— Domingo acordei bem cedo, e a primeira coisa que fiz foi ir ao banheiro e tomar um banho. Fui bem devagar, com todo cuidado, porque nessa altura já tava sofrendo pra caramba com essa barrigona enorme que eu carregava. 🤰 Acho que foi o barulho, mas as meninas também acordaram cedinho. Foi a Nina que veio me encontrar, bem na hora que eu tava me secando. Eu ainda pelada, passando um creme especial nos peitos e outro diferente na barriga. (A única coisa que salvei daquele dia fatídico, na minha bolsa.) Ela vinha carregando umas sacolas cheias de roupa. Quando abriu a porta e viu meu corpo nu, a surpresa foi total na Nina. E os olhos dela, arregalados pra caramba, mostraram isso. 👀 — Mãe, não dói ter essa barrigona assim?? Eu ia falar que na verdade era cansativo pra dedéu, mas não dolorido, quando minha filha me interrompeu. — Ai, mamãe, cada dia que te vejo, você fica mais enorme!! Meu irmãozinho tá cada vez maior... Me virei pra me olhar e, sim, finalmente consegui perceber. Apesar de toda a tensão que eu tava passando naqueles dias, minha gravidez continuava aparecendo muito bem. Isso me deixou tranquila, e eu finalmente pude agradecer a Deus por como meu bebezinho tava se desenvolvendo dentro de mim. 🙏 Sorri pra Nina, me cobri com o roupão e abri os braços pra chamar ela pra vir até mim. Ela largou as sacolas no chão. E assim fez, e a gente se deu um abraço enorme. 💕 — Obrigada, filha, me faz muito bem ter sua atenção. — falei. Nina, corada, se sentia orgulhosa, e era o espírito amoroso dela que me dava tanta força. Em algum momento, ela se afastou de mim e pegou de novo as sacolas que tinham ficado no chão. Levantou elas e, sorrindo, disse: — Olha, mamãe!! As meninas e eu compramos roupa pra você. Trouxemos de tudo, vem ver!! Me aproximei e, olhando surpresa, vi as pilhas de roupa que minhas filhas tinham trazido. Até então, eu tinha percebido que, desde o dia da tragédia, não tinha trocado de roupa. Continuava com a mesma coisa... E quando abri as sacolas, pude me dar conta que as meninas capricharam na compra das roupas de maternidade mais bonitas que eu já vi. Até a lingerie pra grávida, os aventais de maternidade eram enormes, pareciam barracas!! Escolhi um bem bonito na cor azul marinho com detalhes no colo em branco, a cor era bem séria e, na minha cabeça, me faria parecer menos volumosa. Nina me ajudou a trocar de roupa e foi aí que usei aquelas calcinhas enormes de grávida. Depois veio a barraca, perdão, o avental... E umas sapatilhas na cor escura com sola bem confortável. O suficiente pra eu conseguir mexer meu corpanzil enorme. Fiquei me olhando no espelho quando Nina interrompeu meus pensamentos. -Mami, cê acha legal se a gente sair pra dar um rolê, cê topa ir com a gente pra algum lugar? Aí eu fiquei séria, olhei minha figura refletida no espelho. E fiquei pensando que, apesar do tamanhão do vestido, que aparentemente era imenso, ele já vestido não conseguia esconder nem deixava de insinuar a barriga enorme que eu carregava... 😩 Mesmo assim, cheguei à conclusão de que tinha que pegar o touro pelos chifres. E falei bem séria. -Filha, preciso ir ver seus avós... O rostinho da Nina se desfez E, respondendo nervosa, disse -EEEEEEEEHHHHH Com os avós, mamãezinhaaaa !!! 😱 -Sim, minha filha. Preciso ir vê-los e conversar com eles. Não posso continuar abusando do seu pai, tenho que tentar conseguir a ajuda dele. A decepção na Nina era tremenda. Mesmo assim, ela não me contradisse e aceitou que a gente fosse pra casa dos avós. Sem avisar ninguém, parti com as meninas. O caminho foi longo, tentava manter a calma e ir até meus pais me mostrando segura e tranquila. Quando chegamos, eu e as meninas na casa dos meus pais. A tensão era muito evidente. As meninas não esperavam nada de bom desse encontro. E eu tinha a leve esperança de tocar o coração dos meus pais e conseguir a ajuda deles. Ao chegar na porta de entrada, Nina bateu. E bateu tão forte que Paola e Beatriz a repreenderam. Nisso, a jovem saiu serviço. Reconheceu na hora as meninas como as netas dos patrões. Mas quando virou e me viu, me reconheceu e provocou a enésima reação de surpresa, ao me ver nesse estado. 👀 A garota duvidando de como eu estava tão enorme em tão pouco tempo. Ficou me encarando até que a Nina quebrou o clima estranho e disse: — Viemos ver os avós. Dá licença pra gente entrar? Acho que a garota se chama Ana. Ela obedeceu com certa cautela. Se afastou e a gente passou. Fizemos isso bem apressadas e avançamos rápido. Eu fui direto pro escritório do papai. E abri a porta sem bater, ele estava virado de costas pra porta. As meninas atrás de mim acompanharam meu movimento. — Pai... Falei tão cansada, e com uma humildade sabendo de antemão que era eu quem buscava a proteção dos meus pais. Ele se virou surpreso, e abriu os olhos o máximo que as pálpebras podiam se retrair, ao denunciar minha presença. — Melissa!!!, o que você está fazendo aqui? As meninas colaboraram gritando: — Vovô!!! Meu pai confuso, conteve as emoções. Avançou direto e só cumprimentou as meninas. Percebi como seria difícil falar com meu pai. Tinha que jogar muito bem minhas cartas e colocá-las na mesa, se esperasse ganhar a partida. Peguei no braço dele, e olhando suplicante. Falei: — A gente precisa conversar... Meu pai me olhando com certa repulsa ao notar minha barriga perto dele, reagiu pressionado. — É... 😒 Ele falou tão pouco convencido, mas ver as netas junto comigo foi decisivo pra tomar essa decisão. Avançamos pra sala e ele foi buscar a mamãe, pra começar a conversa. O clima era lúgubre e a sensação de tristeza impregnava tudo ao redor. — Ai, Deus, o que eu tô fazendo. 😩 Pensei tentando me convencer a sair dali na hora. Mas quando abaixei o olhar e vi minha barriga. Foi meu bebê que me injetou a confiança necessária pra tentar conseguir a ajuda deles. Sentada no sofá principal, eu estava esperando a chegada dos meus pais. Ladeando a Ao meu redor, minhas meninas. Depois de um tempo, a Ana chegou, segurando uma jarra de água fresca e os copos. Ela estava prestes a servir o segundo quando meus pais chegaram. Imediatamente, meu pai disse: — Ana, por favor, saia e feche a porta. Não quero nenhum tipo de interrupção, não estarei para ninguém.
Ana reagiu na hora, saiu e disse:
— Sim, patrão.
E fechou a porta. Quando me dei conta, minha mãe estava me olhando, descomposta. 😞
— Ai, meu Deus!! Cruz credo, que barbaridade, Melissa. Ayyyyy, o que eu fiz pra merecer isso!!!
Eu reajo com vergonha, lamento tanto decepcionar meus pais assim. Mas o que tá feito, tá feito.
— Mãe, me perdoa... 😢
Minha mãe me olha com uma certa raiva.
— E você acha que um pedido de desculpa basta? Se olha!!! Você tá irreconhecível, não te reconheço, você nunca deu problema e agora somos o fofoqueiro da cidade. 😠
A expressão dela foi subindo de tom. E o rosto dela mostrava uma puta raiva. Meu silêncio me incrimina. Mas o que eu posso fazer? Nisso, meu pai intervém.
— Então, Melissa, pra que você veio, o que você quer...
Ele fala bem seco. As meninas interferem:
— Vô!!! Como assim pra que ela veio, é sua filha!!!
Meu pai ignora o comentário delas e, se virando pra mim, diz:
— Vai, Melissa, me diz pra que você veio.
Eu sabia que nada seria fácil, mas que triste é ver a reação dos meus pais tão contra mim. Se pelo menos eles soubessem como as coisas aconteceram. Será que isso adiantaria? Pra eles, já sou uma puta. Se eu contar como o Gerson me convenceu a fugir pra Honduras, vou parecer uma mulher completamente louca agora. Por ter me apaixonado pelo meu estuprador... 😢
Penso nisso quando meu pai pergunta de novo:
— Você não vai dizer pra que veio??
Voltando à realidade, respondo toda aflita:
— Pai, o Gerson morreu e eu tô sozinha...
Duas lágrimas enormes começam a escorrer pelo meu rosto. As meninas me abraçam bem forte. Meu pai não sabe o que dizer, obviamente não lamenta a morte do Gerson. Mas não vai fazer nenhum comentário ruim. É minha mãe quem quebra o silêncio. E berra:
— E agora? SIM, VOCÊ TEM PAIS!!! 😠 Não, mocinha, você mesma buscou seu destino, você mesma que resolva... Sniff..sniff..sniff. Não consigo parar de chorar. As meninas protestam chorando também. -Vó, a senhora não pode falar isso. Diz Nina, desafiadora. -Ah, e agora você, Ana Maria... Não pegue o mau exemplo da sua mãe... Nina está prestes a responder a avó. Papai percebe e intervém, dizendo. -Não te basta a vergonha que você trouxe pra esse sobrenome, Melissa. Os Heredia são uma linhagem de prestígio e agora somos motivo de piada pro mundo inteiro. E pra completar, sua filha respondendo a avó, quando nunca tinha feito isso. Será que você pretende destruir nossa família? Ahh, que doloroso é ouvir papai dizer isso. -Pa..pai eu nun..ca qui..s is..sooo 😭 Papai, ultra irritado, revida -Faça o favor de não incomodar mais, já te falei outro dia. Você não é mais minha filha... 😭 Levanto-me destruída, aqui minha gravidez não pode impedir minha vontade de fugir desse pesadelo. Fui pro banheiro, estava com tanta dor. Tanta amargura... As meninas reclamam com os avós. Daqui eu ouço elas. Quando cheguei no banheiro, fechei a porta e minha dor era tanta que não parava de soluçar. Me sentia péssima, meus pais não podiam ser assim. Desconhecia a atitude deles, a indiferença. 😭 Não queria sair, me arrependia de ter buscado ajuda, quando eu tinha certeza de que não conseguiria nada. -Você tem que se acalmar, Melissa! Tem que se acalmar... Falei pra mim mesma repetidamente. Depois de um tempo, comecei a conseguir acalmar meus nervos. Meu filho me deu força e consegui parar de chorar. Mas em troca, isso despertou a leoa que eu carregava dentro de mim. E saí com minha atitude na defensiva, qualquer ato hostil eu não deixaria passar. Ao sair do banheiro, fui pra sala disposta a ir embora dali o mais rápido possível. Foi quando mamãe cometeu a imprudência da vida dela. -Puxa, já passou seu dramalhão, Melissa!! Ela disse com uma ironia bem cortante. Então; deixei a dor e a decepção vazarem. -Olha aqui, mãe!! Se pode falar isso de Você e meu pai... Porque pais não são os que julgam pior que Deus. O amor e o carinho não têm limite quando são verdadeiros. E não se preocupa, que eu vou embora pra sempre. Meu pai tentou interromper e impor a autoridade dele. Mas já não conseguiu mais, nesse dia todo o amor e respeito que eu sentia por ele se desmanchou. Então eu respondi. — Não, pai, não fala mais nada. Nem tenta mostrar teu pensamento como se fosse a única verdade. Desculpa, mas você e minha mãe já não são admiráveis pra mim. Desprezam meu filho por ele ser filho de um preto. Meu pai tentou rebater. As meninas ficaram quietinhas. Mas minha decepção e raiva eram enormes, eu precisava botar meus sentimentos pra fora naquela hora. E fiz isso sem pensar nas consequências. — Vocês são racistas e isso é nojento!! Eu nunca vou ser igual a vocês, que vivem de aparências. Minhas filhas são TUDO!!! E esse bebê perde os avós hoje, assim como perdeu o pai dele há pouco tempo. Mas em troca ele tem e vai ter muita Mãe!!! 😡 Papai e mamãe ficaram calados, nunca na minha vida eu tinha respondido eles. Depois disso, fui embora com as meninas de volta pra casa do Tomás. Era triste, mas já não dava pra fazer nada. A partir daquele momento, meus pais tinham virado história...
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