Entregando minha esposa - Crônica de um consentimento Pt 16

A semana passou com uma falsa normalidade, onde a gente se virava tentando ver quem aguentava mais, quem desistia primeiro. Não acreditava na versão dela sobre o plano com a Ângela, mas me irritava que uma terceira pessoa estivesse envolvida de algum jeito na nossa prova. A Maria, por outro lado, fingia que meu silêncio não a afetava; eu tava convencido de que ela esperava outra reação da minha parte, e eu não tava disposto a dar. Depois do susto inicial quando ela revelou aquela suposta trama, não duvidei nem por um segundo que era um truque pra expor minhas inseguranças.

Dia após dia, ela me atualizava sobre os planos do novo departamento que ia comandar, e os comentários dela vinham cheios de uma ambiguidade calculada, que eu interpretava como uma manobra pra me fazer pensar que o Roberto tava tentando alguma coisa. Diante disso, eu mantinha uma atitude displicente que a Maria ignorava; nenhum dos dois tava disposto a ceder, e o jogo, além de excitante, tinha virado uma competição entre nós. Eu, por minha vez, evitei fazer a menor menção àquela falsa saída dela com a Ângela.

No entanto, tinha algo que me inquietava e me excitava ao mesmo tempo: a Maria tinha passado de uma atitude passiva diante das minhas insinuações insistentes sobre sexo compartilhado pra um papel diferente. Agora era ela quem criava situações onde a ambiguidade gerava mais tensão do que qualquer declaração explícita, que, sem dúvida, me levaria pro terreno da fantasia. A ambiguidade, o dizer sem dizer tudo, a insinuação velada, o gesto descuidado… faziam mais efeito, muito mais, do que o erotismo explícito que a gente tinha usado até então nas nossas fantasias compartilhadas.

"Amanhã à noite o prazo acaba" – A gente tava jantando quando eu quebrei o silêncio com essa frase. Ela me olhou longamente sem responder nada. – "Algum plano em específico?" – Ela sorriu ao perceber na minha insistência a fraqueza. do meu aparente equilíbrio.
"Conversar, sair da quadra, parar de competir, voltar a ser nós mesmos e comparar" – disse ela com um sorriso lindo nos lábios, sua expressão de calma serena me fez entender que, assim como eu, ela estava morrendo de vontade de acabar com aquilo.
"Comparar? Acho que não tô te seguindo"
"Acho que você me segue perfeitamente, suponho que quando terminarmos o... jogo? Ou devo dizer 'combate'?"
"Vamos deixar como jogo" – falei sorrindo.
"Beleza, então quando a gente encerrar o jogo, podemos relaxar um pouco, rebobinar o filme dessas duas semanas e avaliar o que a gente tem" – Eu tinha a impressão cada vez mais forte de que a Maria tava cansada de manter esse jogo e fiquei feliz porque eu sentia o mesmo: queria voltar pra nossa vida, não gostava das incertezas que tinham surgido esses dias. Sentia falta da transparência que sempre existe entre nós e, mesmo sendo um jogo, me causava um desconforto chato.
"Perfeito, depois da academia?" – Maria concordou com a cabeça. Continuamos jantando em silêncio.
"Na verdade, precisei de apenas uma semana das duas que a gente propôs, até quinta-feira passada não levei isso a sério, mas me bastaram uns dias pra desmontar sua suposta segurança"
A voz dela era doce, não tinha ironia, mas ainda assim a argumentação me pareceu um ataque de prepotência tão explícito que feriu meu orgulho, Maria tava dando como certo que tinha me derrotado.
"Você acha?" – ela sorriu pra mim e pegou uma das minhas mãos.
"Amor, você tá passando os piores dias da sua vida, não aguenta não saber, tá morrendo de vontade de acabar com isso e conhecer cada detalhe pra ficar tranquilo" – o tom dela me pareceu paternalista, não entrei na provocação.
"Como você tira conclusões rápido, e ainda reclama que não usou mais que uma semana..." – eu ainda não tinha definido nem meu argumento nem o jeito de recuperar terreno e não aceitar o veredito antecipado dela, então improvisei – "... Pra mim não tem problema nenhum em te dar essa Semana que te falta... mais ainda, se quiser, a gente pode deixar o prazo aberto até um de nós dois desistir.
Foi um baita desafio jogado sem vontade, eu queria cumprir aquilo e voltar à nossa normalidade, mas não podia fazer isso saindo por baixo. Maria me olhou nos olhos, ainda sorrindo, não esperava essa reação e demorou pra encontrar a resposta certa.
"Tem certeza? Te vejo bem tenso esses dias. Vai aguentar?"
"Sem problema, amor, você já é grandinha, sabe o que faz" – o olhar dela mudou, não consegui adivinhar se tinha ficado irritada ou se havia algo mais por trás daquela sombra no olhar dela.
"Claro."
Não tocamos mais no assunto da prova durante o fim de semana, mas meu jeito de fazer amor com ela refletia a intensidade da tensão e do tesão que aquilo me causava; Maria, por outro lado, tinha uma reação mais instável, umas noites era ela quem se descarregava violenta e rapidamente em mim – embora tenha se cuidado pra não me deixar sem gozar de novo –, outras se deixava levar, como se tivesse dificuldade de se excitar. Eu continuava vendo aqueles sinais não como sintomas do dilema interno dela, mas como uma estratégia pra me vencer na prova.
Os comentários dela sobre a promoção sempre acabavam levando ao Roberto, a preocupação dela transparecia nas palavras, mas eu não enxergava; ela precisava falar comigo, com o marido e amigo, mas se via diante do adversário numa disputa idiota e ao mesmo tempo se sentia limitada pelo pudor de me revelar as concessões que fazia ao Roberto. As hesitações dela, no entanto, me pareciam artimanhas pra me enfraquecer.
No fim daquela semana, tive uma reunião que me prendeu até quase dez da noite; quando cheguei em casa, não tinha nenhuma luz acesa, estranhei a Maria não ter chegado naquele horário; enquanto ainda tentava achar uma explicação lógica, ouvi música no sótão. Subi e encontrei ela no sofá, com os pés descalços sobre o estofado, encolhida numa posição quase fetal, Lorena McKennitt tocando. tocava no som. Fiquei parado na porta, olhando pra ela, admirando ela; por um momento esqueci a competição que tínhamos e me perdi na menina por quem me apaixonei, na mulher em que ela se transformou, uma ternura suave me invadiu e eu quis envolvê-la nos meus braços e embalá-la sem objetivo, sem tempo, sem fim.

Os olhos dela me examinavam, uma sombra de preocupação, talvez de tristeza, turvava o olhar dela, eu sabia o esforço enorme que tava sendo pra ela tentar a promoção e atribuí aquilo a isso, não fazia ideia da pressão que ela tava sofrendo. Sentei do lado dela.

"Um dia ruim?"
"Nem melhor nem pior que os outros" – a resposta evasiva dela me surpreendeu, já que eu esperava que, como sempre, ela me contasse o que tava preocupando ela.
"Então?" – minha insistência, em vez de abrir espaço pra confidência, fez ela se sentir pressionada, ela virou pra mim.
"O que foi?"
"Tô te achando... sei lá... preocupada?" – ela pareceu prestes a começar uma frase, mas antes de falar parou e, depois de uma pausa curta, desviou do assunto.
"Bobagem, coisa do gabinete" – Essa não era ela, aquele gesto de dúvida me pareceu tão ensaiado, tão feito pra me deixar curioso que, num instante, a ternura sumiu e o jogador voltou à ativa. Eu tava tão cego que não consegui entender ela.
"E o Roberto? não te dá uma mão?"
Aquela frase, pensada pra provocar alguém que joga o mesmo jogo que você, foi um golpe baixo pra mulher que tava dividida entre se abrir comigo ou ficar calada; eu ouvi ela suspirar fundo, como quem se rende a uma evidência indesejada, como quem desiste de uma esperança; De novo eu tinha decepcionado ela.
"Menos do que ele gostaria" – ela mudou de posição com uma leve agressividade que não passou despercebida.
"Mas... mais do que você gostaria?" – eu não me sentia bem agindo daquele jeito, mesmo assim não conseguia parar. Mal vi a Maria desviar o olhar ao ouvir aquela frase fora de hora.
"Você não faz ideia do que eu quero" – era evidente a raiva dela, me arrependi de ter dito aquela besteira.
"Incomodei você? Era só uma brincadeira"
"Nem me incomodou, nem era brincadeira, mas tanto faz" – o tom dela expressava desinteresse pela minha opinião, voltava a ser normal, sereno, meio mordaz, o que me fez pensar que ela tinha caído na provocação.
"E por que você acha, depois de tudo isso, que eu não sei o que você quer?"
"Não é esse o objetivo dessa... prova, ou batalha, ou como você quiser chamar? Descobrir o que eu quero?"
"Achava que não, que o que você queria era me mostrar que na hora H eu ia recuar e ter medo de te ver foder com outro" – Maria fez uma careta de irritação.
"Eu nunca falei em foder, só apostei que você não seria capaz de me ver com outro homem, não especifiquei mais, mas já vejo que vai com tudo"
"Falando nisso, ainda não me esclareceu o que quis dizer ao falar que não faço ideia do que você quer, era no geral ou tava falando do Roberto e dos... esquemas dele?" – Maria sorriu com certa amargura.
"Falando nisso, hein? A gente fala em foder e isso traz o Roberto à tona?"
"Por que não? Você mesma disse que por que não tentar se soltar" – a conversa tava indo longe demais, mas eu me sentia incapaz de parar.
"Só repetia seus argumentos, embora... já vejo que tenho carta branca" – cada frase que saía das nossas bocas atiçava uma fogueira que ameaçava virar um incêndio sem controle.
"Você nunca precisou da minha permissão, querido" – aquela palavra, 'querido', lembrou ela do Roberto e naquele momento sentiu como o desprezo que ele tinha provocado quando a chamou assim se transferia pra mim, a insolência do Roberto era agora minha insolência, como eu ousava dizer aquilo? A amargura de se sentir sozinha virou irritação; ela se levantou do sofá e foi pra porta.
"Bom, é bom saber disso"
Ela desceu as escadas e eu segurei a vontade de segui-la e pedir desculpas, queria acabar com aquilo, admitir que tinha agido como um idiota e voltar a ser quem éramos. Sempre..
Mas não fiz isso.
Dez minutos depois, ouvi ela remexendo na cozinha e desci; de forma premeditada, passei por ela sem dizer nada e fui pro quarto me trocar.
Jantamos fingindo normalidade, comentei uns assuntos do trabalho que só renderam monossílabos. Me sentia frustrado, queria muito resolver aquilo, mas minhas tentativas de quebrar o silêncio batiam de frente com uma frieza fechada. Aí perdi completamente a linha.
"Sabe de quem me lembrei hoje?" – ela me olhou com uma cara de superioridade, como se já soubesse o que eu ia dizer, e aquilo me detonou de vez.
"Fala, me conta" – disse com um ar tolerante.
"Me veio a Elena na cabeça" – minha frase provocou uma risada que ela reprimiu na hora, mas que me fez sentir um idiota.
"Puxa! Hoje, justo?" – Maria mantinha um sorriso de incredulidade.
"Bom, não só hoje..." – eu continuava improvisando, tinha que fazer minha história parecer crível sem humilhar ela – "...pensei muito em como a gente saiu naquela noite, quase sem nos despedir, sem falar nada pra ela..." – Maria mantinha um sorriso tenso no rosto. Os olhos dela mostravam uma frieza cortante que eu nunca tinha visto.
"Você... não teve tempo suficiente pra falar tudo o que queria?" – Maria já não se segurava, estava em pé de guerra, a ironia na voz dela me instigava a continuar.
"Não é isso, quero dizer que a gente saiu tão de repente, você ficou tão puta que..." – Maria largou o garfo com que brincava na comida.
"Fiquei histérica, é isso?" – ela queria me provocar, jogou uma frase que sempre achamos indecente e miserável, aquela frase clichê de muito homem que, diante de um barraco feminino, culpa a TPM ou a histeria.
"Você ficou excessivamente tensa, não tinha motivo pra sair de lá daquele jeito."
"Você acha? Poxa, então era só ter dito, e a gente teria ficado pra passar a noite nos quartos que vocês trataram de arrumar. Reservar, assim você teria conseguido terminar de contar tudo pra Elena, com todos os detalhes, sinto muito por ter estragado sua noite."
"Você sabe muito bem que eu não reservei nada e que não tinha intenção de esconder isso de você" – fiz uma pausa, não tinha gostado nada da insinuação que ela tinha feito, por um momento esqueci que Elena e eu… – "e além disso, você não estragou minha noite."

Maria se apoiou na mesa, seu tom não refletia a tensão que estava no ar, ela não parecia alterada, mas sim amargurada. Percebi o tom, mas não dei atenção, focado que estava na luta pra dominar o jogo.

"Então olha, já que você se lembra tanto dela, por que não liga pra ela?" – ela me provocava.
"Você sabe que não tenho o telefone dela" – um gesto de dúvida no rosto dela me fez ficar sério – "você sabe disso, né?" – não ia deixar ela duvidar da minha palavra.

"Então liga pro Pablo, esse você tem."

Eu também me apoiei na mesa, a pouca distância do rosto dela. Maria tava jogando um verde tão grande que duvidei que ela percebesse o que tava propondo.

"Se eu ligar pra ele pedir esse telefone… você sabe o que ele vai querer em troca."

Ficamos em silêncio, sem desviar o olhar um do outro, calculando até onde cada um tava disposto a ir. A proximidade do rosto dela, a beleza dela, avivava a excitação que aquela escaramuça me causava. Queria beijar aqueles lábios, acariciar as bochechas dela, beijar as pálpebras, acabar com aquilo e levar ela pra cama, mas…

"Você quer o telefone da Elena, né? Então, já sabe: pede pra ele" – Maria tava indo com tudo, segura de que eu ia recuar. Olhei fixamente pra ela, tentando mostrar toda a gravidade da parada.

"Maria…"

Palavras eram desnecessárias, nós dois sabíamos aonde aquela ligação levaria. Ela me olhou com uma segurança insolente.

"O quê?"

"Ele vai pedir o seu, você sabe" – não gostei do que vi no olhar dela: tristeza? Amargura, cansaço talvez, não sabia bem o que era, mas me preocupou.

"Você já é grandinho" – disse ela, me imitando – "você sabe o que deve fazer. fazer" – de novo ele zombava, me senti ridicularizado, ofendido.
"Como quiser, amanhã ligo pra ele"
"Muito bem

2 comentários - Entregando minha esposa - Crônica de um consentimento Pt 16

Se pone dura esta competencia entre ellos, espero que termine bien..... :S
terriblemente tediosa ,ya no los soporto, cuando la van a coger ??????????