Elogio del porno - Festival Asturias Victor Guillot

Elogio da
porno



VÍCTOR GUILLOTEm novembro vai rolar o primeiro Festival Erótico das Astúrias e isso já é motivo pra escrever sobre pornô. Se eu quiser pagar de intelectual, menciono a Marilyn Chambers, um dos maiores mitos dos anos 70, junto com a Linda Lovelace, protagonista do clássico "Garganta Profunda". Dizem que a Chambers estrelou o primeiro filme interracial e a primeira depilação que apareceu na telona, o que já é uma provocação política foda na mentalidade conservadora americana da época. Chambers, cujo nome verdadeiro era Marilyn Ann Taylor, nasceu em 1952 em Connecticut e estreou 20 anos depois com o filme "Atrás da Porta Verde", um título que geralmente é considerado o primeiro a ter uma distribuição comercial de verdade.

A morte de Marilyn Chambers há mais de um ano, largada no maior ostracismo, faz a gente pensar que o cinema pornô, do jeito que eu conheci na minha juventude pervertida, do jeito que ela viveu na dela, também morreu. Ou seja, a indústria pornográfica abandonou de vez o enredo insustentável que segurava na base do esforço um filme X, talvez porque na nossa adolescência sem vergonha a gente nunca ligou pra essas histórias.

A evolução do cinema pornô desde "Garganta Profunda" foi marcada pela inclusão de novas parafilias, reduzindo o enredo até ele se dissolver. Só uma galera de diretores como Mario Salieri deu uma trama pra filmes cujo desfecho não interessava ninguém. Salieri costumava fazer versões pornôs de filmes convencionais como "O Poderoso Chefão" ou adaptações de obras literárias como "Drácula", transformadas em folhetins ingênuos e chatos, com um maneirismo bem feito que, apesar do esforço, nunca prendeu o espectador.

Se antigamente um filme X era produzido pensando na exibição em salas escuras de cinema pornô e no aluguel nos corredores discretos de uma videolocadora, hoje só se pensa em uma cena pra distribuição direta na através da internet. São milhões e milhões de páginas web gratuitas ou pagas dedicadas ao sexo gay, lésbico, interracial, aos castings, às orgias de estudantes ou às gozadas gravadas por um casal ou um grupo amador. Resumindo, uma montanha de cenas diversas e dispersas, órfãs de história, eróticas, cruéis ou grotescas, cujo valor está na beleza de um corpo, no grau de perversão e morbidez que conseguem transmitir ao espectador anônimo.

Já não precisa saber de cinema pra rodar um filme pornô, basta saber foder. E é aí que mora um dos sucessos de uma indústria que fatura milhões e milhões de dólares pelo planeta com cenas que não passam de trinta minutos. Saber foder é importante, mas tem uma coisa que interessa muito mais aos consumidores do pornô: eles querem uma realidade que se identifique com seus desejos. E a realidade é ver um casal de verdade na cama da sua casa ou uma mulher falsamente desconhecida sendo submetida aos desejos de um homem ou de uma legião. Isso explica por que os vídeos pornô amadores fazem tanto sucesso na rede e o fato de que as grandes boqueteiras do momento já não precisam interpretar um papel como se exige no cinema convencional. Talvez, essa sede de realismo não deixe de ser a mesma que mantém o espectador vidrado nos reality shows, ou que os dois fenômenos façam parte da mesma obscenidade.

A internet transformou a indústria do cinema pornô a tal ponto que o desumanizou, como diria Ortega y Gasset. Seus atores e atrizes garantem que ela sofre uma crise grave porque não escapa da pirataria. Eu gosto de afirmar que o cinema pornô, como nasceu, é o primeiro gênero cinematográfico que morre de sucesso. A morte do cinema pornô acontece quando suas primeiras atrizes morrem. No entanto, seu desaparecimento deu lugar à proliferação de milhões de vídeos. O pornô morreu e, no entanto, está mais vivo do que nunca. Em novembro estará aqui.

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