Caty Kharma não podia dizer que não tava apaixonada pelo Mariano. Também não podia dizer que tava. Fazia mais de um mês que eles se viam e dormiam juntos, no máximo uma vez por semana. Diferente do que seria normal, Caty não desconfiava que, durante os seis dias que ele não aparecia, ele tivesse com outra mulher. Era impossível ele estar com outra mulher; com toda certeza, teria sido um milagre igual àqueles de Jesus, onde os paralíticos andam e os cegos enxergam.
Mariano era amigo de uma amiga de uma amiga que tinha apresentado ele pra Caty. Provavelmente, Mariano comeu as duas amigas, mas o segredo era bem guardado. Não porque ele fosse um amante fogoso ou curtiesse umas práticas perversas na hora do sexo; muito pelo contrário. Também não dava pra dizer que Mariano não era gente boa. Nunca tinha matado ninguém, nem sequer tinha brigado na porrada em nenhum momento dos seus trinta e dois anos. E não só quando ousava contar uma piada suja trocava os palavrões pelos nomes médicos, mas até quando tinha uma epifania e sugeria pra Caty Kharma, durante o sexo, trocar de posição, usava termos como pênis, sugar e até glândula mamária. Esse cara teria feito uma carreira foda em Enfermagem, mas tinha um talento musical enorme — segundo ele, porque Caty não se deu ao trabalho de ouvir. A paixão dele era a gaita. Sim, ele fazia cursos de gaita galega e podia falar por um tempão antes de ir pra cama sobre a capacidade da gaita de soar nas jotas e nas muñeiras. Ele colocava tanto entusiasmo ao falar da gaita, que até ofereceu a Caty dar um show pra ela uma noite: um show íntimo. Caty se sentiu lisonjeada e agradeceu, insistindo que ele era “um ser muito amável”, mas ela tinha um condomínio que ia ter que dar satisfação se ele começasse a soltar uns apitos miseráveis a noite inteira e ninguém dormisse. Mariano, sempre tão compreensivo, concordou. Verdade, ele tinha considerado começar a estudar vihuela. “A vihuela é muito mais calma”, declarou.
A expressão “Que tédio” nunca saiu da boca de Caty Kharma e ela sempre segurou os bocejos durante as aulas musicais do amante. O fim, no entanto, veio de repente. Mariano costumava dormir como uma pedra depois de transar. No começo, Caty achava ofensivo, mas depois decidiu abrir a mente e ler o que a ciência diz. Pois é. Parece que é a coisa mais normal do mundo o cara que tá do teu lado, depois de gozar, virar de costas e roncar igual um bicho. Sim, durante o orgasmo, são liberadas substâncias químicas como ocitocina, prolactina, ácido aminobutírico e endorfinas. A ocitocina, explicava o manual científico que a Caty consultou, também chamada de ‘hormônio do carinho’, dá vontade de intimidade, mas não de um jeito sexual (contanto que não fosse com a gaita!!); a prolactina dá sono e as endorfinas são sedativos (toca aí “Gitana Mora” ou “La alborada gallega” e a gente vê se as endorfinas que a música produz também são sedativas ou se te fodem os nervos por uma semana inteira). O negócio foi que na oitava noite que dormiram juntos, quando já tinham se desenrolado e estavam deitados um do lado do outro na penumbra, de mãos dadas, Caty contou em voz alta a história de como quase se casou aos vinte anos e o noivo deixou ela plantada no altar. Era uma história dramática, e ela até fungava nos momentos mais tensos pra dar emoção à parada. Contar como o hamster dela morreu de pneumonia era meio sem graça perto disso. O negócio foi que depois do relato, no qual Caty tinha enxugado as lágrimas de atriz no lençol, ela perguntou pro ar:
- Eu merecia uma injustiça dessas? Ele podia ter me dito que tava apaixonado por outra, né?
Não veio resposta do outro lado.
Caty entendeu que o silêncio do Mariano não era desprezo pela história dela. Mariano tava dormindo que nem uma pedra. Oito horas depois, quinze minutos antes do despertador tocar, Mariano abriu os olhos totalmente lúcido e decretou:
- É muito chato você ter passado por um pé na bunda; seu namorado, sem ofender, era um babaca.
Foi a última vez que Mariano e Caty se viram.
Depois, ela lembrou de uma amiga que vivia caçando um namorado.
Caty passou o telefone do Mariano pra ela.
Mariano era amigo de uma amiga de uma amiga que tinha apresentado ele pra Caty. Provavelmente, Mariano comeu as duas amigas, mas o segredo era bem guardado. Não porque ele fosse um amante fogoso ou curtiesse umas práticas perversas na hora do sexo; muito pelo contrário. Também não dava pra dizer que Mariano não era gente boa. Nunca tinha matado ninguém, nem sequer tinha brigado na porrada em nenhum momento dos seus trinta e dois anos. E não só quando ousava contar uma piada suja trocava os palavrões pelos nomes médicos, mas até quando tinha uma epifania e sugeria pra Caty Kharma, durante o sexo, trocar de posição, usava termos como pênis, sugar e até glândula mamária. Esse cara teria feito uma carreira foda em Enfermagem, mas tinha um talento musical enorme — segundo ele, porque Caty não se deu ao trabalho de ouvir. A paixão dele era a gaita. Sim, ele fazia cursos de gaita galega e podia falar por um tempão antes de ir pra cama sobre a capacidade da gaita de soar nas jotas e nas muñeiras. Ele colocava tanto entusiasmo ao falar da gaita, que até ofereceu a Caty dar um show pra ela uma noite: um show íntimo. Caty se sentiu lisonjeada e agradeceu, insistindo que ele era “um ser muito amável”, mas ela tinha um condomínio que ia ter que dar satisfação se ele começasse a soltar uns apitos miseráveis a noite inteira e ninguém dormisse. Mariano, sempre tão compreensivo, concordou. Verdade, ele tinha considerado começar a estudar vihuela. “A vihuela é muito mais calma”, declarou.A expressão “Que tédio” nunca saiu da boca de Caty Kharma e ela sempre segurou os bocejos durante as aulas musicais do amante. O fim, no entanto, veio de repente. Mariano costumava dormir como uma pedra depois de transar. No começo, Caty achava ofensivo, mas depois decidiu abrir a mente e ler o que a ciência diz. Pois é. Parece que é a coisa mais normal do mundo o cara que tá do teu lado, depois de gozar, virar de costas e roncar igual um bicho. Sim, durante o orgasmo, são liberadas substâncias químicas como ocitocina, prolactina, ácido aminobutírico e endorfinas. A ocitocina, explicava o manual científico que a Caty consultou, também chamada de ‘hormônio do carinho’, dá vontade de intimidade, mas não de um jeito sexual (contanto que não fosse com a gaita!!); a prolactina dá sono e as endorfinas são sedativos (toca aí “Gitana Mora” ou “La alborada gallega” e a gente vê se as endorfinas que a música produz também são sedativas ou se te fodem os nervos por uma semana inteira). O negócio foi que na oitava noite que dormiram juntos, quando já tinham se desenrolado e estavam deitados um do lado do outro na penumbra, de mãos dadas, Caty contou em voz alta a história de como quase se casou aos vinte anos e o noivo deixou ela plantada no altar. Era uma história dramática, e ela até fungava nos momentos mais tensos pra dar emoção à parada. Contar como o hamster dela morreu de pneumonia era meio sem graça perto disso. O negócio foi que depois do relato, no qual Caty tinha enxugado as lágrimas de atriz no lençol, ela perguntou pro ar:
- Eu merecia uma injustiça dessas? Ele podia ter me dito que tava apaixonado por outra, né?
Não veio resposta do outro lado.
Caty entendeu que o silêncio do Mariano não era desprezo pela história dela. Mariano tava dormindo que nem uma pedra. Oito horas depois, quinze minutos antes do despertador tocar, Mariano abriu os olhos totalmente lúcido e decretou:
- É muito chato você ter passado por um pé na bunda; seu namorado, sem ofender, era um babaca.
Foi a última vez que Mariano e Caty se viram.
Depois, ela lembrou de uma amiga que vivia caçando um namorado.
Caty passou o telefone do Mariano pra ela.
2 comentários - Cuando tu amante se duerme