
Vamos nos amar sem copo nem medida,
já que pra amar a gente nasceu.
Adora meu passarinho, igual eu amo teu ninho,
pois sem eles, será que a vida valeu?
E se depois dela, já apagada,
fosse possível amar, meu bem querido,
aos berros eu pedia o bem perdido
pra continuar gozando sem parada.
Gozemos, então, como fez docemente
o primeiro casal de mortais,
aconselhados pela cobra ousada.
Que se perderam por amar, dizem?
É blasfêmia esse papo todo,
pois só quem não ama é infeliz.
Cala a boca, então, e ama também, tô falando!
Cala a boca, e enfia logo até o talo,
Juízes do amor, e do amor testemunhas.



Mete, rei, um dedo no meu cu;
vai enfiando a peça devagarzinho;
enterra tudo bem, que eu não me mexo
e me curte enquanto eu gozo, do meu jeitinho.
Ah, que prazer! Me mata e eu morro;
Se isso é pecado, vamos pecar sem fim!
Quer meter tua glória no meu rabo
e no cuzinho o dedo traiçoeiro?
Já tá bem enfiado na buceta;
se é que não me engano no caminho,
Isso é viver! E não os insensatos
que longe da cama e da mesa
perdem tempo feito uns bobocas.
Que gozar é morrer? Bah, besteiras;
Pra vocês a virtude, seus otários,
Por uma vez amar… morrer cem vezes!

Deixa eu acariciar… Oh, que tesouro!
Como ser feliz sem essa joia?
Quando me preenche, sou… imperatriz!
Rola divina, gostosa como ouro!
Mergulha em mim sem medo, te imploro:
Chega de uma vez no meu útero,
que não tem pau que valha um verme
se na hora mostra um cu doce e sem decoro.
Tua boca é um livro aberto, amada minha.
Negar uma boa boceta uma boa pirocada
é negar a um doente uma sangria.
Bunda mole quem tem pinto pequeno:
mas quem goza, como eu, de um bom filhote,
busque sempre nas bucetas seu presente.
— Fala verdade, que a ilusão da xota
são as rolas como essa que me enche
o caminho que vai da boceta ao cu.

Porque provei de um pau tão solene,
que até a borda me transborda a buceta,
queria ser inteiramente buceta,
e que tu fosses por inteiro pau.
Porque se eu fosse buceta, e tu pau,
saciaria por um tempo a buceta,
e tu terias desse mesmo buceta
todo o prazer que pode ter o pau.
Mas não podendo ser toda buceta,
nem te transformar inteiro em pau,
o bom querer aceita dessa buceta.
— E aceita tu de mim não todo pau
a boa vontade: embaixo a buceta
prepara, que pra cima fincarei o pau;
e depois sobre o meu pau
deixa-te percorrer inteira a buceta:
pau eu serei, tu serás buceta.

Levanta bem essa perna, minha vida;
tira logo essa mão do meu caralho,
e se quiser que eu faça um bom trabalho,
tem que rebolar essa bunda, rainha, sem medida.
E se meu pau vacilar na subida
e escorregar pro beco sem saída,
calma, que o caralho não tem olho, não;
calma, releva essa sua distração.
— Pelo céu! Seria loucura danada
soltar esse aríete agora e não mirar
no lugar onde eu sempre quis te ter.
Que deixar você levar pelas costas, sem prazer,
só você ia gozar, e eu ia ficar na mão.
Então cumpre bem, ou cai fora do meu lado.
— Ir embora sem ver e sem te fazer ver o céu?
Não vou cometer, mesmo sendo pecador, um pecado tão cruel.
**Sobre o autor:** Aretino nasceu exatamente no ano do descobrimento da América (Arezzo, 20 de abril de 1492 – Veneza, 21 de outubro de 1556). *Il Flagello dei Principi* foi o título que ele recebeu com maior satisfação e honra. Ninguém como ele foi mais difamado, temido e odiado. Em Veneza, no palacete que foi cenário de sua vida de grande senhor, confluíam as intrigas da Europa renascentista, as consultas, os pedidos sobre algum conceito literário. Cunhou-se sua efígie – honra rara – numa medalha de bronze. Foi protegido e elogiado pelo Papa Leão X, Medici, Francisco I, Carlos V, o Marquês del Vasto e o Duque de Urbino, que estão entre os que o cobriram de bajulações e honrarias. Michelangelo e Ticiano buscaram sua proteção e seus conselhos. E foi Ariosto, o grande poeta de *Orlando Furioso*, quem o chamou para a posteridade de *Poeta Divino*.
Suas obras, que muitas vezes ultrapassam o erotismo, são catalogadas entre as mais valiosas da literatura universal: os *Diálogos amenos*, as comédias *O Marechal*, *A Cortesã*, *O Hipócrita*, *Talanta* e *O Filósofo*. Sua tragédia *Orazia* é apontada como um de seus textos essenciais. Um livro sobre o Gênesis. Outro sobre a Humanidade de Cristo. E seus *Dezesseis sonetos luxuriosos* (os *Sonetti lussuriosi* de Pietro Aretino foram escritos para acompanhar as gravuras de Marco Antonio Raimondi a partir de dezesseis desenhos de Giulio Romano, os *Modi* – posições). Esse livro conjunto deveria ter sido publicado em Veneza por volta de 1527, mas só sobrevive um exemplar de uma edição clandestina, chamado "Toscanini". Existem várias versões contemporâneas desses sonetos em espanhol.
10 comentários - Sonetos Lascivos - Pietro Aretino
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