Esclarecimento 1: esta história não é de minha autoria, foi escrita por adrianreload, que já não está mais aqui no P! Estou repostando porque também gostei muito na época.
Esclarecimento 2: todos os personagens são maiores de idade
Capítulo Final
Depois da minha viagem a Nova York, voltei pro meu país aliviado… como se tivesse tirado um peso das costas ter feito as pazes com a Mili e, em parte, comigo mesmo… me perdoar pelas merdas que fiz e que me levaram a perdê-la… tinha coisas que já não dava pra mudar ou controlar e eu tinha que viver com isso.
- Como foi?... ela perguntou.
- Bem, bem… dentro do possível… respondi, lembrando da viagem.
- Que bom…
- Queria te agradecer por tudo… depois de tanta confusão… foi um gesto bonito o que você fez… completei, talvez querendo fazer as pazes também com ela.
- O que você precisar… sabe que eu posso te dar… replicou a Vane, de novo provocante e insinuante, vendo meus 5 segundos de fraqueza.
- Ok… valeu, vou levar em conta… falei e me despedi.
Nem com toda pessoa dá pra fazer as pazes, pensei. A atitude da Vane tinha voltado a ser a de antes… talvez ainda não seja a hora. Com a Mili era diferente, nós dois queríamos resolver as coisas… a Vane só queria continuar brincando comigo.
Depois disso, decidi focar mais positivamente nas minhas coisas, me inscrevi no mestrado da faculdade, o que deixou o Guille muito feliz, que disse que no próximo período também ia fazer, na verdade ia demorar mais, ele tava enrolado com os negócios da família.
- Você tá melhor?... ele perguntou.
- Tô… as coisas tão melhores… valeu por perguntar.
- Fico feliz por você, soube que tá no mestrado… ele completou.
- Acho que já tá na hora de você me perguntar essas coisas pessoalmente… falei, surpreso.
- Não culpa sua mãe, ela me conta as coisas… ela tá orgulhosa… respondeu se desculpando.
- Tava falando que talvez seja hora de conversar essas coisas cara a cara, Viviana… falei.
A verdade é que, se eu tinha feito as pazes com a Mili, talvez pudesse fazer com a Vivi, que apesar de tudo que rolou sempre mostrou preocupação por mim. A gente se encontrou num café, com o Nervosismo dessas situações… começamos falando do mais recente, meu mestrado… depois da viagem e do estado da Mili.
— Olha… espero que você consiga me perdoar pelo que aconteceu, do jeito que agi, sei que você não merecia que as coisas terminassem assim… — admiti, quase sem conseguir olhar nos olhos dela.
— Foi há tanto tempo… e se doeu muito… mas já… já passou… — disse ela, sem querer reviver aquilo, segurando minha mão, sabia que era difícil pra mim falar essas coisas.
— Agora só quero que a gente possa conversar e tentar ser amigos… — falei, angustiado.
— Tá bem… vamos recomeçar… — ela disse, querendo mudar de assunto.
Com certeza eu ainda parecia destruído, não só pelo jeito que agi com ela, mas também por parecer que ainda amava a Mili. Pensei que estava sendo muito egoísta só falando das minhas coisas… então me dediquei a perguntar sobre a vida dela… já era hora de eu ouvir.
Ela me contou que assim que terminou a faculdade, entrou no mestrado e, bom, já tinha terminado. Parabenizei ela por isso, sempre foi muito estudiosa. Depois, meio relutante e com minha insistência, me contou que tinha saído com vários amigos, mas nada sério… a gente até brincou sobre o incidente no cinema, obviamente não contei o que a Mili fez pra eu esquecer ela.
Só admiti que me desestabilizou ver ela, que até a Mili percebeu e ficou com um pouco de ciúmes. Isso de certa forma confortou a Vivi, que sempre dizia que o nosso negócio tinha sido especial e difícil de esquecer. Nos despedimos como amigos… mas aos poucos começamos a sair de novo.
Sobre a Mili… como eu disse, a gente ainda se falava por telefone… comentei que o Guille e a Marce tinham ficado noivos. Ficamos felizes por eles…
— E você? Quando vai pedir em casamento?… — ela disse, brincando.
— Isso tá difícil… primeiro tenho que arrumar uma namorada… — respondi.
— E a Viviana?… — ela disse, tentando arrancar informação.
— Ah, Guille… sempre com fofoca… ou foi a Marce… — respondi, querendo descobrir. sua informante.
- Hummm… não vou te contar… senão depois não fico sabendo das suas coisas… disse ela, risonha.
Parecia que todo mundo sabia da minha vida pessoal, sei lá, talvez até minha mãe falasse com a Mili. Apesar de estar saindo com a Vivi, ainda estávamos longe de retomar algo, pelo menos era o que eu achava, embora parecesse que ela queria. Tentei mudar de assunto, devolvi a pergunta sobre ela e o Paul. Ela disse que estavam bem, mas ocupados com o trabalho.
Depois, tentamos falar do futuro com um pouco de esperança, já que o Guille e a Marce iam se casar… falamos sobre a possibilidade de ter família talvez… embora, pra ser sincero, a Mili, com o tempo, foi deixando essa ideia de lado… tinha medo de passar a doença pros filhos.
Tentei animá-la, com aquela história de que um dia iria visitá-la pra ela me dar outro tour por Nova York… obviamente não como da última vez, fazendo igual coelho em cada canto possível… talvez dessa vez pudesse ser em casal, com o Paul e a Vivi, quem sabe a Marce e o Guille como lua de mel.
No fim, foi mais a Mili quem veio nos ver, passou duas semanas por aqui, nas festas de Natal e Ano Novo. Segundo ela, era pra fugir do frio de Nova York. Senti que talvez fosse uma última viagem ao país, como despedida. Veio com o pai e o namorado Paul.
Primeiro, a Mili visitou parentes… depois, só então os amigos. No começo, não me avisaram da chegada dela, talvez pra eu não criar expectativas, fiquei meio magoado… porque achei que já tínhamos superado aqueles momentos ruins e perdoado o passado… talvez novos fofocas das minhas antigas loucuras com a Vane ou da minha época de cock loca… talvez não quisesse atrapalhar a relação que já tinha retomado com a Vivi.
No fim, foi um pouco disso, mas mais por outro assunto que eu perceberia depois… Já tinha ficado sabendo pelo Guille e pela Marce que a Mili estava no clube campestre aproveitando uns dias de sol, depois de visitas maratônicas aos parentes. Depois disso, voltaria pra cidade, parecia que tinham convencido ela de Verme.
Quando vi ela entrando, meu coração disparou… a gente tava esperando num café com o Marce e o Guille… ela já não usava aquela roupa justa ou provocante que me enlouquecia, tava com roupas mais soltas e confortáveis pra ela. No começo eu não queria aceitar, mas a Mili tava mais magra, quase como vi a mãe dela antes de viajar… quando a Mili foi no banheiro, o Guille e o Marce confirmaram meio a contragosto essa impressão… mas pra mim a Mili sempre foi gostosa e continuava com tudo no lugar… e ponto final.
Sempre que podia, eu olhava pra Mili com os mesmos olhos que usava pra espiar ela nos cantos da faculdade, como quando ninguém sabia da gente e nossos olhares eram cúmplices.
- Ah, Danny… não me olha assim… ela reclamava baixinho, quando o Guille e o Marce deixaram a gente sozinho por uns minutos, pra ir comprar uns doces.
Esses olhares faziam ela corar e ficar sem graça, linda do jeito dela. Quando eles voltaram e eu continuei com esses olhares, a Mili fazia sinal pra eu parar de olhar daquele jeito. Mas pelo menos fazia ela recuperar aquele brilho nos olhos e aquele sorriso safado, com certeza lembrando das loucuras que a gente fez.
Depois o Marce me contou que a Mili pediu pra eles não deixarem ela sozinha comigo por muito tempo, que ela podia fazer besteira se desse uma chance de ficar a sós comigo. Também confirmou que a Mili não queria atrapalhar o que eu tava reconstruindo com a Vivi… muito menos ser infiel ao Paul, que tinha vindo com ela.
Então, se vocês tão pensando, durante a estadia dela… não… não rolou nada… além de um ou outro abraço apertado, e mais de um beijo na bochecha que roçava nostálgico nos lábios. Esse tipo de carinho não agradou muito o Paul, que a essa altura já sabia da história que a gente teve junto.
No final, combinamos de fazer um tour nostálgico pela faculdade. Tiramos fotos na escola velha, na placa comemorativa da turma, com o Guille e o Marce, que no fim das contas acabaram sendo os mais próximos… levamos o Paul de fotógrafo… embora ele tenha tirado umas fotos com a gente também. Mili.
Antes do Mili voltar pra Nova York, a gente se reuniu em casais na casa que o Guille e a Marce estreavam como casados… O Mili foi com o Paul, e naquela época eu tava com a Viviana, que já era minha mina. Apesar de tudo que a gente passou por causa do Mili, a Vivi foi bem nobre ou empática, sei lá como dizer, pra ir e se divertir com nossas histórias da faculdade.
- Vocês viram o velho porteiro?... disse a Marce, tentando puxar assunto.
- Ai sim… coitadinho… ele tá velho… disse o Mili, lembrando que uma vez ele quase nos pegou, a gente se olhou e sorriu cúmplice.
- É… acho que vão enterrar ele no jardim… disse o Guille, sarcástico.
- Que cruel você é… disse o Mili rindo.
- Outro que vi faz um tempo… foi o Javier… disse a Marce, tentando manter o papo.
Acho que a Marce não sabia a história completa entre o Mili, o Javier e eu… só vi o olhar entediado do Mili, como se não ligasse… mas fazer o quê, por educação ele foi na onda.
- Bom… parece que ele ainda tava pegando umas matérias pra se formar… disse a Marce, meio sem graça.
- Dizem que ele engravidou uma mina… e aí largou os estudos pra trabalhar… completou o Guille.
- Não foi aquele Javier que você brigou?... completou a Vivi, tentando entrar na conversa, talvez uma das poucas coisas que ela sabia do grupo.
- É mesmo… por que foi?... perguntou o Mili, intrigado, sabendo que foi a causa.
- Ahhh… por causa de futebol e aposta… eu me limitei a dizer, com um olhar cúmplice.
- É, por um campeonato que a gente ganhou deles… graças ao Danny… respondeu o Guille, orgulhoso.
- Aqui futebol muito louco… disse o Paul, tentando participar com o espanhol capenga dele.
- É… muito fanatismo… respondeu o Mili, sorrindo.
Na real, foi meu fanatismo pelo cu recém-inaugurado dele que causou toda essa treta com o Javier. Devo admitir que, às vezes, eu achava graça do jeito que o Paul se expressava. Notei que ele tava com dificuldade pra encadear frases e tempos verbais… aí lembrei que comigo também rolou a mesma coisa quando visitei os Estados Unidos e meu inglês não funcionou tão bem… então tinha que dar o braço a torcer pro Paul.
Como uma boa anfitriã, a Marce continuou soltando os assuntos…
- O que vocês sabem da Vane?... falou, parecia que o Guille também não tinha contado muito sobre isso.
- Bom… acho que ela foi estudar fora… depois disso não soube mais… falei pra não entrar nesse assunto.
- Eu ouvi uns boatos… não sei se são verdade… completou a Marce, que nos prendeu com aquilo.
- Com a Vane… não dá pra saber o que é verdade e o que não é… respondeu o Guille, meio enjoado.
- Quem me contou foi a Bibliotecária… não sei o quanto é verdade… retrucou a Marce.
Aquela senhora da biblioteca era um oráculo, sabia da vida de todos os alunos, por fofoca de fofoca. Nisso, a Marce tinha ido na faculdade direto pra resolver o diploma… por insistência do Guille. Desde que se formou, a Marce se envolveu mais nos negócios da família do Guille e deixou de lado os trâmites… por causa dessas visitas à faculdade, agora tava mais por dentro dos últimos boatos.
- E o que a bibliotecária te disse?... respondeu a Mili, que parecia curiosa ou talvez via que a Marce tava morrendo de vontade de contar e seguiu o papo.
- Dizem que diagnosticaram uma doença mental… um transtorno bipolar, acho que chamam… falou a Marce meio sem graça.
Olhamos um pro outro, eu e o Guille, na nossa ignorância, talvez aquilo fizesse sentido… pelas mudanças de humor que aquela mulher tinha… os conflitos não resolvidos com os pais e a pressão constante pra ela estudar o que eles queriam, talvez tenha acabado desencadeando essa doença na Vane.
- Parece até que ela ficou internada numa clínica… por causa de uma crise que teve… completou sentindo pena dela.
Soava plausível pelo jeito que ela agia… mas quem sabe?, agora que a Mili tava com leucemia, talvez a Vane também quisesse Um pouco de atenção, talvez os rumores foram espalhados por ela mesma... com algum pretexto pra gente ter pena dela e retomar contato...
- Pobre... só conseguiu dizer Mili.
Talvez a gente não tenha sido muito compreensivo naquele momento... mas a gente tava tão de saco cheio das intrigas dela, a Vane mentiu tanto pra gente, que já nem sabia mais no que acreditar... era tipo a história do Pedro e o lobo, de tanto mentir, quando finalmente falou a verdade, ninguém acreditou.
A distância e o tempo fizeram a Mili deixar de lado qualquer rancor contra ela. Não lembrava dela me fazer nenhuma cobrança, como fez quando fui visitá-la em Nova York... apesar de todo o luxo e dinheiro, até da doença da Mili... a Vane conseguiu fazer a gente sentir pena dela.
Mas fazer o quê... não valia a pena ficar remoendo a vida deles... do Javier e da Vane... o tempo tratou de colocar cada um no seu lugar.
- Gente, até peço desculpas por não ter ido no casamento de vocês... completou Mili, tentando puxar um assunto mais leve.
- É... a cerimônia foi muito linda... respondeu Vivi, que tinha ido comigo naquela ocasião, e pra minha sorte não pegou o buquê da noiva.
- Ah, obrigada... a gente tava tão nervoso com os preparativos... no fim, a gente não aproveita tanto... faz mais pela família e pelos amigos... disse Marce, agradecida.
- É... Mili em tratamento... não poder vir... completou Paul, tentando entrar na conversa.
- Bom... é... coisas de rotina... falou Mili, que não queria entrar em detalhes sobre a doença dela.
Mili evitava falar dessas coisas com a gente... só segurou a mão do Paul, como quem não queria entrar em detalhes sobre a doença. Ela queria lembrar das coisas boas da época da faculdade... Guille entendeu e pegou um álbum velho com fotos daquela época... a gente riu do nosso visual e trocou umas histórias.
Depois ele pegou o álbum do casamento... deu abertura pra falar dos que estavam noivos, dos casados, dos que tinham filhos... teve comentários sobre os planos do Guille e da Marce. sobre ter filhos… e obviamente indiretas pra Mili e Paul… assim como pra Vivi e pra mim… coisa que a gente driblou com bom humor.
Antes de nos despedirmos… Mili tirou uns minutos pra conversar com a Vivi, sob o olhar surpreso meu, do Guille e da Marce. O pretexto foi que a Vivi acompanhasse ela no banheiro pra arrumar a maquiagem, já que ela achava que a Vivi tinha bom gosto pra essas coisas.
Por um momento fiquei intrigado com essa atitude confidente… mas pensei que, do jeito dela, a Mili também precisava fazer as pazes com a Vivi… nunca foram amigas e essa era a primeira e talvez última vez que se viam. Me confortou ver que, depois de alguns minutos, voltaram sorrindo e brincando, só esperava que não tivessem compartilhado detalhes íntimos meus que fossem constrangedores.
Vivi nunca quis me contar do que falaram com a Mili… só se limitava a dizer que era “coisa de mina” de um jeito intrigante, sabia que eu tava morrendo de curiosidade. Pra acalmar um pouco minhas dúvidas, só acrescentava que a Mili era uma grande mulher, com um carisma foda…
Depois dessa reunião… até recebi uns boatos de que a Vane e até o Javier quiseram se enfiar nessa noite de reencontro. Talvez ficaram sabendo porque os amigos deles viram a gente passeando pela facul… mas o prudente do Guille nunca me confirmou, nem como fez pra se livrar deles ou evitá-los.
Dias depois fui me despedir da Mili no aeroporto… Guille e Marce tinham um compromisso de família. Viviana decidiu me dar meu espaço, pra que eu pudesse fechar minhas paradas com a Mili… como não amar a Vivi por esse tipo de atitude desapegada e milf, em relação a quem foi sua rival…
Nem preciso dizer que… essa foi a última vez que pude ver a Mili, a última vez que pude sentir ela, que pude abraçar ela… até pude me dar ao luxo de beijar ela pela última vez…
Pra isso contei com a colaboração proativa do meu bom ex-sogro, ele me deu os 5 minutos de privacidade que a gente precisava. Ele levou o Paul com o pretexto de comprar um café e umas coisas pro voo longo… enquanto levava ele como um moleque, com uma Mão no ombro, meu ex-sogro virou pra me olhar e piscar o olho de um jeito cúmplice…
- Foi muito na cara, né?... ele falou sorrindo pela atitude do pai dele.
- É… tive que subornar ele… falei brincando.
- Você sempre me faz rir… seu bobo… ela disse, batendo de leve no meu peito.
Depois, a gente só se olhou, se abraçou… a cabeça dela afundou no meu peito, enquanto a gente se agarrava. Evitamos nos olhar por uns segundos… até que aconteceu e eu vi de novo aquele brilho nos olhos dela, que eu tinha visto anos atrás… e por um momento a gente voltou a ser aquele casal de jovens que se despediu anos antes no mesmo aeroporto.
Acho que a gente teve o mesmo pensamento… a pouca distância entre a gente foi vencida… eu me inclinei e ela se ergueu na ponta dos pés… nossos lábios se encontraram de novo. Não foi um beijo apaixonado, foi um beijo carinhoso… depois de uns instantes em que nossos lábios se percorreram e se acariciaram com amor… a gente se separou, se olhando feliz pela nova travessura que a gente se permitia…
- Eu sempre vou te amar… aconteça o que acontecer… falei.
- Você vai me fazer chorar… ela disse com os olhos marejados.
- É verdade… nunca te esqueci… e nunca vou te esquecer… confessei.
Era a hora de falar as coisas, não queria deixar essas coisas guardadas no coração… sabia que talvez fosse a última vez que a visse. Não queria me arrepender depois das coisas que devia ter dito e não consegui ou não quis por bancar o durão…
- A Viviana vai te matar… ela disse brincando, tentando esfregar os olhos.
- Bom… acho que ela desconfia… falei resignado.
- Ela é uma boa garota… você devia casar com ela… ela disse.
- Sério?... perguntei.
- Olha que eu deixei você vir sozinho…
- Ei… sou adulto e sei como vir… e como gozar… você sabe… falei brincando.
- Sabe do que eu tô falando… seu bobo… ela disse de bom humor.
Depois ela ficou séria, talvez lembrando da conversa no banheiro…
- Ela é uma mulher incrível… aguentou me ver, depois de Saber que eu te roubei, que fui eu quem os separou… ela deve te amar muito pra ter um gesto assim com você… disse, derramando uma lágrima, embora também tivesse que reconhecer esse mérito ao Paul, que aguentou me ver sabendo do nosso rolo.
Mili ficou em silêncio por uns instantes… como se estivesse se dando coragem pra continuar… até que, finalmente, confessou o que não queria dizer… pra não se quebrar.
- Viviana aguentou me ver… e perceber que ainda… que ainda te amo e que sempre te amei… que eu também nunca te esqueci… completou, chorando.
Ela me abraçou de novo, não queria que eu a visse chorar e, bom, sim, algumas lágrimas também caíram do meu rosto… não sou de pedra. De novo, nos beijamos com ternura e nos separamos.
- Eu não percebi… falei, brincando de novo pra não continuar derramando lágrimas.
- Você nunca percebe nada… a gente, mulher, nota essas coisas… Eu sei que a Vivi me descobriu pelo jeito que eu te olhava… vi na cara dela… mas ela entendeu… sentenciou Mili.
- Puxa… falei, sempre fui distraído pra esses pequenos detalhes.
Vivi não me disse nada nem me recriminou, com certeza entendia o estado da Mili e não era maduro ter ciúmes de um amor antigo que estava prestes a partir…
- Ai… Olha pra mim… tô um bagaço… disse ela, envergonhada, enxugando as lágrimas, não sei se se referia à maquiagem borrada ou à magreza por causa da doença.
- Pra mim você sempre foi gostosa e sempre vai ser… falei sério, olhando nos olhos dela.
- Você é um mentiroso profissional… esquece que te conheço… disse, sorrindo.
- Sim… me conhece melhor que ninguém… falei, piscando um olho.
- A verdade é que… você merece ser feliz… ela também… eu sou feliz e vou ser feliz por você também… disse ela, como conclusão.
Depois, demos mais um beijinho de amigos, e nos separamos pela última vez… vendo que ao longe estavam chegando Paul e o pai da Mili… cheios de bagulhos pra viagem… meu bom ex-sogro, manteve ele entretido comprando quinquilharias. - Sorte que vocês chegaram… senão eu teria te levado pra aquela saída de emergência da última vez… falei brincando sobre uma das últimas loucuras que a gente fez na despedida anterior dela.
- Acho que eles salvaram você… já tava vendo que iam te enfiar naquele banheiro… completou Mili, rindo, lembrando de outra das nossas travessuras clássicas.
Só deu tempo pra um abraço… e um sussurro no ouvido…
- Te amo… obrigada por tantas lembranças lindas… ela me disse.
- Eu também te amo… por favor, nunca esqueça disso… eu falei.
Depois de alguns minutos de conversa, onde Paul e meu sogro mostraram as compras deles, eles foram juntos pra área de embarque… dessa vez recebi um aperto de mão do Paul e até um abraço do meu ex-sogro, enquanto Mili ia sorrindo com eles, virando pra me olhar de vez em quando.
Igual anos atrás, fiquei olhando os aviões partirem, com algumas lágrimas escorrendo pelo meu rosto… até me sentir pronto pra voltar pra minha vida… no caminho, uma ligação da minha mãe, outra da Vivi… e mais algumas do Guille e da Marce, me confortaram.
Depois daquela despedida… alguns anos depois… aconteceu o que tinha que acontecer… infelizmente a Mili, igual a mãe dela, não conseguiu vencer aquela maldita doença…
Não cheguei a tempo de me despedir pessoalmente. Acho que, igual quando ela veio me visitar, a Mili não quis que eu a visse daquele jeito, fez o pai e o Guille prometerem que não me contariam nada. No começo fiquei muito puto com eles, mas depois entendi, era o desejo da Mili.
Lembrei que, como na última vez que a gente se viu, a Mili queria que eu seguisse com a minha vida e que lembrasse dela nos nossos melhores momentos… com nossas loucuras de faculdade, nossos amores e desamores, nossas travessuras em todos os cantos possíveis… e acima de tudo, nosso amor.
Só consegui chegar pra prestar minhas homenagens. Dessa vez consegui pagar minha passagem e estadia em Nova York… o Guille e a Marce foram comigo… e naquele momento… até a Viviana, nunca pensei que receberia tanta compreensão dela.
Não lembro Ter chorado tanto por alguém antes... muito menos ter recebido tanto carinho das pessoas mais inesperadas, do seu pai rígido e do Paul, que às vezes era ciumento... entendi que cada um, do seu jeito, tinha amado a Mili...
Não tinha mais tempo pra arrependimentos... como o Guille me dizia... vivemos o que tínhamos que viver, só restava lembrar do que foi bom numa das melhores fases da nossa vida.
Fim...
Esclarecimento 2: todos os personagens são maiores de idade
Capítulo Final
Depois da minha viagem a Nova York, voltei pro meu país aliviado… como se tivesse tirado um peso das costas ter feito as pazes com a Mili e, em parte, comigo mesmo… me perdoar pelas merdas que fiz e que me levaram a perdê-la… tinha coisas que já não dava pra mudar ou controlar e eu tinha que viver com isso.
- Como foi?... ela perguntou.
- Bem, bem… dentro do possível… respondi, lembrando da viagem.
- Que bom…
- Queria te agradecer por tudo… depois de tanta confusão… foi um gesto bonito o que você fez… completei, talvez querendo fazer as pazes também com ela.
- O que você precisar… sabe que eu posso te dar… replicou a Vane, de novo provocante e insinuante, vendo meus 5 segundos de fraqueza.
- Ok… valeu, vou levar em conta… falei e me despedi.
Nem com toda pessoa dá pra fazer as pazes, pensei. A atitude da Vane tinha voltado a ser a de antes… talvez ainda não seja a hora. Com a Mili era diferente, nós dois queríamos resolver as coisas… a Vane só queria continuar brincando comigo.
Depois disso, decidi focar mais positivamente nas minhas coisas, me inscrevi no mestrado da faculdade, o que deixou o Guille muito feliz, que disse que no próximo período também ia fazer, na verdade ia demorar mais, ele tava enrolado com os negócios da família.
- Você tá melhor?... ele perguntou.
- Tô… as coisas tão melhores… valeu por perguntar.
- Fico feliz por você, soube que tá no mestrado… ele completou.
- Acho que já tá na hora de você me perguntar essas coisas pessoalmente… falei, surpreso.
- Não culpa sua mãe, ela me conta as coisas… ela tá orgulhosa… respondeu se desculpando.
- Tava falando que talvez seja hora de conversar essas coisas cara a cara, Viviana… falei.
A verdade é que, se eu tinha feito as pazes com a Mili, talvez pudesse fazer com a Vivi, que apesar de tudo que rolou sempre mostrou preocupação por mim. A gente se encontrou num café, com o Nervosismo dessas situações… começamos falando do mais recente, meu mestrado… depois da viagem e do estado da Mili.
— Olha… espero que você consiga me perdoar pelo que aconteceu, do jeito que agi, sei que você não merecia que as coisas terminassem assim… — admiti, quase sem conseguir olhar nos olhos dela.
— Foi há tanto tempo… e se doeu muito… mas já… já passou… — disse ela, sem querer reviver aquilo, segurando minha mão, sabia que era difícil pra mim falar essas coisas.
— Agora só quero que a gente possa conversar e tentar ser amigos… — falei, angustiado.
— Tá bem… vamos recomeçar… — ela disse, querendo mudar de assunto.
Com certeza eu ainda parecia destruído, não só pelo jeito que agi com ela, mas também por parecer que ainda amava a Mili. Pensei que estava sendo muito egoísta só falando das minhas coisas… então me dediquei a perguntar sobre a vida dela… já era hora de eu ouvir.
Ela me contou que assim que terminou a faculdade, entrou no mestrado e, bom, já tinha terminado. Parabenizei ela por isso, sempre foi muito estudiosa. Depois, meio relutante e com minha insistência, me contou que tinha saído com vários amigos, mas nada sério… a gente até brincou sobre o incidente no cinema, obviamente não contei o que a Mili fez pra eu esquecer ela.
Só admiti que me desestabilizou ver ela, que até a Mili percebeu e ficou com um pouco de ciúmes. Isso de certa forma confortou a Vivi, que sempre dizia que o nosso negócio tinha sido especial e difícil de esquecer. Nos despedimos como amigos… mas aos poucos começamos a sair de novo.
Sobre a Mili… como eu disse, a gente ainda se falava por telefone… comentei que o Guille e a Marce tinham ficado noivos. Ficamos felizes por eles…
— E você? Quando vai pedir em casamento?… — ela disse, brincando.
— Isso tá difícil… primeiro tenho que arrumar uma namorada… — respondi.
— E a Viviana?… — ela disse, tentando arrancar informação.
— Ah, Guille… sempre com fofoca… ou foi a Marce… — respondi, querendo descobrir. sua informante.
- Hummm… não vou te contar… senão depois não fico sabendo das suas coisas… disse ela, risonha.
Parecia que todo mundo sabia da minha vida pessoal, sei lá, talvez até minha mãe falasse com a Mili. Apesar de estar saindo com a Vivi, ainda estávamos longe de retomar algo, pelo menos era o que eu achava, embora parecesse que ela queria. Tentei mudar de assunto, devolvi a pergunta sobre ela e o Paul. Ela disse que estavam bem, mas ocupados com o trabalho.
Depois, tentamos falar do futuro com um pouco de esperança, já que o Guille e a Marce iam se casar… falamos sobre a possibilidade de ter família talvez… embora, pra ser sincero, a Mili, com o tempo, foi deixando essa ideia de lado… tinha medo de passar a doença pros filhos.
Tentei animá-la, com aquela história de que um dia iria visitá-la pra ela me dar outro tour por Nova York… obviamente não como da última vez, fazendo igual coelho em cada canto possível… talvez dessa vez pudesse ser em casal, com o Paul e a Vivi, quem sabe a Marce e o Guille como lua de mel.
No fim, foi mais a Mili quem veio nos ver, passou duas semanas por aqui, nas festas de Natal e Ano Novo. Segundo ela, era pra fugir do frio de Nova York. Senti que talvez fosse uma última viagem ao país, como despedida. Veio com o pai e o namorado Paul.
Primeiro, a Mili visitou parentes… depois, só então os amigos. No começo, não me avisaram da chegada dela, talvez pra eu não criar expectativas, fiquei meio magoado… porque achei que já tínhamos superado aqueles momentos ruins e perdoado o passado… talvez novos fofocas das minhas antigas loucuras com a Vane ou da minha época de cock loca… talvez não quisesse atrapalhar a relação que já tinha retomado com a Vivi.
No fim, foi um pouco disso, mas mais por outro assunto que eu perceberia depois… Já tinha ficado sabendo pelo Guille e pela Marce que a Mili estava no clube campestre aproveitando uns dias de sol, depois de visitas maratônicas aos parentes. Depois disso, voltaria pra cidade, parecia que tinham convencido ela de Verme.
Quando vi ela entrando, meu coração disparou… a gente tava esperando num café com o Marce e o Guille… ela já não usava aquela roupa justa ou provocante que me enlouquecia, tava com roupas mais soltas e confortáveis pra ela. No começo eu não queria aceitar, mas a Mili tava mais magra, quase como vi a mãe dela antes de viajar… quando a Mili foi no banheiro, o Guille e o Marce confirmaram meio a contragosto essa impressão… mas pra mim a Mili sempre foi gostosa e continuava com tudo no lugar… e ponto final.
Sempre que podia, eu olhava pra Mili com os mesmos olhos que usava pra espiar ela nos cantos da faculdade, como quando ninguém sabia da gente e nossos olhares eram cúmplices.
- Ah, Danny… não me olha assim… ela reclamava baixinho, quando o Guille e o Marce deixaram a gente sozinho por uns minutos, pra ir comprar uns doces.
Esses olhares faziam ela corar e ficar sem graça, linda do jeito dela. Quando eles voltaram e eu continuei com esses olhares, a Mili fazia sinal pra eu parar de olhar daquele jeito. Mas pelo menos fazia ela recuperar aquele brilho nos olhos e aquele sorriso safado, com certeza lembrando das loucuras que a gente fez.
Depois o Marce me contou que a Mili pediu pra eles não deixarem ela sozinha comigo por muito tempo, que ela podia fazer besteira se desse uma chance de ficar a sós comigo. Também confirmou que a Mili não queria atrapalhar o que eu tava reconstruindo com a Vivi… muito menos ser infiel ao Paul, que tinha vindo com ela.
Então, se vocês tão pensando, durante a estadia dela… não… não rolou nada… além de um ou outro abraço apertado, e mais de um beijo na bochecha que roçava nostálgico nos lábios. Esse tipo de carinho não agradou muito o Paul, que a essa altura já sabia da história que a gente teve junto.
No final, combinamos de fazer um tour nostálgico pela faculdade. Tiramos fotos na escola velha, na placa comemorativa da turma, com o Guille e o Marce, que no fim das contas acabaram sendo os mais próximos… levamos o Paul de fotógrafo… embora ele tenha tirado umas fotos com a gente também. Mili.
Antes do Mili voltar pra Nova York, a gente se reuniu em casais na casa que o Guille e a Marce estreavam como casados… O Mili foi com o Paul, e naquela época eu tava com a Viviana, que já era minha mina. Apesar de tudo que a gente passou por causa do Mili, a Vivi foi bem nobre ou empática, sei lá como dizer, pra ir e se divertir com nossas histórias da faculdade.
- Vocês viram o velho porteiro?... disse a Marce, tentando puxar assunto.
- Ai sim… coitadinho… ele tá velho… disse o Mili, lembrando que uma vez ele quase nos pegou, a gente se olhou e sorriu cúmplice.
- É… acho que vão enterrar ele no jardim… disse o Guille, sarcástico.
- Que cruel você é… disse o Mili rindo.
- Outro que vi faz um tempo… foi o Javier… disse a Marce, tentando manter o papo.
Acho que a Marce não sabia a história completa entre o Mili, o Javier e eu… só vi o olhar entediado do Mili, como se não ligasse… mas fazer o quê, por educação ele foi na onda.
- Bom… parece que ele ainda tava pegando umas matérias pra se formar… disse a Marce, meio sem graça.
- Dizem que ele engravidou uma mina… e aí largou os estudos pra trabalhar… completou o Guille.
- Não foi aquele Javier que você brigou?... completou a Vivi, tentando entrar na conversa, talvez uma das poucas coisas que ela sabia do grupo.
- É mesmo… por que foi?... perguntou o Mili, intrigado, sabendo que foi a causa.
- Ahhh… por causa de futebol e aposta… eu me limitei a dizer, com um olhar cúmplice.
- É, por um campeonato que a gente ganhou deles… graças ao Danny… respondeu o Guille, orgulhoso.
- Aqui futebol muito louco… disse o Paul, tentando participar com o espanhol capenga dele.
- É… muito fanatismo… respondeu o Mili, sorrindo.
Na real, foi meu fanatismo pelo cu recém-inaugurado dele que causou toda essa treta com o Javier. Devo admitir que, às vezes, eu achava graça do jeito que o Paul se expressava. Notei que ele tava com dificuldade pra encadear frases e tempos verbais… aí lembrei que comigo também rolou a mesma coisa quando visitei os Estados Unidos e meu inglês não funcionou tão bem… então tinha que dar o braço a torcer pro Paul.
Como uma boa anfitriã, a Marce continuou soltando os assuntos…
- O que vocês sabem da Vane?... falou, parecia que o Guille também não tinha contado muito sobre isso.
- Bom… acho que ela foi estudar fora… depois disso não soube mais… falei pra não entrar nesse assunto.
- Eu ouvi uns boatos… não sei se são verdade… completou a Marce, que nos prendeu com aquilo.
- Com a Vane… não dá pra saber o que é verdade e o que não é… respondeu o Guille, meio enjoado.
- Quem me contou foi a Bibliotecária… não sei o quanto é verdade… retrucou a Marce.
Aquela senhora da biblioteca era um oráculo, sabia da vida de todos os alunos, por fofoca de fofoca. Nisso, a Marce tinha ido na faculdade direto pra resolver o diploma… por insistência do Guille. Desde que se formou, a Marce se envolveu mais nos negócios da família do Guille e deixou de lado os trâmites… por causa dessas visitas à faculdade, agora tava mais por dentro dos últimos boatos.
- E o que a bibliotecária te disse?... respondeu a Mili, que parecia curiosa ou talvez via que a Marce tava morrendo de vontade de contar e seguiu o papo.
- Dizem que diagnosticaram uma doença mental… um transtorno bipolar, acho que chamam… falou a Marce meio sem graça.
Olhamos um pro outro, eu e o Guille, na nossa ignorância, talvez aquilo fizesse sentido… pelas mudanças de humor que aquela mulher tinha… os conflitos não resolvidos com os pais e a pressão constante pra ela estudar o que eles queriam, talvez tenha acabado desencadeando essa doença na Vane.
- Parece até que ela ficou internada numa clínica… por causa de uma crise que teve… completou sentindo pena dela.
Soava plausível pelo jeito que ela agia… mas quem sabe?, agora que a Mili tava com leucemia, talvez a Vane também quisesse Um pouco de atenção, talvez os rumores foram espalhados por ela mesma... com algum pretexto pra gente ter pena dela e retomar contato...
- Pobre... só conseguiu dizer Mili.
Talvez a gente não tenha sido muito compreensivo naquele momento... mas a gente tava tão de saco cheio das intrigas dela, a Vane mentiu tanto pra gente, que já nem sabia mais no que acreditar... era tipo a história do Pedro e o lobo, de tanto mentir, quando finalmente falou a verdade, ninguém acreditou.
A distância e o tempo fizeram a Mili deixar de lado qualquer rancor contra ela. Não lembrava dela me fazer nenhuma cobrança, como fez quando fui visitá-la em Nova York... apesar de todo o luxo e dinheiro, até da doença da Mili... a Vane conseguiu fazer a gente sentir pena dela.
Mas fazer o quê... não valia a pena ficar remoendo a vida deles... do Javier e da Vane... o tempo tratou de colocar cada um no seu lugar.
- Gente, até peço desculpas por não ter ido no casamento de vocês... completou Mili, tentando puxar um assunto mais leve.
- É... a cerimônia foi muito linda... respondeu Vivi, que tinha ido comigo naquela ocasião, e pra minha sorte não pegou o buquê da noiva.
- Ah, obrigada... a gente tava tão nervoso com os preparativos... no fim, a gente não aproveita tanto... faz mais pela família e pelos amigos... disse Marce, agradecida.
- É... Mili em tratamento... não poder vir... completou Paul, tentando entrar na conversa.
- Bom... é... coisas de rotina... falou Mili, que não queria entrar em detalhes sobre a doença dela.
Mili evitava falar dessas coisas com a gente... só segurou a mão do Paul, como quem não queria entrar em detalhes sobre a doença. Ela queria lembrar das coisas boas da época da faculdade... Guille entendeu e pegou um álbum velho com fotos daquela época... a gente riu do nosso visual e trocou umas histórias.
Depois ele pegou o álbum do casamento... deu abertura pra falar dos que estavam noivos, dos casados, dos que tinham filhos... teve comentários sobre os planos do Guille e da Marce. sobre ter filhos… e obviamente indiretas pra Mili e Paul… assim como pra Vivi e pra mim… coisa que a gente driblou com bom humor.
Antes de nos despedirmos… Mili tirou uns minutos pra conversar com a Vivi, sob o olhar surpreso meu, do Guille e da Marce. O pretexto foi que a Vivi acompanhasse ela no banheiro pra arrumar a maquiagem, já que ela achava que a Vivi tinha bom gosto pra essas coisas.
Por um momento fiquei intrigado com essa atitude confidente… mas pensei que, do jeito dela, a Mili também precisava fazer as pazes com a Vivi… nunca foram amigas e essa era a primeira e talvez última vez que se viam. Me confortou ver que, depois de alguns minutos, voltaram sorrindo e brincando, só esperava que não tivessem compartilhado detalhes íntimos meus que fossem constrangedores.
Vivi nunca quis me contar do que falaram com a Mili… só se limitava a dizer que era “coisa de mina” de um jeito intrigante, sabia que eu tava morrendo de curiosidade. Pra acalmar um pouco minhas dúvidas, só acrescentava que a Mili era uma grande mulher, com um carisma foda…
Depois dessa reunião… até recebi uns boatos de que a Vane e até o Javier quiseram se enfiar nessa noite de reencontro. Talvez ficaram sabendo porque os amigos deles viram a gente passeando pela facul… mas o prudente do Guille nunca me confirmou, nem como fez pra se livrar deles ou evitá-los.
Dias depois fui me despedir da Mili no aeroporto… Guille e Marce tinham um compromisso de família. Viviana decidiu me dar meu espaço, pra que eu pudesse fechar minhas paradas com a Mili… como não amar a Vivi por esse tipo de atitude desapegada e milf, em relação a quem foi sua rival…
Nem preciso dizer que… essa foi a última vez que pude ver a Mili, a última vez que pude sentir ela, que pude abraçar ela… até pude me dar ao luxo de beijar ela pela última vez…
Pra isso contei com a colaboração proativa do meu bom ex-sogro, ele me deu os 5 minutos de privacidade que a gente precisava. Ele levou o Paul com o pretexto de comprar um café e umas coisas pro voo longo… enquanto levava ele como um moleque, com uma Mão no ombro, meu ex-sogro virou pra me olhar e piscar o olho de um jeito cúmplice…
- Foi muito na cara, né?... ele falou sorrindo pela atitude do pai dele.
- É… tive que subornar ele… falei brincando.
- Você sempre me faz rir… seu bobo… ela disse, batendo de leve no meu peito.
Depois, a gente só se olhou, se abraçou… a cabeça dela afundou no meu peito, enquanto a gente se agarrava. Evitamos nos olhar por uns segundos… até que aconteceu e eu vi de novo aquele brilho nos olhos dela, que eu tinha visto anos atrás… e por um momento a gente voltou a ser aquele casal de jovens que se despediu anos antes no mesmo aeroporto.
Acho que a gente teve o mesmo pensamento… a pouca distância entre a gente foi vencida… eu me inclinei e ela se ergueu na ponta dos pés… nossos lábios se encontraram de novo. Não foi um beijo apaixonado, foi um beijo carinhoso… depois de uns instantes em que nossos lábios se percorreram e se acariciaram com amor… a gente se separou, se olhando feliz pela nova travessura que a gente se permitia…
- Eu sempre vou te amar… aconteça o que acontecer… falei.
- Você vai me fazer chorar… ela disse com os olhos marejados.
- É verdade… nunca te esqueci… e nunca vou te esquecer… confessei.
Era a hora de falar as coisas, não queria deixar essas coisas guardadas no coração… sabia que talvez fosse a última vez que a visse. Não queria me arrepender depois das coisas que devia ter dito e não consegui ou não quis por bancar o durão…
- A Viviana vai te matar… ela disse brincando, tentando esfregar os olhos.
- Bom… acho que ela desconfia… falei resignado.
- Ela é uma boa garota… você devia casar com ela… ela disse.
- Sério?... perguntei.
- Olha que eu deixei você vir sozinho…
- Ei… sou adulto e sei como vir… e como gozar… você sabe… falei brincando.
- Sabe do que eu tô falando… seu bobo… ela disse de bom humor.
Depois ela ficou séria, talvez lembrando da conversa no banheiro…
- Ela é uma mulher incrível… aguentou me ver, depois de Saber que eu te roubei, que fui eu quem os separou… ela deve te amar muito pra ter um gesto assim com você… disse, derramando uma lágrima, embora também tivesse que reconhecer esse mérito ao Paul, que aguentou me ver sabendo do nosso rolo.
Mili ficou em silêncio por uns instantes… como se estivesse se dando coragem pra continuar… até que, finalmente, confessou o que não queria dizer… pra não se quebrar.
- Viviana aguentou me ver… e perceber que ainda… que ainda te amo e que sempre te amei… que eu também nunca te esqueci… completou, chorando.
Ela me abraçou de novo, não queria que eu a visse chorar e, bom, sim, algumas lágrimas também caíram do meu rosto… não sou de pedra. De novo, nos beijamos com ternura e nos separamos.
- Eu não percebi… falei, brincando de novo pra não continuar derramando lágrimas.
- Você nunca percebe nada… a gente, mulher, nota essas coisas… Eu sei que a Vivi me descobriu pelo jeito que eu te olhava… vi na cara dela… mas ela entendeu… sentenciou Mili.
- Puxa… falei, sempre fui distraído pra esses pequenos detalhes.
Vivi não me disse nada nem me recriminou, com certeza entendia o estado da Mili e não era maduro ter ciúmes de um amor antigo que estava prestes a partir…
- Ai… Olha pra mim… tô um bagaço… disse ela, envergonhada, enxugando as lágrimas, não sei se se referia à maquiagem borrada ou à magreza por causa da doença.
- Pra mim você sempre foi gostosa e sempre vai ser… falei sério, olhando nos olhos dela.
- Você é um mentiroso profissional… esquece que te conheço… disse, sorrindo.
- Sim… me conhece melhor que ninguém… falei, piscando um olho.
- A verdade é que… você merece ser feliz… ela também… eu sou feliz e vou ser feliz por você também… disse ela, como conclusão.
Depois, demos mais um beijinho de amigos, e nos separamos pela última vez… vendo que ao longe estavam chegando Paul e o pai da Mili… cheios de bagulhos pra viagem… meu bom ex-sogro, manteve ele entretido comprando quinquilharias. - Sorte que vocês chegaram… senão eu teria te levado pra aquela saída de emergência da última vez… falei brincando sobre uma das últimas loucuras que a gente fez na despedida anterior dela.
- Acho que eles salvaram você… já tava vendo que iam te enfiar naquele banheiro… completou Mili, rindo, lembrando de outra das nossas travessuras clássicas.
Só deu tempo pra um abraço… e um sussurro no ouvido…
- Te amo… obrigada por tantas lembranças lindas… ela me disse.
- Eu também te amo… por favor, nunca esqueça disso… eu falei.
Depois de alguns minutos de conversa, onde Paul e meu sogro mostraram as compras deles, eles foram juntos pra área de embarque… dessa vez recebi um aperto de mão do Paul e até um abraço do meu ex-sogro, enquanto Mili ia sorrindo com eles, virando pra me olhar de vez em quando.
Igual anos atrás, fiquei olhando os aviões partirem, com algumas lágrimas escorrendo pelo meu rosto… até me sentir pronto pra voltar pra minha vida… no caminho, uma ligação da minha mãe, outra da Vivi… e mais algumas do Guille e da Marce, me confortaram.
Depois daquela despedida… alguns anos depois… aconteceu o que tinha que acontecer… infelizmente a Mili, igual a mãe dela, não conseguiu vencer aquela maldita doença…
Não cheguei a tempo de me despedir pessoalmente. Acho que, igual quando ela veio me visitar, a Mili não quis que eu a visse daquele jeito, fez o pai e o Guille prometerem que não me contariam nada. No começo fiquei muito puto com eles, mas depois entendi, era o desejo da Mili.
Lembrei que, como na última vez que a gente se viu, a Mili queria que eu seguisse com a minha vida e que lembrasse dela nos nossos melhores momentos… com nossas loucuras de faculdade, nossos amores e desamores, nossas travessuras em todos os cantos possíveis… e acima de tudo, nosso amor.
Só consegui chegar pra prestar minhas homenagens. Dessa vez consegui pagar minha passagem e estadia em Nova York… o Guille e a Marce foram comigo… e naquele momento… até a Viviana, nunca pensei que receberia tanta compreensão dela.
Não lembro Ter chorado tanto por alguém antes... muito menos ter recebido tanto carinho das pessoas mais inesperadas, do seu pai rígido e do Paul, que às vezes era ciumento... entendi que cada um, do seu jeito, tinha amado a Mili...
Não tinha mais tempo pra arrependimentos... como o Guille me dizia... vivemos o que tínhamos que viver, só restava lembrar do que foi bom numa das melhores fases da nossa vida.
Fim...
Comentários em Destaque
8 comentários - Mili 46: raba gostosa
pobre Mili, el destino quiso que sea así, murió como vivió.... con el culo roto jaja
gracias por reflotar este relato compinche, al igual que muchos no había llegado ni a la mitad.
muchos puntos y directo a fav.