Fetiche de hoje: "Saturno" (conto)

Conseguiram escapar do dilúvio.
O bairro de Constitución tremia sob rajadas de chuva-vento e trovões que faziam tremer as fundações e os assoalhos de madeira do hotel "Saturno", onde tinham se refugiado. Extravía sacudiu os travesseiros e as partículas de poeira suspensas ficaram visíveis no feixe de luz da lâmpada. O espetáculo de pequenos fragmentos de poeira flutuantes deu um pretexto pra homeless brincar de inventar cidades ou mundos suspensos, aos quais ele deu nomes como "terranova" ou "locus-amoenus 1 e 2".

Quando Extravía terminou o serviço de sacudir tudo que passava pelo seu caminho, tirou o pulôver encharcado, a calça jeans gasta e ficou só de calcinha e uma camisa branca com bordados de flores que deixava transparecer os peitos molhados. Homeless a contemplou por uns instantes e murmurou, apontando para um ponto dentro da faixa de luz, o nome de um planeta que chamou de Astarté III. Depois, começou a detalhar sua curiosa biodiversidade de plantas, fungos e animais entregues aos prazeres sexuais mais bizarros. Foi interrompido pelo estrépito de um galho que se sacudia contra aA janela do quarto se partiu e caiu quatro andares até acertar o teto de um Renault estacionado. Com a queda, cortou os fios de eletricidade do hotel e tudo ficou no escuro. O Homeless tateou o telefone e ligou pra recepção pedindo umas velas. A Extravía se deitou na cama e, olhando pra janelona, começou a contar os segundos entre os relâmpagos e os trovões pra calcular a altura da tempestade. Umas vinte minutos depois, alguém bateu na porta. Era a dona do Saturno, com duas velas na mão e sem dizer uma palavra, olhou desconfiada e sentenciosa pra Extravía, que começava uma contagem depois do clarão de cada raio.
Ele entregou as velas pra Homeless e disse que a luz devia voltar em algumas horas, que a equipe já tava a caminho, mas com esses caras da companhia elétrica nunca se sabe. Depois foi embora avisando que as velas não podiam ser acesas perto dos colchões ou das cortinas. Ele pegou as velas, agradeceu a mulher e foi atrás de uns pratos pra firmar elas com a cera derretida das bases. Colocou uma na sala, outra no criado-mudo do lado dele da cama e se deitou de barriga pra cima ao lado da Extravía, que tinha parado de contar os raios. Num instante os dois viraram duas sombras enormes que piscavam na parede no ritmo do movimento das chamas, pareciam duas sombras chinesas entrelaçadas.

Homeless penetrou Extravía com a velocidade de um ato mecânico, enquanto passava a boca e beijava os peitos dela, curtindo vê-los transparecendo entre as dobras da camisa. Apertava e chupava tão devagar que Extravía se admirava da capacidade dele de dividir o corpo em tempos diferentes, como os ponteiros de um relógio. Homeless descarregou entre espasmos sua carga de sêmen e gemidos nos lábios de Extravía, que, enquanto o jato inundava o rosto dela, mentalizava a relação aritmética da tempestade com o orgasmo do parceiro, como se fossem os compassos de raios e trovões do dilúvio. Pensou na ejaculação e nos gemidos cada vez mais distantes, já pagos por Homeless, como os de uma tempestade que se apagava. Ele, por sua vez, lamentou-se em silêncio, deitado sobre os peitos molhados de Extravía, que o apagão em Saturo havia extinguido, como se fosse um buraco negro, todo vestígio de planetas e estranhas formas de vida copulativas, capazes de dar vida e movimento aos universos mais insignificantes.

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