Fantamas del porno Argentino, por Revista Ñ

Fantasmas do pornô argentino



O cinema pornográfico nacional tem milhares de seguidores, mas nem chega a ser uma indústria. É só um movimento que tenta se meter num mercado global que corta custos e ainda não domina as paradas da Internet em termos de divulgação e lucro. Atores e diretores do pornô tupiniquim quebram o sigilo e dizem que são "gente como qualquer outra".Por: Juan Manuel Bordon/Diego Manso

Se alguém entra no quarto, outro tem que se levantar. Darío Marxxx, algo como o Tarantino do pornô gay – porque o dele emplacou nas prateleiras de uma videolocadora –, tem pra nos apresentar o ex-padre Bruno (que não é o nome com que ele se reunia em torno da hóstia sagrada), protagonista do filme dele Vampiros em Buenos Aires e vitrinista numa loja de departamentos. Não deve ter sido no seminário que Bruno aprendeu as contorções que o levaram ao estrelato: ele era muito tímido e, pra primeira cena de boquete que fez, preferiu usar uma máscara. De couro, de sadomasoquismo. Depois soltou o beiço sem esconder nada. É um cara encantador que acredita, falando em termos que ele classifica como aristotélicos, que o pornô funcionaria como uma espécie de sala de aula multimídia pra aprender profilaxia sexual. No entanto, Marxxx nos confessa que não faz exames médicos nos atores dele antes das filmagens, embora já tenha rodado sete filmes e cruzado a fronteira com Bruno pra farrear com brasileiros. A produtora American Top, que ele fundou, funciona numa galeria de marcas secundárias no meio da Avenida Cabildo e lá, num apartamento cheio de consolos que serve como videolocadora e escritório artístico; um quartinho minúsculo onde, de vez em quando, caem no teto uns cacos da obra em construção ao lado. Quando Lucas chega, a figurinha insurgente do grupo, ele vem com tanto perfume na bagagem que fica difícil pensar que os congestionamentos de trânsito com que justifica o atraso não se abriram na passagem dele, repelidos pela emanação. É mais arisco que Bruno, fica melhor em fotos e não quer nos dizer o nome verdadeiro. Trabalha como designer gráfico e atua em pornô porque gosta de se exibir; o gênero o entedia, diz que quase não consome e que, quando consome, adianta as cenas até chegar no momento que o excita. Momento que, segundo ele conta usando sua experiência como intérprete, pode ser mentiroso ou exagerado através de alguns truques que seu ofício prefere manter em segredo.

O escritório de Marco Torino, o único diretor que tem admiração unânime entre seus colegas, é uma espécie de aquário com vista para o Jardim Botânico. Hospitaleiro, mas no sentido cirúrgico do termo. Torino não esconde seu nome real: embora nunca o pronuncie, deixou o cartão de débito na mesa onde nos atende. É um cara que já passou dos quarenta e usa camisetas Key Biscayne, que mantém a ideia de juntar dinheiro suficiente com pornô, se aposentar e se dedicar totalmente à música. Diz que trabalhou como arranjador dos mais famosos – aliás, cita Raphael – e que durante sua estadia nos EUA se cansou do império dos ritmos comerciais. Um raio de luz o aqueceu quando ele se envolveu com uma porn star que o iniciou, como ator, no hardcore. Torino quer falar off the record porque ameaça contar "toda a verdade" e a interferência do gravador o inibiria. No entanto, nada diz muito diferente das vozes gravadas de seus colegas. O telefone toca a toda hora e Torino se levanta para um canto da sala para falar num tom monótono; são conversas desapegadas, como se cada uma não tratasse de um tópico específico. Nada na sala denota outro papel que não seja utilitário, o colchão no chão é usado para os castings.

Víctor Maytland é o Enrique Carreras do pornô. Seu histórico mítico alude a uma estreita colaboração com Armando Bo, que ele nega veementemente porque prefere traçar sua linhagem no grupo Cine y Liberación, liderado por Pino Solanas e Octavio Getino no início dos anos 70. O advento da ditadura o encontrou "exilado no Canal 9", onde trabalhou na produção de Feliz domingo e Calabromas. Daí sua veia nac & pop. Costumam atribuir a ele a honra de ter filmado o primeiro filme pornô. Argentina, *As Tartarugas Mutantes Ninjas* (1988), ao mesmo tempo seu maior sucesso. Víctor atende numa casa perto do Parque Centenário. "Esse lugar é igual aos Estados Unidos, igual a Guantánamo", ele diz da produtora da qual se tornou o rosto mais conhecido. Acontece que uma multinacional financia seus filmes de acordo com as vontades do mercado ianque: ora pedem um de incesto, ora um de travestis e por aí vai... Embora Víctor adicione o toque étnico e as loucuras de roteiro que já são sua marca registrada.

Alana Moss e Martín Vicet são marido e mulher, cordobês e hondurenha que se conheceram numa sala de chat e chegam à entrevista com a filha de dois anos. Dirigem, atuam e produzem, de Córdoba, o próprio material. A paixão pelo pornô pesado os uniu e começaram gravando fitas amadoras. Quando ele ficou desempregado, "em vez de investir a rescisão numa farmácia", compraram uma câmera profissional e se jogaram na arena, com a consultoria de um produtor inglês que mais tarde morreu nos atentados contra o metrô de Londres. É uma perda que sentem. No dia seguinte ao nosso encontro, viajarão para Honduras com a intenção de filmar em locações externas. Um mês depois, enviarão um e-mail de Tegucigalpa com fotos que ilustram os sarros entre civis e militares após o golpe que derrubou o presidente Zelaya. Se oferecem como correspondentes.

O consumo efetivo e potencial do cinema pornográfico, segundo observa o ensaísta catalão Emili Olcina, rebate a hipotética objeção de que poderia se tratar de um gosto anormal. Nessa linha, qualquer filme de sexo explícito que fosse exibido mais ou menos em público produziria um estímulo em qualquer um que passasse perto, independentemente da ideologia política e moral que professasse. Se aceitássemos que a pornografia atravessa de ponta a ponta a ideia contemporânea do sexo, seria preciso libertá-la finalmente do fardo da vergonha que carrega, ao menos para pensá-la a partir de uma zona que envolva Além da noção batida de utilidade do corpo, existem outras ideias. Por exemplo, em quais marcas estilísticas a pornografia rejeita, ou não, um vínculo sentimental. Ou, de um ponto de vista metalinguístico, se ignora, ou não, suas conexões com o meio cinematográfico que a criou.

O sentido clássico entende como ator aquele que, para se impulsionar, precisa se comportar com as características de outro. Na simulação do ato pornográfico, o ator não passa de um convidado para um evento performático, já que seu trabalho se realiza no próprio ato da representação, sem chance de se tornar a carne de um texto. Mas também, performático no sentido que a linguística assume, de mensagens que produzem uma ação e não são em si nem verdadeiras nem falsas. Talvez por isso, Bruno tenha dificuldade em formar um par; ele conta que, nas suas noitadas pela deriva homossexual de Buenos Aires, é visto como o "garoto dos filmes" e só se aproximam dele com intenções unívocas.

Na real, a única forma de representação clássica que um autoproclamado ator pornô adota é a escolha de um *nom de guerre* para a escaramuça do mete-saca e para se promover em revistas e feiras da indústria, entrevistas e, em alguns casos, sites de prostituição. Eles ganham salários baixos (na verdade, isso os une aos noventa por cento dos atores do circuito independente), recebem por cena um pouco mais que um bico na TV, entre 300 e 600 pesos, e como a produção pornô nacional é escassa, talvez nenhum consiga se profissionalizar de vez. Darío Marxxx reconhece que parte dos caras que filmam com ele cobra por favores sexuais, embora sejam cada vez menos. Ele avisa que no dia anterior à gravação se reservem de trepar, "quero vocês frescos e sem olheiras", diz que avisa. Bruno, que tem estudos em teologia, e Lucas, que mexe numa Mac, concordam e dizem que, se pudessem escolher, preferiam não trabalhar. Com taxi boys. A Alana Moss e Martín Vicet, que se definem como os mais "limpos" do meio, também não curtem muito meter escorts nas produções deles. Preferem encontrar as atrizes entre promoter, professoras de jardim de infância e mulheres com o coração partido que buscam vingança.

Essa plantação de zonas erógenas intercaladas, essas carnes flamejantes, essas babadas excessivas, essas panorâmicas e closes nas turgências acabam não sendo mais que isso: fragmentos acumulados que contestam a extensão dos corpos como espelho de uma interioridade. O desejo reduzido à consumação do prazer físico. Para a italiana Michela Marzano, a pornografia "celebra o fim da sexualidade e o desfalecimento de todas as categorias consubstanciais à pessoa: o eu e o outro, o masculino e o feminino, a liberdade e a coerção, a aceitação e a rejeição, o belo e o feio". Sob essa ideia, o erotismo penetraria fundo nas estruturas psíquicas dos sujeitos envolvidos, enquanto a pornografia borraria complexidades e envolveria corpos vazios numa relação de pura troca. A taxonomia de Víctor Maytland, no entanto, é mais gráfica: "A buceta tá fechada, o pau tá morto, é erótico. O pau sobe, a buceta abre, vira porno. É uma regra que vale até na Prefeitura". O filme *Boogie Nights* (Paul Thomas Anderson, 1997) retrata de forma admirável as mudanças na indústria do pornô americano a partir dos anos 70. O diretor interpretado por Burt Reynolds, membro da velha guarda do gênero, tem receios de abandonar o filme quando a realidade do vídeo caseiro está prestes a atropelá-lo. Seus medos se tornaram reais: a fita de vídeo se mostrou um material impermeável às pretensões artísticas que haviam surgido nos últimos anos (*Garganta Profunda* como caso exemplar), e a voracidade das demandas obrigou a rodar filmes com baixos custos e em menos tempo. Tempo. O público já não ia mais pros cinemas especializados (foram ficando poucos, reformados em banheiros de sexo rápido entre transeuntes) porque podia se divertir na frente da TV com um material antes impensável pro consumo doméstico. Se a montagem cinematográfica pode ser entendida como a primeira "marca de autor" evidente, aqui ela vira pó quando alguém, armado de um controle remoto, adianta ou volta cenas conforme sua vontade, um costume inerente ao espectador de pornô. A tecnologia criou, finalmente, um espectador com ritmo próprio, e o pornô confirma isso.

A chegada da Web 2.0 trouxe uma nova revolução pro cinema pornográfico. Na Argentina, uma produção de sucesso em DVD vende, em média, só umas trezentas cópias originais, motivo que leva as produtoras a criar materiais exclusivos pra internet, acessados pelo tal do pay per view. Marco Torino trabalha com padrões altos nessa modalidade; tem um site pro mercado interno e outro que só pode ser visto de fora. O negócio, no entanto, não é tão lucrativo assim. Se, segundo Darío Marxxx, um filme dele custa uns três mil dólares e não vende mais de trezentos DVDs na Argentina, qual é o lucro real da parada? Diz Maytland: "Na época de As Tartarugas... o preço de atacado de um filme era vinte e seis dólares, agora caiu pra três. E se você vende mais caro, te sacaneiam". Os comentários em voz baixa percorrem os becos do pornô tupiniquim: tem quem diga que todas as produtoras tão quebradas, menos a própria, e tem quem acuse os colegas de fechar acordos com cafetões. Ou que diretamente chamam eles de cafetões. Um diretor lembra a surpresa de uma atriz novata que, na hora de receber o pagamento pela participação numa cena, ganhou uma grana maior do que esperava. Se a pessoa que a indicou tivesse ido cobrar no lugar dela... lugar, como deveria acontecer, nunca teria recebido o que o contrato estipulava. Fica claro, sim, que para os atores que assumem papéis sexuais, o pornô é um trabalho extracurricular. Quem se prostitui pode se dar ao luxo de aumentar seus cachês filme após filme.

Ainda assim, a noção que os diretores passam sobre suas estrelas é que são "gente como qualquer outra". Parece existir uma mística da descoberta, como se o pornô exigisse montar uma espécie de safári onde vence quem acha uma brecha em qualquer personalidade do repertório de profissões comuns. Talvez nesse gesto se resuma o sucesso de um diretor pornográfico: Darío Marxxx e seu curinha Bruno, a Monella de Víctor Maytland, "indiscutível, maravilhosa, eu a amo", psicopedagoga que atuou por um ano e se aposentou por problemas com a guarda do filho. Afinal, a mega star Jenna Jameson se apresenta em sua autobiografia como uma garota do interior que até os dezesseis anos rezou para que crescessem seus peitos e seus pelos pubianos.

O leque de estilos que o pornô argentino desdobra vai desde o gonzo, cultivado por Marco Torino, Martín Vicet e Alana Moss (subgênero que ordena uma cena de sexo atrás da outra sem nenhum pretexto de enredo que as una), o mostruário dos desejos sexuais machistas de um gay médio do Marxxx (policiais em banheiros públicos, orgias lotadas em Nordelta, europeus que dão conta de nativos durante suas férias) e até o flerte com formas narrativas clássicas, como as histórias que Maytland tece em torno de ficção científica, thriller psicológico, comédia meia-boca e drama histriônico. "Em Tango, tentei fazer todo um percurso do peronismo através de um puteiro", diz ele. Agora prepara um fresco geracional, com ares sociológicos, entre emos e floggers.

O curinha Bruno sustenta que a prática do sexo oral se expandiu graças à pornografia, ele fala isso bem solto, enquanto a tatuagem chicha está Escapa por baixo da camiseta. Sob essa filosofia, a teoria gravitacional seria impossível sem uma macieira ou o princípio de Arquimedes sem uma banheira. No entanto, parece difícil abandonar completamente a ideia de uma certa pedagogia pornográfica. Ou de uma certa ditadura. Os milhões de vídeos amadores que povoam a web, onde casais de escriturários exibem seus vícios privados, atestam que o pornô é uma interferência na frequência das relações humanas. Assim ilustra um relato de Víctor Maytland: "Minha editora é uma garota que estuda cinema, muito boa editora. Conheci ela há dois anos e meio e na puta vida tinha visto um pornô. E agora ela tem a deformação profissional, na vida. Eu a ouço falar ao telefone: 'Sabe que ele tem a piroca pequena...', ela dizia. 'E não, menos de vinte centímetros não tem graça...' Ela era o patinho feio quando começou, era a nerd da faculdade. De tanto ver, de tanto ver... Isso é uma coisa que às vezes discutimos. Ela diz: 'Gosto disso, olha a rosquinha dela, agora enfiam um taco de beisebol na buceta'... E eu fico, sabe? Porque penso: criei um monstro!".

Um símile da mentalidade higienista do século XIX postularia o pornô como um detrito, uma instância cloacal que atravessa toda uma cinematografia para mostrá-la saneada diante dos arcabouços críticos institucionalizados. Assim, encaminhado numa espécie de rede que decanta em múltiplas intimidades, o pornô seria um território onde convém se internar com a ansiedade do coprófago. Quem voltar de lá, terá tido contato com todo tipo de germes: a luz do sol, no entanto, dizem que mata tudo: a sociedade já ditou as normas da privacidade. Abrir a porta do quarto significa dar passagem aos fantasmas. A literatura do século XIX também foi pródiga nesse tipo de história. Quando um entra no quarto, o outro tem que se levantar.

Fonte: http://www.revistaenie.clarin.com/notas/2009/07/18/_-01960442.htm

Bom, achei ele por aí e achei muito interessante.
Aproveita^^

5 comentários - Fantamas del porno Argentino, por Revista Ñ

La anota utiliza un lenguaje que no describe muy bien ni aonda en el tema del porno argentino, pero bueno es lo que hay... tanto en el porno nacional como en la gente que no sabe del tema y trata de escribir sobre ello.
Es mi humilde opinion
me gustaria hacer los libretos o las historias para el porno argentino ya que dejan mucho que desear y el morbo y la hostoria es mas importante que el garche
babyto35 dijo:me gustaría hacer los libretos o las historias para el porno argentino (...) el morbo y la historia es más importante que el garche

Quisiera (lo primero también), coincido (con lo segundo). 🆒
Victor Maytland me quiso chupar la pija varias veces, entraba a la pagina contactossex, muy chupapija el cineasta. De tanto ver sexo se ve que todo le gustaba. Q.D.E.P