A Mulher-Maravilha açoitando um homem vestido de soldado romano.
Mulher-Maravilha: "É isso que vocês, marcianos, precisam pra curar esses chiliques!
Enquanto crescia, eu achava que a Mulher-Maravilha tinha sido criada no passado como um ícone feminista perfeito, e que só depois foi sexualizada por outros criadores. Na verdade, a Mulher-Maravilha foi "sempre, sempre" tanto uma figura de fantasia fetichista quanto um modelo feminista a ser seguido, símbolo patriótico ou heroína das crianças.Mulher-Maravilha: "É isso que vocês, marcianos, precisam pra curar esses chiliques!
Os sete anos de duração dos quadrinhos originais, escritos ou co-escritos por William Moulton Marston e ilustrados por William Peter, mostram o tipo de esquisitice psicossexual que geralmente só se encontrava em livros infantis do século XIX. O livro de Noah Berlatsky explora até que ponto essas histórias eram "queer" e feministas; como o autor diz, "uma bagunça ostensivamente sem gênero.
O livro do Berlatsky foca quase exclusivamente na história em quadrinhos original, escrita ou co-escrita pelo Marston e ilustrada pelo Harry G Peter, que trabalhava com "Garotas Gibson", minas de arte pin-up do começo do século XX geralmente retratadas como fortes, instruídas e independentes.Assim, Berlatsky se pergunta: como pode Marston / Peter, no começo, ser ao mesmo tempo feministas e amantes do bondage e outras paradas fetichistas?
Berlatsky discute essa aparente paradoxo em detalhes, revisando as críticas de escritoras feministas como John Stoltenberg e Susan Brownmiller. Brownmiller, em especial, vê a "relação senhor-escravo" como base da sexualidade controlada pelo homem. Berlatsky cita ela em *Contra Nossa Vontade*:
“Dos haréns de escravas do potentado oriental, celebrados na poesia e na dança, às descrições intensas de mulheres de luxo de pele clara, obrigatórias num gênero específico de ficção histórica e pulp, a glorificação do sexo forçado na escravidão, estupro institucional, tem sido parte do nosso patrimônio cultural, alimentando o ego dos homens e os egos das mulheres – e, no processo, danificando irreparavelmente uma sexualidade saudável.”
Berlatsky aponta que, ao condenar a escravidão erotizada, Brownmiller participa dela. "... Não tem como imaginar se libertar da escravidão sem imaginar a escravidão, com todas as suas conotações."
A popularidade das histórias com mulheres sendo vitimizadas, como *Crepúsculo*, *50 Tons de Cinza* e *Jogos Vorazes*, indica que elas conectaram firme com a vida das minas e mulheres. São formas de falar sobre as experiências femininas. (Questiono colocar *Jogos Vorazes* junto com as outras duas obras.)
Os romances góticos mostram mulheres em perigo sexual não pra curtir a imagem de mulheres em perigo sexual, mas sim porque as mulheres frequentemente tão em perigo sexual e querem ler livros que abordem suas experiências. Da mesma forma, Marston, [co-roteirista, Joy] Murchison e Peter não mostram o estupro de Perséfone, porque o estupro de Perséfone é algo excitante de ver. Eles mostram porque as garotas (e garotos também) enfrentam o incesto e o estupro, e as histórias que os mencionam, portanto, devem abrangê-los também.
Ou isso é o que venho discutindo. Mas a verdade, talvez, seja menos clara. Marston, Murchison e Peter, na Mulher-Maravilha #16, escrevem sobre incesto e estupro, e fazem isso de uma perspectiva conscientemente feminista. Mas isso não significa que eles também não possam curtir a servidão fetichizada.
Marston, Murchison e Peter apresentam o incesto como trauma e tragédia. Mas também o apresentam, e o utilizam, como fetiche.
Este é o conhecido problema da intenção do autor versus a recepção do público.
Marston chegou a escrever histórias em quadrinhos com suas próprias ideias desenvolvidas sobre gênero, sexualidade e política.Seu livro *Emoções das Pessoas Normais* descreve a dominação e submissão como emoções humanas fundamentais, baseado em seus estudos sobre festas de iniciação onde as calouras se vestiam como bebês, confessavam suas falhas e fingiam ser castigadas.
Marston descreve isso como "emoção de encanto", que poderia existir tanto entre gêneros quanto dentro do mesmo gênero. Qualquer gênero poderia ocupar qualquer posição no par dominante/submisso.
Ou seja, para Marston, Murchison e Peter, não há necessariamente contradições entre encarar a realidade do estupro e do abuso (para mulheres e também para homens) e curtir uma brincadeira sexual com BDSM (para todo mundo).
Segundo Berlatsky, as pessoas podem ter uma sexualidade dominante/submissa e ainda assim merecer proteção.
O trauma se repete, e a violência se repete, mas isso não significa que a pessoa traumatizada só pode ser uma vítima submissa — ou um anjo vingativo empoderado. Na verdade, Marston parece acreditar que, uma vez que o poder do estupro é quebrado, o mundo estará seguro para fantasias de estupro e para dominação e submissão — as emoções normais.

Você é incrivelmente forte, mulher terráquea. Tão forte quanto nossos homens. Vamos te usar como usamos eles para trabalhar.
Finalmente temos uma resposta definitiva, portanto, para a pergunta feita pela primeira vez no capítulo 1. As muitas, muitas, muitas, muitas imagens da Mulher-Maravilha amarrada [...] não existem (ou não estão ali unicamente) para que o público de Marston – sejam homens ou mulheres – possa se excitar com o desempoderamento das mulheres. Pelo contrário, estão ali para ensinar aos homens (e às mulheres também) o prazer da contenção.
Isso se percebe mais diretamente na visão utópica de Marston sobre a Ilha Paraíso, que é, basicamente, pura putaria de bondage o dia inteiro. Em Mulher-Maravilha nº 3, a Mulher-Maravilha se ofereceu felizmente como voluntária para ser fantasiada de veado, capturada, "esfolada" e preparada para assar, ou ser amarrada e assada – de mentira – dentro de um bolo gigante. Tudo pra se divertir.

Na Ilha Paraíso, onde a gente joga um monte de jogos de bondage, essa é considerada a maneira mais segura de amarrar os braços de uma garota.
Sapatão D/s é a dinâmica por trás de tudo no mundo do Marston. Até no seu romance pulp quase histórico *Venus with Us: A Tale of the Caesar*, tem representações positivas de relacionamento entre minas. Lembra, Marston viveu uma vida meio na negação, casado com a Elizabeth Holloway e morando com uma estudante de pós-graduação, a Olive Byrne.É de conhecimento geral entre os estudiosos e fãs de quadrinhos de super-heróis americanos, mas muita gente assume, até mesmo escritoras feministas e queer, que o Marston era o macho alfa da casa. A Berlatsky aponta que não só a Holloway e a Byrne nomearam os filhos uma em homenagem à outra, como continuaram morando juntas por 40 anos depois da morte do Marston.
É possível, até provável, que os laços afetivos e sexuais entre as duas mulheres fossem tão fortes ou mais fortes que os relacionamentos delas com o Marston. Portanto, o Marston era o "cara excluído", uma espécie de cúmplice no relacionamento sapatão delas, bem-vindo mas não essencial.

Naquela noite, a nova escrava da Mulher-Maravilha se apresentou. "Aqui está seu chicote, Ama. A senhora não me deu minha surra diária." "Não seja ridícula. Não vou te bater! Me conta sobre você.
O poliamoroso Marston, no entanto, não via as relações entre mulheres como excludentes. Pelo contrário, pra ele, o lesbianismo e as comunidades femininas podem aceitar homens sem cair em contradições ou incongruências, porque quando o assunto é sexualidade, quem decide são as mulheres, não os homens.
Nesse sentido, as sociedades das Amazonas na Mulher-Maravilha #23 não se mantiveram puras [dos homens] e não precisavam ser mantidas puras. As Amazonas simplesmente aceitaram homens e, ao fazer isso, os transformaram em mulheres. [...] Mas pra Marston, um espaço feminino que contém um homem o conquista e o converte em mulher.
Berlatsky só aborda rapidamente o resto da história da Mulher-Maravilha nos quadrinhos e em outras mídias. Não só porque nenhum outro escritor ou artista conseguiu atingir esse nível de genialidade.
Ele diz que outros criadores refutam agressivamente a filosofia de Marston (por exemplo, um retcon recente diz que Diana era, na verdade, filha ilegítima de Zeus, em vez de ter sido moldada à mão com argila pela mãe e ganhado vida pela intervenção de uma deusa) ou simplesmente mencionam os ideais de Marston (por exemplo, uma história ideologicamente incoerente sobre o conflito entre militarismo e pacifismo).
As ideias de Marston eram estranhas, mas tinham sua própria coerência interna. Sem ser limitado por considerações de realismo ou lógica adulta, ele podia criar histórias que se destacavam das oposições binárias de gênero. Sua criação mais famosa era um monte de paradoxos que não deveriam existir, mas existiam.
Nesse sentido, as sociedades das Amazonas na Mulher-Maravilha #23 não se mantiveram puras [dos homens] e não precisavam ser mantidas puras. As Amazonas simplesmente aceitaram homens e, ao fazer isso, os transformaram em mulheres. [...] Mas pra Marston, um espaço feminino que contém um homem o conquista e o converte em mulher.
Berlatsky só aborda rapidamente o resto da história da Mulher-Maravilha nos quadrinhos e em outras mídias. Não só porque nenhum outro escritor ou artista conseguiu atingir esse nível de genialidade.
Ele diz que outros criadores refutam agressivamente a filosofia de Marston (por exemplo, um retcon recente diz que Diana era, na verdade, filha ilegítima de Zeus, em vez de ter sido moldada à mão com argila pela mãe e ganhado vida pela intervenção de uma deusa) ou simplesmente mencionam os ideais de Marston (por exemplo, uma história ideologicamente incoerente sobre o conflito entre militarismo e pacifismo).
As ideias de Marston eram estranhas, mas tinham sua própria coerência interna. Sem ser limitado por considerações de realismo ou lógica adulta, ele podia criar histórias que se destacavam das oposições binárias de gênero. Sua criação mais famosa era um monte de paradoxos que não deveriam existir, mas existiam.
2 comentários - Maravilha em Bondage: Feminismo nos Quadrinhos 1941/48
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