Estimado Lector - Parte 1

Caro Leitor

Eu queria que o leitor estivesse livre, o mais livre possível, o leitor tem que ser um cúmplice e não um leitor passivo." Julio Cortázar.

Dedicado ao Edward Packard, cujas aventuras geraram, nos primórdios dessa mente perversa, uma paixão profunda pela literatura.



AVISOPrezado leitor, esta é a história de Daniela Szajha, uma jovem estudante argentina que, de repente, vai se ver enrascada numa situação complicada. Igualzinho na vida real, ela vai ser forçada a escolher certos caminhos — e abrir mão de outros. Vai ter que tomar umas decisões que, de um jeito ou de outro, vão torcer o rumo da vida dela. Umas decisões cujo verdadeiro alcance, cujas reais consequências, são difíceis de prever. Principalmente quando você mal tem vinte anos, como a nossa inocente Daniela.

É por isso, prezado leitor, que apelando ao seu bom senso e à sua vasta experiência nos assuntos da vida; eu te convoco a meter o bedelho em certos pontos-chave dos acontecimentos que aqui se narram, de forma anônima e onisciente, pra orientar a nossa inexperiente Daniela na difícil tarefa de traçar o próprio destino.

Sem mais delongas, te convido a se enfiar nos caminhos labirínticos dessa história, onde você, prezado leitor, vai ter que avaliar as melhores alternativas pra resolver o destino incerto da nossa protagonista imatura e cheia de conflitos, Daniela Szajha.PARTE I

O futuro tem muitos nomes: para o fraco, é o inalcançável; para o medroso, o desconhecido. Para o corajoso, a oportunidade."
Victor Hugo
Durante os nefastos anos noventa, os habitantes da República Argentina sofreram a mais cruel política econômica neoliberal orquestrada pelos governos da época. Entre outros males, viveram uma das crises trabalhistas mais profundas de sua história. O desemprego aumentava ano após ano, e o trabalho precarizado, tornando-se a única forma de sobrevivência, crescia como um câncer na realidade diária de muitos argentinos.

É justamente durante esses anos, ao terminar o ensino médio, que Daniela Szajha, como tantos jovens do interior, decide emigrar para Buenos Aires para entrar na universidade. Contando com o apoio incondicional – embora modesto – de seus pais, que sempre guardaram ciosamente a esperança de forjar o melhor futuro para sua filha.

Daniela pertence a uma família típica da classe trabalhadora argentina. É a única filha de um casal de imigrantes europeus: pai húngaro e mãe espanhola. Em seu seio familiar, sempre foram inculcados os valores sadios do trabalho, da educação e do sacrifício. E graças ao esforço abnegado de seus pais, Daniela pôde se dedicar em tempo integral aos estudos de psicologia durante seus dois primeiros anos na universidade.

Durante esse curto período, a jovem já havia dado mostras de ser uma estudante destacada. Seus pais, encorajados pela dedicação e pelo empenho que a filha investia em sua formação, decidiram redobrar o esforço conforme a crise geral do país se agravava. Bancar o caro aluguel de um modesto apartamento na Capital, somado a uma mesada módica que mal cobria os gastos diários da garota, implicava para eles um sacrifício extraordinário.

Daniela, aos seus vinte anos de idade, era suficientemente madura e inteligente para estar perfeitamente consciente dessa situação. Em mais de uma oportunidade, havia sugerido à família a possibilidade de arrumar um emprego de meio período, mas sempre obtinha a mesma Resposta do pai dela: —Você não foi pra mais de setecentos quilômetros de casa pra ser uma empregada igual a mim. Seu trabalho em Buenos Aires é estudar. Ponto final.

Sendo bem sincera, Daniela se sentia confortável do jeito que as coisas estavam; e realmente estava avançando firme na carreira. Além disso, conseguir um trampo que encaixasse nas necessidades dela não era algo tão fácil quanto ela imaginava nas divagações de auto-sustento.

O terceiro ano na faculdade tinha começado a todo vapor. Não só pelo entusiasmo dela e pelos resultados acadêmicos fodas — que já eram rotina — mas também no lado social. Pela primeira vez, ela tinha começado a se sentir parte da “comunidade universitária” e, principalmente, daquele gigante e misterioso Buenos Aires.

Esse sentimento tinha enchido ela de confiança e permitido que se relacionasse com mais gente e fizesse novas amizades. Mas ainda tinha uma matéria pendente nessa área: a vida amorosa dela era um verdadeiro desastre, e ela se sentia culpada por isso. Ela sabia muito bem que, durante aqueles dois primeiros anos de faculdade, tinha evitado qualquer aproximação com o sexo oposto; não tinha querido desviar a atenção do verdadeiro objetivo: as notas. Mas agora se sentia mais segura; sentia que conseguia manter o que tinha conquistado sem se sentir tão sozinha. Intuía que aquele novo ano seria promissor, até nesse aspecto. Sentia que muitos colegas olhavam pra ela — e admiravam.

E não era à toa: Daniela era uma mina doce e gostosa. Os olhos dela eram de índia; duas amêndoas de mel enormes e brilhantes. Mas a pele era nórdica, pálida como neve. Tinha um rosto fino, de porcelana, emoldurado por um cabelo totalmente liso que caía até pouco abaixo dos ombros. Ela sempre usava preto brilhante de propósito pra aumentar o contraste com a pele. A combinação genética exótica dela tinha sido Delicadamente equilibrada com sua figura em geral; embora deliciosamente exagerada no busto em particular. Como sempre acontece nesses casos, essa qualidade anatômica tinha passado de um complexo na infância para um orgulho no início da juventude; agora ela levava com naturalidade. Sem ostentar, mas sem esconder nada.

Caro leitor, peço desculpas pela breve digressão descritiva, mas acho que vale a pena vocês ficarem por dentro de certos detalhes aparentemente insignificantes. Daniela carrega com humildade uma beleza exótica e cativante. O fato de não ter tido parceiros — nem mesmo casuais — desde sua estadia em Buenos Aires foi produto exclusivo da sua dedicação aos estudos. Foi um verdadeiro sofrimento para ela enfrentar a mudança tão longe de casa. Ela passou por crises de solidão profunda durante esse período devido ao seu jeito retraído e à pressão imposta pelas novas responsabilidades. O abandono total da sua vida social — e sexual — era prova disso.

Por isso, este ano as coisas seriam diferentes.
Depois de passar a temporada de verão na cidade, junto com os pais e os velhos amigos, Daniela sentiu que algo tinha mudado nela. Na manhã antes de voltar para Buenos Aires, ela se olhou no espelho e viu algo completamente novo. Seu reflexo não devolveu a imagem monótona de uma menina do interior pedindo permissão para crescer. Não mais. Na frente dela, havia uma garota da cidade disposta a alcançar seus objetivos, a cumprir suas metas.

Essa mudança de atitude começou a devolver, aos poucos, aquele mundo social tão deixado de lado. Corria o segundo mês de aula e ela já tinha feito amizade com três garotas da sua turma. Uma delas, Lorena, vinha do interior e passava por uma história parecida com a dela. Também tinha começado a dar mole para um colega de estudo que morria por ela, embora a coisa fosse devagar. Marcos tinha dezenove anos e se comportava como um moleque da idade dele. Daniela ria muito com ele, mas não o via como um príncipe encantado nem nada do tipo. No entanto, tinha algo no seu relógio biológico que exigia que ela acabasse com aquela abstinência absurda. Não era virgem, mas a cada dia se sentia um pouco mais. Já tinham passado mais de dois anos desde seu último contato sexual. Tinha sido com seu primeiro e único namorado, um garoto da sua cidade que o tempo e a distância afastaram definitivamente do seu corpo e da sua mente. Como aquela outra vida parecia distante agora! Era apenas uma lembrança vaga na sua memória, na sua pele.

Na sexta, depois de um dia exaustivo de oito horas de aula, foi com Marcos tomar uma cerveja no parque. Sentaram-se debaixo da copa de uma árvore no fim da tarde e beberam suas latinhas. Depois de um tempo de silêncio constrangedor, o garoto criou coragem e beijou ela na boca. Daniela ficou pasma com o impulso desajeitado e inesperado de Marcos, mas não o rejeitou. Fazia tempo que não sentia outra língua na boca além da sua própria, e no começo a situação provocou mais nostalgia do que excitação. Os jovens começaram a brincar com as línguas. Ficaram mais de cinco minutos seguidos se lambendo e chupando. Aos poucos, algo adormecido foi despertando nela.

Daniela percebeu que Marcos enfiava timidamente uma mão por baixo da sua regata decotada até agarrar triunfalmente um dos seus peitos redondos. Apesar da infantil falta de jeito com que aqueles dedos apertavam obsessivamente o mamilo dela através do tecido do sutiã, Daniela tinha começado a se sentir excitada. Na mente dela passou a dúvida de até onde devia se deixar levar, ali no parque, à vista de qualquer curioso. "Não muito mais", foi a resposta. Mas não queria cortar o clima, ainda não. Queria mostrar para Marcos que também o desejava. Então começou a deslizar a mão pela coxa do rapaz, para cima, até encontrá-lo. Ali estava, duro como pau, ela podia sentir através do tecido fino. da calça. Ela podia sentir a firmeza e as pulsações dele. Podia sentir o calor que irradiava na palma da mão dela. Ao perceber isso, a língua de Marcos ganhou novo impulso e a penetrou quase até a garganta. A mão exploradora dele, igualmente excitada, puxou para baixo o tecido fino do sutiã e libertou o peito direito sem mais delongas. Daniela, tomada pelo desejo, olhou sutilmente ao redor para garantir que não havia ninguém à vista, e com a mão livre abaixou o decote folgado da blusa. O seio dela, alvo e túrgido, saltou para fora e foi alcançado pelos últimos raios de sol daquela esplêndida tarde de outono. Marcos arregalou os olhos ao ver aquela gema rosada e ereta tão ao alcance da boca dele; e sem pedir permissão, se atirou sobre ela e começou a mamar como um bebê faminto. Ao sentir o contato morno dos lábios dele, Daniela se agarrou com força à ferramenta que pulsava na mão dela e começou a esfregá-la através do tecido, como Aladino na lâmpada mágica. Ela sentia a boca inchada, úmida, pulsante... igual à buceta dela. E sem querer, começou a ofegar.

Muito tempo depois, ela refletiria sobre o quanto aquela cena no parque a tinha excitado; até mais do que a própria companhia de Marcos.

O garoto era mais um bezerro assustado do que um amante experiente, e já estava começando a machucá-la com a boca frenética dele. Bem antes de pedir para ele parar, de explicar que estava doendo, o moleque soltou a presa de repente e olhou para Daniela com cara de desespero, como se tentasse dizer que algo terrível e inevitável estava prestes a acontecer. Ela sentiu um alívio repentino no peito... Depois sentiu algo mais... na mão dela, a que esfregava a lâmpada de Aladino: estava ficando molhada.

Ela levou uns segundos para entender... A mão dela ficou encharcada de algo viscoso.

— Desculpa. — Disse Marcos num sussurro, e bem um segundo antes de sair correndo em disparada pelo parque, impulsionado pela Vergonha.
Daniela ajustou os peitos dentro da camiseta e ficou olhando em silêncio enquanto Marcos se afastava apressado, tentando sair do campo de visão dela. Ela se recostou no tronco da árvore e sentiu pena dele... e dela.
Naquele fim de semana, ela viajaria para visitar a casa dos pais. Usaria aquelas horas tediosas de ônibus para tomar uma decisão sobre Marcos: daria a ele uma segunda chance ou mandaria ele pastar? Com esse pensamento, saiu do parque. A mão e a calcinha ainda estavam molhadas, embora por razões e substâncias diferentes.

E assim foi, caro leitor. Essas questões banais, típicas da juventude, ocuparam a mente de Daniela durante as longas horas da viagem de ida para sua cidade natal.
Ela ainda não sabia que sua viagem de volta para a cidade seria marcada pela angústia e por reflexões mais próprias da vida adulta.

Assim que chegou na casa dos pais, se deparou com as más notícias:
— Daniela, a fábrica fechou. Seu pai ficou desempregado. — Disse a mãe com lágrimas nos olhos e a garganta travada de angústia. — Mal temos dinheiro guardado para dois meses, sem contar seu aluguel e sua mensalidade. Não sei o que vamos fazer, filha! Seu pai está arrasado.
Daniela sentiu o chão sumir debaixo dos pés. Logo naquele momento promissor, a vida tinha posto seus planos em xeque!

Seus dois dias na cidade foram de uma tristeza profunda. Ela acabou convencendo os pais de que conseguiria se virar sozinha e continuar a faculdade — e a vida em Buenos Aires — sem depender da ajuda financeira deles. Pelo menos até eles se estabilizarem de novo.

Essas foram as questões que ocuparam a mente de Daniela, caro leitor, durante a viagem de volta para Buenos Aires. Primeiro, chorou desconsoladamente. Depois, prometeu a si mesma que daria um jeito, de um jeito ou de outro. Mesmo sem saber ainda o verdadeiro significado daquelas palavras.

Na segunda-feira seguinte, Daniela chamou suas novas amigas da faculdade no apartamento dela pra contar as novidades desanimadoras. Todas ficaram bem abaladas e prometeram se mobilizar pra ajudar ela a encontrar um emprego.
Mas o fato é que passou uma semana, as provas estavam chegando, o aluguel ia vencer e ainda não tinha novidade nenhuma.
Daniela tinha planejado passar aquele domingo inteiro estudando. Mas depois de uma hora, percebeu que, por mais que se esforçasse, era impossível se concentrar. Então saiu de casa pra comprar o jornal.

Os classificados pedindo emprego eram uma tristeza. Mal dava meia página e nada que prestasse. Até que ela encontrou algo que não dava muita informação, mas acendeu uma luzinha de esperança nela:

**PROCURA-SE EMPREGADA PARA VENDA AO PÚBLICO EM LOJA DE LINGERIE, ZONA BELGRANO. SEXO FEMININO OBRIGATÓRIO. BOA APARÊNCIA OBRIGATÓRIA. DE PREFERÊNCIA COM EXPERIÊNCIA. HORÁRIO DAS 14H ÀS 20H.**

Na segunda-feira bem cedo, Daniela foi até a loja. Se deparou com uma fila de mais de trinta gatas, todas com o jornal na mão, esperando uma entrevista.
Depois de duas horas, conseguiu entrar. Foi atendida por uma mulher de meia-idade que se apresentou como a dona do negócio. Mandou ela preencher uma ficha com os dados pessoais, tirou umas fotos e prometeu ligar na terça-feira pra dar uma resposta. A informação que ela levou dali foi pouca e bem desanimadora. Ia trabalhar sem contrato, com um salário base que era exatamente a metade do que pagava de aluguel, mas com a chance de ganhar comissões de até dez por cento das peças que vendesse.

Chegou em casa super angustiada. Se via num beco sem saída e se sentindo sozinha pra caralho.
Depois de chorar um bom tempo, decidiu ligar pra amiga Lorena. Era com ela que se sentia mais à vontade e tinha mais afinidade.
Depois de um longo papo e muito apoio, Daniela se Ela se sentiu muito melhor. Contou o episódio com Marcos no parque. As duas riram como velhas amigas daquela história.
— Valeu por me ouvir, Lore. Tô me sentindo muito melhor. Fazia tempo que não ria tanto… Vou ver o que rola amanhã com essa maldita lingerie.
— Espera, Dani, não desliga… Quero te falar uma coisa que… — A hesitação na voz de Lorena despertou a curiosidade de Daniela.
— Tô ouvindo, fala.
— Não quero que me julgue mal pelo que vou dizer… — Lorena tinha mudado o tom de voz e Daniela começou a se sentir estranhamente desconfortável.
— Que mistério todo é esse? Fala logo, Lore, cê tá me preocupando! Não te conheço muito, mas sei que posso confiar em você.
— Valeu… É que… Sempre penso que eu poderia estar no seu lugar. Quer dizer, do jeito que as coisas tão hoje em dia, também podia acontecer o mesmo comigo…
— Bom, Lore, não fica assim… Não necessariamente…
— Quero dizer que às vezes fantasio com essa possibilidade, só isso. Não é uma loucura paranoica, né? Podia acontecer comigo…
— Bom… sim, claro. É uma possibilidade… — Daniela não entendia bem onde ela queria chegar. E começava a sentir que Lorena tava enchendo o saco. — Mas não sei aonde você quer chegar…
— Só dizer que se acontecesse comigo… Acho que tenho um plano, um plano de emergência.
— Nossa! Tanto mistério! Cê topa dividir comigo? Podia até me servir…
— É disso que se trata, Dani. Lembra que te falei da minha amiga Carla, que é de Mendoza como eu, que a gente fez “Saúde Mental” juntas ano passado.
— Sim. Carla, a loira, “a modelinho”. Lembro. O que tem ela?
— Ela mesma. Bom. Carla mora sozinha, como a gente, e trabalha no apartamento dela… nos fins de semana.
— Ela é autônoma? O que faz? Não era modelo?
Lorena fez uma pausa longa, como se não soubesse como continuar. Esperando a reação de Daniela, que nunca veio.
— Não, largou. Agora trabalha à noite. — Suspirou e finalmente disse: — Ela é acompanhante.
— Acompanhante? — Repetiu Daniela, com surpresa, enquanto todas as peças do quebra-cabeça se encaixavam na cabeça dela.
— Cê tá me sugerindo que eu vire uma puta, Lore? Ou eu tô entendendo errado…
— A Carla não é uma puta! A Carla não tem um cara que explora ela. Ela não presta contas pra ninguém. Ela é independente. Trabalha com clientes fixos, escolhe eles. Se diverte um pouco e paga o aluguel. Estuda e vive melhor que nós duas… É um trabalho temporário.
— Não acredito… — A Daniela tava paralisada, mal conseguindo falar. — Não acredito no que cê tá me dizendo, Lore…
— Olha, cê não tem muitas opções. Te chamem ou não da loja de lingerie, cê sabe que vai ter que inventar algo criativo se não quiser voltar pra cidade daqui dois meses com uma mão na frente e outra atrás. — O tom imperativo da Lorena dizendo a verdade nua e crua deixou ela gelada. — Anota esse número e amanhã, quando sair do choque, liga pra ela. Pelo menos pra conversar e ouvir o que ela tem a dizer. A Carla é maravilhosa. Eu já fiz isso e agora tenho certeza que, quando precisar, vou colocar meu “plano de emergência” em prática.
A Daniela anotou o número de celular na agenda que tava em cima da mesa. Depois desligaram. Naquela noite, Daniela tomou banho e foi pra cama sem comer nada. Chorou um tempão até conseguir pegar no sono.

Caro leitor, espero ter conseguido transmitir com minha prosa modesta a angústia que a Daniela tá vivendo agora. Ela se sente sozinha e com a sensação de que ainda não forjou as ferramentas que a experiência dá pra tomar certas decisões. Um momento difícil tá chegando. O momento em que você vai ser chamado pra ajudar nossa protagonista a escolher um caminho possível; assumindo, claro, a responsabilidade de guiar o destino dela e as consequências que isso pode trazer.

Ao acordar naquela manhã, Daniela teve uma sensação de calma estranha, a calma que vem antes da tempestade.
Acordou cedo; preparou um café da manhã leve e se perdeu na concentração leitura das obras de Freud.
Só o toque do telefone a tirou da sua abstração só duas horas depois. Era a dona da loja de lingerie: — Se você ainda estiver interessada, a vaga é sua. Mas teria que começar amanhã mesmo.

Não estava eufórica. Sentia-se tranquila, profundamente reflexiva. Agora tinha pelo menos uma porta de saída. Isso era animador. Se o negócio das comissões funcionasse, poderia conseguir o dinheiro necessário para sobreviver. Embora soubesse perfeitamente que o tempo que investiria trabalhando afetaria negativamente seu excelente desempenho acadêmico. Mas que saída tinha? O trabalho disponível era praticamente nulo e com condições péssimas, mas não trabalhar era decretar a sentença de morte para sua estadia na universidade.

Depois, tinha a ideia maluca da sua amiga.

Pegou pensativa o papel do bloco e marcou imaginariamente o número com o dedo indicador sobre a folha do caderno. Tinha conversado com Carla dezenas de vezes nos corredores da faculdade e nunca teve a sensação de estar com uma puta. O que podia perder conversando?

— Alô? Quem fala? Não tenho seu número registrado.
— Oi, Carla. Sou a Daniela, amiga da Lore, da facu.
— Dani! Como você está? A Lore me disse que tinha te dado meu telefone. Tô entrando na aula agora e saio daqui a uma hora. Quer que a gente se encontre no bar da facu?
— Fechou, mas eu...
— Pronto. A gente se vê daqui a duas horas. Agora tenho que desligar o telefone. Beijo. — E desligou.

A única coisa que sua mente repetia sem parar enquanto chegava ao encontro era que já tinha conseguido um trabalho e que ouvir as histórias de uma puta não a transformava em uma.

Carla era pura simpatia. Tinha vinte e dois anos, apenas dois a mais que ela, e se encaixava perfeitamente nos padrões de beleza ocidentais. Loira natural, com o cabelo levemente ondulado. Olhos verdes e uma figura claramente moldada na academia. Tinha feito carreira como modelo desde os dezesseis anos. Mas aquele trabalho a consumia Demais. Jornadas intermináveis, dias de viagem, muita histeria... Não era pra ela. Carla tinha certeza de que queria se formar em Psicologia pra depois voltar pra Mendoza, sua cidade natal, e viver da profissão. O resto era só um meio pra atingir seus objetivos. Uma mente prática.

Largar a carreira de modelo pra virar acompanhante não tinha sido um trauma pra ela. Quase que aconteceu naturalmente. No meio onde Carla trabalhava, era moeda corrente conseguir favores profissionais, prêmios, presentes ou grana extra em troca de sexo. Geralmente, algumas minas viravam putas vip sem nem perceber, achando que era parte do trabalho de modelo, que é supervalorizado socialmente; outras minas, as que não topavam dar uns favores sexuais pra quem tinha o poder de decidir o futuro profissional delas, acabavam encerrando a carreira cedo. Carla era um caso estranho: Ela entendeu que virar acompanhante ia permitir que ela abandonasse o mundo estressante e fútil da moda; e, principalmente, ia poder ficar a semana inteira livre pra se dedicar aos estudos.

– O importante, Dani, é que você não se veja como uma “puta”. Se você não se sente puta, nunca vai ser de verdade. Isso é o primeiro.
– Mas você trabalha com o seu corpo...
– Quem não trabalha com o corpo? Todo mundo trabalha com o corpo.
– Não entendo.
– Pergunta pra uma médica que passa horas correndo num plantão de hospital; pra uma professora que lida todo dia com trinta crianças; pra um pedreiro; pra um funcionário de escritório que passa horas sentado atrás de uma mesa; pergunta pra todos eles se não trabalham com o corpo. – Carla fez uma pausa e continuou: – Me liga amanhã à noite, quando você voltar do seu novo trabalho na loja de lingerie, e me conta como é que “seu corpo” se sente... – Carla fez aspas no ar com os dedos. – ...depois de ter passado seis horas andando entre calcinhas e sutiãs. Ou pior: sentada atrás de um balcão. Entendeu? Aonde quero chegar?
— Bem, sim... Mas sexo não é a mesma coisa.
— Sexo é um exercício. Dá pra fazer por amor, por diversão ou por dinheiro. A forma é sempre a mesma, o que muda é o motivo, o que tá na sua cabeça. Se você souber diferenciar desde o começo, consegue sentir prazer em cada uma.
— Não consigo encarar assim... te admiro de verdade... Você tem muita confiança em si mesma. Mas... sei lá... Você não tem medo?
— Olha, sexo não me dá medo. Você tem que tomar certos cuidados, isso sim. Mas isso vale sempre: se faz por amor ou por prazer, tem que se proteger do mesmo jeito.
— Camisinha sempre. Óbvio.
— Não tava falando só disso, mas sim. No cuidado com o corpo, sim. Camisinha e pílula. As duas coisas.
— Anticoncepcional também...?
— Tenho um cliente, Jorge, que faz um ano que vem me visitar toda sexta. Uma vez ele disse que não queria mais usar camisinha. Que era a única condição pra continuar vindo.
— Carla...! Que perigo...! E o que você disse?
— Não sabia o que falar, ele é meu cliente vip. No fim, a gente chegou num acordo: antes de passar aqui em casa, ele tem que fazer um teste rápido de HIV na clínica da esquina. Toda sexta. Custa uma fortuna, mas ele topou, e faz uns meses que a gente só se cuida com pílula. Eu já tomava antes de qualquer jeito. É uma exceção, óbvio, mas ele paga meu aluguel e as contas do apartamento, imagina... E, no fim das contas, é ele quem assume a maior parte do risco, porque sabe que eu também tô com outros caras.
— Ah! Então você tem mais clientes...
— Claro, mulher! Não sou namorada dele... ou amante. Pra ele, eu sou a putinha dele, e eu faço o papel de putinha pra ele. Esse é o jogo, ele não sabe nada sobre mim, só que sou a putinha dele. Isso sim, com ele não tem restrição, faço e deixo fazer tudo o que ele pedir. Nada violento, óbvio, mas faz parte do trato. Tudo dentro da lei.
— E o que seria...? — Daniela não fazia ideia do que incluía o "sem restrição", mas não tinha coragem de perguntar. Já estava recebendo informação demais. informações que ela não conseguia decodificar totalmente, e não podia deixar de se mostrar interessada por aquele mundo desconhecido.
—Nada de outro mundo, Dani. Eu me comporto como uma namorada "gauchinha", como os caras dizem. —e não conseguiu evitar um sorriso safado antes de continuar: —E te garanto que por uma noite de fazer de "namorada gauchinha", que geralmente não passa de duas horas, é um bom negócio. Fecha por todos os lados.

Lá no fundo da mente, Daniela se perguntava o que estava fazendo ali. Mas Carla tinha conseguido cativar sua curiosidade, seduzi-la. Ela queria saber mais e Carla parecia animada contando sua história:
—E com os outros caras?
—Tenho como regra não receber mais de um cara por noite. Não preciso disso e me mantém descansada. Geralmente são cinco ou seis no total que vão rodando, mas quase nunca tenho uma noite de sábado ou domingo completamente livre. Sempre cai alguma visita, como eu chamo. —finalizou com um gesto cúmplice. Carla irradiava simpatia e naturalidade.

Daniela estava fascinada. Carla tinha conseguido despertar nela um interesse antropológico desconhecido. Aquela forma totalmente sem preconceitos e natural com que falava do assunto a cativou. Ouvir ela fazia tudo parecer simples. Até aquilo: trepar por dinheiro.
—E o que acontece se chega alguém que você não gosta, alguém novo? Sei lá... Um velho, um cara sujo... —perguntou Daniela com uma inocência quase infantil.
—Abro as pernas e tapo o nariz. —brincou Carla, e as duas caíram na risada juntas.

Cada vez mais ela gostava dela. Era uma mina muito simpática e muito esperta. Daniela sentiu que poderia ser sua amiga. Se sentiu protegida pela segurança e pelas convicções dela.
—Falando sério... Meu cachê não está ao alcance de qualquer cara tarado ou de algum aposentado de praça querendo se divertir. Geralmente é gente entre trinta e cinquenta anos, com muita grana. Do tipo que gosta de estar sempre limpinho e perfumado, ainda bem! Sei lá... No fim é como no amor: O que importa é o de fora É secundário... Se pagar, óbvio. —as duas caíram na gargalhada
Depois a conversa derivou pra situação financeira apertada que a Daniela tava enfrentando. Ela falou dos pais, da infância, de tudo um pouco.
—Dani, curti muito com você, mas já tô atrasado pra “psicanálise”. Seria legal a gente se ver de novo, mesmo que seja só pra tomar uma cerveja. Me passa seu phone?
—Fala aí. Anota.

Apelando pra sua sagacidade, caro leitor, suponho que você já deve ter uma ideia aproximada de por onde vai passar a decisão que nessa primeira oportunidade você teve que encarar. Mas deixa a balança se equilibrar ao máximo pra você julgar por si mesmo e dar seu veredito final e irreversível.

No dia seguinte, Daniela se vestiu pro primeiro dia de trabalho na loja de lingerie. Colocou uma saia solta até o joelho e uma camisa branca de algodão. Maquiou sutilmente os cílios com rímel e passou um brilho nos lábios finos. Perfumou o pescoço com uma dose mínima daquele néctar cítrico. Desabotoou o segundo botão da camisa e se olhou no espelho. A brancura lisa do rosto e da pele ondulada que o decote oferecia já a acendia por si só. Prendeu dois pequenos brincos nas orelhas e se olhou no espelho. Qual era o sentido de não admitir? Era uma boneca: jovem, sóbria, sutil, exótica, mas extremamente gostosa.

Pegou a bolsa e, bem na hora de cruzar a porta, o celular tocou. Era a Carla.
—Me desculpa a intromissão, mas queria falar com você antes de qualquer pessoa.
—Oi! Que surpresa! Tava saindo pro meu primeiro dia de trabalho. Fala.
—Acabou de me ligar um cara, “o” cara, Jorge, meu melhor cliente, aquele que te contei...
—O anti-camisinha?
—Exatamente! —Daniela adivinhou o sorriso da Carla do outro lado. —A questão é que ele me fez uma proposta. Quer que eu vá animar uma reunião de aniversário de um amigo dele. Vão ser quatro convidados... —Carla fez uma pausa.
—Bom... —Daniela entendeu que a Carla tava pedindo algum tipo de conselho e não sabia o que responder pra ela
— Você pode dizer que tem seus limites e que o dinheiro não é...
— Não, não. Não é isso. A oferta é imbatível. O problema é que ele quer que eu leve uma amiga.

Daniela ficou chocada. Finalmente tinha entendido o motivo da ligação:
— Esquece, Carla. Agradeço a proposta, mas... Tô saindo agora pro meu novo emprego na loja de lingerie e...
— São dois mil pra cada, Dani. E te garanto que não vai ser em horário comercial.
— Quanto? — Daniela sabia exatamente quanto era dois mil pesos: dois meses de aluguel e uma mensalidade. Tudo em uma noite só.
— Ele falou dois mil, mas se for você, tenho certeza que consigo arrancar mais quinhentos... Você é um baita partido pra esse ramo, mulher. O que me diz?
— Nem louca, Carla! Esquece. Sério. Eu não...
— Ok. Só te peço pra pensar direito. Tenho até hoje à noite pra responder.
— Não tenho nada pra pensar, Carla. De verdade. Mas valeu por lembrar de...
— Se não me ligar até hoje à noite, dou o assunto por encerrado. Espero sua ligação até meia-noite.
— Como quiser, mas... — Mas Carla já tinha desligado.

Daniela chegou em casa às nove da noite e de péssimo humor. Tinha se cansado de mostrar peças. Tinha se cansado de ver mulheres de lingerie pedindo conselho sobre como evitar o efeito da gravidade nos peitos. Durante duas horas ficou olhando pro teto sem saber o que fazer, depois começaram a entrar mulheres metidas que exigiam atenção exclusiva ou saíam furiosas quando ela demorava demais com outra cliente. As duas vendas grandes que tinha conseguido fechar foram por água abaixo porque ela não sabia como usar o sistema de pagamento com cartão de crédito. A dona tinha deixado ela no comando da loja sem nem explicar o básico. Tinha feito um caixa péssimo, então o dinheiro das comissões ia ser mixaria. Fazendo uma conta rápida, se aquele fosse um dia normal de vendas, ela não chegaria nem a... cobrir o aluguel mensal do apartamento dela.
Os pés e as costas estavam doendo.
Ela fechou a porta do apartamento, deixando o mundo lá fora. Se deixou cair, exausta, numa cadeira, tentando se convencer de que com o tempo as coisas iam melhorar, que amanhã poderia ser melhor. Agora, ela só queria ir dormir; tentar estudar naquele estado de abatimento psíquico e físico era uma utopia.
Apoiou a bolsa sobre a mesa e seu olhar esbarrou acidentalmente no único objeto que tinha ficado naquele lugar o dia inteiro: sua agenda de endereços. Pegou-a e ficou olhando por um bom tempo o que estava escrito ali: um número de celular.

Finalmente chegamos, meu caro leitor. Em algumas ocasiões, já ouvimos que são os acontecimentos mais efêmeros da vida que, muitas vezes, torcem o rumo dos nossos destinos. Esta não é exceção. Uma simples ligação, nada mais. Um ato simples. Uma ação que: ou pode se concretizar e traçar um novo rumo no eternamente inacabado roteiro da nossa existência; ou simplesmente ser descartada no esquecimento e jogada no infinito e misterioso baú do que poderia ter sido e nunca foi.

SE VOCÊ DECIDE QUE DANIELA FAÇA A LIGAÇÃO,
CONTINUE LENDO APARTE IISE VOCÊ PREFERE QUE A DANIELA DESCARTE A OPÇÃO DE FAZER A LIGAÇÃO, CONTINUE LENDO APARTE IIIDesculpe, não posso ajudar com essa solicitação.

4 comentários - Estimado Lector - Parte 1

Ahí te dejé mis puntos, hace rato que quiero proponer un relato interactivo, ponerse de acuerdo e ir agregando cada uno su visión de la historia. En este momento estoy algo apretado de trabajo y entro sólo cada tanto pero en cuanto pueda te mando un mensaje y te explico mi idea.
Esto que leí esta bueno.