O poder evocador e fantasioso dos desenhos os torna perfeitos pra recriar a imaginação sexual. Batemos um papo com alguns dos melhores autores deles.
RITA ABUNDANCIA | 22 DE DEZEMBRO, 2015
Uma das ilustrações do Milo Manara.De todos os suportes artísticos que o erotismo pode montar, o livro e a ilustração são os que deixam mais espaço pra fantasia. Mas, enquanto um conto erótico tem um monte de palavras como arsenal intimidador, a imagem tem que chegar na nossa retina como uma mensagem subliminar e provocar uma emoção parecida com a da poesia.Os desenhos picantes vieram antes das fotos e dos filmes, por isso têm uma longa experiência em pegar o caminho mais curto até nossa libido, evocar outros mundos, recriar e materializar sonhos eróticos e imaginar novas e variadas parafilias, praquelas que ainda não inventaram nome nem denominação.A arte Shunga japonesa ou a pintura mogol do norte da Índia, que geralmente é usada pra ilustrar as edições do Kamasutra, foram os primeiros quadrinhos eróticos que tiveram que passar pela censura e que dividiam seu papel didático com o de esquentar a cama.Quando se fala em desenhistas eróticos, o primeiro nome que vem à cabeça na hora é o deMilo Manara, provavelmente o que melhor capturou as caras de mulheres prestes a sentir o êxtase.Uma coisa que, pra muita gente, é infinitamente mais excitante do que corpos lindos e perfeitos. *O Clique* ou *O Perfume do Invisível* são seus trabalhos mais universais, embora ultimamente ele pareça ter se amarrado no Renascimento com suas HQs sobre os Bórgia ou Caravaggio, cheias daquele erotismo que o consagrou nesse ramo do desenho. Também não foi nada desprezível o trampo da artista Gerda Wegener, que além de publicar ilustrações na *Vogue*, chocou a sociedade do começo do século XX com ilustrações eróticas de sexo entre mulheres.
A ilustração erótica hoje tá em plena forma e conta com uma pá de autores que flertam com o futuro e a ficção científica; ou com o passado, as *pin ups*, a herança do Alberto Vargas ou do Guido Crepax, criador da personagem Valentina.
Um dos desenhos da Gerda Wegener que chocaram a sociedade da época.Erotismo do dia seguintePra muitos desenhistas, o erotismo não combina muito com o presente e o cotidiano. Algo que o ilustrador espanhol Luis Royo destaca: "O tempo atual não me interessa muito, porque me dá um certo complexo de Polaroid. Prefiro ir para o passado imaginário ou para o futuro. Não concebo ilustração sem fantasia, é como tirar a alma dela". Royo começou no mundo dos quadrinhos de ficção científica e foi derivando para o erotismo, algo que preocupou seus editores que, segundo ele, "me avisaram que eu iria fracassar". Hoje em dia é conhecido no mundo inteiro por seus *Prohibited Books* – quatro versões –, suas *Suversive Beauties* – guerreiras sensuais e letais – e suas duas edições de *Malefic Times*. Agora Royo trabalha na terceira versão dessa última saga de livros ilustrados, em que a protagonista, uma gostosa e forte sobrevivente de uma Nova York apocalíptica, luta para se manter viva entre anjos, demônios e uma porção de seres inclasificáveis. "Quando larguei os quadrinhos e passei a fazer meus livros, estranhava muito que nas feiras a maioria das minhas leitoras fossem mulheres. Eu acho queO gênero feminino é mais complexo e busca um erotismo cheio de simbologia, menos direto.que quem consegue fisgar o homem que, nesse sentido, é mais sem graça. Em Prohibited, quis chegar o mais perto possível da pornografia. A diferença entre erotismo e pornô é quase invisível e não está no que você vê, mas em como você vê. Um beijo pode ser um ato explícito, cru, e uma relação sexual algo etéreo, metafórico.
As personagens femininas são, muitas vezes, as protagonistas de muitos desses ilustradores. Nas palavras de Royo, "porque o corpo feminino expressa melhor o erotismo e suas contradições. Você pode desenhar um corpo ou rosto delicado, mas com olhar ou inclinações perversas. Mas se você coloca um homem sozinho, nunca funciona. Os personagens masculinos não são tão poliédricos. Não têm tantos matizes.
Um dos trabalhos do Luis Royo.O italianoPaolo Eleuteri Serpieri também aposta em mulheres poderosas e viciadas em sexo.O personagem da Druuna, uma voluptuosa habitante do mundo caótico e perigoso do futuro, teve uma recepção generosa desde seu primeiro livro, Morbus Gravis (1985), que vendeu mais de um milhão de cópias em 20 idiomas diferentes. Certamente por suas cenas de sexo explícito com todo tipo de humanos e seres mutantes. O norte-americano Richard Vance Corben conta, no entanto, com um personagem masculino, Den, para narrar suas aventuras erótico-futuristas. Nosso herói, um engenheiro da época atual, se transporta para um mundo de violência e aventuras, repleto de mulheres com peitões. O próprio personagem sofre uma transformação física e passa de um frangote para um homem musculoso e com um pau enorme. Alguém que as mulheres poderosas de Corben obrigam a usar sua sexualidade sem parar. O argentino radicado na Espanha, Horacio Altuna, combina a sátira com o erotismo e seus personagens femininos são mulheres jovens e desinibidas, seguras de sua sexualidade, para as quais os homens nem sempre estão à altura. Altuna colaborou com a revista Playboy.
Ilustração assinada por Eleuteri Serpieri.Ilustradores japoneses. Perversão refinada.A fórmula magistral japonesa de fazer o passado virar vanguarda e o futuro ter um toque retrô é um ingrediente essencial na filosofia de muitos dos seus ilustradores eróticos mais famosos, que brincam com o tempo como bem entendem. Entre todos eles, Hajime Sorayama é o mais popular, e seus trabalhos são expostos em museus de arte – o design dele para o robô da Sony, AIBO, faz parte da coleção permanente do MOMA – e ganham prêmios, como o Vargas Award. Esse artista já trabalhou pra Nike, George Lucas, Aerosmith, Playboy, Penthouse, Marvel Comics e Disney. Suas gynoids, androides sugestivas com formas femininas, vieram à tona em 1983 no livro *Sexy Robot* e continuam sendo suas personagens mais marcantes, como mostra uma das suas últimas publicações, *Sorayama XL* (2014).
Yuji Moriguchi mistura o mangá, gênero com o qual começou a carreira, com a pintura shunga japonesa. Geishas sem vergonha, colegiais sendo penetradas pelos tentáculos de um polvo, donas de casa se masturbando com produtos da cesta de compras ou lulas gigantes, com formas fálicas, raptando lolitas na praia. Muitas vezes, as obras eróticas do Yuji são encomendas onde o cliente dá sugestões pro artista sobre a fantasia que quer ver representada. Nos desenhos de Yoji Muku, muito mais perversos, o shibari, a modalidade japonesa de bondage que segue princípios técnicos e estéticos, é o personagem principal. Takato Yamamoto vai além e junta todos os elementos: mangá, estética shunga, mulheres imóveis sob as cordas, caveiras, referências góticas, vampiros, cemitérios e inspiração da arte europeia do final do século XIX. Mas, com certeza, o título de *enfant terrible* da sexualidade em imagens fica, no Japão, com Namio Harukawa, natural de Osaka. Um espírito provocador que nada contra a corrente. Enquanto o imaginário sexual japonês pende pra carinhas infantis e mocinhas inocentes, esse ilustrador é conhecido por suas mulheres volumosas, com Sobrepeso e uma vontade dominadora, de sentar em rostos de homens fracos, submissos e medrosos. Algo como um Botero perverso e oriental.
Ilustração estilo Sorayama.Pin ups revisadasAs garotas do calendário é mais um dos temas recorrentes de muitos artistas que se dedicam a traduzir o erotismo em imagens. A francesa Serge Birault é uma delas. Sua pintura digital retrata mulheres gostosas, safadas, com más intenções e, muitas vezes, armadas. No entanto, como Birault confessa, a sexualidade não é uma de suas intenções na hora de desenhar. "Minha concepção pessoal de erotismo é muito diferente do que eu pinto. Não tento fazer imagens eróticas. Seria muito difícil definir o que é, porque cada um tem sua própria percepção do que essa palavra significa." Mesmo assim, essa desenhista reconhece que "a pintura é o único meio perfeito para traçar curvas. Você pode enganar e trapacear para conseguir a curva perfeita." O humor também é um ingrediente essencial nas imagens de Birault: "a arte das pin ups é sempre sobre garotas gostosas, mas acho que fazer algo que também seja engraçado é mais interessante." Suas ilustrações, segundo a própria autora, interessam muito ao público feminino: "metade dos meus seguidores são garotas. E acho que é porque retrato mulheres fortes, não vítimas." Suas fontes de inspiração são muitas: "desenhos animados, nomes como Dean Yaegle, Bruce Timm, Shane Glines ou o próprio Hajime Sorayama", mas também pinturas de Rembrandt, as obras do ilustrador Norman Rockwell, que retratou como ninguém o estilo de vida americano, ou atrizes da moda como Gong Li ou Amanda Seyfried. A própria Serge parece uma caricatura forte e irônica de Betty Page, a rainha das pin ups. Olivia de Berardinis, de Malibu, também cultua em seus desenhos mulheres com pouca roupa, provocantes, agressivas. Metade humanas, metade animais ou robôs; mas quase todas com um toque retrô, ou com vocação para avatares de Dita Von Teese, Marilyn Monroe ou pin ups lendárias. Enquanto isso, a obsessão de Marcus Gray, de Glasgow, pelo látex, o torna a referência dos viciados nesse material. tecido erótico.
Uma obra de Milo Manara.
7 comentários - Sexualidad en imágenes: los mejores ilustradores eróticos