De manhã, eles não perderam tempo. Se lavaram rápido, com as malas já prontas, e tomaram café da manhã na mesma mesa da noite anterior. O lugar parecia bem diferente. As luzes iluminavam muito mais o ambiente, e os sussurros tinham virado conversas em um volume bem mais alto.
Sergio pediu sem hesitar um Booty-cao, o que fez Carmen rir, já que ela tinha pedido um café. Por mais que ela tivesse pensado na noite anterior que Sergio tinha amadurecido, ele ainda era muito jovem.
Ela deu o primeiro gole no café, percebendo que a porra tinha esfriado — o que, para Carmen, tirava toda a graça da bebida. Mesmo assim, decidiu tomar daquele jeito, embora o sobrinho dissesse para ela trocar. Ela respondeu que não precisava, que ia beber assim mesmo. Mas, de repente, Sergio se virou para o garçom e chamou a atenção dele.
— Com licença, o senhor poderia trazer porra quente para minha esposa? É que esfriou.
Carmen ficou surpresa e arqueou uma sobrancelha, não pela cara de pau do sobrinho em pedir algo, mas pelo comentário em si. No fim, quando o garçom se afastou alguns metros, ela não conseguiu evitar que um sorriso bem safado se formasse no rosto dela.
— Desde ontem eu continuo sendo sua esposa? Você é um sem-vergonha! E como eu gosto, sem dúvida, você puxou a mim.
— Já que me confundiram com um homem bonitinho e inútil, resolvi bancar o fresco um pouco, e não é nada mal. Além disso, se eu falar "minha tia" agora, ia ficar ainda mais estranho.
— Você não tem jeito, filho... e que pena que vocês não morem mais perto, meu Deus! Como eu ia te mimar.
Terminaram o café da manhã rápido, e Sergio, sem deixar Carmen nem tocar nas malas, colocou tudo no carro e, em seguida, seguiram para a cidade. O relógio de pulso de Carmen marcava 10 da manhã quando o carro ligou de novo e pisou no asfalto. Sentada no banco do carona, com uma música boa tocando e uma companhia agradável, ela se sentia feliz, apesar do calor. começava a aparecer no ambiente mudaria a situação.
—Não entendo uma coisa, tia. Como é que a gente pode ser visto como casal? Tipo, sim, temos idades diferentes e tal, mas também não fizemos nada que nos colocasse como tal, né?
—Já te falei, Sergio, quem estava lá era casal. Além disso, querido, você também não faria nada se estivesse jantando com sua namorada, ia ficar comendo a boca dela na frente de todo mundo? No máximo, segura a mão, troca olhares e pronto. Nos quartos é que rolam as coisas mais íntimas. E vou repetir de novo: tem coisa pior que você e eu. Uma mulher como eu ainda poderia pegar um "yogurzinho" — disse com a voz cheia de orgulho.
—Tá bom, tia, disso eu não duvido, mas não é o normal.
—Ai, minha vida… O normal nem sempre é o melhor. —Sergio olhou pra ela estranho, não entendia bem o significado— tô falando porque às vezes o amor pode aparecer em qualquer lugar e com qualquer idade.
Sergio concordou, encerrando a conversa, deixando a música do rádio tocar por um tempo e curtindo aquele "silêncio". Dentro do carro, mesmo sem ninguém falar, os dois sentiam a mesma coisa: um conforto que nenhuma outra pessoa poderia dar naquele momento. Nenhum dos dois entendia aquele sentimento estranho, mas não precisavam dar um motivo, só tinham que aproveitar.
—O tio volta quando? —disse Sergio quebrando o silêncio.
—Sendo sincera, não sei, nem ele sabe. Talvez em uma semana, talvez mais. Ele disse que as negociações estão pesadas. —era um assunto que ela não gostava de tocar.
—Quando ele voltar, se eu ainda estiver aqui, passo lá pra ver ele.
—Vou falar de novo: se quiser, pode ficar em casa, não tem problema nenhum. Você não vai ser um estorvo, longe disso.
—Não, tia, sério. Além disso, quando o tio chegar, vocês ficam sozinhos. Depois de tanto tempo sem ver ele, você vai estar com vontade de ficar com ele.
—Sim.
Ela não mentia. Carmen estava com vontade de ficar perto do marido, mas no fundo, sabia que o relacionamento já tava frio há muitos anos e não era mais a mesma coisa. Dava pra dizer que, mais que marido e mulher, eram dois conhecidos que tinham decidido morar juntos. Sergio sentiu que a palavra que saía da boca da tia não combinava com o que ela tava sentindo. — Mas se você quiser… o primeiro dia posso passar com você, até porque meus amigos ainda não vão ter chegado. — Vamos, claro que sim! Isso eu já tava dando como certo. Além do mais, a casa é grande e quando fico sozinha parece que cai em cima de mim, morro de solidão lá dentro, de verdade. Já tinham percorrido mais da metade da viagem. Carmen tinha ficado quieta, o comentário de Sergio mexeu com algo dentro dela. Ela e o marido não estavam bem, isso era fato. Também não ia dar em divórcio, não tinham idade pra essas coisas, ou pelo menos era o que ela pensava, mas a distância que separava os dois era muito maior do que a que os unia. Carmen nem percebeu como tava o rosto dela. Concentrado, tenso, parecendo uma pedra, com o olhar perdido no horizonte. Sergio, na hora que viu, notou que algo não tava certo, porque aquela cara era a mesma que a mãe dele fazia e ela também costumava fazer direto. — Ei, tia, cê tá bem? — Tô, tô, querido — voltando a si e dando um sorriso falso — claro que sim, só tava pensando. — Posso perguntar em quê? — Nada, nas minhas coisas, a casa, as meninas, problemas de mãe, cê sabe — tentou disfarçar. — É que cê fica com a mesma cara que a minha mãe faz, até ficam meio pálidas quando tão assim e franzem a testa de um jeito feio pra caralho. Carmen se olhou no espelho do carro e viu que o que o sobrinho dizia era verdade. O rosto tinha empalidecido e o bronzeado de piscina agora não passava de uma sombra, era óbvio que alguma coisa tava rolando com ela. "Como é que eu não vou ficar com essa cara?", pensava enquanto lembrava como o marido cada vez tinha mais viagens. Algumas se estendiam mais do que deviam por vários motivos, todas as dúvidas que surgiam em cada partida eram poucas. Viagens nunca tinham lhe trazido boas sensações, mas agora, mais velha e com a cabeça mais madura, sabia que sempre que viajava, além dos negócios, rolavam outras coisas. Era inegável, tinha provas que não dava pra esconder, mesmo que ela tentasse não assumir.
— Sei lá, deve ter sido uma queda de açúcar ou algo assim, não se preocupa.
Sergio tocou a perna da tia, sentindo que a coisa não tava boa. Não podia ser só coincidência as duas irmãs terem o mesmo jeito — se a mãe dele ficava assim por causa de problemas, a tia com certeza também.
— Sério, tia, cê tá bem? Quer parar?
— Não, não, querido, segue em frente, tá tudo bem.
Na cabeça dela, as imagens do marido num puteiro sempre apareciam, ele se divertindo em outro lugar com o que podia ter em casa. “Pelo menos num de luxo, não num de quinta categoria”, ela se consolava, imaginando ele rodeado dos colegas de negócio, brasileiros, suecos, italianos… tanto fazia.
O filme que passava na mente dela era sempre o mesmo, onde o tal homem da vida dela acabava aproveitando prazeres que depois em casa ela não curtia. Quantas vezes ela tinha pensado nisso ao longo dos anos? Não saberia dizer, mas cada vez era mais frequente porque sabia que era real. Tinha virado uma rotina tão grande que, sempre que ele dizia que precisava viajar, Carmen já imaginava ele entrando pela porta do clube de putaria.
Quase não transavam, só depois de alguma festa e quase sempre quando estavam bêbados. Custava horrores admitir, mas a imagem do Pedro com outras mulheres, com certeza muito mais novas que ela, deixava ela louca de raiva. Sentia uma ira tão grande, uma traição tão fodida que, sempre que entrava nesse ciclo, acabava destruída… humilhada.
Os olhos dela ficaram marejados sem jeito, não conseguia evitar, mesmo tentando. Segurou os sentimentos lutando com todo o orgulho, não queria chorar na frente do sobrinho, mas a primeira lágrima caiu.
Ela tentou limpar rapidinho sem o Sergio perceber. Mas é claro que o Sergio percebeu. Conta e, sem dizer nada, pegou a próxima saída, estacionando num posto de gasolina perto dali.
—O que foi? Falei ou fiz alguma coisa errada?
—Por favor, meu amor, não! São coisas da sua tia, só isso.
—Se você falar em voz alta, talvez se sinta melhor, comigo ajudou contar aquela história da Marta, a “puta da minha ex”. —Carmen não conseguiu segurar a risada, os jovens achavam que tudo era tão fácil.
Enquanto olhava pro sobrinho, contemplava os olhos dele cheios de uma ternura infinita, preocupação e interesse, e aí, a segunda lágrima escorreu pelo rosto dela.
Pensou que podia dar uma chance pra ideia do Sergio, estava tão à vontade com ele, que não era tão absurdo… Por que não?
—Não é tão fácil, querido, são coisas de casal, seu tio e eu nos distanciamos e isso me entristece. Não é que a gente vá se divorciar, nem nada, mas é pesado.
—É por isso então? —perguntou Sergio, preocupado.
—Sim, bem… mas, o que a gente tá fazendo falando disso, Sergio? Não quero te encher com minhas coisas de velha maluca, não quero estragar sua viagem. —riu, embora outra lágrima tenha percorrido a maçã do rosto dela pelo mesmo caminho das anteriores. Um dos dedos dela a pegou pra secar na calça.
—Tia, se a família não ajudar, quem vai?
Carmen passou a mão no rosto do sobrinho com carinho, ele realmente tinha se tornado um jovem cavalheiro. Tinha percebido em poucos olhares que a tia estava angustiada, que algo a consumia por dentro, e tinha parado só pra ouvi-la, pra ficar com ela num momento de tristeza.
A mulher percebeu que os olhos azuis dela, molhados pelas lágrimas, olhavam pra ele de outro jeito. No volante daquele carrinho, ele parecia tão gentil, tão puro, tão atencioso, tão… bonito.
—Você é um anjo, Sergio. É muito difícil o que vou te dizer —engoliu em seco, na esperança de que as palavras não doessem tanto— Com esse distanciamento, acho que seu tio pode estar… —as palavras não saíam, dizer era mais difícil que pensar. Por mais que engolisse engolir a garganta dela parecia um deserto — pode ser que ele esteja num hotel igual ao que a gente ficou… mas não com uma sobrinha, tá me entendendo?
— Entendo — concordou o garoto, escondendo a surpresa pelo que ouvia.
— Não é a primeira vez que penso nisso e, bom, não é que seja com “amigas”, mas sim… vai ser com… puta… — ele não queria falar a palavra. Levou as mãos ao rosto pra tentar esconder a vergonha que sentia, não aguentava — não é que ele tenha uma namorada em cada lugar que nem um marinheiro. Talvez isso doesse mais, mas isso… parte meu coração.
— Acho que não é assim, o tio é gente boa.
— Claro que é, mas até gente boa pode fazer isso, o sexo é independente da personalidade das pessoas. Se você é homem, sabe que o que vocês têm lá embaixo, muitas vezes pensa por conta própria.
Isso o Sergio entendia, quem diria que a ex dele, tão boa que era com ele, ia sacaneá-lo daquele jeito? Ele entendia perfeitamente o que a Carmen tava contando. Sem contar a parada do “cérebro de baixo”, esse ele conhecia bem e sabia o quanto podia ser independente do resto do corpo.
— Não sei como te apoiar, tia, só posso te falar pra não pensar nisso, que com certeza são só suposições, nada mais. Precisa de alguma coisa de mim?
— Um abraço? — ela disse, dando um meio sorriso e uma cara meio de criança depois das lágrimas escorrendo.
Claro, o sobrinho deu. Ele a envolveu com os braços, sentindo o calor que a tia emanava e como a respiração dela começava a virar soluços. Carmen fez o mesmo, abraçando ele com força sem querer soltar, como se ele fosse o único apoio dela no mundo. O jovem, que não achava mais o que dizer, deu um beijo fraternal no cabelo dela pra tentar acalmá-la.
Depois de um minuto sem parar juntos, sem um centímetro de espaço, Carmen se sentiu realmente confortada, algo que ela não imaginava. Tinha tirado um peso das costas e era o sobrinho dela quem tinha ajudado. O efeito Tinha sido tão rápido, algo tão surpreendente como se fossem dois amigos inseparáveis, daqueles por quem você daria a vida e eles te devolveriam.
Os braços de Carmen se abriram, soltando o sobrinho, e os dois se olharam com um sorriso no rosto. A vontade de chorar se dissipou na mulher, e embora ela soubesse que em algum momento as lágrimas voltariam, sentia que tinham sido enterradas no fundo do seu ser. Não queria mais chorar por causa daquele assunto nunca mais.
Ela tinha soltado a âncora que a prendia e não a deixava aceitar os acontecimentos. Aquelas dúvidas, em duas frases e num abraço, tinham sido libertadas… e quase curadas. Ainda doeriam, sem dúvida, mas de outra forma, e do que ela tinha certeza é que jamais voltaria a sofrer aquela angústia e dor.
No entanto, Sergio, sentindo a mesma plenitude que a tia, sentia algo mais. O roçar do abraço, sentir o aroma tão próximo de Carmen, seu calor, seu coração, tudo, tinha feito com que uma parte dele se ativasse. Quando seus corpos se juntaram por completo, algo aconteceu: os peitos da tia se encostaram no peito dele, e ele os sentiu por inteiro.
Não conseguiu evitar: o sangue, sem pedir permissão, começou a bombear para baixo. Ele não se permitia estragar um momento tão bonito, e enquanto Carmen se olhava no espelho, limpando os últimos vestígios de umidade, ele se concentrava como se fosse o pior exame para segurar a ereção. O cérebro de baixo…
Saíram do posto e voltaram para a estrada, e depois de um tempo dirigindo, bem no começo de uma serra, infelizmente encontraram um congestionamento. As obras na pista só tinham deixado uma faixa aberta para passar, e o engarrafamento de juntar três faixas em uma era terrível.
Parados, com o asfalto quente, a multidão de carros e o calor de agosto, aquilo tinha virado uma churrasqueira. Claro, com o calor incessante já dentro do carro, Sergio percebeu pela primeira vez o quanto o ar-condicionado podia ser importante no veículo.
— Pois nos ha... tocado, já me liguei que uma hora a gente pegava uma —disse o jovem parando o carro.
—Odeio engarrafamento, não tem coisa pior, olha que pra ir ver vocês não peguei nenhum.
—Qual é tia, o pior é o calor que tá fazendo. Quase meio-dia e eu tô torrado.
—Já tô suando faz um tempão… —dava pra perceber no tom dela o quanto tava incomodada.
O carro tava parado e mal andava uns metros por minuto. As pistas passaram de três pra duas e o Sergio achou que as obras tavam perto, mas se enganou. Sem aguentar mais, tirou a camiseta e jogou no banco de trás toda amassada.
—Tá fazendo 50 graus, porra?! —uns 40 até podia ser, mas não tanto— Não aguento, que calor do caralho!
A Carmen, que tava de jaqueta, teve que tirar, ficando só com a camisa branca de “tecido bom”. Sentia a calça grudando na pele, o suor já tava um saco, não dava mais. Tudo isso, junto com o calor que entrava sem parar no carro, fez a Carmen começar a sentir que tava num caixão com rodas.
—Tá um calor dos infernos —completou.
—O pior é chegar na cidade e fazer frio —os dois riram— tia, é só te ver que me dá um calor… Você não tá torrada?
—Tô, mas o que eu vou fazer?, pela janela entra calor e o ar condicionado só solta calor.
—De condicionado não tem nada, é só ar mesmo. Então fica à vontade, que a gente vai ficar aqui um tempão, tomamos banho à toa.
—O que você quer que eu faça? Jogo água na cabeça? —ela disse fingindo com a garrafa fechada que tava fazendo isso.
—Também deve estar quente… —os dois riram. Felicidade parecia que não faltava. Sergio completou— tira alguma coisa.
—É claro, tiro alguma coisa e todo mundo me vê, sai pra lá, sai pra lá.
Sergio ficou com cara de paisagem sem entender essa vergonha que a tia dele tinha. A mãe dele, numa ocasião parecida, já tinha tirado a camiseta, ficando só de sutiã na frente deles e ninguém dos outros carros reparava, “e olha que ela tem peitos pra ela ser olhada...".
O jovem acionou a seta e, assim que lhe deram passagem, entrou na faixa da direita, a única que ainda estava aberta. Ficando sem carros do lado do passageiro, só o acostamento e o mato virgem.
— Assim tá melhor? — perguntou o garoto.
— Que nada, Sérgio, como é que eu vou tirar a roupa?!
— Ninguém vai te ver, no máximo algum coelho, você vai ser a fofoca dos bichinhos da floresta.
— Prefiro ficar assim — acabou dizendo meio corada, sabendo que morreria de calor.
— Como quiser, tia, eu agora tô muito melhor, só pra você saber.
Não se passaram nem dez minutos, o carro tinha virado uma churrasqueira, parecia até que tava melhor fora do que dentro, algo insuportável. Mal tinham avançado 30 metros e a Carmen, o suor escorria em gotas grossas pela testa, cortando as maçãs do rosto, sem dar a menor impressão de se importar. Mas ela sentia como se fossem agulhadas no rosto, não aguentava mais.
— É insuportável — disse, embora a vergonha, o orgulho ou algo que nem ela sabia o que era, ainda a mantivesse de camisa e calça.
— Eu melhorei, tô com calor, mas melhor — sem a camiseta, o ar quente que entrava pela janela não incomodava tanto.
— Não tá mentindo, né?
— Me toca no braço, toca — Carmen passou a mão onde o sobrinho disse, a pele dele estava quente, mas não úmida — nem uma gota.
— Não aguento mais, essa calça tá encharcada e a camisa tá grudando na minha pele o tempo todo, que sensação mais... mais…
Sérgio deu uma olhada pra ela, Carmen sabia o que ele tava dizendo com aqueles olhos, sabia o que tinha que fazer. Mas por algum motivo baseado na moral ou sei lá o quê, não se decidia. O rapaz se virou e procurou na mochila enquanto o carro continuava parado, tirando de lá um short de banho que passou pra Carmen.
— Isso é a única coisa que eu tenho, tia, troca de roupa, me faz esse favor — disse com voz séria.
A mulher hesitou com o short na mão, pensando se devia ouvir o sobrinho. Embora sua agonia fosse maior que seu pudor, num momento de decisão ela começou a desabotoar a calça. Tirou ela rápido e nervoso, pensando que naquela hora o mundo inteiro ia prestar atenção no que tava rolando dentro do carro. Mas quando se vestiu, o mundo continuava do mesmo jeito e nenhum noticiário deu bola pra suas pernas nuas, a vergonha dela tinha sido uma bobagem.
— Muito melhor — disse ela bufando — isso é outra coisa — até tirou os sapatos, deixando os pés de fora com todas as unhas pintadas.
— Te falei, é que com essa calça comprida você ia passar mal. Tá toda suada, bebe água que senão vai desidratar.
Depois de um gole d’água, a Carmen viu que o que o sobrinho tinha dito fez efeito rápido, parecia que ele não tinha se enganado com as suposições dele e, sem pensar em quem ia ver ela dessa vez, falou:
— Cê tem uma camiseta largada e que respire, querido?
— Qual nada, se não eu já tinha vestido, todas são normais, se eu tivesse uma de time de futebol ou daquelas de propaganda de corrida…
— Que pena… — Carmen afastou o cabelo meio molhado do rosto e completou — bom, agora, meu bem, não olha, tá?
— Por quê?
Carmen levantou a camisa pelos ombros e tirou com uma certa leveza, mesmo estando molhada e a pele tentando segurar. Sergio, que não tinha desviado o olhar, não conseguiu evitar de ver a lingerie de renda linda que ela tava usando e como os peitos dela pareciam tão macios quanto quando ele sentiu contra o corpo dele minutos atrás.
O olhar parou no tempo. Antes ele já tinha observado os peitos da tia escondidos debaixo do maiô, quase todo verão na piscina da casa dela ele dava uma espiada. Sabia que eram bonitos, disso não tinha dúvida. Mas naquele momento, com aquela lingerie, ele sentiu como se estivesse diante do melhor par de peitos que os olhos dele já tinham visto. Entendeu que não tava tão certo quando disse que ver alguém de maiô ou de roupa íntima era a mesma coisa.
— Pô, desculpa — falou Sergio baixinho. meio envergonhado.
—Tranquilo, sem problema —respondeu Carmen, alheia ao olhar que Sergio lhe dedicou. Enquanto vestia a camisa por cima, esticando-a para não aparecer o sutiã, completou— assim tá melhor. Nem se compara, que diferença!
—Pois é, não quer me ouvir...
—É que, filho, a gente tem seu pudor —meio corada.
—Miga, acho que ninguém vai te olhar, o povo tá mais preocupado em reclamar do calor. No máximo, vão te dar uma olhada de 1 ou 2 segundos. E se olharem, que alegrem a vista e pronto.
Os dois ficaram em silêncio no carro, encarando o engarrafamento que mal se mexia, se estendendo ao longe sem fim. Mal passaram 10 minutos, quando Sergio viu a próxima saída, algo acendeu na mente dele e uma ideia genial surgiu.
—Miga, não sei quanto tempo vamos ficar aqui, quer dar uma parada? Afinal, melhor ficar fora do carro, não acha?
—Tem algo em mente? —perguntou intrigada. Como se sentia bem de biquíni e com a camisa por cima!
—Se pegarmos essa saída, em 10 minutos a gente chega numa represa. A gente parava lá quando eu era pequeno e ia visitar a vó. Se você quiser, podemos dar um mergulho.
—Bom... —passou pela cabeça dela dizer não, que queria chegar em casa, mas uma outra Carmen saiu do esconderijo. Uma que ela esqueceu há muitos anos e perguntou: Quem te espera em casa? — por que não? Melhor do que ficar aqui. Chegar à tarde não importa, ninguém nos espera.
Os dois riram e, depois de 20 minutos exageradamente longos, pegaram a saída em direção à represa.
CONTINUA
Sergio pediu sem hesitar um Booty-cao, o que fez Carmen rir, já que ela tinha pedido um café. Por mais que ela tivesse pensado na noite anterior que Sergio tinha amadurecido, ele ainda era muito jovem.
Ela deu o primeiro gole no café, percebendo que a porra tinha esfriado — o que, para Carmen, tirava toda a graça da bebida. Mesmo assim, decidiu tomar daquele jeito, embora o sobrinho dissesse para ela trocar. Ela respondeu que não precisava, que ia beber assim mesmo. Mas, de repente, Sergio se virou para o garçom e chamou a atenção dele.
— Com licença, o senhor poderia trazer porra quente para minha esposa? É que esfriou.
Carmen ficou surpresa e arqueou uma sobrancelha, não pela cara de pau do sobrinho em pedir algo, mas pelo comentário em si. No fim, quando o garçom se afastou alguns metros, ela não conseguiu evitar que um sorriso bem safado se formasse no rosto dela.
— Desde ontem eu continuo sendo sua esposa? Você é um sem-vergonha! E como eu gosto, sem dúvida, você puxou a mim.
— Já que me confundiram com um homem bonitinho e inútil, resolvi bancar o fresco um pouco, e não é nada mal. Além disso, se eu falar "minha tia" agora, ia ficar ainda mais estranho.
— Você não tem jeito, filho... e que pena que vocês não morem mais perto, meu Deus! Como eu ia te mimar.
Terminaram o café da manhã rápido, e Sergio, sem deixar Carmen nem tocar nas malas, colocou tudo no carro e, em seguida, seguiram para a cidade. O relógio de pulso de Carmen marcava 10 da manhã quando o carro ligou de novo e pisou no asfalto. Sentada no banco do carona, com uma música boa tocando e uma companhia agradável, ela se sentia feliz, apesar do calor. começava a aparecer no ambiente mudaria a situação.
—Não entendo uma coisa, tia. Como é que a gente pode ser visto como casal? Tipo, sim, temos idades diferentes e tal, mas também não fizemos nada que nos colocasse como tal, né?
—Já te falei, Sergio, quem estava lá era casal. Além disso, querido, você também não faria nada se estivesse jantando com sua namorada, ia ficar comendo a boca dela na frente de todo mundo? No máximo, segura a mão, troca olhares e pronto. Nos quartos é que rolam as coisas mais íntimas. E vou repetir de novo: tem coisa pior que você e eu. Uma mulher como eu ainda poderia pegar um "yogurzinho" — disse com a voz cheia de orgulho.
—Tá bom, tia, disso eu não duvido, mas não é o normal.
—Ai, minha vida… O normal nem sempre é o melhor. —Sergio olhou pra ela estranho, não entendia bem o significado— tô falando porque às vezes o amor pode aparecer em qualquer lugar e com qualquer idade.
Sergio concordou, encerrando a conversa, deixando a música do rádio tocar por um tempo e curtindo aquele "silêncio". Dentro do carro, mesmo sem ninguém falar, os dois sentiam a mesma coisa: um conforto que nenhuma outra pessoa poderia dar naquele momento. Nenhum dos dois entendia aquele sentimento estranho, mas não precisavam dar um motivo, só tinham que aproveitar.
—O tio volta quando? —disse Sergio quebrando o silêncio.
—Sendo sincera, não sei, nem ele sabe. Talvez em uma semana, talvez mais. Ele disse que as negociações estão pesadas. —era um assunto que ela não gostava de tocar.
—Quando ele voltar, se eu ainda estiver aqui, passo lá pra ver ele.
—Vou falar de novo: se quiser, pode ficar em casa, não tem problema nenhum. Você não vai ser um estorvo, longe disso.
—Não, tia, sério. Além disso, quando o tio chegar, vocês ficam sozinhos. Depois de tanto tempo sem ver ele, você vai estar com vontade de ficar com ele.
—Sim.
Ela não mentia. Carmen estava com vontade de ficar perto do marido, mas no fundo, sabia que o relacionamento já tava frio há muitos anos e não era mais a mesma coisa. Dava pra dizer que, mais que marido e mulher, eram dois conhecidos que tinham decidido morar juntos. Sergio sentiu que a palavra que saía da boca da tia não combinava com o que ela tava sentindo. — Mas se você quiser… o primeiro dia posso passar com você, até porque meus amigos ainda não vão ter chegado. — Vamos, claro que sim! Isso eu já tava dando como certo. Além do mais, a casa é grande e quando fico sozinha parece que cai em cima de mim, morro de solidão lá dentro, de verdade. Já tinham percorrido mais da metade da viagem. Carmen tinha ficado quieta, o comentário de Sergio mexeu com algo dentro dela. Ela e o marido não estavam bem, isso era fato. Também não ia dar em divórcio, não tinham idade pra essas coisas, ou pelo menos era o que ela pensava, mas a distância que separava os dois era muito maior do que a que os unia. Carmen nem percebeu como tava o rosto dela. Concentrado, tenso, parecendo uma pedra, com o olhar perdido no horizonte. Sergio, na hora que viu, notou que algo não tava certo, porque aquela cara era a mesma que a mãe dele fazia e ela também costumava fazer direto. — Ei, tia, cê tá bem? — Tô, tô, querido — voltando a si e dando um sorriso falso — claro que sim, só tava pensando. — Posso perguntar em quê? — Nada, nas minhas coisas, a casa, as meninas, problemas de mãe, cê sabe — tentou disfarçar. — É que cê fica com a mesma cara que a minha mãe faz, até ficam meio pálidas quando tão assim e franzem a testa de um jeito feio pra caralho. Carmen se olhou no espelho do carro e viu que o que o sobrinho dizia era verdade. O rosto tinha empalidecido e o bronzeado de piscina agora não passava de uma sombra, era óbvio que alguma coisa tava rolando com ela. "Como é que eu não vou ficar com essa cara?", pensava enquanto lembrava como o marido cada vez tinha mais viagens. Algumas se estendiam mais do que deviam por vários motivos, todas as dúvidas que surgiam em cada partida eram poucas. Viagens nunca tinham lhe trazido boas sensações, mas agora, mais velha e com a cabeça mais madura, sabia que sempre que viajava, além dos negócios, rolavam outras coisas. Era inegável, tinha provas que não dava pra esconder, mesmo que ela tentasse não assumir.
— Sei lá, deve ter sido uma queda de açúcar ou algo assim, não se preocupa.
Sergio tocou a perna da tia, sentindo que a coisa não tava boa. Não podia ser só coincidência as duas irmãs terem o mesmo jeito — se a mãe dele ficava assim por causa de problemas, a tia com certeza também.
— Sério, tia, cê tá bem? Quer parar?
— Não, não, querido, segue em frente, tá tudo bem.
Na cabeça dela, as imagens do marido num puteiro sempre apareciam, ele se divertindo em outro lugar com o que podia ter em casa. “Pelo menos num de luxo, não num de quinta categoria”, ela se consolava, imaginando ele rodeado dos colegas de negócio, brasileiros, suecos, italianos… tanto fazia.
O filme que passava na mente dela era sempre o mesmo, onde o tal homem da vida dela acabava aproveitando prazeres que depois em casa ela não curtia. Quantas vezes ela tinha pensado nisso ao longo dos anos? Não saberia dizer, mas cada vez era mais frequente porque sabia que era real. Tinha virado uma rotina tão grande que, sempre que ele dizia que precisava viajar, Carmen já imaginava ele entrando pela porta do clube de putaria.
Quase não transavam, só depois de alguma festa e quase sempre quando estavam bêbados. Custava horrores admitir, mas a imagem do Pedro com outras mulheres, com certeza muito mais novas que ela, deixava ela louca de raiva. Sentia uma ira tão grande, uma traição tão fodida que, sempre que entrava nesse ciclo, acabava destruída… humilhada.
Os olhos dela ficaram marejados sem jeito, não conseguia evitar, mesmo tentando. Segurou os sentimentos lutando com todo o orgulho, não queria chorar na frente do sobrinho, mas a primeira lágrima caiu.
Ela tentou limpar rapidinho sem o Sergio perceber. Mas é claro que o Sergio percebeu. Conta e, sem dizer nada, pegou a próxima saída, estacionando num posto de gasolina perto dali.
—O que foi? Falei ou fiz alguma coisa errada?
—Por favor, meu amor, não! São coisas da sua tia, só isso.
—Se você falar em voz alta, talvez se sinta melhor, comigo ajudou contar aquela história da Marta, a “puta da minha ex”. —Carmen não conseguiu segurar a risada, os jovens achavam que tudo era tão fácil.
Enquanto olhava pro sobrinho, contemplava os olhos dele cheios de uma ternura infinita, preocupação e interesse, e aí, a segunda lágrima escorreu pelo rosto dela.
Pensou que podia dar uma chance pra ideia do Sergio, estava tão à vontade com ele, que não era tão absurdo… Por que não?
—Não é tão fácil, querido, são coisas de casal, seu tio e eu nos distanciamos e isso me entristece. Não é que a gente vá se divorciar, nem nada, mas é pesado.
—É por isso então? —perguntou Sergio, preocupado.
—Sim, bem… mas, o que a gente tá fazendo falando disso, Sergio? Não quero te encher com minhas coisas de velha maluca, não quero estragar sua viagem. —riu, embora outra lágrima tenha percorrido a maçã do rosto dela pelo mesmo caminho das anteriores. Um dos dedos dela a pegou pra secar na calça.
—Tia, se a família não ajudar, quem vai?
Carmen passou a mão no rosto do sobrinho com carinho, ele realmente tinha se tornado um jovem cavalheiro. Tinha percebido em poucos olhares que a tia estava angustiada, que algo a consumia por dentro, e tinha parado só pra ouvi-la, pra ficar com ela num momento de tristeza.
A mulher percebeu que os olhos azuis dela, molhados pelas lágrimas, olhavam pra ele de outro jeito. No volante daquele carrinho, ele parecia tão gentil, tão puro, tão atencioso, tão… bonito.
—Você é um anjo, Sergio. É muito difícil o que vou te dizer —engoliu em seco, na esperança de que as palavras não doessem tanto— Com esse distanciamento, acho que seu tio pode estar… —as palavras não saíam, dizer era mais difícil que pensar. Por mais que engolisse engolir a garganta dela parecia um deserto — pode ser que ele esteja num hotel igual ao que a gente ficou… mas não com uma sobrinha, tá me entendendo?
— Entendo — concordou o garoto, escondendo a surpresa pelo que ouvia.
— Não é a primeira vez que penso nisso e, bom, não é que seja com “amigas”, mas sim… vai ser com… puta… — ele não queria falar a palavra. Levou as mãos ao rosto pra tentar esconder a vergonha que sentia, não aguentava — não é que ele tenha uma namorada em cada lugar que nem um marinheiro. Talvez isso doesse mais, mas isso… parte meu coração.
— Acho que não é assim, o tio é gente boa.
— Claro que é, mas até gente boa pode fazer isso, o sexo é independente da personalidade das pessoas. Se você é homem, sabe que o que vocês têm lá embaixo, muitas vezes pensa por conta própria.
Isso o Sergio entendia, quem diria que a ex dele, tão boa que era com ele, ia sacaneá-lo daquele jeito? Ele entendia perfeitamente o que a Carmen tava contando. Sem contar a parada do “cérebro de baixo”, esse ele conhecia bem e sabia o quanto podia ser independente do resto do corpo.
— Não sei como te apoiar, tia, só posso te falar pra não pensar nisso, que com certeza são só suposições, nada mais. Precisa de alguma coisa de mim?
— Um abraço? — ela disse, dando um meio sorriso e uma cara meio de criança depois das lágrimas escorrendo.
Claro, o sobrinho deu. Ele a envolveu com os braços, sentindo o calor que a tia emanava e como a respiração dela começava a virar soluços. Carmen fez o mesmo, abraçando ele com força sem querer soltar, como se ele fosse o único apoio dela no mundo. O jovem, que não achava mais o que dizer, deu um beijo fraternal no cabelo dela pra tentar acalmá-la.
Depois de um minuto sem parar juntos, sem um centímetro de espaço, Carmen se sentiu realmente confortada, algo que ela não imaginava. Tinha tirado um peso das costas e era o sobrinho dela quem tinha ajudado. O efeito Tinha sido tão rápido, algo tão surpreendente como se fossem dois amigos inseparáveis, daqueles por quem você daria a vida e eles te devolveriam.
Os braços de Carmen se abriram, soltando o sobrinho, e os dois se olharam com um sorriso no rosto. A vontade de chorar se dissipou na mulher, e embora ela soubesse que em algum momento as lágrimas voltariam, sentia que tinham sido enterradas no fundo do seu ser. Não queria mais chorar por causa daquele assunto nunca mais.
Ela tinha soltado a âncora que a prendia e não a deixava aceitar os acontecimentos. Aquelas dúvidas, em duas frases e num abraço, tinham sido libertadas… e quase curadas. Ainda doeriam, sem dúvida, mas de outra forma, e do que ela tinha certeza é que jamais voltaria a sofrer aquela angústia e dor.
No entanto, Sergio, sentindo a mesma plenitude que a tia, sentia algo mais. O roçar do abraço, sentir o aroma tão próximo de Carmen, seu calor, seu coração, tudo, tinha feito com que uma parte dele se ativasse. Quando seus corpos se juntaram por completo, algo aconteceu: os peitos da tia se encostaram no peito dele, e ele os sentiu por inteiro.
Não conseguiu evitar: o sangue, sem pedir permissão, começou a bombear para baixo. Ele não se permitia estragar um momento tão bonito, e enquanto Carmen se olhava no espelho, limpando os últimos vestígios de umidade, ele se concentrava como se fosse o pior exame para segurar a ereção. O cérebro de baixo…
Saíram do posto e voltaram para a estrada, e depois de um tempo dirigindo, bem no começo de uma serra, infelizmente encontraram um congestionamento. As obras na pista só tinham deixado uma faixa aberta para passar, e o engarrafamento de juntar três faixas em uma era terrível.
Parados, com o asfalto quente, a multidão de carros e o calor de agosto, aquilo tinha virado uma churrasqueira. Claro, com o calor incessante já dentro do carro, Sergio percebeu pela primeira vez o quanto o ar-condicionado podia ser importante no veículo.
— Pois nos ha... tocado, já me liguei que uma hora a gente pegava uma —disse o jovem parando o carro.
—Odeio engarrafamento, não tem coisa pior, olha que pra ir ver vocês não peguei nenhum.
—Qual é tia, o pior é o calor que tá fazendo. Quase meio-dia e eu tô torrado.
—Já tô suando faz um tempão… —dava pra perceber no tom dela o quanto tava incomodada.
O carro tava parado e mal andava uns metros por minuto. As pistas passaram de três pra duas e o Sergio achou que as obras tavam perto, mas se enganou. Sem aguentar mais, tirou a camiseta e jogou no banco de trás toda amassada.
—Tá fazendo 50 graus, porra?! —uns 40 até podia ser, mas não tanto— Não aguento, que calor do caralho!
A Carmen, que tava de jaqueta, teve que tirar, ficando só com a camisa branca de “tecido bom”. Sentia a calça grudando na pele, o suor já tava um saco, não dava mais. Tudo isso, junto com o calor que entrava sem parar no carro, fez a Carmen começar a sentir que tava num caixão com rodas.
—Tá um calor dos infernos —completou.
—O pior é chegar na cidade e fazer frio —os dois riram— tia, é só te ver que me dá um calor… Você não tá torrada?
—Tô, mas o que eu vou fazer?, pela janela entra calor e o ar condicionado só solta calor.
—De condicionado não tem nada, é só ar mesmo. Então fica à vontade, que a gente vai ficar aqui um tempão, tomamos banho à toa.
—O que você quer que eu faça? Jogo água na cabeça? —ela disse fingindo com a garrafa fechada que tava fazendo isso.
—Também deve estar quente… —os dois riram. Felicidade parecia que não faltava. Sergio completou— tira alguma coisa.
—É claro, tiro alguma coisa e todo mundo me vê, sai pra lá, sai pra lá.
Sergio ficou com cara de paisagem sem entender essa vergonha que a tia dele tinha. A mãe dele, numa ocasião parecida, já tinha tirado a camiseta, ficando só de sutiã na frente deles e ninguém dos outros carros reparava, “e olha que ela tem peitos pra ela ser olhada...".
O jovem acionou a seta e, assim que lhe deram passagem, entrou na faixa da direita, a única que ainda estava aberta. Ficando sem carros do lado do passageiro, só o acostamento e o mato virgem.
— Assim tá melhor? — perguntou o garoto.
— Que nada, Sérgio, como é que eu vou tirar a roupa?!
— Ninguém vai te ver, no máximo algum coelho, você vai ser a fofoca dos bichinhos da floresta.
— Prefiro ficar assim — acabou dizendo meio corada, sabendo que morreria de calor.
— Como quiser, tia, eu agora tô muito melhor, só pra você saber.
Não se passaram nem dez minutos, o carro tinha virado uma churrasqueira, parecia até que tava melhor fora do que dentro, algo insuportável. Mal tinham avançado 30 metros e a Carmen, o suor escorria em gotas grossas pela testa, cortando as maçãs do rosto, sem dar a menor impressão de se importar. Mas ela sentia como se fossem agulhadas no rosto, não aguentava mais.
— É insuportável — disse, embora a vergonha, o orgulho ou algo que nem ela sabia o que era, ainda a mantivesse de camisa e calça.
— Eu melhorei, tô com calor, mas melhor — sem a camiseta, o ar quente que entrava pela janela não incomodava tanto.
— Não tá mentindo, né?
— Me toca no braço, toca — Carmen passou a mão onde o sobrinho disse, a pele dele estava quente, mas não úmida — nem uma gota.
— Não aguento mais, essa calça tá encharcada e a camisa tá grudando na minha pele o tempo todo, que sensação mais... mais…
Sérgio deu uma olhada pra ela, Carmen sabia o que ele tava dizendo com aqueles olhos, sabia o que tinha que fazer. Mas por algum motivo baseado na moral ou sei lá o quê, não se decidia. O rapaz se virou e procurou na mochila enquanto o carro continuava parado, tirando de lá um short de banho que passou pra Carmen.
— Isso é a única coisa que eu tenho, tia, troca de roupa, me faz esse favor — disse com voz séria.
A mulher hesitou com o short na mão, pensando se devia ouvir o sobrinho. Embora sua agonia fosse maior que seu pudor, num momento de decisão ela começou a desabotoar a calça. Tirou ela rápido e nervoso, pensando que naquela hora o mundo inteiro ia prestar atenção no que tava rolando dentro do carro. Mas quando se vestiu, o mundo continuava do mesmo jeito e nenhum noticiário deu bola pra suas pernas nuas, a vergonha dela tinha sido uma bobagem.
— Muito melhor — disse ela bufando — isso é outra coisa — até tirou os sapatos, deixando os pés de fora com todas as unhas pintadas.
— Te falei, é que com essa calça comprida você ia passar mal. Tá toda suada, bebe água que senão vai desidratar.
Depois de um gole d’água, a Carmen viu que o que o sobrinho tinha dito fez efeito rápido, parecia que ele não tinha se enganado com as suposições dele e, sem pensar em quem ia ver ela dessa vez, falou:
— Cê tem uma camiseta largada e que respire, querido?
— Qual nada, se não eu já tinha vestido, todas são normais, se eu tivesse uma de time de futebol ou daquelas de propaganda de corrida…
— Que pena… — Carmen afastou o cabelo meio molhado do rosto e completou — bom, agora, meu bem, não olha, tá?
— Por quê?
Carmen levantou a camisa pelos ombros e tirou com uma certa leveza, mesmo estando molhada e a pele tentando segurar. Sergio, que não tinha desviado o olhar, não conseguiu evitar de ver a lingerie de renda linda que ela tava usando e como os peitos dela pareciam tão macios quanto quando ele sentiu contra o corpo dele minutos atrás.
O olhar parou no tempo. Antes ele já tinha observado os peitos da tia escondidos debaixo do maiô, quase todo verão na piscina da casa dela ele dava uma espiada. Sabia que eram bonitos, disso não tinha dúvida. Mas naquele momento, com aquela lingerie, ele sentiu como se estivesse diante do melhor par de peitos que os olhos dele já tinham visto. Entendeu que não tava tão certo quando disse que ver alguém de maiô ou de roupa íntima era a mesma coisa.
— Pô, desculpa — falou Sergio baixinho. meio envergonhado.
—Tranquilo, sem problema —respondeu Carmen, alheia ao olhar que Sergio lhe dedicou. Enquanto vestia a camisa por cima, esticando-a para não aparecer o sutiã, completou— assim tá melhor. Nem se compara, que diferença!
—Pois é, não quer me ouvir...
—É que, filho, a gente tem seu pudor —meio corada.
—Miga, acho que ninguém vai te olhar, o povo tá mais preocupado em reclamar do calor. No máximo, vão te dar uma olhada de 1 ou 2 segundos. E se olharem, que alegrem a vista e pronto.
Os dois ficaram em silêncio no carro, encarando o engarrafamento que mal se mexia, se estendendo ao longe sem fim. Mal passaram 10 minutos, quando Sergio viu a próxima saída, algo acendeu na mente dele e uma ideia genial surgiu.
—Miga, não sei quanto tempo vamos ficar aqui, quer dar uma parada? Afinal, melhor ficar fora do carro, não acha?
—Tem algo em mente? —perguntou intrigada. Como se sentia bem de biquíni e com a camisa por cima!
—Se pegarmos essa saída, em 10 minutos a gente chega numa represa. A gente parava lá quando eu era pequeno e ia visitar a vó. Se você quiser, podemos dar um mergulho.
—Bom... —passou pela cabeça dela dizer não, que queria chegar em casa, mas uma outra Carmen saiu do esconderijo. Uma que ela esqueceu há muitos anos e perguntou: Quem te espera em casa? — por que não? Melhor do que ficar aqui. Chegar à tarde não importa, ninguém nos espera.
Os dois riram e, depois de 20 minutos exageradamente longos, pegaram a saída em direção à represa.
CONTINUA
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