Cartas para Cassandra Nº 1

Cartas do meu inferno (1)

"Mas eu faço brotar de ti mesmo o fogo que te devora."
Lamentação pelo rei de Tiro. Ezequiel 28:18.

Cassandra, minha tão minha, escrevo-te do silêncio, isso significa que esta carta não precisa da tua resposta, e mais ainda, podes parar de lê-la quando perceberes do que se trata. A mim basta-me escrevê-la porque sinto que é como se estivesse a falar contigo e tu a ouvir, abraçados na cama, partilhando numa doce intimidade as nossas ternuras e solidões, e essa maravilhosa necessidade que temos um do outro. Não imaginas quanto se alegrou a minha alma quando soube que tu sabias, entendias e aceitavas o meu segredo. Foi como uma chuva suave e refrescante a cair sobre os ocultos e terríveis fogos de perversão que consomem uma parte do meu ser. Pensei que finalmente poderia tirar de dentro de mim todos os pensamentos pervertidos e obsessivos, todas as fantasias lúbricas que aninham escondidas nos meus profundos labirintos, na minha cloaca lamacenta existencial, essas espinhas dolorosas que fazem sangrar em mim há muitos anos e que nunca pude expressar abertamente a ninguém. Alegrei-me porque acreditei que era o fim de um suplício emudecedor, que agora havia alguém com quem partilhar o meu segredo com a amizade, cumplicidade e compreensão necessárias para libertar a minha alma e deixá-la voar livre finalmente dessa dolorosa sensação de pecado. Não se tratava de que tu ias partilhar o meu obsceno "sentir especial", não, amada Cassandra, tratava-se apenas de que eu pudesse mostrar-me diante de ti na minha verdadeira realidade oculta, poder falar abertamente dessa pulsão irracional que vive em mim como um demónio encistado. Mas vieram as tuas palavras, escritas bem o sei, com o teu infinito Amar e sabedoria: "Pelo que me manifestas, não tocar mais no assunto que alude aos teus sentimentos especiais", e eu entendi-as e aceitei-as porque conheço e respeito o teu recato, o teu pudor, a tua severa atitude perante o que não te parece correto. E voltei a sentir-me um vil pecador, um sujo... depravado que deveria esconder pra sempre seu segredo indecente, ainda mais diante da mulher que amo desde o primeiro dia em que iluminou minha vida. E a dor da solidão voltou a me habitar, a tristeza de me saber sozinho, incompreendido, humilhado, o saber que talvez devesse continuar na busca por alguém em quem pudesse derramar minha verdade sem os limites da censura e da repulsa. Mas não, não quero continuar numa busca que sei que não tem saída, pois se não é você, minha amada, esse ser que vai me libertar das minhas correntes, é porque nunca haverá ninguém, e por isso decidi escrever esta carta e as que virão, leia ou não, responda ou não, porque só em você quero encontrar a paz espiritual que busco para assumir e viver em plenitude meu "sentir especial", mesmo que seja só imaginando que você me lê e me entende. Porque eu te amo e sei que você me ama.
Seu solitário Visconde.

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