Maravilha Amarrada: Feminismo e Bondage nos Quadrinhos (1941


A Mulher Maravilha açoitando um homem vestido de soldado romano.
Mulher Maravilha: "É disso que vocês, marcianos, precisam pra curar esses chiliques!
Enquanto crescia, eu achava que a Mulher-Maravilha tinha sido criada no passado como um ícone feminista perfeito, e que só depois foi sexualizada por outros criadores. Na verdade, a Mulher-Maravilha foi "sempre, sempre" tanto uma figura de fantasia fetichista quanto um modelo feminista a ser seguido, símbolo patriótico ou heroína das crianças.

Os sete anos de duração dos quadrinhos originais, escritos ou co-escritos por William Moulton Marston e ilustrados por William Peter, mostram o tipo de esquisitice psicossexual que geralmente só se encontrava em livros infantis do século XIX. O livro de Noah Berlatsky explora até que ponto essas histórias eram "queer" e feministas; como o autor diz, "uma bagunça escancaradamente sem gênero.

Maravilha Amarrada: Feminismo e Bondage nos Quadrinhos (1941O livro de Berlatsky foca quase exclusivamente na história em quadrinhos original, escrita ou co-escrita por Marston e ilustrada por Harry G Peter, que tinha trabalhado com "Garotas Gibson", aquelas minas pin-up do começo do século XX geralmente retratadas como fortes, instruídas e independentes.

Assim, Berlatsky se pergunta: como é que Marston / Peter, no começo, conseguem ser ao mesmo tempo feministas e amantes do bondage e outras paradas fetichistas?

Berlatsky discute essa aparente paradoxo em detalhes, revisando as críticas de escritoras feministas como John Stoltenberg e Susan Brownmiller. Brownmiller, em particular, enxerga a "relação senhor-escravo" como a base da sexualidade controlada pelo homem. Berlatsky cita ela em *Contra Nossa Vontade*:

“Dos haréns de escravas do potentado oriental, celebrados em poesia e dança, às descrições intensas de mulheres de luxo de pele clara, obrigatórias num gênero específico de ficção histórica pulp, a glorificação do sexo forçado na escravidão, estupro institucional, tem sido parte da nossa herança cultural, alimentando o ego dos homens e os egos das mulheres – e, no processo, danificando irreparavelmente uma sexualidade saudável.”

Berlatsky aponta que, ao condenar a escravidão erotizada, Brownmiller acaba participando dela. "... Não tem como imaginar se libertar da escravidão sem imaginar a escravidão, com todas as suas conotações."

A popularidade das histórias com mulheres sendo vitimizadas, tipo *Crepúsculo*, *50 Tons de Cinza* e *Jogos Vorazes*, mostra que elas se conectaram fortemente com a vida das minas e mulheres. São formas de falar sobre as experiências femininas. (Eu questiono colocar *Jogos Vorazes* junto com as outras duas obras.)

Os romances góticos mostram mulheres em perigo sexual não pra curtir a imagem da mulher em perigo sexual, mas sim porque as mulheres frequentemente estão em perigo sexual e querem ler livros que abordem suas experiências. Do mesmo modo, Marston, [co-roteirista, Joy] Murchison e Peter não mostram o estupro de Perséfone porque o estupro de Perséfone é algo excitante de ver. Eles mostram porque as garotas (e garotos também) enfrentam o incesto e o estupro, e as histórias que os mencionam, portanto, devem abrangê-los também.

Ou isso é o que venho discutindo. Mas a verdade, talvez, seja menos clara. Marston, Murchison e Peter, em Mulher-Maravilha #16, escrevem sobre incesto e estupro, e fazem isso de uma perspectiva conscientemente feminista. Mas isso não significa que eles também não possam curtir a servidão fetichizada.

Marston, Murchison e Peter apresentam o incesto como trauma e tragédia. Mas também o apresentam, e o utilizam, como fetiche.

Este é o conhecido problema da intenção do autor versus a recepção do público.bondageMarston chegou a escrever histórias em quadrinhos com suas próprias ideias desenvolvidas sobre gênero, sexualidade e política.

Seu livro *Emoções das Pessoas Normais* descreve a dominação e submissão como emoções humanas fundamentais, baseando-se em seus estudos sobre festas de iniciação em que as calouras se vestiam de bebês, confessavam suas falhas e fingiam ser castigadas.

Marston descreve isso como "emoção de encanto", que poderia existir tanto entre gêneros quanto dentro do mesmo gênero. Qualquer gênero poderia ocupar qualquer posição no par dominante/submisso.

Ou seja, para Marston, Murchison e Peter, não há necessariamente contradições entre encarar a realidade do estupro e do abuso (para mulheres e também para homens) e curtir uma brincadeira sexual com pegada BDSM (para todo mundo).

Segundo Berlatsky, as pessoas podem ter uma sexualidade dominante/submissa e ainda assim merecer proteção.

O trauma se repete, e a violência se repete, mas isso não significa que a pessoa traumatizada só possa ser uma vítima submissa — ou um anjo vingativo empoderado. Na verdade, Marston parece acreditar que, uma vez que o poder do estupro seja quebrado, o mundo estará seguro para fantasias de estupro e para a dominação e submissão — as emoções normais.

Sadomasoquismo

Você é incrivelmente forte, mulher terráquea. Tão forte quanto nossos homens. Vamos te usar como usamos eles para trabalhar.

A filosofia de Marston é que as mulheres devem liderar porque não têm o mesmo tipo de ego que os homens, porque são capazes de amor e submissão em maior grau que os homens. O masoquismo feminino é o centro de tudo, a fundação de uma nova ordem social matriarcal.

Finalmente temos uma resposta definitiva, portanto, para a pergunta feita pela primeira vez no capítulo 1. As muitas, muitas, muitas, muitas imagens da Mulher-Maravilha amarrada [...] não existem (ou não estão ali unicamente) para que o público de Marston – sejam homens ou mulheres – possa se excitar com a desempoderamento das mulheres. Pelo contrário, estão ali para ensinar aos homens (e às mulheres também) o prazer da contenção.

Isso se percebe mais diretamente na visão utópica de Marston sobre a Ilha Paraíso, que é, basicamente, jogos de bondage o dia inteiro. Na Mulher-Maravilha nº 3, a Mulher-Maravilha se ofereceu felizmente como voluntária para ser disfarçada de veado, capturada, "esfolada" e preparada para assar, ou ser amarrada e assada – de mentira – em um bolo gigante. Tudo por diversão.

BDSM
Na Ilha Paraíso, onde a gente joga um monte de jogos de bondage, essa é considerada a maneira mais segura de amarrar os braços de uma garota.
Lésbicas D/s é a dinâmica subjacente de tudo no mundo de Marston. Até no seu romance pulp quase-histórico *Venus with Us: A Tale of the Caesar*, existem representações positivas de relações sapatão. Lembra, Marston viveu uma vida meio em negação, casado com Elizabeth Holloway e morando com uma estudante de pós-graduação, Olive Byrne.

É de conhecimento público entre estudiosos e fãs de quadrinhos de super-heróis americanos, mas frequentemente se assume, até entre escritoras feministas e queer, que Marston era o macho alfa da casa. Berlatsky aponta que não só Holloway e Byrne nomearam seus filhos em homenagem uma à outra, como continuaram morando juntas por 40 anos depois da morte de Marston.

É possível, até provável, que os laços afetivos e sexuais entre as duas mulheres fossem tão ou mais fortes que as relações delas com Marston. Portanto, Marston era o "homem de fora", uma espécie de cúmplice da relação lésbica delas, bem-vindo mas não essencial.Feminismo
Naquela noite, a nova escrava da Mulher-Maravilha se apresentou. "Aqui está seu chicote, Ama. A senhora não me deu minha surra diária." "Não seja ridícula. Não vou te bater! Me conte sobre você.
O poliamoroso Marston, no entanto, não via as relações mulher-mulher como excludentes. Pra ele, o lesbianismo e as comunidades femininas podiam aceitar homens sem cair em contradições ou incongruências, porque quando o assunto é sexualidade, quem decide são as mulheres, não os homens.

Nesse sentido, as sociedades das Amazonas em Mulher-Maravilha #23 não se mantiveram puras [dos homens] e não precisavam ser mantidas puras. As Amazonas simplesmente aceitaram homens e, ao fazer isso, os transformaram em mulheres. [...] Mas pra Marston, um espaço feminino que contém um homem o conquista e o transforma em mulher.

Berlatsky só aborda rapidamente o resto da história da Mulher-Maravilha nos quadrinhos e outras mídias. Não só porque nenhum outro escritor ou artista conseguiu alcançar esse nível de genialidade.

Ele diz que outros criadores refutam agressivamente a filosofia de Marston (por exemplo, um retcon recente diz que Diana era, na verdade, filha ilegítima de Zeus, em vez de ter sido moldada à mão com barro pela mãe e ganhado vida pela intervenção de uma deusa) ou simplesmente mencionam os ideais de Marston (por exemplo, uma história ideologicamente incoerente sobre o conflito entre militarismo e pacifismo).

As ideias de Marston eram estranhas, mas tinham sua própria coerência interna. Sem ser limitado por considerações de realismo ou lógica adulta, ele podia criar histórias que se destacavam das oposições binárias de gênero. Sua criação mais famosa era um monte de paradoxos que não deveriam existir, mas existiam.

2 comentários - Maravilha Amarrada: Feminismo e Bondage nos Quadrinhos (1941

La mujer maravilla solo necesitaba un buen pene y se quedaba callada jejeje