Aqueles mares inquietos de espaço que são os espelhos, às vezes se agitam e, então, tudo pode acontecer.
Por isso, quando hoje, pela primeira vez na vida, Marta viu sua imagem refletida naquele espelho, soube que algo tinha, irremediavelmente, mudado em sua vida.
Ela sempre foi mais uma da legião de mulheres invisíveis que povoam a vida das grandes cidades. Filha invisível, esposa invisível, mãe invisível. Até no escritório onde trabalhava era uma secretária invisível. Ninguém parecia reparar nela. Só se esperava dela o trabalho feito. E, por minha fé, ela conseguia. Mas ela continuava invisível.
Por isso, quando chegou àquela sala de fisioterapia para reabilitar seu pulso machucado, não estranhou que ninguém reparasse nela. Esperou pacientemente sua vez, deixou que a enfermeira olhasse seu prontuário e explicasse o tratamento a seguir. A acompanhou até a sala, mergulhou a mão na parafina quente, deixou que se formasse uma camada grossa sobre ela, envolveu em plástico, depois numa toalha e lhe apontou uma cadeira enquanto dizia: "Vinte minutos e depois tira".
Quando se sentou, viu que na sala havia outras dez pessoas fazendo o mesmo que ela. Ninguém pareceu reparar em sua chegada. Duas mulheres conversavam sobre a crise, outra lia um livro do qual ela, instintivamente, tentou descobrir o título escrito na capa. Os outros cochilavam, ou pareciam perdidos em outro mundo. Ela se refugiou em si mesma, tentando fazer com que os vinte minutos passassem mais rápido.
Assim transcorriam os dias de seu tratamento. Cochilava no seu décimo terceiro dia de espera interminável quando, sem saber por quê, teve a sensação de que estava sendo observada. Talvez tenha sido um leve rangido ou uma respiração: ou, com maior probabilidade, simplesmente percebeu a sensação que se experimenta quando um olhar pousa sobre a gente. Levantou a vista e examinou o ambiente.
Numa poltrona entre duas janelas, no outro extremo da Na sala, tinha um homem que ficava encarando ela. Quando os olhares se encontraram, ele deu um sorrisinho e ela sentiu um baita constrangimento que a deixou sem fala. Buscou refúgio fechando os olhos e baixando a cabeça. Mas toda vez que ela levantava a cabeça e abria os olhos, ele continuava lá. Olhava ela descaradamente, com uns olhos que brilhavam de um jeito perturbador, tipo uma luz sem foco.
A enfermeira veio quebrar a magia com um seco "é sua vez". Marta se levantou dando as costas pra aquele homem e seguiu a enfermeira até a sala de curativos. Lá, ela tirou a parafina e Marta voltou pra sala pra pegar seu casaco. O vestido creme dela, que enquanto caminhava ficava azul ou cinza dependendo da luz dos refletores, e o cabelo solto balançando em volta da nuca, deixaram aquele homem hipnotizado. Ele não tirava os olhos dela. Toda vez que ela virava pra olhar, via ele dando um sorrisinho. Ao passar por ele, disse um quase inaudível "até amanhã!" E ele respondeu com um seco "Obrigado".
Nos dias seguintes, ela fez de tudo pra evitar ele. Chegava cedo, na esperança de que ele ainda não estivesse lá, de ir embora antes dele chegar. Se pegou escolhendo roupa na frente do armário. Mais de um dia mudava de ideia depois de se arrumar e procurava no armário respostas pra aquele outono que, sem dúvida, não caía bem nela. Porque cada dia se sentia mais pequena, mais ingênua e mais desajeitada, mais ridícula. Por isso fugia dele, porque queria se convencer de que não gostava dele, de que não era por culpa dele que o corpo dela se enchia de formigas toda vez que chegava na clínica e entrava na sala de espera. Sentia medo, mas precisava daquele medo porque tirava mais prazer dele do que das coisas boas. Era isso que achava mais estranho de tudo. Então tentava ocupar os dias até a exaustão, numa fuga de si mesma que a deixava acabada.
Mas naquela terça-feira aconteceu o que tinha que acontecer. Ao entrar, logo percebeu A Marta. Ela era quase invisível, encolhida no sofá perto da janela. Ele caminhou na direção dela, sentindo uma alegria surpreendente invadi-lo.
— Achei que nunca mais te encontraria aqui — disse ele, sentando-se na frente dela e colocando o sobretudo no banco ao lado. Tirou um livro do bolso e o segurou fechado entre as mãos.
Marta se sentiu como se estivesse caindo, dando cambalhotas ladeira abaixo. Uma tontura que a invadia como uma espiral e um torrente de sangue subindo ao rosto. Mas, ao contrário de outras vezes em que ficava envergonhada, dessa vez foi uma sensação gostosa, de se deixar levar, de se libertar daquele peso imenso que carregava sobre a vida há tanto tempo.
— Meu nome é Alberto — ele sorriu, com os olhos brilhando, enquanto estendia a mão para ela.
— O meu é Marta — respondeu ela.
Enquanto falava com ele, sentiu-se estranhamente subjugada, como se ao conversar com aquele desconhecido descobrisse nela uma culpa que achava manter zelosamente escondida. Baixou os olhos por vergonha e, ao fazer isso, seus olhos ficaram fixos no livro que ele segurava entre as mãos. "A Dominação Sensual".
Demorou alguns segundos para entender o significado do título do livro, mas a foto da capa a tirou de dúvidas. Uma mulher descansava sobre um tapete, sentada sobre os calcanhares, enquanto nas mãos segurava uma coleira em atitude de oferenda. Vestia uma túnica branca leve e toda ela irradiava uma imagem de serena simplicidade. A visão a impactou e, por alguns segundos eternos, ela permaneceu abstraída naquele livro.
Seria só uma coincidência ou ele queria que Marta lesse aquelas palavras?
Alberto fez uma longa pausa antes de prosseguir a conversa. Depois, olhando para a mão dela envolta em uma toalha, perguntou:
— O que aconteceu com a sua mão? Um acidente?
— Uma queda. Ao cair, apoiei a mão na calçada e quebrei o pulso. Foi há três meses e ainda estou aqui — respondeu ela, enquanto continuava. ali, colada na cadeira, olhando pra ele, se deixando olhar até que os lábios dele se mexeram de novo.
- Tô me recuperando de um tornozelo fodido. Venho nesse horário pra não ter que parar de trabalhar.
O sorriso dele desmontava ela, e ela quebrou o feitiço só ao preço de torná-lo mais sólido. Forte o bastante pra chamar um sentimento conhecido que logo ficou mais forte que aquela imobilidade misteriosa, mas gostosa.
- Bom, é minha hora e vou embora - falou por fim, enquanto olhava pra enfermeira que já fazia sinal do outro lado da sala.
- É?
- Já cumpri meus vinte minutos diários e preciso continuar o tratamento na sala de eletroestimulação - respondeu, enquanto se levantava.
- Aceitaria tomar um café com um desconhecido? - ele propôs antes que ela terminasse de se levantar.
- Claro.
- É? - ele parecia muito surpreso com a resposta.
- Claro.
E saiu rapidinho ao encontro da enfermeira.
Ele ficou sentado os quinze minutos que restavam do tratamento. Deixou o tempo passar mergulhando na leitura daquele livro que tinha causado tanta perturbação nela. Sabia que ela tinha lido o título do livro e não podia dizer que a escolha do título tinha sido por acaso.
Quando a enfermeira fez um sinal, ele se levantou, acompanhou ela até a sala de curativos e, depois de tirar os eletrodos do tratamento, saiu apressado.
Quando saiu na rua, a tarde já tava acabando. Os primeiros postes começavam a acender e o outono começava a soltar as primeiras folhas das árvores. Atravessou a rua e entrou no café da frente. Pediu um café e sentou numa mesa perto da vitrine. De lá, podia ver as pessoas entrando e saindo da clínica. Ela não devia demorar.
Viu ela sair. Desceu devagar os degraus da porta e parou pra evitar uma colisão com uma senhora apressada que tinha um casaco de pele lindo e um ramo de cravos que ela faziam ocupar a calçada inteira. Quando ela chegou na calçada, ele já estava fora da cafeteria e a chamava pelo nome.
— Marta! Estou aqui! Naquele instante, o mundo pareceu parar. O trânsito parou, ficou completamente imóvel e silencioso. Uma folha solitária se desprendeu do plátano no fim da rua; não passava ninguém, e naquela pausa a folha caiu. De certo modo, pareceu um sinal, um sinal que destacava as coisas com uma força que ninguém tinha notado antes. Parecia indicar a presença de um rio que fluía de um para o outro. Assim os rios levavam as folhas mortas. Agora trazia em sua direção aquela mulher de botas de verniz cruzando na diagonal de um lado da rua para o outro.
Alberto segurou a porta da cafeteria para ela entrar. Ao fazer isso, seus corpos quase se roçaram. Marta sentiu os músculos dos braços dele debaixo da jaqueta, e os do peito sob a camisa, como se estivesse tocando. Por um momento, teve a mão dele, resistente e masculina, entre as suas. Suspirou enquanto começava a sentar. Levantou os olhos e esbarrou, lá em cima, nos dele: quentes, perturbadores. Teve a sensação de que, sem controle, ia se deixar cair sobre a cadeira e abraçar a cintura dele, descansar a cabeça no peito dele, se apoiar nele... Ofegou levemente. Teve que fechar os olhos. Tirou-a do êxtase a voz de Alberto:
— O que você vai tomar?
A pergunta ficou no ar. Ela só conseguia responder com um gesto.
Alberto talvez não esperasse por isso. Marta esteve a ponto de se render sem palavras. Nunca tinha estado tão perto; nunca ninguém a tinha excitado tanto.
— Um café com leite... — conseguiu dizer após uma longa pausa.
A partir daquele instante, ele tomou conta da conversa. Levou e trouxe da vida dela para a dele. Contava e perguntava tudo ao mesmo tempo. Ela mal conseguia acompanhar o que ele dizia. Vivia a cena mais como espectadora do que como protagonista. Como se não estivesse acontecendo com ela.
— Estive te procurando todos esses dias — disse Alberto. dando um giro inesperado na conversa que a desconcertou por uns instantes.
- Eu sei.
- Foi horrível, Marta. Mas a espera valeu a pena.
- Você está mentindo, Alberto.
- Então me diz por que você tem se escondido.
- Não queria te ver.
- Como assim não queria me ver e hoje aceitou meu convite?
- Por isso mesmo eu queria que você não aparecesse; que não viesse me buscar, de qualquer forma. Porque sabia que se viesse, não teria coragem de te recusar.
- E agora? Quer que eu vá embora e suma pra sempre?
- Não! Por favor. Agora eu não conseguiria mais te pedir isso. Com um homem como você, não tenho salvação. Passei a vida toda esperando por isso e agora que você chegou, tenho medo de mim mesma. Sabia que você é a primeira pessoa que repara em mim em todos esses anos? Pela primeira vez você me fez sentir visível. Sentir que não sou a mulher invisível que os espelhos negam.
Alberto tirou o lenço do bolso e estendeu pra ela. Com as últimas palavras, duas lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela. Ele ficou em silêncio. Não quis quebrar aquele momento em que ela se abria pra ele. Ela, depois de enxugar as lágrimas, tomou de uma vez o café que ainda tinha na xícara.
Então começou a revisar a vida enquanto tudo acontecia na mente dela como num filme. Se via como a protagonista daquela história que agora contava. E contou pra ele sua saga com os espelhos, a busca pela própria imagem cada vez que se colocava diante de um deles. E cada vez que isso acontecia, só servia pra confirmar o que já sabia. Negavam sua imagem. Mas não eram só os espelhos que a ignoravam. Contou pra Alberto que casou com o primeiro homem que pareceu vê-la. Que teve dois filhos no processo de perceber que tudo não passava de uma ilusão. Que ele também não a via. Que sentiu, que sente, a dor de ver que os filhos, conforme foram crescendo, também a ignoravam.
Por isso senti um arrepio quando você chegou no primeiro dia e senti seu olhar cravado em — Mi —disse ela, enquanto secava as últimas lágrimas que encerravam seu relato.
Os dois ficaram num longo silêncio enquanto ela se recompunha da confissão. Marta olhou o relógio e, fazendo um gesto de se levantar, disse:
— É minha hora, preciso ir.
— Amanhã você vai estar no mesmo horário?
— Sim.
Marta pegou o casaco em cima da cadeira, vestiu-se enquanto fazia um sinal pro garçom. "A conta, por favor."
Alberto deixou ela ir até o balcão e pagar sem dizer nada. Viu ela abrir a bolsa, dar uma nota pro garçom e guardar o troco na carteira. Fez isso sem tirar os olhos dela nem um segundo, enquanto ela ficava de costas pra ele. Quando ela se virou, ele ainda estava olhando pra ela, esperando em pé, já de jaqueta. Se encontraram na porta e foram pra calçada.
— Obrigada pelo convite — disse ela, como despedida.
— Não tem de quê. Foi um prazer — começou a andar em direção à casa dela, enquanto ele ainda a observava, parado na calçada. De repente, ela se virou e, com um sorriso safado, perguntou:
— Me empresta seu livro?
Assim que fez a pergunta, se arrependeu. Ficou vermelha que nem um pimentão quando ele se aproximou e, sem dizer uma palavra, estendeu o livro.
— Espero que você goste — disse ele, antes de sumir rapidamente na direção oposta à que ela tinha tomado instantes antes.
Ela guardou o livro na bolsa e seguiu pra casa.
Naquela mesma noite, enquanto o marido se agitava na sala, com mais tesão do que na cama, vendo o Barça lutar pela Champions, Elena se refugiou sentada na cama. E ali abriu aquele livro estranho. Fez isso como quem vai violar um segredo, com a clandestinidade do proibido. Enquanto lia, foi descobrindo que aquele sentimento descrito no livro lembrava o que a apertava desde que conheceu Alberto. E se perdeu no livro. Quando sentiu o marido desligar a TV, escondeu. deixou o livro de repente na mesinha e fingiu que lia o que estava sobre a mesinha dela.
Naquela noite, não conseguiu afastar dos sonhos tudo o que estava acontecendo com ela. E neles, misturou o encontro com Alberto com o livro que estava lendo. Por isso, quando no dia seguinte se reencontrou com ele na sala de fisioterapia, baixou o olhar e esperou que ele se sentasse ao lado dela.
"Boa tarde", ele disse num tom que ressoou nos ouvidos dela com um sotaque desconhecido. De novo aquela agitação juvenil, aquela vontade de responder e as palavras presas na garganta que a faziam parecer idiota. E quando levantou a vista e soltou um "Oi!" quase inaudível, o rosto dela denunciava o nervosismo, dando um vermelho intenso nas bochechas.
E naquele instante, ele tomou conta dela de novo, e ela se deixou levar na conversa. Só quando ouviu: "E aí, o livro? Tá gostando?", ela saiu daquele estado de semi-inconsciência que a dominava.
— Tô gostando sim, disse ela, tô começando a conhecer um mundo que até agora era desconhecido pra mim.
— E o que você acha?
— Instigante e atraente. Nunca tinha imaginado uma relação assim. Já tinha ouvido falar, mas via como algo distante e exótico, de gente estranha.
— E agora? Esse mundo te atrai?
— Muito… — Elena deixou essa última palavra pairando na conversa.
Alberto não voltou ao assunto até dois dias depois, quando ela trouxe o livro de volta nas mãos. "Valeu pelo empréstimo", disse ela enquanto estendia o livro, quase sem esperar ele se sentar na sala de espera.
— Vai ser um prazer te emprestar outros quando quiser. Nas minhas estantes cabe todo tipo de livro, e esse não é exceção. Continuaram conversando até ela se levantar pra continuar o tratamento em outra sala. "Te espero no café da frente", disse ele enquanto ela se afastava de costas. Ela se virou por um instante pra concordar com a cabeça antes de sumir atrás da porta.
Quando chegou no café, ele já estava esperando sentado uma mesa no fundo do bar. Ela pegou o casaco com cuidado, dobrou e pendurou no encosto da cadeira, sentando-se de frente para ele, de costas para o salão. Ficou em silêncio diante dele, sentindo o olhar dele enquanto ela mantinha o dela fixo na mesa. Ele a pegou pelo queixo, ergueu seu rosto e, ao encontrar seu olhar, levou o dedo indicador da mão direita aos lábios e mandou-a ficar em silêncio com um gesto, Shhhhh, deixou o som escorrer suavemente, prolongando-o no tempo, enquanto aproximava a outra mão do rosto dela e deixava a ponta do dedo médio contornar os lábios de Elena, entreabrindo-os e colhendo a umidade da boca dela, deslizando e acariciando-os. Ela, entre surpresa e sem graça, se deixou levar. Os dedos dele desenharam nos lábios dela a carícia mais devastadora que ela lembrava. Primeiro sentiu pânico, depois desfalecer diante daqueles dedos que convocavam todos os sentidos dela para os lábios. Então ele parou e deixou uma mão pousar sobre as dela, que descansavam suadas sobre a mesa.
- Quando você tiver uma noite livre, quero te convidar pra jantar. Será que é possível?
- No sábado temos um jantar da empresa. Já falei pro meu marido. Se você quiser, podemos ficar nessa noite - respondeu Elena sem levantar os olhos da mesa. O tempo parou enquanto ela se entregava de vez. Alberto deixou os dedos descerem pelo decote de Elena, traçando uma carícia. Quando esbarrou no primeiro botão, brincou com ele o tempo suficiente pra ela desejar que ele o desabotoasse. Quando ele fez isso, ela ergueu o olhar e ele a capturou, despindo-a também por dentro.
"Assim tá melhor", disse Alberto enquanto se recostava na cadeira e a encarava intensamente. Elena baixou o olhar de novo enquanto ele contornava com a ponta dos dedos o começo dos peitos dela. Naquele instante, alguém entrou na cafeteria e caminhou na direção deles. Alberto retomou a compostura e ela fez menção de fechar o botão. botão. Ele a deteve. "Deixa assim", ordenou. Ela obedeceu mansamente e esperou que os clientes procurando mesa não pudessem vê-la. Quando se sentaram numa mesa distante, ele se inclinou em direção à Elena, deixou os dedos deslizarem por baixo do sutiã e prendeu o mamilo da teta direita com o polegar e o indicador. "Quieta", sussurrou enquanto ela se mexia na cadeira. "Bem quieta", repetiu de novo.
Quando ele soltou a teta dela, Marta olhou o relógio: "É hora, preciso ir".
— Tudo bem, então sábado a gente se vê de novo. Né?
— Sim — respondeu Elena enquanto começava a vestir o casaco.
— Onde te busco e a que horas? — perguntou Alberto.
— Às nove na porta da minha casa — disse ela, estendendo um cartão de visita enquanto começava a andar em direção à rua. Ele ainda ficou um tempo sentado olhando o cartão antes de guardá-lo, levantar e sair para a rua.
Quando fez isso, a noite já tinha tomado conta das calçadas, e o caminho até sua casa passou num sonho. Quando o elevador parou na porta dele, ele ainda tentava construir na mente toda a rota a seguir no encontro de sábado.
Faltavam dez minutos para a hora do encontro quando Alberto estacionou o carro em fila dupla bem na frente da porta de Elena. Olhou o relógio e se preparou para esperar até a hora combinada.
Quando ela pisou na calçada, viu que ele já a esperava dentro do carro. Ao vê-la, abriu a porta enquanto dizia: "Sobe".
Ela, ainda surpresa com o convite, sentou no banco e, enquanto apertava o cinto de segurança, ele deu partida no carro.
— Pra onde você tá me levando? — perguntou ela enquanto ele dirigia.
— Deixa que eu guie sua noite — respondeu com um sorriso tranquilizador.
Ele tinha escolhido para a ocasião uma calça cinza e uma camisa branca, por cima da qual usava um blazer preto. Não conseguiu encontrar no guarda-roupa nada que fosse mais apropriado para aquele encontro misterioso. E olha que ele tentou. Ela se esforçou pra caralho. Se vestiu e se despiu um monte de vezes, mas toda vez que tentava se olhar no espelho, ele negava a imagem dela. Tava acostumada com isso, mas aquele dia era diferente pra ela e ela esperava mais generosidade do espelho. Até que desistiu. A insegurança atacava ela em cada tentativa até que, no fim, ela acabou escolhendo o de sempre. No que era seguro, ela encontrava a segurança dela. Por isso, quando ele tirou dela toda a responsabilidade de escolher, ela relaxou no banco e deixou que ele fosse o guia dela.
O carro foi ziguezagueando pelas ruas da cidade até pegar o anel viário. Depois de alguns quilômetros, ela viu ele ligar a seta e o carro pegar uma saída que levava a um distrito industrial. A curiosidade tava corroendo ela, mas ela não perguntou nada. Fez a viagem em silêncio, olhando pra ele enquanto dirigia. Não sabia o que via naquele homem que dava tanta paz pra ela. Talvez fosse a calma que sentiu na primeira vez que ele falou com ela na clínica. Desde o primeiro momento, ela se sentiu, pela primeira vez na vida, importante pra alguém.
Ela sentiu ele diminuir a velocidade e parar na frente de um galpão. Olhou curiosa pra placa e viu que era uma fábrica de malhas. Surpresa e ao mesmo tempo intrigada, não se espantou quando ele disse:
— Chegamos. — Ele parou o carro e desceu rápido. Quando ela desceu, ele já tava esperando do lado da porta. Quando ela tentou falar, ele calou a boca dela com o dedo.
— Shhhhh, deixa que eu guio a sua noite — ele repetiu enquanto destrancava a porta e tirava as chaves.
Entraram na fábrica vazia. Ele acendeu as luzes e fechou a porta enorme atrás deles. Atravessaram um depósito espaçoso cheio de roupas penduradas em cabideiros intermináveis e, por fim, subiram uma escada de madeira escura que dava numa sala grande. Quando ele acendeu a luz, ela viu que estavam num salão amplo, com uma mesa de corte enorme no centro e rodeada de infinitos padrões e amostras.
— Essa é a sala de design e corte da fábrica — disse ele enquanto tirava o paletó, colocava num cabide e pendurava numa barra. Depois, virou-se para ela e esticou os braços:
— Sua jaqueta, por favor — falou enquanto ela obedecia mecanicamente. Sentiu as mãos fortes dele, pela primeira vez roçando seus ombros ao tirar sua jaqueta. Não conseguiu articular uma palavra enquanto ele, sorrindo e se divertindo com a atitude dela, colocava a jaqueta dela junto à dele.
Pegou uma bobina enorme de um fio preto e brilhante que parecia seda. Aproximou-o dela.
— Você gosta?
Marta olhou para ele enquanto ele aproximava o fio das mãos dela. Ao tocá-lo, sentiu o toque frio e macio da seda.
— Não é seda, só sedão. O rayon com que é feito faz ele se parecer prodigiosamente com seda.
— Você gosta? — perguntou de novo diante do silêncio assombrado dela, que não conseguia entender o sentido daquilo.
— Muito, o toque é... delicado.
— Vou fazer um vestido pra você com isso — disse ele enquanto pegava as mãos dela entre as suas. — Só vai precisar ser uma boa menina e me ajudar.
Ela, entre surpresa e divertida, mal conseguiu responder um seco "Tá bom".
Ele a pegou pela mão, guiou-a alguns metros e a fez subir num pequeno pedestal de prova.
Era uma pequena plataforma de madeira, com uns trinta centímetros de altura e pouco mais de meio metro quadrado. Ela subiu sem dificuldade enquanto ele a segurava pela mão direita. "É aí que as modelos ficam para ajustar as provas de tamanho", disse ele enquanto a olhava sorrindo. "Aqui usamos mulheres de verdade, funcionárias da fábrica, para ajustar os tamanhos. Nada de modelos de agência ou manequins com medidas absurdas. Tamanhos reais pra mulheres reais."
Atrás dela, encostado na parede, tinha um espelho grande que refletia a sala inteira. Ela olhou e viu através do espelho o mundo bagunçado e colorido. de uma fábrica de costura. Ele se aproximou da mesa, ligou o computador e pegou uma fita métrica.
Ela o observava, sorrindo e curiosa.
—Vou tirar suas medidas—, enquanto dizia essas palavras, se aproximava dela com a fita métrica pendurada no pescoço, exatamente como ela se lembrava de ver sua avó fazer quando, na infância, costurava aqueles vestidos lindos que ela usava todo domingo de ramos. —Mas antes preciso te despir, senão as medidas não vão ficar perfeitas—
Sem hesitar, Alberto levou as mãos até a camisa dela e começou a desabotoá-la. As mãos demoravam em cada botão, de um jeito que aquela calma premeditada dava ao ato um ar de expedição rumo a um mundo desconhecido para ela. Quando ele ergueu os olhos e a encarou, ela sentiu que estava ficando com calor. Naquele lugar, fazia calor, muito calor. Logo ela percebeu que a causa era a caldeira dos ferros a vapor. Sempre ligada. Sempre pronta para alimentar os ferros.
Ela estava morrendo de medo, tremia de excitação e o pulso acelerava enquanto ele continuava descendo devagar, com cuidado. Mas, ao mesmo tempo, estava decidida a não voltar atrás por nada, porque aquilo tinha começado bem e ela sentia que, mais cedo ou mais tarde, algo ia acontecer que mudaria sua vida. Por isso, engoliu o medo e, quando ele terminou com os botões, deixou que a blusa escorregasse dos ombros e deslizasse pelas costas até cair nas mãos dele.
Ele a dobrou com cuidado e a colocou sobre a mesa. Virou-se de novo para ela, pegou o cinto dela entre as mãos e o apertou, desafivelando-o. Ela seguia os movimentos dele com curiosidade e espanto. Mas o mais surpreendente para ela mesma é que se deixava fazer, sem querer parar. Quando a calça começou a descer, ela compensou a fraqueza repentina nas pernas imaginando um passado de aventureira experiente.
—Levanta um pé!— ele ordenou. —Agora o outro!— disse de novo, enquanto ela obedecia. Suavemente.
Ele pegou a calça e a dobrou ao lado da blusa. Ela continuava de pé, como hipnotizada pelo que estava acontecendo. Quando Alberto estendeu os braços, percorreu as alças do sutiã e, sem dizer uma palavra, levou os dedos ao fecho nas costas e, com um único clique, soltou-o. Ela fez um gesto de segurar as taças do sutiã, cobrindo os seios.
Alberto, sem tirar o sorriso dos lábios, pegou o carretel de seda, colocou-o no banquinho à frente dela e puxou a ponta.
— Me dá suas mãos — ordenou ele, enquanto já estendia as mãos para ela, olhando fixamente nos olhos dela. Ela baixou o olhar e estendeu os braços para ele. Ao fazer isso, o sutiã caiu no chão, deixando os seios dela livres. Alberto não pôde deixar de admirá-los.
Apareceram diante dele como duas peras maduras, com aquela leve queda que dá naturalidade a uns peitos e rematadas por dois mamilos proeminentes, grossos e duros, que denunciavam que tudo o que estava acontecendo não lhe era indiferente.
Ele pegou as mãos dela entre as suas e começou a envolvê-las com o fio fino de seda. Deu apenas uma volta antes de amarrá-las com o fio delicado. Depois, levou as mãos dela até a altura do cabideiro que estava ao lado e prendeu o cordão nele.
— Não tire suas mãos daí, se fizer isso, o fio vai se romper e o encantamento vai quebrar — Marta sentiu que ele a manipulava, sentiu como ele puxava os fios do corpo dela como se ela tivesse se transformado numa marionete. E se entregou ao jogo.
Ele começou a tirar as medidas. Primeiro o comprimento, depois o contorno, a cintura. Tirava medidas minuciosas por todo o corpo dela. Sentiu os dedos dele percorrê-la, roçá-la, excitá-la. Conforme ia tirando as medidas, ia anotando no computador. Ela o observava com curiosidade enquanto ele estava absorto no que fazia. Quando ele tirou a medida do peito dela de novo, pareceu a ela que ele demorava, que apertava os seios tensionando a fita além da simples medida. Ela teria gritado que ele a acariciasse, que aquele roçar da fita nos mamilos a deixava louca, que desejava as mãos dele nela. Mas calou. Calou aceitando tudo o que ele lhe trazia.
Quando terminou com as medidas, levou o notebook até uma das máquinas, conectou-o nela e ligou. Durante uns minutos, teclou no computador com uma insistência febril. Depois se levantou, pegou vários carretéis daquele fio, colocou na máquina e ela começou a funcionar. Esperou alguns minutos até ver que o tecido começava a sair pela parte inferior daquela máquina poderosa. Ele se virou e veio em direção a ela.
- Vai demorar um pouco, então enquanto isso vou cuidar da modelo - Ela sentia que as mãos pesavam. Aquele fio ameaçava romper se ela deixasse as mãos caírem e não queria que isso acontecesse.
Quando Alberto chegou ao lado dela, acionou o controle do cabideiro e ele começou a subir. Ela se assustou, surpresa ao ver que as mãos começavam a se erguer. Começava a temer que o fio se rompesse quando ele parou. A barra ficou parada bem acima da cabeça dela, mantendo as mãos naquela posição.
- Nua vai ficar melhor no vestido - disse ele enquanto puxava as meias dela para baixo. Depois, foram as calcinhas que deslizaram pelas pernas até o chão. Ele recolheu tudo com delicadeza. Quando ela viu as calcinhas nas mãos dele, sentiu vergonha. Estavam úmidas, cheias dos seus sucos mais secretos, e temeu que ele percebesse e dissesse algo. Mas não fez isso. Apenas as dobrou junto com toda a roupa dela.
De uma prateleira presa na parede, pegou um saco de papel, abriu e guardou ali todas as peças. "Hoje você não vai mais precisar delas", disse enquanto fechava e colocava sobre a cadeira.
Veio até ela de novo e, com um gesto delicado, afastou um fio de cabelo que caía sobre o rosto dela. Ao afastá-lo, as mãos dele acariciaram o rosto de Marta. Fez isso com tanta suavidade que as mãos pareciam sem peso. Ela não conseguiu conter o Primeiro suspiro da noite. Ele demorou na nuca, percorreu o pescoço dela, deixou cair as costas da mão pelas costas até descansar nos quadris. Depois, com a mão esquerda nos quadris dela, foi a direita que percorreu o corpo dela, dessa vez pela frente. Com a mão bem aberta, pegou o pescoço dela com firmeza e suavidade, deixou que as pontas dos dedos fizessem o caminho sobre os mamilos dela, arrepiando-os ainda mais do que já estavam, contornou os peitos generosos dela, deslizaram até o umbigo onde brincaram com as cócegas e a risada dela antes de cair até a buceta. Ali esperava uma moita generosa de cachos castanhos que margeavam uns lábios grossos, dos quais emanavam um calor e uma umidade de dar água na boca. Ele brincou com os desejos de Marta. Tensionou, brincou, roçou e atrasou o instante em que os dedos dele brincaram na buceta dela, separaram os lábios e se perderam na entreperna até encontrar um mar de desejos.
Marta fechou os olhos e esperou que aquelas mãos se fizessem mais presentes, mas de repente ele parou de tocá-la e ela abriu os olhos assustada com a demora. Ele estava de costas para ela e ia em direção à máquina. Quanto tempo tinha passado para que aquele diminuto pedaço de tecido que aparecia debaixo da máquina já fosse um pano do tamanho de um vestido?
Alberto se agachou diante da máquina já parada e retirou os panos tecidos que descansavam numa cesta de grade de aço que cobria a parte de baixo da máquina.
Ele os aproximou dela entre as mãos e deixou que roçassem o rosto dela com uma suavidade transparente. Ela sentiu um arrepio que percorreu todo o corpo ao sentir aquele tecido frio tocar a pele dela. Ele continuava com o gesto divertido e não parava de olhar para ela nem um instante. Aquilo a intimidava, a obrigava instintivamente a esconder o olhar no chão. Alberto se afastou um instante para pegar um alfineteiro que estava em cima da mesa. Colocou no braço e voltou sobre os passos. Uniu a frente e as costas por um ombro. Fez isso usando dois alfinetes com a facilidade de quem sabe como fazer direito. Depois passou o vestido por cima do ombro de Marta e deixou cair ao longo do corpo dela, segurando o outro ombro com as mãos. Quando o vestido ficou no lugar, prendeu também com alfinetes e soltou, afastando-se dela. Deu uma olhada e teve certeza de que tinha acertado. Com mãos rápidas e precisas, foi pegando o contorno dela com alfinetes. Puxava o tecido até a tensão certa e prendia com um alfinete. Ela sentiu a proximidade dos alfinetes pontiagudos, o roçar das mãos dele, a tensão do tecido grudando nela e a dedicação dele àquele trabalho. Sem dúvida, aquilo o apaixonava, e a deixava em suspense.
Quando colocou o último alfinete, afastou-se e a olhou absorto. Voltou a se aproximar duas vezes e ajustou alguns alfinetes. Depois, soltou os dos ombros, deixou-os em um dos panos marcando o lugar e tirou o vestido pelos pés dela. Os braços dela pesavam numa doce moleza que a mantinha em suspense, com medo de rasgar a seda que os unia à barra do cabideiro. Mas estava decidida a deixá-los ali. Ele tinha pedido, e ela não hesitava em seguir a ordem.
Alberto se afastou até o outro lado da mesa, sentou-se na máquina de costura e começou a montar o vestido. Levou apenas alguns minutos para se levantar com o vestido já costurado. Caminhou até a mesa, abriu uma gaveta e, após alguns instantes de busca, pegou dois broches e voltou para a máquina. Eram dois broches de aço, em forma de duas correntes entrelaçadas em malha dupla, que se uniam num clique que ecoou ao fechá-los. Costurou-os na ponta das alças, de modo que servissem de fecho nos ombros dela e a corrente fosse a única alça visível sobre a pele rosada. Levantou-se e, com ar de triunfo, mostrou o vestido: "Você gostou?". Sem deixar ela responder, aproximou-se e fez menção de vesti-la.
Ela levantou primeiro um pé, depois o outro, e ele puxou o vestido para cima. Ele ia subindo pelo corpo dela, e ela sentia a carícia apertada do tecido elástico que se moldava à sua pele. Quando o vestido ficou no lugar, ele ajeitou direitinho as alças e fechou com um clique que estourou na cabeça de Marta, dando um arrepio nela. Com delicadeza, foi ajustando cada ruguinha do tecido, cada prega, cada costura, até o resultado ficar perfeito.
Ele soube desde a primeira vez que a viu. Soube que aquele seria o vestido dela muito antes de falar com ela pela primeira vez, antes de ela aceitar tomar aquele café, muito antes de ela subir no carro dele e ele guiá-la até ali.
Quando a viu, já a viu com aquele vestido. Quando imaginou aquele vestido de seda preta, ela já vinha dentro dele. E agora, ao vê-lo vestido nela, sentiu que tinha criado o mundo. As linhas, o corte, as cores que tinham se formado na cabeça dele, de repente a abandonaram para se fundir com Marta, para se tornar pele indissolúvel. Para se encher de sentimento.
Era um vestido lindo. Romântico, sim, mas acima de tudo bonito. Uma cascata de seda que caía dos ombros nus dela até os joelhos, se adaptando prodigiosamente ao corpo dela como uma sugestão. E foi feito para ela.
E ele estava absorto na nova e radiante beleza dela, enquanto ela, pasma, descobria pela primeira vez na vida a própria imagem no espelho. E viu uma mulher madura e gostosa, orgulhosa de si mesma, da sua condição e das mãos atadas com o leve espírito da seda libertadora. E pela primeira vez na vida, se sentiu poderosa.
Por essa razão, só por essa, ela pôde se entregar desde a sua força e sem fraquejar. E se deixou levar pelo delicioso tremor que a invadiu quando sentiu a respiração dele. O beijo dele se aproximava e ela sabia, e esperou inquieta, já estremecida com o toque iminente da boca dele. Não conseguiu adivinhar onde ele pousaria os lábios; talvez perto da orelha dela ou percorrendo a têmpora; talvez na garganta ou deslizando furtivo até a nuca, demorando-se ali até sentir como se arrepiava sua pele, como seu pescoço se dobrava se oferecendo.
Foi então que sentiu ele iniciar um longo passeio pelo seu ombro, parando em cada milímetro de pele, contando com a língua cada sarda, deixando em seu caminho um rastro molhado.
E ele seguiu seu caminho, deixando, já de volta, um beijo na curva do seu pescoço e procurou sua boca. E foi então que ele lhe deu o que ela tanto ansiava. Seu hálito. Seu alimento. E ela o amou.
Deixou que suas mãos escorregassem até seus peitos e por um instante seus dedos tocaram veludo, tocaram algodão, tocaram suavidade e um céu de carne, de pele autêntica enquanto ela sentia o perigo do medo, o prazer e a doçura. Sentiu a realidade e ardeu num fogo morno que queimava. Quando se atreveu a olhar pra ele de novo, sentiu que aquele outono era ardente, que era verão, que o calor derretia o último frio do seu inverno anterior.
Depois, com suavidade, Alberto deslizou pra baixo deixando que sua boca a percorresse até ficar aninhada entre suas coxas. Através do vestido ela sentia a pressão do rosto dele contra ela. Ele se ajudou com as mãos e levantou levemente o vestido dela até que sua boca encontrou sua pele. E então, o roçar da língua dele. No começo ela resistiu, tomada demais pelo pânico e vergonha pra fazer qualquer coisa. Depois, aos poucos, muito lentamente, umas sensações estranhas e confusas começaram a derrubar os muros de suas defesas, sensações que com toda certeza eram algo proibido e, ainda assim, excitantes. A língua dele estava encontrando lugares secretos de prazer que ela nem sabia que existiam. Pareceu que ele continuou brincando com ela por horas, provocando nela ritmos, desejos, subidas e descidas num tobogã sem fim. Até que ela estremeceu, gritando, finalmente, num crescendo sem fim.
Ele afastou a boca enquanto devolvia o vestido à posição perfeita. Foi se levantando mantendo os corpos colados, juntos os calores, e seus braços a Rodearam ela e ela descansou no ombro dele. Depois foi se afastando devagar, como quem contempla a própria obra...
— Você se reconhece no espelho? — perguntou com um sorriso de triunfo nos lábios.
Ela abriu os olhos, virou-se para o espelho e se viu desgrenhada e radiante.
— Não é a mesma mulher que você conheceu. Mas me reconheço nela — disse sem tirar os olhos do espelho. Fez isso aceitando a própria imagem como se ela a tivesse acompanhado a vida inteira. Na verdade, desde pequena chorava diante do espelho toda vez que ele negava a imagem dela, toda vez que ficava com um cara, tentava ficar gostosa e não conseguia ver a própria imagem.
Ele se aproximou dela de novo, ajeitou o vestido, virou ela para ver por trás. Ela obedecia a cada gesto dele, cada insinuação. E esperava.
Ele apertou de novo o controle do cabideiro e a barra desceu até deixar as mãos dela amarradas na frente dele. Então parou. Soltou o fio da barra e ajudou ela a descer. Com as mãos amarradas, ela precisou da ajuda dele. Ele segurou ela pela cintura e ela se sentiu voar até o chão. Aterrissou entre risadas e com o corpo colado no dele. E beijou ela.
Fez isso de surpresa, pegando ela desprevenida. Aquele beijo profundo arrastou ela pra boca dele, pra devolver com paixão cada movimento. Foi um beijo infinito, onde ela se entregou de vez. Foi uma rendição sem condições. E ela aceitou com a mesma naturalidade com que tinha aceitado a própria imagem há poucos minutos.
— Retoca a maquiagem que a gente vai embora — disse ele enquanto começava a guardar tudo que tinha usado pra fazer o vestido.
Elena pegou a bolsa de cima da mesa, procurou o batom e, pela primeira vez na vida, passou ele na frente do espelho. Ficava besta se olhando, roçando a pele naquele espelho que por tantos anos foi traidor.
A voz de Alberto tirou ela do devaneio: "Vamos embora". Ele pegou de novo o fio fino numa das mãos, na outra a sacola com as roupas da Marta anterior, e começou a pagar. as luzes enquanto saíam.
Ela fez uma breve pausa ao passar na frente do espelho antes de sair pra rua, pra que o mercúrio incorruptível do espelho devolvesse a ela sua própria imagem, tão ansiada por tantos anos. Ela se deliciou se vendo mexer as mãos com graça, como se regesse uma sinfonia, enquanto tagarelava nervosa, girando em torno de si mesma. Se viu com seu vestido magnífico e, pela primeira vez na vida, se sentiu gostosa. Ela viu através do espelho como ele a ultrapassava e estava prestes a ganhar a rua. "Vamos", disse ele secamente, dando um leve puxão no fio. Ela sorriu pra ele, se certificando de que o sorriso capturava tudo que havia dentro dela e oferecia aquilo a ele; prometia o mais profundo que tinha em troca de muito pouco: a batida de uma resposta, a tranquilidade de sentir nele uma reação que a deixasse lisonjeada. Por momentos, toda a doçura do mundo escuro ia penetrando nela. Ela se sentiu uma garota de bochechas ardendo naquela noite secreta de calor sufocante.
Ela se apressou a estender as mãos e segui-lo. Não queria que o fio se rompesse. Aquela noite era dela. Nada podia quebrá-la.
Então, ela começou a andar bem devagar em direção ao carro, e se sentiu a rainha da noite com seu vestido novo marcando seus peitos de bombom, nua, e suas pernas como chicotes de seda, e sua pele desenhada, delicada, impossível. Não podia ser uma mulher autêntica. E, pela primeira vez na vida, ela não parou, não procurou com os olhos a aprovação nem hesitou diante da porta do carro.
Por isso, quando hoje, pela primeira vez na vida, Marta viu sua imagem refletida naquele espelho, soube que algo tinha, irremediavelmente, mudado em sua vida.
Ela sempre foi mais uma da legião de mulheres invisíveis que povoam a vida das grandes cidades. Filha invisível, esposa invisível, mãe invisível. Até no escritório onde trabalhava era uma secretária invisível. Ninguém parecia reparar nela. Só se esperava dela o trabalho feito. E, por minha fé, ela conseguia. Mas ela continuava invisível.
Por isso, quando chegou àquela sala de fisioterapia para reabilitar seu pulso machucado, não estranhou que ninguém reparasse nela. Esperou pacientemente sua vez, deixou que a enfermeira olhasse seu prontuário e explicasse o tratamento a seguir. A acompanhou até a sala, mergulhou a mão na parafina quente, deixou que se formasse uma camada grossa sobre ela, envolveu em plástico, depois numa toalha e lhe apontou uma cadeira enquanto dizia: "Vinte minutos e depois tira".
Quando se sentou, viu que na sala havia outras dez pessoas fazendo o mesmo que ela. Ninguém pareceu reparar em sua chegada. Duas mulheres conversavam sobre a crise, outra lia um livro do qual ela, instintivamente, tentou descobrir o título escrito na capa. Os outros cochilavam, ou pareciam perdidos em outro mundo. Ela se refugiou em si mesma, tentando fazer com que os vinte minutos passassem mais rápido.
Assim transcorriam os dias de seu tratamento. Cochilava no seu décimo terceiro dia de espera interminável quando, sem saber por quê, teve a sensação de que estava sendo observada. Talvez tenha sido um leve rangido ou uma respiração: ou, com maior probabilidade, simplesmente percebeu a sensação que se experimenta quando um olhar pousa sobre a gente. Levantou a vista e examinou o ambiente.
Numa poltrona entre duas janelas, no outro extremo da Na sala, tinha um homem que ficava encarando ela. Quando os olhares se encontraram, ele deu um sorrisinho e ela sentiu um baita constrangimento que a deixou sem fala. Buscou refúgio fechando os olhos e baixando a cabeça. Mas toda vez que ela levantava a cabeça e abria os olhos, ele continuava lá. Olhava ela descaradamente, com uns olhos que brilhavam de um jeito perturbador, tipo uma luz sem foco.
A enfermeira veio quebrar a magia com um seco "é sua vez". Marta se levantou dando as costas pra aquele homem e seguiu a enfermeira até a sala de curativos. Lá, ela tirou a parafina e Marta voltou pra sala pra pegar seu casaco. O vestido creme dela, que enquanto caminhava ficava azul ou cinza dependendo da luz dos refletores, e o cabelo solto balançando em volta da nuca, deixaram aquele homem hipnotizado. Ele não tirava os olhos dela. Toda vez que ela virava pra olhar, via ele dando um sorrisinho. Ao passar por ele, disse um quase inaudível "até amanhã!" E ele respondeu com um seco "Obrigado".
Nos dias seguintes, ela fez de tudo pra evitar ele. Chegava cedo, na esperança de que ele ainda não estivesse lá, de ir embora antes dele chegar. Se pegou escolhendo roupa na frente do armário. Mais de um dia mudava de ideia depois de se arrumar e procurava no armário respostas pra aquele outono que, sem dúvida, não caía bem nela. Porque cada dia se sentia mais pequena, mais ingênua e mais desajeitada, mais ridícula. Por isso fugia dele, porque queria se convencer de que não gostava dele, de que não era por culpa dele que o corpo dela se enchia de formigas toda vez que chegava na clínica e entrava na sala de espera. Sentia medo, mas precisava daquele medo porque tirava mais prazer dele do que das coisas boas. Era isso que achava mais estranho de tudo. Então tentava ocupar os dias até a exaustão, numa fuga de si mesma que a deixava acabada.
Mas naquela terça-feira aconteceu o que tinha que acontecer. Ao entrar, logo percebeu A Marta. Ela era quase invisível, encolhida no sofá perto da janela. Ele caminhou na direção dela, sentindo uma alegria surpreendente invadi-lo.
— Achei que nunca mais te encontraria aqui — disse ele, sentando-se na frente dela e colocando o sobretudo no banco ao lado. Tirou um livro do bolso e o segurou fechado entre as mãos.
Marta se sentiu como se estivesse caindo, dando cambalhotas ladeira abaixo. Uma tontura que a invadia como uma espiral e um torrente de sangue subindo ao rosto. Mas, ao contrário de outras vezes em que ficava envergonhada, dessa vez foi uma sensação gostosa, de se deixar levar, de se libertar daquele peso imenso que carregava sobre a vida há tanto tempo.
— Meu nome é Alberto — ele sorriu, com os olhos brilhando, enquanto estendia a mão para ela.
— O meu é Marta — respondeu ela.
Enquanto falava com ele, sentiu-se estranhamente subjugada, como se ao conversar com aquele desconhecido descobrisse nela uma culpa que achava manter zelosamente escondida. Baixou os olhos por vergonha e, ao fazer isso, seus olhos ficaram fixos no livro que ele segurava entre as mãos. "A Dominação Sensual".
Demorou alguns segundos para entender o significado do título do livro, mas a foto da capa a tirou de dúvidas. Uma mulher descansava sobre um tapete, sentada sobre os calcanhares, enquanto nas mãos segurava uma coleira em atitude de oferenda. Vestia uma túnica branca leve e toda ela irradiava uma imagem de serena simplicidade. A visão a impactou e, por alguns segundos eternos, ela permaneceu abstraída naquele livro.
Seria só uma coincidência ou ele queria que Marta lesse aquelas palavras?
Alberto fez uma longa pausa antes de prosseguir a conversa. Depois, olhando para a mão dela envolta em uma toalha, perguntou:
— O que aconteceu com a sua mão? Um acidente?
— Uma queda. Ao cair, apoiei a mão na calçada e quebrei o pulso. Foi há três meses e ainda estou aqui — respondeu ela, enquanto continuava. ali, colada na cadeira, olhando pra ele, se deixando olhar até que os lábios dele se mexeram de novo.
- Tô me recuperando de um tornozelo fodido. Venho nesse horário pra não ter que parar de trabalhar.
O sorriso dele desmontava ela, e ela quebrou o feitiço só ao preço de torná-lo mais sólido. Forte o bastante pra chamar um sentimento conhecido que logo ficou mais forte que aquela imobilidade misteriosa, mas gostosa.
- Bom, é minha hora e vou embora - falou por fim, enquanto olhava pra enfermeira que já fazia sinal do outro lado da sala.
- É?
- Já cumpri meus vinte minutos diários e preciso continuar o tratamento na sala de eletroestimulação - respondeu, enquanto se levantava.
- Aceitaria tomar um café com um desconhecido? - ele propôs antes que ela terminasse de se levantar.
- Claro.
- É? - ele parecia muito surpreso com a resposta.
- Claro.
E saiu rapidinho ao encontro da enfermeira.
Ele ficou sentado os quinze minutos que restavam do tratamento. Deixou o tempo passar mergulhando na leitura daquele livro que tinha causado tanta perturbação nela. Sabia que ela tinha lido o título do livro e não podia dizer que a escolha do título tinha sido por acaso.
Quando a enfermeira fez um sinal, ele se levantou, acompanhou ela até a sala de curativos e, depois de tirar os eletrodos do tratamento, saiu apressado.
Quando saiu na rua, a tarde já tava acabando. Os primeiros postes começavam a acender e o outono começava a soltar as primeiras folhas das árvores. Atravessou a rua e entrou no café da frente. Pediu um café e sentou numa mesa perto da vitrine. De lá, podia ver as pessoas entrando e saindo da clínica. Ela não devia demorar.
Viu ela sair. Desceu devagar os degraus da porta e parou pra evitar uma colisão com uma senhora apressada que tinha um casaco de pele lindo e um ramo de cravos que ela faziam ocupar a calçada inteira. Quando ela chegou na calçada, ele já estava fora da cafeteria e a chamava pelo nome.
— Marta! Estou aqui! Naquele instante, o mundo pareceu parar. O trânsito parou, ficou completamente imóvel e silencioso. Uma folha solitária se desprendeu do plátano no fim da rua; não passava ninguém, e naquela pausa a folha caiu. De certo modo, pareceu um sinal, um sinal que destacava as coisas com uma força que ninguém tinha notado antes. Parecia indicar a presença de um rio que fluía de um para o outro. Assim os rios levavam as folhas mortas. Agora trazia em sua direção aquela mulher de botas de verniz cruzando na diagonal de um lado da rua para o outro.
Alberto segurou a porta da cafeteria para ela entrar. Ao fazer isso, seus corpos quase se roçaram. Marta sentiu os músculos dos braços dele debaixo da jaqueta, e os do peito sob a camisa, como se estivesse tocando. Por um momento, teve a mão dele, resistente e masculina, entre as suas. Suspirou enquanto começava a sentar. Levantou os olhos e esbarrou, lá em cima, nos dele: quentes, perturbadores. Teve a sensação de que, sem controle, ia se deixar cair sobre a cadeira e abraçar a cintura dele, descansar a cabeça no peito dele, se apoiar nele... Ofegou levemente. Teve que fechar os olhos. Tirou-a do êxtase a voz de Alberto:
— O que você vai tomar?
A pergunta ficou no ar. Ela só conseguia responder com um gesto.
Alberto talvez não esperasse por isso. Marta esteve a ponto de se render sem palavras. Nunca tinha estado tão perto; nunca ninguém a tinha excitado tanto.
— Um café com leite... — conseguiu dizer após uma longa pausa.
A partir daquele instante, ele tomou conta da conversa. Levou e trouxe da vida dela para a dele. Contava e perguntava tudo ao mesmo tempo. Ela mal conseguia acompanhar o que ele dizia. Vivia a cena mais como espectadora do que como protagonista. Como se não estivesse acontecendo com ela.
— Estive te procurando todos esses dias — disse Alberto. dando um giro inesperado na conversa que a desconcertou por uns instantes.
- Eu sei.
- Foi horrível, Marta. Mas a espera valeu a pena.
- Você está mentindo, Alberto.
- Então me diz por que você tem se escondido.
- Não queria te ver.
- Como assim não queria me ver e hoje aceitou meu convite?
- Por isso mesmo eu queria que você não aparecesse; que não viesse me buscar, de qualquer forma. Porque sabia que se viesse, não teria coragem de te recusar.
- E agora? Quer que eu vá embora e suma pra sempre?
- Não! Por favor. Agora eu não conseguiria mais te pedir isso. Com um homem como você, não tenho salvação. Passei a vida toda esperando por isso e agora que você chegou, tenho medo de mim mesma. Sabia que você é a primeira pessoa que repara em mim em todos esses anos? Pela primeira vez você me fez sentir visível. Sentir que não sou a mulher invisível que os espelhos negam.
Alberto tirou o lenço do bolso e estendeu pra ela. Com as últimas palavras, duas lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela. Ele ficou em silêncio. Não quis quebrar aquele momento em que ela se abria pra ele. Ela, depois de enxugar as lágrimas, tomou de uma vez o café que ainda tinha na xícara.
Então começou a revisar a vida enquanto tudo acontecia na mente dela como num filme. Se via como a protagonista daquela história que agora contava. E contou pra ele sua saga com os espelhos, a busca pela própria imagem cada vez que se colocava diante de um deles. E cada vez que isso acontecia, só servia pra confirmar o que já sabia. Negavam sua imagem. Mas não eram só os espelhos que a ignoravam. Contou pra Alberto que casou com o primeiro homem que pareceu vê-la. Que teve dois filhos no processo de perceber que tudo não passava de uma ilusão. Que ele também não a via. Que sentiu, que sente, a dor de ver que os filhos, conforme foram crescendo, também a ignoravam.
Por isso senti um arrepio quando você chegou no primeiro dia e senti seu olhar cravado em — Mi —disse ela, enquanto secava as últimas lágrimas que encerravam seu relato.
Os dois ficaram num longo silêncio enquanto ela se recompunha da confissão. Marta olhou o relógio e, fazendo um gesto de se levantar, disse:
— É minha hora, preciso ir.
— Amanhã você vai estar no mesmo horário?
— Sim.
Marta pegou o casaco em cima da cadeira, vestiu-se enquanto fazia um sinal pro garçom. "A conta, por favor."
Alberto deixou ela ir até o balcão e pagar sem dizer nada. Viu ela abrir a bolsa, dar uma nota pro garçom e guardar o troco na carteira. Fez isso sem tirar os olhos dela nem um segundo, enquanto ela ficava de costas pra ele. Quando ela se virou, ele ainda estava olhando pra ela, esperando em pé, já de jaqueta. Se encontraram na porta e foram pra calçada.
— Obrigada pelo convite — disse ela, como despedida.
— Não tem de quê. Foi um prazer — começou a andar em direção à casa dela, enquanto ele ainda a observava, parado na calçada. De repente, ela se virou e, com um sorriso safado, perguntou:
— Me empresta seu livro?
Assim que fez a pergunta, se arrependeu. Ficou vermelha que nem um pimentão quando ele se aproximou e, sem dizer uma palavra, estendeu o livro.
— Espero que você goste — disse ele, antes de sumir rapidamente na direção oposta à que ela tinha tomado instantes antes.
Ela guardou o livro na bolsa e seguiu pra casa.
Naquela mesma noite, enquanto o marido se agitava na sala, com mais tesão do que na cama, vendo o Barça lutar pela Champions, Elena se refugiou sentada na cama. E ali abriu aquele livro estranho. Fez isso como quem vai violar um segredo, com a clandestinidade do proibido. Enquanto lia, foi descobrindo que aquele sentimento descrito no livro lembrava o que a apertava desde que conheceu Alberto. E se perdeu no livro. Quando sentiu o marido desligar a TV, escondeu. deixou o livro de repente na mesinha e fingiu que lia o que estava sobre a mesinha dela.
Naquela noite, não conseguiu afastar dos sonhos tudo o que estava acontecendo com ela. E neles, misturou o encontro com Alberto com o livro que estava lendo. Por isso, quando no dia seguinte se reencontrou com ele na sala de fisioterapia, baixou o olhar e esperou que ele se sentasse ao lado dela.
"Boa tarde", ele disse num tom que ressoou nos ouvidos dela com um sotaque desconhecido. De novo aquela agitação juvenil, aquela vontade de responder e as palavras presas na garganta que a faziam parecer idiota. E quando levantou a vista e soltou um "Oi!" quase inaudível, o rosto dela denunciava o nervosismo, dando um vermelho intenso nas bochechas.
E naquele instante, ele tomou conta dela de novo, e ela se deixou levar na conversa. Só quando ouviu: "E aí, o livro? Tá gostando?", ela saiu daquele estado de semi-inconsciência que a dominava.
— Tô gostando sim, disse ela, tô começando a conhecer um mundo que até agora era desconhecido pra mim.
— E o que você acha?
— Instigante e atraente. Nunca tinha imaginado uma relação assim. Já tinha ouvido falar, mas via como algo distante e exótico, de gente estranha.
— E agora? Esse mundo te atrai?
— Muito… — Elena deixou essa última palavra pairando na conversa.
Alberto não voltou ao assunto até dois dias depois, quando ela trouxe o livro de volta nas mãos. "Valeu pelo empréstimo", disse ela enquanto estendia o livro, quase sem esperar ele se sentar na sala de espera.
— Vai ser um prazer te emprestar outros quando quiser. Nas minhas estantes cabe todo tipo de livro, e esse não é exceção. Continuaram conversando até ela se levantar pra continuar o tratamento em outra sala. "Te espero no café da frente", disse ele enquanto ela se afastava de costas. Ela se virou por um instante pra concordar com a cabeça antes de sumir atrás da porta.
Quando chegou no café, ele já estava esperando sentado uma mesa no fundo do bar. Ela pegou o casaco com cuidado, dobrou e pendurou no encosto da cadeira, sentando-se de frente para ele, de costas para o salão. Ficou em silêncio diante dele, sentindo o olhar dele enquanto ela mantinha o dela fixo na mesa. Ele a pegou pelo queixo, ergueu seu rosto e, ao encontrar seu olhar, levou o dedo indicador da mão direita aos lábios e mandou-a ficar em silêncio com um gesto, Shhhhh, deixou o som escorrer suavemente, prolongando-o no tempo, enquanto aproximava a outra mão do rosto dela e deixava a ponta do dedo médio contornar os lábios de Elena, entreabrindo-os e colhendo a umidade da boca dela, deslizando e acariciando-os. Ela, entre surpresa e sem graça, se deixou levar. Os dedos dele desenharam nos lábios dela a carícia mais devastadora que ela lembrava. Primeiro sentiu pânico, depois desfalecer diante daqueles dedos que convocavam todos os sentidos dela para os lábios. Então ele parou e deixou uma mão pousar sobre as dela, que descansavam suadas sobre a mesa.
- Quando você tiver uma noite livre, quero te convidar pra jantar. Será que é possível?
- No sábado temos um jantar da empresa. Já falei pro meu marido. Se você quiser, podemos ficar nessa noite - respondeu Elena sem levantar os olhos da mesa. O tempo parou enquanto ela se entregava de vez. Alberto deixou os dedos descerem pelo decote de Elena, traçando uma carícia. Quando esbarrou no primeiro botão, brincou com ele o tempo suficiente pra ela desejar que ele o desabotoasse. Quando ele fez isso, ela ergueu o olhar e ele a capturou, despindo-a também por dentro.
"Assim tá melhor", disse Alberto enquanto se recostava na cadeira e a encarava intensamente. Elena baixou o olhar de novo enquanto ele contornava com a ponta dos dedos o começo dos peitos dela. Naquele instante, alguém entrou na cafeteria e caminhou na direção deles. Alberto retomou a compostura e ela fez menção de fechar o botão. botão. Ele a deteve. "Deixa assim", ordenou. Ela obedeceu mansamente e esperou que os clientes procurando mesa não pudessem vê-la. Quando se sentaram numa mesa distante, ele se inclinou em direção à Elena, deixou os dedos deslizarem por baixo do sutiã e prendeu o mamilo da teta direita com o polegar e o indicador. "Quieta", sussurrou enquanto ela se mexia na cadeira. "Bem quieta", repetiu de novo.
Quando ele soltou a teta dela, Marta olhou o relógio: "É hora, preciso ir".
— Tudo bem, então sábado a gente se vê de novo. Né?
— Sim — respondeu Elena enquanto começava a vestir o casaco.
— Onde te busco e a que horas? — perguntou Alberto.
— Às nove na porta da minha casa — disse ela, estendendo um cartão de visita enquanto começava a andar em direção à rua. Ele ainda ficou um tempo sentado olhando o cartão antes de guardá-lo, levantar e sair para a rua.
Quando fez isso, a noite já tinha tomado conta das calçadas, e o caminho até sua casa passou num sonho. Quando o elevador parou na porta dele, ele ainda tentava construir na mente toda a rota a seguir no encontro de sábado.
Faltavam dez minutos para a hora do encontro quando Alberto estacionou o carro em fila dupla bem na frente da porta de Elena. Olhou o relógio e se preparou para esperar até a hora combinada.
Quando ela pisou na calçada, viu que ele já a esperava dentro do carro. Ao vê-la, abriu a porta enquanto dizia: "Sobe".
Ela, ainda surpresa com o convite, sentou no banco e, enquanto apertava o cinto de segurança, ele deu partida no carro.
— Pra onde você tá me levando? — perguntou ela enquanto ele dirigia.
— Deixa que eu guie sua noite — respondeu com um sorriso tranquilizador.
Ele tinha escolhido para a ocasião uma calça cinza e uma camisa branca, por cima da qual usava um blazer preto. Não conseguiu encontrar no guarda-roupa nada que fosse mais apropriado para aquele encontro misterioso. E olha que ele tentou. Ela se esforçou pra caralho. Se vestiu e se despiu um monte de vezes, mas toda vez que tentava se olhar no espelho, ele negava a imagem dela. Tava acostumada com isso, mas aquele dia era diferente pra ela e ela esperava mais generosidade do espelho. Até que desistiu. A insegurança atacava ela em cada tentativa até que, no fim, ela acabou escolhendo o de sempre. No que era seguro, ela encontrava a segurança dela. Por isso, quando ele tirou dela toda a responsabilidade de escolher, ela relaxou no banco e deixou que ele fosse o guia dela.
O carro foi ziguezagueando pelas ruas da cidade até pegar o anel viário. Depois de alguns quilômetros, ela viu ele ligar a seta e o carro pegar uma saída que levava a um distrito industrial. A curiosidade tava corroendo ela, mas ela não perguntou nada. Fez a viagem em silêncio, olhando pra ele enquanto dirigia. Não sabia o que via naquele homem que dava tanta paz pra ela. Talvez fosse a calma que sentiu na primeira vez que ele falou com ela na clínica. Desde o primeiro momento, ela se sentiu, pela primeira vez na vida, importante pra alguém.
Ela sentiu ele diminuir a velocidade e parar na frente de um galpão. Olhou curiosa pra placa e viu que era uma fábrica de malhas. Surpresa e ao mesmo tempo intrigada, não se espantou quando ele disse:
— Chegamos. — Ele parou o carro e desceu rápido. Quando ela desceu, ele já tava esperando do lado da porta. Quando ela tentou falar, ele calou a boca dela com o dedo.
— Shhhhh, deixa que eu guio a sua noite — ele repetiu enquanto destrancava a porta e tirava as chaves.
Entraram na fábrica vazia. Ele acendeu as luzes e fechou a porta enorme atrás deles. Atravessaram um depósito espaçoso cheio de roupas penduradas em cabideiros intermináveis e, por fim, subiram uma escada de madeira escura que dava numa sala grande. Quando ele acendeu a luz, ela viu que estavam num salão amplo, com uma mesa de corte enorme no centro e rodeada de infinitos padrões e amostras.
— Essa é a sala de design e corte da fábrica — disse ele enquanto tirava o paletó, colocava num cabide e pendurava numa barra. Depois, virou-se para ela e esticou os braços:
— Sua jaqueta, por favor — falou enquanto ela obedecia mecanicamente. Sentiu as mãos fortes dele, pela primeira vez roçando seus ombros ao tirar sua jaqueta. Não conseguiu articular uma palavra enquanto ele, sorrindo e se divertindo com a atitude dela, colocava a jaqueta dela junto à dele.
Pegou uma bobina enorme de um fio preto e brilhante que parecia seda. Aproximou-o dela.
— Você gosta?
Marta olhou para ele enquanto ele aproximava o fio das mãos dela. Ao tocá-lo, sentiu o toque frio e macio da seda.
— Não é seda, só sedão. O rayon com que é feito faz ele se parecer prodigiosamente com seda.
— Você gosta? — perguntou de novo diante do silêncio assombrado dela, que não conseguia entender o sentido daquilo.
— Muito, o toque é... delicado.
— Vou fazer um vestido pra você com isso — disse ele enquanto pegava as mãos dela entre as suas. — Só vai precisar ser uma boa menina e me ajudar.
Ela, entre surpresa e divertida, mal conseguiu responder um seco "Tá bom".
Ele a pegou pela mão, guiou-a alguns metros e a fez subir num pequeno pedestal de prova.
Era uma pequena plataforma de madeira, com uns trinta centímetros de altura e pouco mais de meio metro quadrado. Ela subiu sem dificuldade enquanto ele a segurava pela mão direita. "É aí que as modelos ficam para ajustar as provas de tamanho", disse ele enquanto a olhava sorrindo. "Aqui usamos mulheres de verdade, funcionárias da fábrica, para ajustar os tamanhos. Nada de modelos de agência ou manequins com medidas absurdas. Tamanhos reais pra mulheres reais."
Atrás dela, encostado na parede, tinha um espelho grande que refletia a sala inteira. Ela olhou e viu através do espelho o mundo bagunçado e colorido. de uma fábrica de costura. Ele se aproximou da mesa, ligou o computador e pegou uma fita métrica.
Ela o observava, sorrindo e curiosa.
—Vou tirar suas medidas—, enquanto dizia essas palavras, se aproximava dela com a fita métrica pendurada no pescoço, exatamente como ela se lembrava de ver sua avó fazer quando, na infância, costurava aqueles vestidos lindos que ela usava todo domingo de ramos. —Mas antes preciso te despir, senão as medidas não vão ficar perfeitas—
Sem hesitar, Alberto levou as mãos até a camisa dela e começou a desabotoá-la. As mãos demoravam em cada botão, de um jeito que aquela calma premeditada dava ao ato um ar de expedição rumo a um mundo desconhecido para ela. Quando ele ergueu os olhos e a encarou, ela sentiu que estava ficando com calor. Naquele lugar, fazia calor, muito calor. Logo ela percebeu que a causa era a caldeira dos ferros a vapor. Sempre ligada. Sempre pronta para alimentar os ferros.
Ela estava morrendo de medo, tremia de excitação e o pulso acelerava enquanto ele continuava descendo devagar, com cuidado. Mas, ao mesmo tempo, estava decidida a não voltar atrás por nada, porque aquilo tinha começado bem e ela sentia que, mais cedo ou mais tarde, algo ia acontecer que mudaria sua vida. Por isso, engoliu o medo e, quando ele terminou com os botões, deixou que a blusa escorregasse dos ombros e deslizasse pelas costas até cair nas mãos dele.
Ele a dobrou com cuidado e a colocou sobre a mesa. Virou-se de novo para ela, pegou o cinto dela entre as mãos e o apertou, desafivelando-o. Ela seguia os movimentos dele com curiosidade e espanto. Mas o mais surpreendente para ela mesma é que se deixava fazer, sem querer parar. Quando a calça começou a descer, ela compensou a fraqueza repentina nas pernas imaginando um passado de aventureira experiente.
—Levanta um pé!— ele ordenou. —Agora o outro!— disse de novo, enquanto ela obedecia. Suavemente.
Ele pegou a calça e a dobrou ao lado da blusa. Ela continuava de pé, como hipnotizada pelo que estava acontecendo. Quando Alberto estendeu os braços, percorreu as alças do sutiã e, sem dizer uma palavra, levou os dedos ao fecho nas costas e, com um único clique, soltou-o. Ela fez um gesto de segurar as taças do sutiã, cobrindo os seios.
Alberto, sem tirar o sorriso dos lábios, pegou o carretel de seda, colocou-o no banquinho à frente dela e puxou a ponta.
— Me dá suas mãos — ordenou ele, enquanto já estendia as mãos para ela, olhando fixamente nos olhos dela. Ela baixou o olhar e estendeu os braços para ele. Ao fazer isso, o sutiã caiu no chão, deixando os seios dela livres. Alberto não pôde deixar de admirá-los.
Apareceram diante dele como duas peras maduras, com aquela leve queda que dá naturalidade a uns peitos e rematadas por dois mamilos proeminentes, grossos e duros, que denunciavam que tudo o que estava acontecendo não lhe era indiferente.
Ele pegou as mãos dela entre as suas e começou a envolvê-las com o fio fino de seda. Deu apenas uma volta antes de amarrá-las com o fio delicado. Depois, levou as mãos dela até a altura do cabideiro que estava ao lado e prendeu o cordão nele.
— Não tire suas mãos daí, se fizer isso, o fio vai se romper e o encantamento vai quebrar — Marta sentiu que ele a manipulava, sentiu como ele puxava os fios do corpo dela como se ela tivesse se transformado numa marionete. E se entregou ao jogo.
Ele começou a tirar as medidas. Primeiro o comprimento, depois o contorno, a cintura. Tirava medidas minuciosas por todo o corpo dela. Sentiu os dedos dele percorrê-la, roçá-la, excitá-la. Conforme ia tirando as medidas, ia anotando no computador. Ela o observava com curiosidade enquanto ele estava absorto no que fazia. Quando ele tirou a medida do peito dela de novo, pareceu a ela que ele demorava, que apertava os seios tensionando a fita além da simples medida. Ela teria gritado que ele a acariciasse, que aquele roçar da fita nos mamilos a deixava louca, que desejava as mãos dele nela. Mas calou. Calou aceitando tudo o que ele lhe trazia.
Quando terminou com as medidas, levou o notebook até uma das máquinas, conectou-o nela e ligou. Durante uns minutos, teclou no computador com uma insistência febril. Depois se levantou, pegou vários carretéis daquele fio, colocou na máquina e ela começou a funcionar. Esperou alguns minutos até ver que o tecido começava a sair pela parte inferior daquela máquina poderosa. Ele se virou e veio em direção a ela.
- Vai demorar um pouco, então enquanto isso vou cuidar da modelo - Ela sentia que as mãos pesavam. Aquele fio ameaçava romper se ela deixasse as mãos caírem e não queria que isso acontecesse.
Quando Alberto chegou ao lado dela, acionou o controle do cabideiro e ele começou a subir. Ela se assustou, surpresa ao ver que as mãos começavam a se erguer. Começava a temer que o fio se rompesse quando ele parou. A barra ficou parada bem acima da cabeça dela, mantendo as mãos naquela posição.
- Nua vai ficar melhor no vestido - disse ele enquanto puxava as meias dela para baixo. Depois, foram as calcinhas que deslizaram pelas pernas até o chão. Ele recolheu tudo com delicadeza. Quando ela viu as calcinhas nas mãos dele, sentiu vergonha. Estavam úmidas, cheias dos seus sucos mais secretos, e temeu que ele percebesse e dissesse algo. Mas não fez isso. Apenas as dobrou junto com toda a roupa dela.
De uma prateleira presa na parede, pegou um saco de papel, abriu e guardou ali todas as peças. "Hoje você não vai mais precisar delas", disse enquanto fechava e colocava sobre a cadeira.
Veio até ela de novo e, com um gesto delicado, afastou um fio de cabelo que caía sobre o rosto dela. Ao afastá-lo, as mãos dele acariciaram o rosto de Marta. Fez isso com tanta suavidade que as mãos pareciam sem peso. Ela não conseguiu conter o Primeiro suspiro da noite. Ele demorou na nuca, percorreu o pescoço dela, deixou cair as costas da mão pelas costas até descansar nos quadris. Depois, com a mão esquerda nos quadris dela, foi a direita que percorreu o corpo dela, dessa vez pela frente. Com a mão bem aberta, pegou o pescoço dela com firmeza e suavidade, deixou que as pontas dos dedos fizessem o caminho sobre os mamilos dela, arrepiando-os ainda mais do que já estavam, contornou os peitos generosos dela, deslizaram até o umbigo onde brincaram com as cócegas e a risada dela antes de cair até a buceta. Ali esperava uma moita generosa de cachos castanhos que margeavam uns lábios grossos, dos quais emanavam um calor e uma umidade de dar água na boca. Ele brincou com os desejos de Marta. Tensionou, brincou, roçou e atrasou o instante em que os dedos dele brincaram na buceta dela, separaram os lábios e se perderam na entreperna até encontrar um mar de desejos.
Marta fechou os olhos e esperou que aquelas mãos se fizessem mais presentes, mas de repente ele parou de tocá-la e ela abriu os olhos assustada com a demora. Ele estava de costas para ela e ia em direção à máquina. Quanto tempo tinha passado para que aquele diminuto pedaço de tecido que aparecia debaixo da máquina já fosse um pano do tamanho de um vestido?
Alberto se agachou diante da máquina já parada e retirou os panos tecidos que descansavam numa cesta de grade de aço que cobria a parte de baixo da máquina.
Ele os aproximou dela entre as mãos e deixou que roçassem o rosto dela com uma suavidade transparente. Ela sentiu um arrepio que percorreu todo o corpo ao sentir aquele tecido frio tocar a pele dela. Ele continuava com o gesto divertido e não parava de olhar para ela nem um instante. Aquilo a intimidava, a obrigava instintivamente a esconder o olhar no chão. Alberto se afastou um instante para pegar um alfineteiro que estava em cima da mesa. Colocou no braço e voltou sobre os passos. Uniu a frente e as costas por um ombro. Fez isso usando dois alfinetes com a facilidade de quem sabe como fazer direito. Depois passou o vestido por cima do ombro de Marta e deixou cair ao longo do corpo dela, segurando o outro ombro com as mãos. Quando o vestido ficou no lugar, prendeu também com alfinetes e soltou, afastando-se dela. Deu uma olhada e teve certeza de que tinha acertado. Com mãos rápidas e precisas, foi pegando o contorno dela com alfinetes. Puxava o tecido até a tensão certa e prendia com um alfinete. Ela sentiu a proximidade dos alfinetes pontiagudos, o roçar das mãos dele, a tensão do tecido grudando nela e a dedicação dele àquele trabalho. Sem dúvida, aquilo o apaixonava, e a deixava em suspense.
Quando colocou o último alfinete, afastou-se e a olhou absorto. Voltou a se aproximar duas vezes e ajustou alguns alfinetes. Depois, soltou os dos ombros, deixou-os em um dos panos marcando o lugar e tirou o vestido pelos pés dela. Os braços dela pesavam numa doce moleza que a mantinha em suspense, com medo de rasgar a seda que os unia à barra do cabideiro. Mas estava decidida a deixá-los ali. Ele tinha pedido, e ela não hesitava em seguir a ordem.
Alberto se afastou até o outro lado da mesa, sentou-se na máquina de costura e começou a montar o vestido. Levou apenas alguns minutos para se levantar com o vestido já costurado. Caminhou até a mesa, abriu uma gaveta e, após alguns instantes de busca, pegou dois broches e voltou para a máquina. Eram dois broches de aço, em forma de duas correntes entrelaçadas em malha dupla, que se uniam num clique que ecoou ao fechá-los. Costurou-os na ponta das alças, de modo que servissem de fecho nos ombros dela e a corrente fosse a única alça visível sobre a pele rosada. Levantou-se e, com ar de triunfo, mostrou o vestido: "Você gostou?". Sem deixar ela responder, aproximou-se e fez menção de vesti-la.
Ela levantou primeiro um pé, depois o outro, e ele puxou o vestido para cima. Ele ia subindo pelo corpo dela, e ela sentia a carícia apertada do tecido elástico que se moldava à sua pele. Quando o vestido ficou no lugar, ele ajeitou direitinho as alças e fechou com um clique que estourou na cabeça de Marta, dando um arrepio nela. Com delicadeza, foi ajustando cada ruguinha do tecido, cada prega, cada costura, até o resultado ficar perfeito.
Ele soube desde a primeira vez que a viu. Soube que aquele seria o vestido dela muito antes de falar com ela pela primeira vez, antes de ela aceitar tomar aquele café, muito antes de ela subir no carro dele e ele guiá-la até ali.
Quando a viu, já a viu com aquele vestido. Quando imaginou aquele vestido de seda preta, ela já vinha dentro dele. E agora, ao vê-lo vestido nela, sentiu que tinha criado o mundo. As linhas, o corte, as cores que tinham se formado na cabeça dele, de repente a abandonaram para se fundir com Marta, para se tornar pele indissolúvel. Para se encher de sentimento.
Era um vestido lindo. Romântico, sim, mas acima de tudo bonito. Uma cascata de seda que caía dos ombros nus dela até os joelhos, se adaptando prodigiosamente ao corpo dela como uma sugestão. E foi feito para ela.
E ele estava absorto na nova e radiante beleza dela, enquanto ela, pasma, descobria pela primeira vez na vida a própria imagem no espelho. E viu uma mulher madura e gostosa, orgulhosa de si mesma, da sua condição e das mãos atadas com o leve espírito da seda libertadora. E pela primeira vez na vida, se sentiu poderosa.
Por essa razão, só por essa, ela pôde se entregar desde a sua força e sem fraquejar. E se deixou levar pelo delicioso tremor que a invadiu quando sentiu a respiração dele. O beijo dele se aproximava e ela sabia, e esperou inquieta, já estremecida com o toque iminente da boca dele. Não conseguiu adivinhar onde ele pousaria os lábios; talvez perto da orelha dela ou percorrendo a têmpora; talvez na garganta ou deslizando furtivo até a nuca, demorando-se ali até sentir como se arrepiava sua pele, como seu pescoço se dobrava se oferecendo.
Foi então que sentiu ele iniciar um longo passeio pelo seu ombro, parando em cada milímetro de pele, contando com a língua cada sarda, deixando em seu caminho um rastro molhado.
E ele seguiu seu caminho, deixando, já de volta, um beijo na curva do seu pescoço e procurou sua boca. E foi então que ele lhe deu o que ela tanto ansiava. Seu hálito. Seu alimento. E ela o amou.
Deixou que suas mãos escorregassem até seus peitos e por um instante seus dedos tocaram veludo, tocaram algodão, tocaram suavidade e um céu de carne, de pele autêntica enquanto ela sentia o perigo do medo, o prazer e a doçura. Sentiu a realidade e ardeu num fogo morno que queimava. Quando se atreveu a olhar pra ele de novo, sentiu que aquele outono era ardente, que era verão, que o calor derretia o último frio do seu inverno anterior.
Depois, com suavidade, Alberto deslizou pra baixo deixando que sua boca a percorresse até ficar aninhada entre suas coxas. Através do vestido ela sentia a pressão do rosto dele contra ela. Ele se ajudou com as mãos e levantou levemente o vestido dela até que sua boca encontrou sua pele. E então, o roçar da língua dele. No começo ela resistiu, tomada demais pelo pânico e vergonha pra fazer qualquer coisa. Depois, aos poucos, muito lentamente, umas sensações estranhas e confusas começaram a derrubar os muros de suas defesas, sensações que com toda certeza eram algo proibido e, ainda assim, excitantes. A língua dele estava encontrando lugares secretos de prazer que ela nem sabia que existiam. Pareceu que ele continuou brincando com ela por horas, provocando nela ritmos, desejos, subidas e descidas num tobogã sem fim. Até que ela estremeceu, gritando, finalmente, num crescendo sem fim.
Ele afastou a boca enquanto devolvia o vestido à posição perfeita. Foi se levantando mantendo os corpos colados, juntos os calores, e seus braços a Rodearam ela e ela descansou no ombro dele. Depois foi se afastando devagar, como quem contempla a própria obra...
— Você se reconhece no espelho? — perguntou com um sorriso de triunfo nos lábios.
Ela abriu os olhos, virou-se para o espelho e se viu desgrenhada e radiante.
— Não é a mesma mulher que você conheceu. Mas me reconheço nela — disse sem tirar os olhos do espelho. Fez isso aceitando a própria imagem como se ela a tivesse acompanhado a vida inteira. Na verdade, desde pequena chorava diante do espelho toda vez que ele negava a imagem dela, toda vez que ficava com um cara, tentava ficar gostosa e não conseguia ver a própria imagem.
Ele se aproximou dela de novo, ajeitou o vestido, virou ela para ver por trás. Ela obedecia a cada gesto dele, cada insinuação. E esperava.
Ele apertou de novo o controle do cabideiro e a barra desceu até deixar as mãos dela amarradas na frente dele. Então parou. Soltou o fio da barra e ajudou ela a descer. Com as mãos amarradas, ela precisou da ajuda dele. Ele segurou ela pela cintura e ela se sentiu voar até o chão. Aterrissou entre risadas e com o corpo colado no dele. E beijou ela.
Fez isso de surpresa, pegando ela desprevenida. Aquele beijo profundo arrastou ela pra boca dele, pra devolver com paixão cada movimento. Foi um beijo infinito, onde ela se entregou de vez. Foi uma rendição sem condições. E ela aceitou com a mesma naturalidade com que tinha aceitado a própria imagem há poucos minutos.
— Retoca a maquiagem que a gente vai embora — disse ele enquanto começava a guardar tudo que tinha usado pra fazer o vestido.
Elena pegou a bolsa de cima da mesa, procurou o batom e, pela primeira vez na vida, passou ele na frente do espelho. Ficava besta se olhando, roçando a pele naquele espelho que por tantos anos foi traidor.
A voz de Alberto tirou ela do devaneio: "Vamos embora". Ele pegou de novo o fio fino numa das mãos, na outra a sacola com as roupas da Marta anterior, e começou a pagar. as luzes enquanto saíam.
Ela fez uma breve pausa ao passar na frente do espelho antes de sair pra rua, pra que o mercúrio incorruptível do espelho devolvesse a ela sua própria imagem, tão ansiada por tantos anos. Ela se deliciou se vendo mexer as mãos com graça, como se regesse uma sinfonia, enquanto tagarelava nervosa, girando em torno de si mesma. Se viu com seu vestido magnífico e, pela primeira vez na vida, se sentiu gostosa. Ela viu através do espelho como ele a ultrapassava e estava prestes a ganhar a rua. "Vamos", disse ele secamente, dando um leve puxão no fio. Ela sorriu pra ele, se certificando de que o sorriso capturava tudo que havia dentro dela e oferecia aquilo a ele; prometia o mais profundo que tinha em troca de muito pouco: a batida de uma resposta, a tranquilidade de sentir nele uma reação que a deixasse lisonjeada. Por momentos, toda a doçura do mundo escuro ia penetrando nela. Ela se sentiu uma garota de bochechas ardendo naquela noite secreta de calor sufocante.
Ela se apressou a estender as mãos e segui-lo. Não queria que o fio se rompesse. Aquela noite era dela. Nada podia quebrá-la.
Então, ela começou a andar bem devagar em direção ao carro, e se sentiu a rainha da noite com seu vestido novo marcando seus peitos de bombom, nua, e suas pernas como chicotes de seda, e sua pele desenhada, delicada, impossível. Não podia ser uma mulher autêntica. E, pela primeira vez na vida, ela não parou, não procurou com os olhos a aprovação nem hesitou diante da porta do carro.
0 comentários - Elena na frente do espelho