vitória veio umas duas vezes me ver e saber como eu estava, vinha sozinha, não falava
só ficava me encarando com lágrimas nos olhos, como se estivesse me culpando
por ter sido tão cruel comigo.
;-Minha professora de Merlo, a Sandra, também veio me ver, meu mestre de taekwondo e
professor de basquete, também estiveram presentes, vocês devem se perguntar como
ficaram sabendo, fácil a resposta, as notícias correm, fui tipo, uma espécie de
herói, naquele momento daquela operação, onde saí ao vivo e a cores para o país inteiro e quando souberam que levei um tiro, bom, 2 + 2 são 4, por sorte não encheram o saco da família, deram o espaço deles, esperaram darem alguma entrevista.
;-Minhas primas, a Daniela ficou responsável pelas irmãs dela, a Ana, a mais nova, foi dano colateral do que o pai delas fazia, da vida paralela dele, venderam a casa e tiveram que sair do bairro, a Daniela se mantinha forte por elas, a Fabiana se trancou no quarto e não quis ver a luz do sol de novo, se sentia culpada pelo
que aconteceu comigo, não tinha psicólogo que fizesse ela mudar de ideia.
;-Se vocês estão se perguntando pelos da brigada, eles sempre estavam presentes, fizeram o
trabalho deles e com sobra, expondo a maioria da delegacia 42ª, envolvidos
parte da Barra de Chicago, uma gangue da vila oculta e um setor do sindicato da carne, o negócio era muito grande, drogas, tráfico de pessoas, sequestros, a operação foi um sucesso, o tio Rogélio foi abatido quando se refugiou na casa fazendo as filhas dele de reféns, Minha tia Cristina ficou em liberdade por ter sido sequestrada pelo Walter, que a fez de refém, apesar disso, deixaram ela solta, não podia se aproximar da Filha, deram uma perímetral nela, as filhas dela não queriam nem perto, ela foi morar no casarão de Villa Celina.
;-Walter, o irmão do Alejandro, sumiu do mapa. Depois de libertar a Cristina do cativeiro, nunca mais acharam ele. Uns dizem que o próprio Dois Fios reduziu ele a cinzas.
;-Alejandro, meu executor, tá preso. Deram 20 anos de condena pra ele, mandaram pra Sierra Chica. Vai se divertir pra caralho naquele lugar. Dizem que quando um policial corrupto entra lá, não passa nada bem.
;-Já faz quase um ano, pra ser exato 357 dias. 24 de novembro de 1998, em Caballito. A família, os amigos e os próximos se reuniram. Não pra comemorar, não tinha espaço pra festa. Se juntaram pra lembrar de mim. Lágrimas e olhos vermelhos no olhar de cada um, contando histórias. Meu prognóstico de vida não era bom, os boletins médicos não eram nada animadores. Umas risadas até rolaram, lembrando de alguma travessura. Até que o telefone tocou. A Luz foi atender.
Luz – Alô?
Pao – Oi, Luz (entre lágrimas)
Luz – O que foi, o que aconteceu? Por que você tá chorando?
Pao – Sérgio...
A Luz desabou em lágrimas, o corpo dela colapsou, caindo no chão...
Capítulo 20: a família desmoronada, será o fim?
São Pedro – bem-vindo ao céu, estas são as portas que te levam ao paraíso,
onde estarás na tua glória, fizeste o bem na terra dos vivos e hoje estás
aqui no céu, conquistaste isso com sabedoria, responsabilidade e coragem,
Ser – obrigado, São Pedro, me honras vindo me receber
São Pedro – não seja modesto, recebo todos que sobem, os que fizeram o
bem, suas almas puras
Ser – desculpe, São Pedro, obrigado por me receber, e este anjo, quem é?
São Pedro – ele é teu anjo da guarda, Vehuiah, ele vai te acompanhar no caminho
Vehuiah – Bem-vindo, Sérgio, sou teu anjo da guarda, sempre estive contigo te protegendo, aquele que te deu força pra viver tua vida
– naquele momento senti uma eletricidade percorrendo meu corpo, perdi a consciência e uma série de lembranças veio à minha mente, meu anjo me segurou,
olhei pra São Pedro, e São Pedro falou
São Pedro – ainda não é tua hora, rapaz, deves voltar, teu tempo não é agora,
ainda tens muitas coisas pendentes pra fazer, boa viagem
ENQUANTO ISSO EM CABALLITO, NO TERRAÇO
Melisa – abaixa tua arma, polícia
– Alejandro se virou e atirou, Melisa se cobriu e não hesitou em atirar, ferindo Alejandro no braço onde ele tinha a arma, acertando também no ombro e na perna
Alejandro – o que você fez, estúpida? Sou polícia, você vai se foder
– Alejandro não ouviu quando ela gritou "polícia"
Melisa – quem tá fodido é você, matou quem não devia e cavou tua
própria cova, sabe o que fazem com policiais corruptos como você
Alejandro – você é mais uma escória, vão te matar depois de
atirar num policial
Melisa – pra você sou sargento 1ª, cabo,
– ele não reagiu ao que ela dizia, estava cego pela raiva e pela maldita prepotência
cavou a própria cova naquele dia
NO PARQUE NO TÉRREO
– todos olharam pra cima, apesar da música estar alta, ouviram os tiros e olhavam como meu corpo Caí, perplexos e sem entender o que tava rolando, me seguiram com o olhar até eu cair no meio da piscina. Os primeiros
Choros e gritos começaram a ecoar, a música apagou, a piscina ficou vermelha, meu corpo sem vida boiava na água. Ricardo e Sabrina não hesitaram um segundo e pularam na piscina, Oscar ligou pro Htal. Churruca pedindo a ambulância, tudo era um caos. Nisso, ele viu Rogelio, Cristina e Walter saindo pra rua, quis segui-los e percebeu que a Melisa tava faltando. Saiu correndo pra sacada,
no caminho encontrou a Fabiana desmaiada, continuou subindo depois de verificar que ela ainda respirava. Quando chegou na sacada, encontrou a Melisa algemando o Alejandro.
Oscar — Que porra aconteceu, Melisa?
— As lágrimas escorriam dos olhos dela.
Melisa — Esse merda atirou no Sergio a sangue frio.
— Oscar levantou o olhar, encarou ele, sacou a arma e apontou direto pra cabeça dele.
Oscar — É o teu fim.
Melisa — Não ainda, Omar, já vamos ter tempo pra isso. Temos que pegar o irmão dele e os tios, não podemos deixar eles escaparem.
Oscar — Por isso fugiram feito ratos. Já mandei um alerta, chamou o principal?
Melisa — Ainda não, amanhã avisamos logo cedo. Agora temos que pegar esses ratos.
— Os choros e gritos ecoaram, minhas irmãs não paravam de chorar e gritar, minha mãe e a Vivi ajoelhadas na frente dos meus pés, Ricardo e Sabrina tentavam reanimar sem sucesso, minha avó desmaiada na grama, os convidados estavam chocados e abalados. A ambulância chegou, me colocaram numa maca e
a ambulância partiu pro Htal. Churruca, os médicos fazendo as manobras de reanimação. Ricardo e Sabrina foram atrás dela,
a polícia chegou e outra ambulância veio atrás deles. Levaram o Alejandro algemado
também pro Htal. Churruca, pra fazer os curativos.
Melisa pegou o carro e colocou minha mãe, a Paola e a Vivi dentro,
o Omar montou o cerco e saiu pra procurar eles intensamente. Eram prioridade
- A ambulância chegou no hospital e meteram meu corpo sem vida no centro cirúrgico, os cirurgiões agiram na hora, não dava pra perder tempo.
Ricardo e Sabrina esperavam na sala, Melisa chegou junto com minhas mães e a Paola.
Minha Mãe - Alguma novidade? (entre lágrimas)
Ricardo - Tá no centro cirúrgico, ainda não saíram.
Paola - Vão salvar ele.
Ricardo - Tão os melhores médicos nesse hospital, tão as melhores mãos, só resta rezar.
- Os minutos, as horas passavam e ainda não tinham notícias, os familiares estavam preocupados, as horas pareciam eternas, a sala de espera encheu de todos os parentes, lágrimas, choros, a desolação e o golpe que levaram foi muito pesado, o Sergio não era só mais um membro da família, era muito mais pra eles, alguém que trazia alegria pra casa, o que sempre tava lá e você podia contar, um jovem centrado e honesto.
Carlos M: Melisa, por que não me chamaram na hora?
Melisa S: Chefe, a gente queria esperar.
Carlos M: Se machucam alguém dessa família, eu tenho que saber na mesma hora.
Melisa S: Sim, senhor, me desculpa.
Carlos M: Me fala as novidades.
Melisa S: Quem atirou tá na delegacia preso, Alejandro Arregui, cabo da seccional 42, o irmão dele, também da 42, Walter Arregui, fugiu com os tios do Sergio, Cristina Santamarina e Rogelio De Sena, vulgo 2 Facas, já foram capturados e tão na dependência policial.
Carlos M: Pera, pera, você disse 2 Facas? Isso é um mito, uma lenda.
Melisa S: Parece que não, senhor. A gente tem o depoimento de uma das filhas dele e o Sergio também ouviu a conversa entre os três.
Carlos M: E por isso mandaram matar ele?
Melisa S: Pelo que sei, eles não sabiam que tavam sendo ouvidos, o motivo de terem atirado nele é por causa de uma prima dele, a Fabiana, e a gente ainda não achou ela.
Carlos M: Tem que encontrar ela o mais rápido possível.
Melisa S: A Sabrina e o Oscar tão procurando ela.
Carlos M: Beleza, vamos levar esse desgraçado pra delegacia. A Rocío e o Alan vão ficar aqui esperando. Ricardo. e você vai comigo
Ricardo M: sim, senhor
— já tinham se passado 4 horas, a espera e o tempo parecem parar, quando as portas do centro cirúrgico se abrem, o cirurgião, acompanhado de mais 2, ao chamado dos familiares, o cirurgião cardiovascular Alexi Basterrica, suas assistentes Silvia Echeverria e Ramiro Sorni, cirurgião pulmonar
Minha Mãe: fale, por favor, doutor
Alexi B: bem, o paciente está estável, conseguimos reanimá-lo, os pulmões dele colapsaram por causa dos dois tiros, uma das balas raspou o coração causando uma contusão, parando o coração dele. Ele está estável e não terá sequelas, por sorte conseguimos reanimar o pulso cardíaco, saturamos os ferimentos, ele está com respirador artificial, está em coma 1. Ainda estamos surpresos de ele estar vivo, conseguimos a cirurgia com sucesso, o resto do corpo dele está com hematomas. Felizmente não tem fraturas, ele tem um corpo muito forte. Agora só resta esperar a evolução. Por enquanto não poderão entrar, poderão vê-lo através de um vidro. Vou mantê-los informados e se houver alguma mudança no estado dele, aviso na hora. Se me dão licença, tenho outra cirurgia.
— As notícias eram favoráveis, uma luz de esperança acariciava os familiares e amigos que ainda estavam naquela sala, uma pequena alegria se notava em cada olhar, embora ainda faltasse esperar, não se adiantar a qualquer acontecimento que ocorresse. Ele podia mostrar melhora, acordar e voltar a viver. O que mais assustava as médicas da família era o despertar do coma. Só 20% se recuperam sem sequelas, o resto sempre ficava com uma lição, uma paralisia, podia ficar em estado vegetativo. Como ao manter o paciente em coma induzido se reduzem o fluxo sanguíneo e o metabolismo do cérebro, os vasos sanguíneos se afinam, diminui o inchaço e, com isso, um potencial dano cerebral anexo. Diferente dos filmes, as pessoas geralmente não acordam de repente, mas vão se recuperando aos poucos. aos poucos
as funções do cérebro. Isso porque os efeitos do medicamento que o mantém nesse estado demoram pra sair do corpo. Tem a possibilidade de ele nunca acordar e morrer,
;- desde aquele dia se revezavam pra ficar perto de mim, não daria tempo de nomear
todos que vieram, mas tava sempre cheio de gente, tinham instalado um
microfone pra poder falar comigo, dizem que falar com alguém em coma faz bem, que ajuda o cérebro a ativar, mito pode ser, verdade nunca vamos saber, no meu bairro, na igreja onde fiz a primeira comunhão, todo domingo
o padre menciona meu nome pra minha recuperação rápida, nas minhas duas escolas primárias toda sexta-feira fazem um minuto de silêncio.
;- o mais preocupante era a família, parecia que tava desmoronando aos poucos, minha
mãe caiu em depressão, caiu num poço muito fundo, Viviana tava ali do lado dela, não deixa ela sozinha em momento nenhum, Viviane acabou sendo mais forte do que se
esperava, uma mulher de ferro, uma gostosa que vale, não daria pra descrever
com palavras o que ela é, ela tava constantemente do lado dela, o projeto dos consultórios ficou parado por enquanto, não tinha ânimo pra nada
;- minhas irmãs começaram a escola, um mês depois do início das aulas,
Juli e Yesi eram duas flores murchas no meio da primavera, as carinhas delas sombrias caminhavam na escuridão total, foda se alguém falasse alguma coisa, com um olhar frio elas diziam tudo, davam medo, custou pra elas se incluírem entre os colegas, receberam muita ajuda psicológica e de psicopedagoga
;- Luz começou ao mesmo tempo que Natália, nós 3 íamos estar na mesma série,
o destino quis que eu não estivesse naquele lugar, as duas iam e vinham, não tinha outra coisa pra pensar, os pensamentos delas sempre eram eu, as duas se uniram muito, se apoiavam uma na outra, se uniram tanto que chegaram a ficar íntimas, as duas dormiam juntas, beijos e carícias, se tocavam uma na outra e cada vez Com mais frequência,
usavam aquilo pra desestressar e, nessas punhetas, pensavam que era eu quem tava tocando elas. Com o tempo, entenderam que era um ritual pra elas, era a hora de se ligar, focar nos estudos, e assim foram avançando.
;- analia começou o ensino médio, ela era a pimentinha da família. Embora minha ausência tenha batido forte, ela entendeu que ficar sofrendo não era a resposta, que tinha que focar nos estudos, clarear a mente. Conheceu um cara, e esse cara ensinou ela a viver um pouco mais, a dar um olhar diferente pra vida e pra situação que tava rolando. Focar no que ela mais sentia falta: o dono dela. Ela permitiu que ele ocupasse meu lugar, precisava ser dominada, queria ser castigada por ter trocado de dono. Assim ele foi levando ela de pouco em pouco e ajudando a lidar com o que acontece na família.
;- Paola começou a faculdade e se jogou de cabeça, sem me tirar da mente. Ela tinha entrado no curso de cirurgia, o sonho dela sempre foi ser uma cirurgiã foda. Com o que aconteceu, ela buscava respostas, como me ajudar quando eu acordasse, o que fazer pra ativar meu cérebro. Tudo girava em torno de mim, o mundo dela era eu. Não tinha tempo pra amores, tinha muito pretendente, mas ninguém conseguia quebrar essa barreira, atravessar. Era impossível. Convidavam ela pra vários lugares, roles, baladas, mas ela recusava na hora. As noites de solidão dela eram um dildo que consolava.
;- minha querida avó, isso afetou ela demais. Caiu numa depressão pesada, quase bateu as botas. Várias vezes foi internada, diagnosticaram diabetes tipo 3, ela tinha que se cuidar. Com ajuda de psicólogo, conseguiu se levantar.
;- meus amores Yami e Sofi, se agarraram uma na outra. Todo dia vinham me ver pelo vidro, falavam comigo contando os dias delas. Eram fortes, se seguravam uma na outra. Faziam amor pensando em mim, na mente delas era eu quem tava rondando.
;- a galera vinha de vez em quando, se revezavam pra vinham, falavam comigo como se estivéssemos na esquina batendo papo como sempre, os médicos recomendaram,
;-O Emiliano se afastou da Vitória, depois de encontrá-la numa situação estranha com o irmão dele, todo fim de semana, sábado ou domingo, mas sempre estava, nunca deixou de vir
;-A Vitória veio umas duas vezes me ver e saber como eu estava, vinha sozinha, não falava
só ficava me encarando com lágrimas nos olhos, como se estivesse me culpando
por ter sido tão cruel comigo.
;-Minha professora de Merlo, a Sandra, também veio me ver, meu mestre de taekwondo e
professor de basquete, também estiveram presentes, vocês devem se perguntar como
ficaram sabendo, fácil a resposta, as notícias correm, fui tipo, uma espécie de
herói, naquele momento daquela operação, onde saí ao vivo e a cores para o país inteiro e quando souberam que levei um tiro, bom, 2 + 2 são 4, por sorte não encheram o saco da família, deram o espaço deles, esperaram darem alguma entrevista.
;-Minhas primas, a Daniela ficou responsável pelas irmãs dela, a Ana, a mais nova, foi dano colateral do que o pai delas fazia, da vida paralela dele, venderam a casa e tiveram que sair do bairro, a Daniela se mantinha forte por elas, a Fabiana se trancou no quarto e não quis ver a luz do sol de novo, se sentia culpada pelo
que aconteceu comigo, não tinha psicólogo que fizesse ela mudar de ideia.
;-Se vocês estão se perguntando pelos da brigada, eles sempre estavam presentes, fizeram o
trabalho deles e com sobra, expondo a maioria da delegacia 42ª, envolvidos
parte da Barra de Chicago, uma gangue da vila oculta e um setor do sindicato da carne, o negócio era muito grande, drogas, tráfico de pessoas, sequestros, a operação foi um sucesso, o tio Rogélio foi abatido quando se refugiou na casa fazendo as filhas dele de reféns, Minha tia Cristina ficou em liberdade por ter sido sequestrada pelo Walter, que a fez de refém, apesar disso, deixaram ela solta, não podia se aproximar da Filha, deram uma perímetral nela, as filhas dela não queriam nem perto, ela foi morar no casarão de Villa Celina.
;-Walter, o irmão do Alejandro, sumiu do mapa. Depois de libertar a Cristina do cativeiro, nunca mais acharam ele. Uns dizem que o próprio Dois Fios reduziu ele a cinzas.
;-Alejandro, meu executor, tá preso. Deram 20 anos de condena pra ele, mandaram pra Sierra Chica. Vai se divertir pra caralho naquele lugar. Dizem que quando um policial corrupto entra lá, não passa nada bem.
;-Já faz quase um ano, pra ser exato 357 dias. 24 de novembro de 1998, em Caballito. A família, os amigos e os próximos se reuniram. Não pra comemorar, não tinha espaço pra festa. Se juntaram pra lembrar de mim. Lágrimas e olhos vermelhos no olhar de cada um, contando histórias. Meu prognóstico de vida não era bom, os boletins médicos não eram nada animadores. Umas risadas até rolaram, lembrando de alguma travessura. Até que o telefone tocou. A Luz foi atender.
Luz – Alô?
Pao – Oi, Luz (entre lágrimas)
Luz – O que foi, o que aconteceu? Por que você tá chorando?
Pao – Sérgio...
A Luz desabou em lágrimas, o corpo dela colapsou, caindo no chão...
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