SEXO, LOVE E ORAÇÃO: TRÊS DEGRAUS RUMO AO DIVINO Por favor, nos descreva o significado espiritual da energia sexual. Como podemos sublimar e espiritualizar o sexo? É possível ter atividade sexual, fazer amor, como uma meditação, como um trampolim para níveis mais elevados de consciência? A energia sexual não existe. A energia é una e a mesma. O sexo é uma das formas como ela se expressa, é uma de suas direções; é uma das aplicações da energia. A energia vital é uma só, mas pode se manifestar em muitas direções. O sexo é uma delas. Quando a energia vital se torna biológica, ela se transforma em energia sexual. O sexo é apenas uma forma de usar a energia vital. Portanto, não existe sublimação. Se a energia vital flui em outra direção, não há sexo. No entanto, isso não é uma sublimação; é uma transformação. O sexo é o fluxo natural e biológico da energia vital, e a forma mais básica de usá-la. É natural porque a vida não pode existir sem ele, e é a forma mais básica porque é a base, não o topo. Quando o sexo é tudo, a vida inteira é só um desperdício. É como construir uma fundação e ficar nisso sem nunca erguer a casa para a qual essa fundação foi feita. O sexo representa apenas uma oportunidade para uma transformação mais elevada da energia vital. O sexo é bom até onde vai; no entanto, quando se transforma no todo, quando se torna a única porta de saída da energia vital, ele se torna destrutivo. Pode ser apenas um meio, não o fim. E os meios só são significativos quando os fins são alcançados. Quando um homem abusa dos meios, o objetivo se perde. Se o sexo se torna a coisa mais importante na vida (e isso já aconteceu), os meios se transformam em fins. O sexo cria a base biológica para que a vida exista e continue. É um meio; não deveria se tornar o fim. Se o sexo se torna o fim, perde-se a dimensão espiritual. Mas se o sexo se tornar meditativo, ele é canalizado para a dimensão espiritual. Vira um trampolim. Não existe necessidade de sublimação porque a energia como tal não é nem sexual nem espiritual. A energia é sempre neutra. Em si, não tem nome. O nome depende da porta por onde ela flui. O nome não é o nome da energia em si; é o nome da forma que a energia assume. Quando você fala de "energia sexual", está se referindo à energia que flui através do sexo, através de uma porta biológica. A mesma energia é energia espiritual quando flui para o divino. A energia em si é neutra. Quando se expressa biologicamente, é sexo. Quando se expressa emocionalmente, pode se transformar em amor, pode se transformar em ódio, pode se transformar em raiva. Quando se expressa através do intelecto, pode ser do tipo científico, pode ser do tipo literário. É do tipo físico quando é mobilizada através do corpo. Quando é mobilizada através da mente, é do tipo mental. As diferenças não são diferenças da energia como tal, mas sim da aplicação de suas manifestações. Assim, então, não é correto falar "de sublimação de energia sexual". Se a porta do sexo não for usada, a energia volta a ser pura. A energia é sempre pura. Quando se manifesta através do divino, se transforma em espiritual; no entanto, a forma é apenas uma manifestação da energia. A palavra "sublimação" tem associações muito negativas. Todas as teorias sobre sublimação são teorias de repressão. Quando você fala de "sublimação do sexo", você se torna seu antagonista. Sua condenação está ali, na própria palavra. Você pergunta o que se pode fazer com o sexo. Qualquer coisa que se faça diretamente ao sexo é uma repressão. Só existem métodos indiretos nos quais você não se envolve em nada com a energia sexual diretamente, mas, em vez disso, busca abrir a porta para o divino. Quando a porta se abre Em direção ao divino, todas as energias que existem dentro de você começam a fluir nessa direção. O sexo, então, é absorvido. Quando é possível alcançar um êxtase mais elevado, as formas inferiores de êxtase perdem a graça. Não se trata de você suprimi-las ou lutar contra elas. Elas simplesmente murcham. O sexo não é sublimado; é transcendido. Você não vai transformar a energia fazendo algo negativo contra o sexo. Pelo contrário, vai criar um conflito destrutivo dentro de você. Quando você luta contra uma energia, está lutando contra si mesmo. Ninguém pode vencer essa briga. Em algum momento, você vai sentir que venceu, e no minuto seguinte vai sentir que o sexo te venceu. Isso vai continuar para sempre. Às vezes, não vai ter sexo, e você vai sentir que tem controle; depois, vai sentir que o sexo te puxa de novo e você perde tudo que achou que tinha ganhado. Ninguém consegue vencer uma briga contra a própria energia. Se uma fonte de êxtase maior atrair suas energias, o sexo vai desaparecer. Não é que a energia tenha sido sublimada; não é que você tenha feito algo com ela. Na verdade, um novo caminho para um êxtase maior se abriu para você, automática e espontaneamente. A energia começa a fluir para a nova porta. Se você está carregando pedras e de repente encontra diamantes, nem vai perceber que largou as pedras. Elas vão cair sozinhas, como se nunca tivessem estado com você. Você nem vai lembrar que abriu mão delas, que as deixou para trás. Nem vai notar. Não é que você tenha sublimado algo. Uma fonte maior de felicidade se abriu, e as fontes menores se apagaram por conta própria. Isso acontece de forma tão automática, tão espontânea, que não é preciso fazer nada contra o sexo. Tudo que você fizer contra qualquer energia será negativo. A ação positiva e verdadeira nem tem relação com o sexo: ela está ligada à meditação. Você nem vai perceber que o sexo desapareceu. Simplesmente, O novo a absorveu. Sublimação é uma palavra feia. Tem um tom de antagonismo, de conflito. O sexo devia ser encarado como o que é. É só a base biológica que permite que a vida exista. Não deem a ele nenhum significado espiritual ou antiespiritual. Simplesmente entendam o fato factual. Quando é considerado um fato biológico, ninguém se preocupa. Só começam a se preocupar quando dão algum significado espiritual a ele. Então, portanto, não deem significado nenhum; não atribuam nenhuma filosofia a ele. Limitem-se a contemplar os fatos. Não façam nada a favor do sexo nem contra ele. Deixem ele ser o que é; aceitem como algo normal. Não assumam uma atitude anormal diante dele. Assim como vocês têm olhos e mãos, também têm sexo. Vocês não são contra seus olhos ou suas mãos, então não rejeitem o sexo. Nessa atitude, a pergunta sobre o que deve ser feito com o sexo vai se tornar irrelevante. Criar uma dicotomia a favor ou contra o sexo é irrelevante. É um fato consumado. Vocês chegaram a este mundo através do sexo, e é também através do sexo que lhes foi dada a possibilidade de originar um novo ser. Vocês são parte de uma grande continuidade. Seu corpo vai morrer, então está programado para criar outro corpo que o substitua. A morte é certa. É por isso que o sexo é algo tão obsessivo. Vocês não vão ficar aqui para sempre, então terão que ser substituídos por um novo corpo, uma réplica. O sexo é assim tão importante porque toda a natureza insiste nele; senão, o homem não poderia continuar existindo. Se fosse algo voluntário, não sobraria ninguém na Terra. O sexo é tão obsessivo, tão urgente, o impulso sexual é tão intenso, porque a natureza inteira o apoia. Sem ele, a vida não pode existir. O sexo é muito importante para os buscadores espirituais, porque é tão involuntário, tão urgente, tão natural. Ele se transformou num critério para saber se a energia vital de uma pessoa determinada já alcançou o divino. Não tem como saber diretamente se alguém se encontrou com o divino – não dá pra saber se alguém tem diamantes – mas dá pra saber na hora se alguém largou as pedras, porque a gente conhece bem as pedras. Dá pra saber na hora se alguém transcendeu o sexo, porque a gente conhece bem o sexo. O sexo é tão compulsivo, tão involuntário, é uma força tão poderosa, que só dá pra transcender ele se a gente alcançar o divino. Então, o brahmacharya virou o critério pra distinguir quem chegou ao divino. Pra essas pessoas, não existe o sexo comum, aquele que os normais praticam. Isso não quer dizer que a gente alcança o divino se largar o sexo. O contrário é uma falácia. Quem acha diamantes larga as pedras que carrega, mas o inverso não é verdade. Você pode largar as pedras, mas isso não significa que alcançou algo maior que elas. Vai ficar num ponto do meio. Vai ter uma mente de repressão, não uma mente transcendida. O sexo vai continuar borbulhando dentro de você, e você vai viver um inferno. Isso não é ir além do sexo. Quando o sexo é reprimido, fica feio, doentio, neurótico. Se perverte. Essa tal atitude religiosa em relação ao sexo criou uma sexualidade pervertida, uma cultura que é totalmente neurótica na cama. Eu não sou a favor disso. O sexo é uma realidade biológica; não tem nada de errado com ele. Então não lute contra ele, ou vai pervertê-lo, e um sexo pervertido não é um passo pra frente. É um retrocesso, é um passo pra loucura. Quando a repressão é tão forte que não dá mais pra segurar, acaba explodindo; e nessa explosão, você se perde. Dentro de você estão todas as qualidades humanas, todas as possibilidades. A realidade normal do sexo é saudável, mas quando é reprimida de forma anormal, a gente acaba com uma sexualidade doente. Desde a Normalmente, é muito fácil se mover em direção ao divino; mas fazer isso partindo de uma mente neurótica é árduo, e até certo ponto, impossível. Primeiro você vai ter que se curar, voltar ao normal. No final desse caminho existe a possibilidade de transcender o sexo. Então, o que é preciso fazer? Conheça o sexo! Percorra-o conscientemente! Esse é o segredo para abrir uma nova porta. Se você abordar o sexo de forma inconsciente, será apenas um instrumento nas mãos da evolução biológica; mas se conseguir permanecer consciente durante o ato sexual, entrará em uma profunda meditação. O ato sexual é tão involuntário e tão compulsivo que é difícil permanecer consciente nele; no entanto, não é impossível. E se você conseguir estar consciente durante o ato sexual, não existirá nenhum outro ato na vida em que não possa estar consciente, porque nenhum ato é tão profundo quanto o sexo. Se você conseguir estar consciente durante o ato sexual, chegará a estar consciente até na morte. A profundidade do ato sexual e a profundidade da morte são similares, paralelas. Você chega ao mesmo ponto. Assim, portanto, se você conseguir estar consciente durante o ato sexual, terá dado um grande passo. É algo inestimável. Então, usem o sexo como um ato de meditação. Não lutem contra o sexo, não vão contra ele. Vocês não podem lutar contra a natureza; vocês são parte dela. Devem ter uma atitude amigável em relação ao sexo, simpatizar com ele. É o diálogo mais profundo que vocês podem estabelecer com a natureza. O ato sexual não é, na verdade, um diálogo entre um homem e uma mulher. É um diálogo do homem com a natureza, e através da mulher; e da mulher com a natureza, através do homem. É um diálogo com a natureza. Por um instante, você se encontra no fluxo cósmico; está dentro da harmonia celestial, sintonizado com o todo. Dessa forma, o homem se realiza através da mulher e a mulher através do homem. O homem não é completo, nem a mulher. Também não. São dois fragmentos de um todo. Assim, cada vez que se fundem no ato sexual, podem estar em harmonia com a natureza subjacente das coisas, com o Tao. Essa harmonia pode resultar no nascimento biológico de um novo ser. Se você não está consciente, essa será a única possibilidade. No entanto, se você estiver consciente, o ato pode se transformar em um nascimento para você, em um nascimento espiritual. Através do sexo, "você terá nascido duas vezes". Se você participa do sexo de forma consciente, se torna uma testemunha do que acontece. E, uma vez que você se torna uma testemunha do ato, transcenderá o sexo; a atitude de testemunha terá te libertado. Não haverá mais compulsão. Você não será um participante inconsciente. Ao se tornar uma testemunha do ato, você o transcendeu. Agora você sabe que não é só um corpo. A testemunha dentro de você conheceu algo que a transcende. Você pode conhecer isso que está "além", mas só quando mergulha profundamente nele. Não, não é um encontro superficial. Quando você está barganhando no mercado, sua consciência não consegue se aprofundar muito, porque o ato em si é superficial. Geralmente, o ato sexual é o único através do qual o homem pode se tornar uma testemunha de suas profundezas internas. Quanto mais você mergulha na meditação através do sexo, menor será o efeito que o sexo terá. A meditação se desenvolverá a partir daí e, dessa meditação que cresce, uma nova porta se abrirá, e o sexo murchará. Isso não será uma sublimação. Será parecido com a queda das folhas secas da árvore. A árvore nem percebe que as folhas estão caindo. Da mesma forma, você nem vai notar que o aguilhão mecânico do sexo está desaparecendo. Faça surgir a meditação do sexo; transforme o sexo em um objeto de meditação. Trate-o como um templo: com isso, você o transcenderá e será transformado. Então, o sexo terá desaparecido, mas não a consequência de uma repressão ou de uma sublimação. O sexo vai ser simplesmente irrelevante, insignificante. Você cresceu, transcendeu isso. Não tem mais significado pra você. É igual a uma criança que cresce. Os brinquedos já não interessam mais. Ela não sublimou nada; não suprimiu nada. Só cresceu; só amadureceu. Os brinquedos não têm mais sentido pra ela. Correspondem a uma fase que ela já superou. Do mesmo jeito, quanto mais você medita, menor vai ser o atrativo que o sexo exerce sobre você. E aos poucos, espontaneamente, sem se esforçar conscientemente pra sublimar o sexo, a energia vai ganhar uma nova direção pra onde fluir. A mesma energia que fluiu através do sexo vai fluir agora através da meditação. E quando a energia flui através da meditação, a porta divina começa a se abrir. (*) Uma ampla variedade de técnicas de meditação que trabalham diretamente com a energia sexual são comentadas por Bhagwan numa série de 80 palestras sobre o Vigyana Bhairava Tantra. Veja The Book of Secrets ("O livro dos segredos") na lista de textos no final deste livro. Outra coisa. Você usou as palavras "sexo" e "amor". Geralmente, a gente usa as duas palavras como se existisse uma ligação interna entre elas. Não é assim. O amor só chega quando o sexo já foi embora. Antes disso, o amor é só uma isca, um jogo de introdução e nada mais. O papel dele é só preparar o terreno pro ato sexual. Não passa de uma introdução ao sexo, um preâmbulo. Então, quanto mais sexo houver entre duas pessoas, menos amor vai ter, porque o preâmbulo não vai ser necessário. Se duas pessoas estão apaixonadas e não transam, vai ter muito amor romântico entre elas. Mas quando o sexo entra, o amor vai embora. O sexo é tão abrupto. Em si, é tão violento. Precisa de uma introdução, precisa de uma brincadeira prévia. O amor, do jeito que a gente conhece, é só a roupagem pra realidade nua do sexo. Se Você olha as profundezas do que chama de amor, e encontra o sexo ali parado, pronto pra pular. Ele tá sempre na esquina. O amor fala: o sexo se prepara. Esse pseudo-amor se relaciona com o sexo, mas só como um preâmbulo. Se o sexo aparece, o amor desaparece. É por isso que o casamento mata o amor romântico por completo. As duas pessoas se conectam e a preliminar, o amor, se torna desnecessária. O amor verdadeiro não é um preâmbulo. É uma fragrância. Você não encontra ele antes do sexo, mas depois. Não é um prólogo: é um epílogo. Se você experimentou o sexo, sente compaixão pelo outro, e o amor vai surgir. E se você medita, vai se sentir compassivo. Se você medita durante o ato sexual, seu parceiro não vai ser só um instrumento pro seu prazer físico. Você vai se sentir grato, porque os dois chegaram a uma meditação profunda. Quando você medita no sexo, surge uma nova amizade entre vocês, porque através do outro, cada um teve uma comunhão com a natureza, vislumbrou profundezas desconhecidas da realidade. Vocês vão sentir gratidão e compaixão um pelo outro: compaixão pelo sofrimento, compaixão pela busca, compaixão por um igual, por um companheiro de jornada, compaixão por um amigo que tateia no escuro. Se o sexo se tornar meditativo, só então você percebe a fragrância que fica por trás dele: um sentimento que não é um preâmbulo do sexo, mas uma maturação, um progresso, uma realização meditativa. Assim, se o ato sexual se tornar meditativo, você vai sentir amor. O amor é uma combinação de gratidão, amizade e compaixão. Se esses três elementos se juntarem, você vai estar apaixonado. Se esse amor se desenvolver, ele vai transcender o sexo. O amor se desenvolve através do sexo, mas vai além, transcende. Como uma flor: cresce através das raízes, mas vai além. E não volta atrás; não tem volta. Então, se o amor se desenvolve, o sexo desaparece. Na verdade, essa é uma das Formas de verificar que o amor se desenvolveu. O sexo é como a casca de um ovo, casca através da qual o amor emerge. Quando o amor surge, a casca desaparece. Foi quebrada, descartada. O sexo pode levar ao amor só quando a meditação está presente; senão, não. Se a meditação não está lá, o sexo se repete uma e outra vez do mesmo jeito, e você acaba entediado. O sexo vai ficar cada vez mais sem graça e você não vai se sentir grato pelo outro. Pelo contrário, vai se sentir enganado; vai sentir hostilidade. O outro te domina. Te domina através do sexo, porque virou uma necessidade pra você. Você virou um escravo, porque não consegue viver sem sexo. Mas nunca vai conseguir sentir amizade por alguém de quem se sente escravo. E os dois sentem a mesma coisa: o outro é o dono. A dominação vai ser negada e combatida; mas mesmo assim, o sexo vai continuar se repetindo. Vai virar uma rotina diária. Você briga com seu parceiro sexual, e depois resolve tudo de novo. Aí briga de novo, e resolve tudo outra vez. O amor é, no máximo, uma transação. Você não consegue sentir amizade; não tem compaixão. Em vez disso, vai ter crueldade e violência; você vai se sentir enganado. Virou um escravo. O sexo não vai evoluir para o amor. Vai continuar sendo só sexo. "Atravesse o sexo! Não tenha medo dele, porque o medo não leva a lugar nenhum. Se alguém deve temer alguma coisa, devia temer só o medo em si. Não tema o sexo nem lute contra ele, porque isso também é uma forma de medo. "Luta ou foge" — luta ou escapa — esses são dois caminhos do medo. Então não fujam do sexo; não lutem contra ele. Aceitem, deem como certo. Entrem nele profundamente, conheçam ele por completo, compreendam, meditem nele e vão transcendê-lo. No instante em que você medita no ato sexual, uma nova porta se abre. Você se encontra com uma nova dimensão muito desconhecida, da qual nunca ouviu falar, e um êxtase maior. Vou ao teu encontro. Encontrarás um: deleite tão grandioso que o sexo se tornará irrelevante, e se acalmará por si só. Agora tua energia não continuará fluindo nessa direção. A energia sempre flui para o êxtase. Já que o êxtase aparece no sexo, a energia flui para ele; mas se você busca mais êxtase, um êxtase que transcenda o sexo, que vá além, um êxtase mais pleno, profundo, grandioso – a energia, por si só, deixará de fluir para o sexo. Quando o sexo se transforma em meditação, ele floresce no amor, e esse florescimento é um passo em direção ao divino. Por isso o amor é divino. O sexo é físico; o amor é espiritual. E se a flor do amor está presente, a oração aparecerá; ela seguirá o amor. Você já não está longe do divino. Está chegando em casa. Agora, vejam o amor assim como viram o sexo. Vejam a comunhão, o encontro interno, a relação interna. Então, transcenderão até o amor, e chegarão à oração. Essa oração é a porta. Continua sendo um encontro, mas não um encontro entre duas pessoas. É uma comunhão que você estabelece com o todo. Agora o outro, como pessoa, fica de fora. É o outro impessoal – a existência inteira – e você. Mas a oração ainda é um encontro, então também deve ser transcendida no final. Na oração, o devoto e o divino são diferentes; o bhakta e o bhagwan são diferentes. Ainda é um encontro. Por isso Meera, ou Teresa, puderam usar termos sexuais ao se referir às suas experiências de oração. Deve-se meditar nos momentos de devoção. Novamente, seja uma testemunha. Presencie a comunhão que você está tendo com o todo. Isso requer a consciência mais sutil que é possível. Se você consegue estar consciente durante seu encontro com o todo, transcende a si mesmo e ao todo, a ambos. Nesse momento, você é o todo. E nesse todo, não existe dualidade; só há unidade. Você busca essa unidade através do sexo, através do amor, através da oração. É essa unidade que que anseiamos. Até no sexo, o que você realmente deseja é a união. O êxtase aparece porque por um instante você é um: O sexo se aprofunda no amor, o amor se aprofunda na oração e a oração se aprofunda numa transcendência total, numa unidade total. Esse aprofundamento sempre acontece através da meditação. O método é sempre o mesmo. Os níveis diferem, as dimensões diferem, os estágios diferem; mas o método é o mesmo. Mergulhe fundo no sexo e você encontrará o amor. Entregue-se profundamente ao amor e você chegará à oração. Aprofunde-se na oração e você se encontrará com a unidade. Essa unidade é o todo, essa unidade é a felicidade, essa unidade é o êxtase. Então, é essencial não adotar uma atitude combativa, rebelde. Em tudo está presente o divino. Pode estar coberto, pode estar vestido: você terá que despi-lo. Encontrará vestimentas ainda mais sutis. Novamente, terá que tirá-las. A menos que encontre a unidade em sua nudez total, você não ficará satisfeito, não se sentirá completo. No instante em que se encontrar com o uno despido, nu, você será um com ele, pois perceberá que o nu não é outro senão você mesmo. Na verdade, todos se buscam a si mesmos através dos outros. Devemos encontrar nosso próprio lar batendo na porta dos outros. Assim que a realidade se revela, você se unifica com ela, porque a diferença é só de roupas. As roupas são a barreira, então você não pode despir a realidade a menos que você mesmo se despe. É por isso que a meditação é uma arma dupla: despe a realidade E também despe você. A realidade fica nua; você fica nu. E num momento de nudez total, de vazio total, você se transforma em um. Portanto, não sou contra o sexo. Isso não significa que eu seja a favor do sexo. Significa que sou a favor de experimentá-lo profundamente E descobrir o que está além. O além está sempre ao seu alcance, mas o sexo comum é tão abrupto, tão compulsivo e inconsciente que ninguém aprofunda. Se você conseguir aprofundar, vai se sentir grato ao divino por ter aberto uma porta através do sexo; porém, se o sexo é abrupto e inconsciente, você nunca vai saber que esteve perto de algo superior. Somos tão espertos que criamos um falso amor que não surge depois do sexo, mas antes. É algo cultivado, artificial. Por isso sentimos que o amor se perde quando o sexo é satisfeito. O amor foi só o preâmbulo, e já deixa de ser necessário. Mas o verdadeiro amor está sempre além do sexo; ele se esconde atrás do sexo. Experimente o sexo profundamente, medite nele religiosamente e você florescerá num estado mental amoroso. Não sou contra o sexo nem a favor do amor. Você também precisa transcender isso. Medite nisso e transcenda. Quando falo de meditação, quero dizer que você deve passar por isso de forma totalmente alerta e consciente. Não deve experimentar de forma cega e inconsciente. Há um grande êxtase ali; no entanto, na sua cegueira, você pode deixá-lo passar. Você precisa transformar a cegueira: precisa ter os olhos bem abertos. Se for de olhos abertos, o sexo pode te levar ao caminho da unidade. A gota pode se transformar no oceano. Esse é o anseio que está no coração de cada gota. Em todo ato, em todo desejo, você vai encontrar o mesmo anseio. Descubra-o, siga-o. É uma grande aventura! Do jeito que vivemos hoje, somos inconscientes. Mas tudo isso está ao seu alcance. O caminho é árduo, mas não impossível. Foi possível para um Jesus, um Buda, um Mahavira, e é possível para todo mundo. Se você se abrir ao sexo com essa intensidade, com esse nível de alerta, com essa sensibilidade, vai transcendê-lo. Não vai haver sublimação nenhuma, absolutamente. Quando você transcender, não vai haver sexo, nem mesmo sexo sublimado. Vai haver amor, prece e unidade. Essas são as três etapas do amor: amor físico, amor psíquico e amor espiritual. E quando você transcende os três níveis, se encontra com o divino. Quando Jesus Ele disse: "Deus é amor", entregou a definição mais próxima que é possível formular, porque a última coisa que conhecemos no caminho até Deus é o amor. Além disso está o desconhecido, e o desconhecido não pode ser definido. Só podemos indicar o caminho para o divino, através da nossa última etapa: o amor. Além desse ponto, não há experiência, porque você já não existe mais. A gota se transformou no oceano! Vá passo a passo, mas com uma atitude amigável. Sem tensão, sem luta. Apenas vá em estado de alerta. A atenção é a única luz na noite escura da vida. Adentre a escuridão carregando essa luz. Procure em cada canto. O divino está em toda parte, então não se oponha a nada. Mas também não se apegue a nada. Vá além, porque um êxtase ainda maior te espera. A jornada deve continuar. Se você está perto do sexo, use o sexo. Se está perto do amor, use o amor. Não pense em termos de repressão ou sublimação; não pense em termos de luta. O divino pode se esconder atrás de qualquer coisa, então não lute; não fuja de nada. Na verdade, ele está atrás de tudo; então, onde quer que você esteja, atravesse a porta mais próxima e você irá progredindo. Não fique preso em lugar nenhum e você chegará, porque a vida está em toda parte. Jesus disse: "Debaixo de cada pedra está o Senhor", mas vocês só veem as pedras. Terão que atravessar esse estado mental de pedra. Quando você vê o sexo como um inimigo, o transforma em uma pedra. Então, ele se torna não-transparente; você não consegue ver o outro lado. Use-o, meditando sobre ele, e a pedra se tornará como vidro. Você verá o que está por trás e esquecerá o vidro. O que está atrás do vidro será o que você lembrará. Tudo que se tornar transparente desaparecerá. Então, não transforme o sexo em uma pedra; faça com que ele seja transparente e ele se tornará transparente através da meditação. Trecho do livro: Psicologia do Esotérico.
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