Festa de Fantasia (Parte 1)

Se é a primeira vez que você me lê, bem-vindo; se já me leu antes, muito obrigado.

Essas datas são minhas favoritas, onde eu moro a tradição é colorida, cheia de alegria e nostalgia, sabores e aromas que prendem os sentidos; não tem nada melhor que isso. Mas, sem dúvida, não sou contra adotar outras tradições pra curtir também.

Eu tava tentando sair de uma ilusão desastrosa com uma mina e tinha começado a ser desencanado, sarcástico e meio amargurado. Sempre passo essas datas com a família da minha mãe ou do meu pai, do dia 30 de outubro até 3 de novembro.

Uma amiga fazia uma festa à fantasia todo ano e, há dois ou três, sempre me convidava. Eu fugia do convite falando que passava as datas com a família e que não curtia essas paradas, mas nesse ano, quando a Irma me chamou, decidi ir. Quem sabe ali eu parava de pensar nas minhas mágoas e talvez encontrasse o prego que tirasse a que tinha se cravado no meu coração inocente.

O telefone toca, com a ligação tradicional da Irma. "Alô..." atendo.

"Alô... Já sei que você vai falar a mesma merda de sempre, mas mesmo assim vou tentar... Na minha casa dia 31, às 9... Quer vir?"

"Sei lá, Irma... Você sabe que passo essas datas..."

"Sim, sim, já sei, mas queria que você viesse... Tem alguém que pergunta por você toda festa... E sei lá, talvez te faça bem sair."

"Vou pensar... porque de verdade..."

"Nada de pensar... Fala que sim... Você vai ter uma surpresa..."

"Mmmm... Tá bom... Fechou... Dia 31 às 9 na sua casa..." ouço o barulho de outra voz no celular.

"Sim... Não vai se arrepender... Te vejo lá..." desliga.

Durante o jantar daquele dia, comento com minha mãe que fui convidado pra uma festa à fantasia e que quero ir. Ela fica animada porque eu não saía muito pra festas e essas coisas. Minha mãe achava que era por eu ser antissocial, mas a verdade é que eu gostava de ficar em casa por causa das vizinhas (sim, histórias que conto outra hora); depois de me dar umas ideias meio extravagantes de fantasias, falo pra ela não se preocupar. Relaxa, que alguma ideia vai me surgir. No dia seguinte, enquanto pensava em ir fantasiado de suicida ou de um louco com camisa de força, minha mãe chega com uma máscara que era a parte de cima de um crânio. Então decido finalmente ir fantasiado de uma espécie de senhor morte ou algo assim, de terno com maleta e o crânio.

No dia da festa, saio lá pelas 9:30 da noite pra chegar com um certo atraso. Minha mãe me dá um dinheiro, acho que como incentivo pra eu continuar saindo no futuro. Pego um táxi e dou o endereço.

Chego na casa da Irma, decorada como casa mal-assombrada. Dá pra ouvir música no último volume e a zoeira normal de qualquer festa. Entro procurando alguém conhecido, como não encontro ninguém, vou até a mesa de petiscos pra pegar algo. Pego uma cerveja e, enquanto dou um gole, observo ao redor.

Deus abençoe essas datas: os virados em monstros e as mulheres em putas exóticas. As fantasias são uma desculpa pra soltar a foxy interior que têm. Tô cercado por vestidos e saias curtas, roupas justas e fantasias que desafiam o frio da época com pele demais à mostra.

Conversando num canto, tão duas zumbis com uma diabinho de vestido sem vergonha e meias vermelhas. Lá adiante, tem uma vampira com o corset tão apertado que parece que o par de melões que ela tem no peito vai pular fora a qualquer momento. Uma enfermeira ensanguentada dança com um esqueleto, o vestido sobe deixando ver parte da bunda e da calcinha que ela usa. Espectros e fantasmas circulam rindo e conversando. A mais ousada, a mais puta, é uma múmia que tem como fantasia só uma atadura cobrindo os bicos dos peitos e outras duas tampando a buceta.

Sinto uma ereção começando a crescer na calça. Fico feliz de ter vindo. Com tanta coisa pra ver, nem pensei na garota do desastre e nas minhas tristezas. Quem sabe eu consiga um sexo inter-racial, humano-espectro, com alguém. Dou uma volta, termino a cerveja, devoro algumas batatas fritas e depois pego um bolinho.

— Não exagera. com os panquinhos espaciais... —diz a voz da Irma nas minhas costas.

—Espaciais? —pergunto me virando.

Irma tava vestida de chapeuzinho vermelho (na versão putinha, óbvio), os peitões dela estavam uma delícia e as pernas aparecendo lindas nuns meia vermelha com liga, uma capa vermelha cobria ela por trás, vinha acompanhada de alguém fantasiado de lobo mau, o namorado dela com certeza.

—Por isso que têm etiqueta... —continua apontando pros poucos panquinhos que têm na bandeja —que alegria que você veio —me dá um abraço esfregando os peitos em mim —o Peter e o Richard tão por aí, também tão a Mimí, a Sofia e a Bere, são um fantasma, um zumbi, uma fada, um anjo e uma diabinho... Você tem que provar a poção —aponta pra um caldeirão fumegante —mas cuidado que é forte... Vou dar uma volta e depois a gente se vê... Se diverte —. Ela se perde na multidão.

Fico olhando pro panquinho e pego o cartão da bandeja "Panquinhos Espaciais... Noz e Maria", fico pensando incrédulo e dou uma mordida, sinto na hora o gosto da maconha no panquinho, deixo o panquinho mordido pra depois, pego um copo e me sirvo do caldeirão um líquido verde-transparente, dou um gole e faço uma careta, tem mais gosto de álcool do que de maçã, é forte mas gostoso.

Dou uma volta admirando a pele dos espectros, a mordidinha do panquimho me relaxa e me deixa na sintonia, uns passos depois encontro os monstros que a Irma mencionou, cumprimento eles, a gente ri e dança. Conforme o tempo passa, vai chegando mais gente, com o Peter e o Richard a gente fala das fantasias querendo premiar "a mais putinha" e "a melhor fantasia", as minas também ajudam rindo e tomando cerveja, a gente dança mais.

—E esses doutores? —pergunta o fantasma vendo os 3 que acabaram de entrar vestindo jalecos.

Viro e reconheço eles —. São meus colegas, devem ter vindo fantasiados de cientistas loucos ou algo assim —justifico.

Dou dois passos na direção deles. pra cumprimentar duas colegas e um amigo, no segundo passo eu congelo, entrando pra completar cinco, chega a mina do caos, a culpada dos meus sofrimentos do lado do namorado dela. "Merda", penso, e dou meia-volta pros salgadinhos, Irma e eu temos amigos em comum, um deles é o que veio com minhas duas colegas, com certeza ele teve a gentileza de convidar ela. "Merda", repito.

Encho mais o copo e volto pro meu grupo de monstros, viro o copo de uma vez e tento me acalmar, se eu não der importância, ela não vai conseguir estragar a festa; decido ignorar a presença dela, afinal, dá pra se esconder numa festa.

—Ei... Ei... O cara da maleta... —meu colega se faz ouvir. "Merda".

Viro e aceno pra ele, ele faz um sinal pra eu chegar perto, penso em ignorar, mas é má ideia, pouca gente sabia sobre eu e a Katy, a gente era "amigos secretos", clandestinos, e se percebessem algo estranho, todo mundo ia começar a perguntar e fofocar, ia ser mais encheção de saco pra mim.

—Beleza?... —cumprimento, aperto a mão do Daniel —Abril... —dou um beijo na bochecha —Candy... —também cumprimento ela —... Katy... —dou um sorriso falso pra mina do caos e beijo rapidinho a bochecha dela, sinto o cheiro do perfume dela. Viro pra falar com o Daniel.

—Ele é o Ismael —fala a Katy pelas minhas costas.

"Maldita". Viro forçando um sorriso e aperto a mão do cara.

—Prazer... Já me falaram muito de você... —diz o sujeito.

—Espero que não tenham contado tudo... —respondo com um sorriso cínico —aposto que não... —solta uma risada falsa e começo a catar nos bolsos o maço de cigarro que tinha comprado —querem?...

—Eu quero... —diz o Daniel e pega um, procuro o isqueiro, depois de acender o cigarro dele, acendo o meu e dou uma tragada funda. A Katy odeia que eu fume, ela passa a mão na cara pra espantar a fumaça —. Vou pegar uma bebida, vocês deviam provar a poção... —falo antes de sumir. Cheguei na mesa dos salgadinhos, apaguei meu cigarro e vi o bolinho mordido. Devorei ele inteiro e depois tomei um copo cheio da poção, comi mais batatas fritas, aí outro copo de poção, abri uma cerveja e tomei quase metade de um gole.

Viro pra pista de dança, os "cientistas malucos" tão dançando numa roda. O Ismael dança pior que eu, mas a Katy dança que dá medo, é sensual demais e gostosa pra caralho. Terminei a cerveja com outro gole e abri outra. "Eu devia estar dançando com ela", pensei, e tomei mais um longo gole de cerveja.

Chegou na mesa uma bruxinha linda com a bunda empinada pelos saltos e um vestido minúsculo e justinho, umas tetas boas se mostrando safadas no decote. Ela pegou um bolinho.

— Cuidado — avisei — esses bolinhos podem te fazer viajar.

— Tem droga? — ela disse com cautela. Os olhos castanhos e o cabelo ruivo completavam a beleza dela.

— Maconha... — respondi com um sorriso. Ela largou o bolinho como se fosse explodir a qualquer momento. Dei uma risadinha e servi um copo de poção pra ela — com cuidado, é uma poção muito poderosa — brinquei.

— Não era pra ser as bruxas que enfeitiçam os homens, e não os mercadores da morte? — ela flertou e deu um gole no copo. Fez uma careta sexy por causa da força, como se tivesse engolido porra em vez de cuspir.

Chegou uma amiga dela, uma diabinha gostosa, e elas começaram a conversar. — Bom, minha linda e sensual bruxinha, tenho que ir... Feliz Halloween — falei e fui pro banheiro.

Preciso atravessar a multidão. A música alta e as luzes coloridas tão fazendo o álcool e a erva baterem. Cheguei no banheiro e aliviei os rins. Saí e vi um zumbi beijando apaixonadamente um anjo. Desci as escadas na brisa, tonto, vendo tudo em câmera lenta, tudo mais brilhante. Decidi ir pro quintal dos fundos pra fumar e esperar passar o efeito. Peguei uma cerveja e saí pra noite fria.

Lá fora tá Transando como animais: um lobisomem e a noiva do Frankenstein, no meio de uns arbustos. Uma zumbi de minissaia chupa com muito entusiasmo o pau de um pirata; dá pra ouvir mais gemidos e sons de sexo pra todo lado. Acho um lugar e sento pra fumar de boa.

— O que cê tá fazendo aqui fora? Por que não tá com seus colegas? — me pergunta a Chapeuzinho Vermelho.

— Aqueles bolinhos me fizeram decolar... Tô aterrissando — respondo.

— Bom, quando aterrissar, vai pra dentro... Sua surpresa acabou de chegar — ela fala animada.

— Não quero mais surpresas... Já tive uma e não foi muito legal — digo amargurado.

— Tá bem, amargurado... Toma, caso se anime a ir — ela me dá uma chave.

— E isso?

— Segundo andar, terceira porta... O quarto da varanda — ela aponta pra varanda que dá pra ver daqui — caso precise — termina piscando um olho.

Fico sozinho de novo, guardo a chave que Irma me deu, ainda meio doidão entro na casa.

Meus colegas tão dançando, o outro grupo de monstros também, ninguém pergunta onde tô. Passo o olho pelo lugar todo, penso em ir pra casa, não tem mais motivo pra ficar aqui.

Lá no fundo vejo a bruxinha de antes dançando, dá uns pulos no ritmo da música que balança os peitos dela com quicadas hipnóticas, o vestido deixa ver parte da calcinha. A bruxinha vira e me encara nos olhos, sorri ao ver que tô olhando com tesão, começa a se mexer de um jeito sensual, fazendo um gesto como se tivesse um vibrador potente na buceta dela, imagino ela pelada, meu pau pula feliz, ela sorri pra mim, dá uma pausa na dança erótica, me aponta com o indicador e depois mexe o dedo num convite, fico olhando pra ela e penso: "ela é a surpresa da Irma".

Ando até ela, desviando de espectros dançantes, a bruxinha não tira os olhos de mim, talvez seja hora de esquecer o desastre entre as pernas de outra mulher, talvez se eu beber o elixir dos fluidos dela... Acabem com minhas mágoas. Tô no epicentro rítmico da pista de dança, bem no meio, roçando bundas e corpos, quase chegando nela.

A uns passos da bruxinha, uma sensação no peito me para. Uma luva de látex com as pontas dos dedos feito garras me agarra, sigo o braço coberto de látex até dar de cara com um sorriso safado e lindo, escondendo a identidade com uma máscara de látex cheia de costuras.

— Aonde vai, Seu Caveira? — ela fala, chegando perto do meu ouvido, soltando aquela voz de veludo, mel do inferno que faz minha virilha doer de tanto tesão. Sinto o cheiro do perfume dela, dos lábios dela vem o aroma da poção alcoólica. Valor líquido.

— Ia atrás de um feitiço... Mas agora tanto faz — respondo... Ou o álcool e a maconha respondem.

Viro de repente pra olhar ela, que mulher, um rostão lindo escondido atrás de uma máscara de Mulher-Gato, um corpo espetacular enfiado num látex apertado, tudo coberto de costuras falsas igual no filme do Batman (aquele dos anos oitenta). Cintura fina, a curva do quadril bem marcada sem exagerar, as pernas longas, muito longas, terminando nuns coturnos de salto agulha. Os peitos dela são grandes, firmes, a fantasia faz eles aparecerem mais. Nos lábios, um vermelho intenso; a fantasia é bem apertada, deixa pouco pra imaginação, tem um zíper semiaberto na frente que começa no pescoço (mas na altura dos peitos tá aberto feito decote) e vai até a pélvis.

(...)

Parte 2: http://www.poringa.net/posts/relatos/3068268/La-Fiesta-de-Disfraces-Parte-2.html

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