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Benny Carter - Angel Eyes







Pedro Orgambide
NÃO FAÇA TANGO
Encontrou ele num bar da Zona Rosa, no meio de uns filhos da puta multinacionais que festejavam a Deusa, a dançarina mulata que vinha de um festival de Cali. Apresentaram ele como um escritor argentino exilado, um cara que tinha se fodido, sabe?, um jornalista político de merda que cantava tangos. Canta, canta pra mim, disse a dançarina que também era antropóloga e falava de magia e essas coisas. Canta ou não?, perguntou um canadense que pesquisava no Colégio do México e tomava uísque. Não, disse o argentino, não tô a fim. Um jornalista político, isso deve ser muito chato, provocou a Deusa. Ela começou a falar de cinema underground, do Kitsch, de todas as merdas latino-americanas de Norte a Sul, desde La Tecla (Cidade do México) até o Bar-Bar-o (Buenos Aires) — uma vasta geografia de bares, cineclubes, galerias de arte, onde os intelectuais cagam pro boom porque a parada tá em outro lugar, em Paris ou Nova York. Fazer o quê!, disse ela, mas largou a mão na mão do argentino e ele começou a acariciar ela com tristeza, só pra mostrar como um macho argentino pega uma gostosa, uma mulher no meio de machos mexicanos. Mas talvez não tenha sido assim, quem sabe naquele momento ele precisava mesmo de uma mulher. Ei, ei, disse ela, por que você não escreve um livro sobre o Perón? Todos os seus compatriotas escrevem livros assim. Vem, vem, não fica bravo, era brincadeira, era brincadeira, querido. Ele olhou os peitos dela, os peitos altos de serva concebida que vinham em direção a ele pulando como no verso de Miguel Hernández, duas toranjas lindas pra matar a sede. Para de me olhar com essa cara de tango, quer? Don’t be vulgar, please. Para de pensar putaria. Então a mulata começou a cantar uma cúmbia dos anos cinquenta, muévete, muévete, dizia e se mexia na cadeira e ele lembrou das Mulatas de Fogo e dos mambos de Pérez Prado e da ereção de moleque que ele tinha tido, a ereção solitária, num cinema de bairro, em Buenos Aires. Assistindo a um filme da Carmen Miranda. Os amigos da Deusa agora detestavam o cinema do Terceiro Mundo, zoavam daqueles caras que iam pela Améyummy com suas câmeras no ombro, felizes com a miséria, dizia um, merda, falou outro, uns oportunistas do caralho. Isso tá muito chato, Cara de Tango — disse a Deusa — vamos juntos, quer? Ei, político: a essa hora a casa do Trotsky tá fechada. Mas podemos ir pra outro lugar. Ele se deixou levar. Se despediram dos amigos e subiram no carro, e ela dirigiu como se estivesse se despedindo do mundo. Agora você canta o tango que me deve, seu filho da puta. Sim, disse ele, e começou a cantar o tango pra ela e a acariciar as pernas dela. Ela freou numa rua sem saída em Coyoacán. Quando o beijava, deslizou a mão até o pau do homem, apertou com força, com raiva, como se estivesse se vingando de algo. Depois foram ao café que tinha sido um convento da época colonial e falaram sobre a vida. Eu também enjoo dos meus amigos, mas não tenho outros, disse a mulher. O homem lembrou um verso do López Velarde, disse que sentia uma tristeza íntima e reacionária. Eu vou te curar, prometeu a Deusa. Na rua sem saída, se beijaram de novo. No carro, ela abriu a blusa e ofereceu os peitos.


Triste, reacionário, menino, amor, chega, me deixa, guloso, vamos pra casa. Na casa do morro (herança do meu pai, era muito tasty, sabe? me deixa, louco) o homem caiu abraçado na mulher que brincava de resistir, de ceder, no jogo da senhora e do doutor, caiu na cama imensa de quilômetros de exílio, caíram ainda vestidos, se despindo, se mordendo, se beijando, a mulata de Baudelaire, minha negra, minha Cara de Tango, macho sombrio, triste, reacionário, ela fechando os olhos, se concentrando no puro gozo daquele orgasmo imprevisto, fugaz, me perdoa, Tango, me perdoa, macho, agora é tua vez. A caverna úmida se abriu. Passa, meu rei, passa, meu hóspede, entra, meu negro, me mata. Ele estava deitado na cama branca de espuma, com a mulata que nascera em Pequim porque o pai era embaixador — me espera um pouquinho, quer? — e ela continuava falando do banheiro, mijando seu doce mel como um verso de Neruda, voltava rebolando, olha tua namorada, cê gosta da tua namorada? falando feito uma patricinha, se exibindo nua pelo quarto, excitando ele, contando suas viagens pelo mundo, as feitiçarias da mãe negra que o pai roubou na Jamaica. Era muito racista o loiro, nunca conseguiu me amar. Meu pai, o pai, o Pai dos pobres: ela queria que ele contasse histórias do Perón. Estavam nus, saciados da primeira vez, fumando e bebendo água mineral, pra segunda vez ser melhor, mais amigável, não aquele relâmpago de destruição a que se entregaram na casa do morro. Duas vezes, duas mortes. A primeira vez, disse o homem, eu não entendia, era um guy, um estudante muito humanista, muito antifascista, claro, muito pequeno-burguês, uma boa consciência; a segunda não quis errar, quis acreditar no Pai, entende? Ser como todo mundo, me fundir naquele Todo como você no Zen. Meu pai era um velho, disse ela, um velho podre cheio de medalhas. Quando largou minha mãe, ela se afogou no mar. Por que tô te contando isso? Não gosto de fazer tango. Me canta um tango. Canta um tango pra tua namorada feia, feia, feia, pediu e desabou no choro porque agora era uma menininha sozinha no mundo, não era a Deusa nem a mulata de Baudelaire, mas uma pobre garota pedindo que cantassem um tango pra ela. Quer? Sim, disse ele e cantou o tango da casinha dos meus velhos e outros tangos com pátios e mulheres doentes e jasmins. Tudo isso tá morto, pensou. Mas ele não tava morto, tava acariciando os peitos lindos da amiga, as cadeiras imensas, o suor das coxas, subindo nela como se fosse a Árvore da Vida que tinha no quarto, bebendo ela, se embriagando na boca dela, no suave pulque da buceta dela. Meu rei, gemeu ela e se queimaram juntos de novo e dormiram e acordaram abraçados e com frio. Sim, é o que eu vi, disse o homem, vi o povo se esquentando nas fogueiras, a noite inteira, esperando o pai deles, o General, o macho. Eu tava com eles, mas não era um deles, entende? O Espião de Deus. O poeta é o Espião de Deus, disse ela. Não sou poeta. Sim, é, disse a mulher lambendo os pelos do peito dele, chupando os mamilos do homem porque agora sou tua menina, quer? descendo até o sexo do amigo, do irmão da noite. Ele olhou a cabeça da mulher lá embaixo, a boca, a mata de cabelo balançando num movimento louco de polia, numa negação frenética, o próprio pau dele como um pêndulo de delírio. Meu rei. Meu negão. E outra vez cavalgaram os dois. O cavalo, a sexy girl negra num campo de incêndio. Meu rei. Minha negra. Vem. Claro que vou, me espera. Os corpos ficaram exaustos. A madrugada começava a entrar pelas janelas, o dia, a certeza de acordar. O homem olhou pra amiga que dormia. Ouviu tangos de Buenos Aires, tangos da memória, tangos, tangos, tangos de quando era jovem demais, quando a revolução era uma palavra, um futuro improvável e não aqueles militantes entre os quais ele não tava, sabendo que essa seria a condenação dele, a morte dele, o sintoma equivocado da velhice dele no momento de escrever sua análise política da situação, amanhã, daqui a algumas horas, quando o sol brilhar. Ela acordou. Disse a ele: dorme; esta tarde serei sua companheira em A Sesta do Fauno, mas agora dorme, por favor. Tô pensando nos meus mortos, ele disse. Dorme. Tão matando meu povo. Dorme, te falei. Se ao menos eu soubesse que o que escrevo serve pra alguma coisa. Não faz tango, meu amor. Amarram os corpos com arame farpado, fazem eles voar com dinamite... Dorme, ordenou a mulher. O homem se cobriu com o lençol, se aproximou da amiga e prometeu não fazer tango. Enquanto acariciava ela, pensou em João e Maria abandonados no mundão. Aí ele dormiu. Pobre amor — disse a mulher enquanto acariciava a cabeça do homem adormecido — você tá cheio de sonhos, da podridão dos sonhos. Acho que você merece um descanso.

















Benny Carter - Angel Eyes







Pedro Orgambide
NÃO FAÇA TANGO
Encontrou ele num bar da Zona Rosa, no meio de uns filhos da puta multinacionais que festejavam a Deusa, a dançarina mulata que vinha de um festival de Cali. Apresentaram ele como um escritor argentino exilado, um cara que tinha se fodido, sabe?, um jornalista político de merda que cantava tangos. Canta, canta pra mim, disse a dançarina que também era antropóloga e falava de magia e essas coisas. Canta ou não?, perguntou um canadense que pesquisava no Colégio do México e tomava uísque. Não, disse o argentino, não tô a fim. Um jornalista político, isso deve ser muito chato, provocou a Deusa. Ela começou a falar de cinema underground, do Kitsch, de todas as merdas latino-americanas de Norte a Sul, desde La Tecla (Cidade do México) até o Bar-Bar-o (Buenos Aires) — uma vasta geografia de bares, cineclubes, galerias de arte, onde os intelectuais cagam pro boom porque a parada tá em outro lugar, em Paris ou Nova York. Fazer o quê!, disse ela, mas largou a mão na mão do argentino e ele começou a acariciar ela com tristeza, só pra mostrar como um macho argentino pega uma gostosa, uma mulher no meio de machos mexicanos. Mas talvez não tenha sido assim, quem sabe naquele momento ele precisava mesmo de uma mulher. Ei, ei, disse ela, por que você não escreve um livro sobre o Perón? Todos os seus compatriotas escrevem livros assim. Vem, vem, não fica bravo, era brincadeira, era brincadeira, querido. Ele olhou os peitos dela, os peitos altos de serva concebida que vinham em direção a ele pulando como no verso de Miguel Hernández, duas toranjas lindas pra matar a sede. Para de me olhar com essa cara de tango, quer? Don’t be vulgar, please. Para de pensar putaria. Então a mulata começou a cantar uma cúmbia dos anos cinquenta, muévete, muévete, dizia e se mexia na cadeira e ele lembrou das Mulatas de Fogo e dos mambos de Pérez Prado e da ereção de moleque que ele tinha tido, a ereção solitária, num cinema de bairro, em Buenos Aires. Assistindo a um filme da Carmen Miranda. Os amigos da Deusa agora detestavam o cinema do Terceiro Mundo, zoavam daqueles caras que iam pela Améyummy com suas câmeras no ombro, felizes com a miséria, dizia um, merda, falou outro, uns oportunistas do caralho. Isso tá muito chato, Cara de Tango — disse a Deusa — vamos juntos, quer? Ei, político: a essa hora a casa do Trotsky tá fechada. Mas podemos ir pra outro lugar. Ele se deixou levar. Se despediram dos amigos e subiram no carro, e ela dirigiu como se estivesse se despedindo do mundo. Agora você canta o tango que me deve, seu filho da puta. Sim, disse ele, e começou a cantar o tango pra ela e a acariciar as pernas dela. Ela freou numa rua sem saída em Coyoacán. Quando o beijava, deslizou a mão até o pau do homem, apertou com força, com raiva, como se estivesse se vingando de algo. Depois foram ao café que tinha sido um convento da época colonial e falaram sobre a vida. Eu também enjoo dos meus amigos, mas não tenho outros, disse a mulher. O homem lembrou um verso do López Velarde, disse que sentia uma tristeza íntima e reacionária. Eu vou te curar, prometeu a Deusa. Na rua sem saída, se beijaram de novo. No carro, ela abriu a blusa e ofereceu os peitos.



Triste, reacionário, menino, amor, chega, me deixa, guloso, vamos pra casa. Na casa do morro (herança do meu pai, era muito tasty, sabe? me deixa, louco) o homem caiu abraçado na mulher que brincava de resistir, de ceder, no jogo da senhora e do doutor, caiu na cama imensa de quilômetros de exílio, caíram ainda vestidos, se despindo, se mordendo, se beijando, a mulata de Baudelaire, minha negra, minha Cara de Tango, macho sombrio, triste, reacionário, ela fechando os olhos, se concentrando no puro gozo daquele orgasmo imprevisto, fugaz, me perdoa, Tango, me perdoa, macho, agora é tua vez. A caverna úmida se abriu. Passa, meu rei, passa, meu hóspede, entra, meu negro, me mata. Ele estava deitado na cama branca de espuma, com a mulata que nascera em Pequim porque o pai era embaixador — me espera um pouquinho, quer? — e ela continuava falando do banheiro, mijando seu doce mel como um verso de Neruda, voltava rebolando, olha tua namorada, cê gosta da tua namorada? falando feito uma patricinha, se exibindo nua pelo quarto, excitando ele, contando suas viagens pelo mundo, as feitiçarias da mãe negra que o pai roubou na Jamaica. Era muito racista o loiro, nunca conseguiu me amar. Meu pai, o pai, o Pai dos pobres: ela queria que ele contasse histórias do Perón. Estavam nus, saciados da primeira vez, fumando e bebendo água mineral, pra segunda vez ser melhor, mais amigável, não aquele relâmpago de destruição a que se entregaram na casa do morro. Duas vezes, duas mortes. A primeira vez, disse o homem, eu não entendia, era um guy, um estudante muito humanista, muito antifascista, claro, muito pequeno-burguês, uma boa consciência; a segunda não quis errar, quis acreditar no Pai, entende? Ser como todo mundo, me fundir naquele Todo como você no Zen. Meu pai era um velho, disse ela, um velho podre cheio de medalhas. Quando largou minha mãe, ela se afogou no mar. Por que tô te contando isso? Não gosto de fazer tango. Me canta um tango. Canta um tango pra tua namorada feia, feia, feia, pediu e desabou no choro porque agora era uma menininha sozinha no mundo, não era a Deusa nem a mulata de Baudelaire, mas uma pobre garota pedindo que cantassem um tango pra ela. Quer? Sim, disse ele e cantou o tango da casinha dos meus velhos e outros tangos com pátios e mulheres doentes e jasmins. Tudo isso tá morto, pensou. Mas ele não tava morto, tava acariciando os peitos lindos da amiga, as cadeiras imensas, o suor das coxas, subindo nela como se fosse a Árvore da Vida que tinha no quarto, bebendo ela, se embriagando na boca dela, no suave pulque da buceta dela. Meu rei, gemeu ela e se queimaram juntos de novo e dormiram e acordaram abraçados e com frio. Sim, é o que eu vi, disse o homem, vi o povo se esquentando nas fogueiras, a noite inteira, esperando o pai deles, o General, o macho. Eu tava com eles, mas não era um deles, entende? O Espião de Deus. O poeta é o Espião de Deus, disse ela. Não sou poeta. Sim, é, disse a mulher lambendo os pelos do peito dele, chupando os mamilos do homem porque agora sou tua menina, quer? descendo até o sexo do amigo, do irmão da noite. Ele olhou a cabeça da mulher lá embaixo, a boca, a mata de cabelo balançando num movimento louco de polia, numa negação frenética, o próprio pau dele como um pêndulo de delírio. Meu rei. Meu negão. E outra vez cavalgaram os dois. O cavalo, a sexy girl negra num campo de incêndio. Meu rei. Minha negra. Vem. Claro que vou, me espera. Os corpos ficaram exaustos. A madrugada começava a entrar pelas janelas, o dia, a certeza de acordar. O homem olhou pra amiga que dormia. Ouviu tangos de Buenos Aires, tangos da memória, tangos, tangos, tangos de quando era jovem demais, quando a revolução era uma palavra, um futuro improvável e não aqueles militantes entre os quais ele não tava, sabendo que essa seria a condenação dele, a morte dele, o sintoma equivocado da velhice dele no momento de escrever sua análise política da situação, amanhã, daqui a algumas horas, quando o sol brilhar. Ela acordou. Disse a ele: dorme; esta tarde serei sua companheira em A Sesta do Fauno, mas agora dorme, por favor. Tô pensando nos meus mortos, ele disse. Dorme. Tão matando meu povo. Dorme, te falei. Se ao menos eu soubesse que o que escrevo serve pra alguma coisa. Não faz tango, meu amor. Amarram os corpos com arame farpado, fazem eles voar com dinamite... Dorme, ordenou a mulher. O homem se cobriu com o lençol, se aproximou da amiga e prometeu não fazer tango. Enquanto acariciava ela, pensou em João e Maria abandonados no mundão. Aí ele dormiu. Pobre amor — disse a mulher enquanto acariciava a cabeça do homem adormecido — você tá cheio de sonhos, da podridão dos sonhos. Acho que você merece um descanso.
















8 comentários - Nyctophilia 3: Tesão na Escuridão
Me encantó el relato y las fotos que seleccionó...
Volveré
link: https://www.youtube.com/watch?v=sZAJ1lktKKk&list=PLC1FFE6238276C9D1
muy buen post y e lo digo con música elegí vos el tema
link: https://www.youtube.com/watch?v=XWKYxhyKja4
Felicitaciones señor !!! Muy buena la combinación !